O Sentido da Guerra no Humano “Tangerines”

No início da década de 90, eclodiu-se uma disputa entre os povos chechenos e georgianos pela posse das terras da região da Abecásia – uma guerra civil que devastou milhares de vidas e destruiu a economia local. Neste cenário caótico, a população estoniana que vivia ali se dividiu em dois grupos: aqueles que retornaram à sua terra natal e os demais (e poucos) que decidiram permanecer em seus lares, enfrentando a crise que se instalava. Dentre eles, está Ivo, um senhor de meia-idade que passa os dias em sua pequena e modesta oficina, fabricando caixas de madeiras utilizadas para transportar as tangerinas que são colhidas por um de seus vizinhos. É quando o trágico acontece: um confronto armado deixa dois feridos às portas de Ivo, que decide cuidar dos homens em sua casa, sem imaginar que esses sobreviventes são inimigos.

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Tangerines é, provavelmente, a produção mais intimista e humana entre as concorrentes ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira de 2015. Representante da Estônia, a obra do cineasta Zaza Urushadze é uma verdadeira ode ao amor ao próximo, ao respeito ao ser humano e, principalmente, à vida. Dentro daquelas paredes, ao longo dos dias, esses personagens convivem entre si, com suas diferenças e traumas mas com um ponto em comum: são seres humanos – e, como tais, estão sujeitos a quaisquer sentimentos e dores que atingem a todos nós. O desfecho da história (trágico e arrebatador) mexe com o espectador e produz aquela sensação otimista diante da vida, nos dando uma ponta de esperança na humanidade. Tecnicamente, Tangerines é ainda de um esmero absurdo – seja na ótima ambientação (que traduz muito bem o vazio de uma guerra e torna todo o filme muito mais real) até o roteiro, que flui naturalmente e se desenvolve através de atuações muito convincentes e uma trilha sonora muito agradável.

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Não bastasse isso, Tangerines também levanta um debate inquietante: qual é o sentido de uma guerra? Afinal, existem realmente vencedores e perdedores ou estamos todos em um mesmo nível? Dentro do lar de Ivo, aqueles dois inimigos a todo momento se enfrentam e juram morte certa ao seu oponente, alimentando um ódio que nenhum deles sabe muito bem a razão – como se lutassem por algo que, definitivamente, não conhecem ou acreditam. E é esta a maior beleza de Tangerines: um filme que impressiona por sua simplicidade, mas que surpreende muito mais por sua incrível capacidade de ser humano sem ser piegas.

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