“Xenia”: Melodrama Gay em Forma de Tragédia Grega

Quando crianças, Danny e Odysseas foram abandonados pelo pai e criados pela mãe viciada. Assim, os dois cresceram com inúmeros traumas, inclusive o de ser estrangeiros em sua própria terra natal – já que a mãe era albanesa e o preconceito contra estes na Grécia é avassalador. Depois de anos separados, os irmãos se reencontram após a morte da mãe e embarcam em uma jornada para a realização de seus sonhos individuais: enquanto o mais novo (um garoto de 15 anos abertamente homossexual e problemático) quer reencontrar o pai e rapidamente resolver suas dificuldades financeiras e de cidadania, o mais velho quer tentar a sorte em um programa de TV e se tornar uma grande estrela da música.

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Xenia é um melodrama grego, com personagens que carregam nas costas inúmeras tragédias e, por isso, pode soar um punhado de clichês em alguns momentos, com situações claramente inverossímeis quando não fáceis (um hotel abandonado que serve de moradia, um barco à espera dos viajantes, etc. – isso sem contar um coelho gigante, cuja intenção é criar alguma simbologia, mas que não consegue cumprir sua proposta). Além disso, o teor “queer” da obra pode não agradar o público em sua totalidade. Foi-se a época em que personagens gays ficavam marginalizados no cinema – mas é fato também que o excesso desses tipos atualmente acaba criando certos estereótipos. Danny, o irmão homossexual, é carregado de trejeitos e irritante como protagonista – e isso não é devido à sua condição sexual. Mimado e intrometido, é o tipo que não desperta muita empatia. Ody, por sua vez, é o típico heterossexual “não muito heterossexual”, sonho de consumo gay. No entanto, ambos os personagens perdem muito com as atuações de seus intérpretes: enquanto Nikos Gelia (Ody) mantém uma expressão uniforme em todo o filme, Kostas Nikouli (Danny) exagera nas caras e bocas, quase compensando a falha do primeiro. Salvam-se apenas as sequências em que estão juntos, quando os atores demonstram intimidade entre si (como nas cenas em que cantam, dançam, bebem ou tomam banho juntos – quase achei que rolaria algo mais devido à tensão homoerótica entre eles, o que poderia até ser interessante na história).

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Representante da Grécia ao Oscar de melhor produção em língua estrangeira no próximo ano, Xenia é quase uma música da Katy Perry: praticamente um teenage dream, mas em versão gay. Não, isso não é o problema. O erro é o exagero de melodrama que, inevitavelmente, afasta o espectador por sua incapacidade de enternecer. O roteiro também não colabora, nos dando a falsa de ideia de que irá por um caminho quando acaba indo pelo outro (às vezes, parece um drama; depois um road movie; outra hora, uma aventura). Para completar a “tragédia” grega, a direção é amadora, enquanto a edição e fotografia são banais. Talvez o filme pudesse até ganhar certo atrativo se aprofundasse sua narrativa nas questões atuais de uma sociedade grega marcada pelo preconceito. Apesar de até esboçar uma tentativa nesse aspecto, Xenia não se estende – e, com isso, fica a sensação de que o filme é apenas um passatempo otimista em relação à vida.

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