“Tom of Finland” Narra Trajetória de Artista Gay no Século XX

Touko Valio Laaksonen foi um artista finlandês que, sob o pseudônimo “Tom of Finland”, ficou conhecido por sua obra de intenso teor homoerótico, em uma época em que a homossexualidade era vista como algo anormal e até mesmo um crime em muitos países (especialmente no leste europeu). Inicialmente marginalizada na Europa do pós Segunda Guerra (apesar de ser bastante conhecida no meio queer ‘underground’ de então), sua arte ganhou notoriedade nos Estados Unidos na década de 70, sendo difundida nas mais variadas plataformas (até mesmo em HQs de histórias eróticas envolvendo homens musculosos sem camisa ou vestindo roupas de couro, montados em motocicletas). Sua influência foi tamanha que, sendo gay ou não, é impossível que você nunca tenha se deparado com algum desenho de Tom por aí (mesmo desconhecendo sua autoria).

O filme de Dome Karukoski (que carrega no título o nome de seu protagonista) acompanha a vida de Tom desde o fim da Segunda Guerra, quando iniciou suas primeiras gravuras na Islândia e Alemanha, até sua ascensão na América. A ambientação dos períodos é competente, em especial na recriação dos cenários e design de produção, que favorecem muito a trama, bem como a maquiagem, que praticamente é único “marcador de tempo” da película – uma vez que o roteiro escrito por Aleksi Bardy (também produtor) trafega por diversos momentos sem muitos critérios (resultado de inúmeras entrevistas e até mesmo consultoria), o que é acentuado fortemente pela edição da fita. As passagens entre as situações expostas não possui naturalidade – o público só entende o que está acontecendo porque, sob certo ótica, Tom of Finland tem lá umas doses de didatismo.

O roteiro ganha pontos, entretanto, ao abordar o relacionamento de Tom com sua irmã (que desconhecia sua sexualidade) e também com Veli Mäkistä, com quem viveu durante 28 anos. A direção também acerta ao expor a hipocrisia da sociedade europeia do século passado, que proibia a homossexualidade, mas “permitia” que seus soldados mantivessem relações às escondidas nos parques públicos ou que mulheres fossem condenadas a casamentos de faixada com homens gays apenas em nome da moral pública. Também pincela rapidamente o início da epidemia da AIDS e como ela impactou a comunidade gay na ocasião.

O que prejudica Tom of Finland, no entanto, é seu conservadorismo. Com a mesma intensidade com que a obra de Tom foi transgressora para sua época, faltou ousadia ao narrar sua história com maior veemência. Talvez justamente por isto o longa tenha sido a escolha da Finlândia para representa-la na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018. De fato, considerando o histórico de nossa querida Academia, não seria surpreendente que Tom of Finland estivesse entre os 5 finalistas – afinal, Tom of Finland é tecnicamente belo e bem feito. Uma pena que não ousa se sobressair em nada exceto um simples registro biográfico.

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