Digger (Digger, 2026)

Às vezes, o óbvio precisa ser dito, mesmo que seja de forma estranha ou absurda. Talvez assim tenha pensado o cineasta mexicano Alejandro González Iñarritu ao conceber Digger, sua ácida – e, até certo ponto, previsível – sátira sobre capitalismo predatório. Na trama, acompanhamos Digger Rockwell (Tom Cruise), um excêntrico magnata no ramo do petróleo diante de um desastre ambiental sem precedentes causado por uma de suas empresas e que pode comprometer o futuro de todo o planeta. Um dos homens mais poderosos do mundo, Digger corre contra o tempo para evitar que o pior aconteça e, mais do que nunca, impedir que sua inabalável reputação seja maculada.

Verdade seja dita, Digger vai além da mera crítica ambiental: de forma competente (porém sem nenhuma novidade), o filme questiona também a manipulação política, a fabricação de imagens públicas e os limites da própria sátira, principalmente quando recorre à metalinguagem para refletir sobre o papel da arte diante de um mundo à beira do colapso. Afinal, quando a realidade parece ter ultrapassado os limites do absurdo, como encontrar maneiras de encená-la que não se limitem a reproduzir essa própria irracionalidade? Ao expor as engrenagens que permitem tornar a tragédia um espetáculo e a tentativa de reparação uma autopromoção, Digger parece sugerir que a arte, por mais incisiva que seja em sua crítica, também precisa lidar com o risco de transformar a indignação em entretenimento, fazendo de sua denúncia um produto a ser consumido.

Essa proposta encontra no desenvolvimento de seus personagens um de seus principais trunfos: o cineasta aposta em figuras caricaturais, em situações desavergonhadamente absurdas e em um humor marcado justamente pela dificuldade de distinguir o exagero ficcional de uma realidade política que dispensa qualquer esforço de imaginação. Nesse cenário, desfilam os tipos mais estapafúrdios: um cientista pragmático, um presidente rabugento e seu vice covarde, um reverendo bajulador – e, claro, o protagonista Digger, um ricaço megalomaníaco cuja completa amoralidade e ganância desmedida o impedem de assumir os próprios erros. Pelo contrário: à semelhança de muitos líderes populistas, Digger tenta se promover como o único capaz de salvar a humanidade. E para que exista um “salvador mítico”, é necessário distorcer a narrativa – afinal, nada mais conveniente do que se apresentar como a solução para um problema cuja responsabilidade lhe pertence, convertendo a própria culpa em mérito e a catástrofe em oportunidade de melhorar sua imagem.

A construção desse universo disfuncional ganha força nas escolhas formais do longa: da fotografia de Emmanuel Lubezki, dominada por tonalidades acinzentadas, como se a degradação daquele cenário também contaminasse suas imagens, à trilha sonora com composições e sonoridades pouco convencionais, por vezes desconcertantes, toda a estrutura fílmica de Digger acentua o caráter errático de sua narrativa. Entre o grotesco e o absurdo, temos um espetáculo dissonante: é um filme um tanto óbvio em sua crítica e deliberadamente estranho em sua forma. Exatamente por isso fica aquela sensação de que toda essa estridência não consegue ir além de reafirmar aquilo que o filme já anuncia desde o início: a realidade é tão bizarra que, por vezes, sua representação corre o risco de ser apenas uma caricatura do próprio mundo. Mas isso, convenhamos, não é algo relativamente novo a se dizer, certo?

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