O Medo Devora a Alma (Angst essen Seele auf, 1974)

Tudo começa quase por acaso: Ali (El Hedi ben Salem) é desafiado pela dona do bar que frequenta a dançar com uma senhora sexagenária (Brigitte Mira) que acaba de chegar e está sentada, desacompanhada, em uma mesa no canto. Nenhum deles imaginava que pudessem ter algo em comum – a solidão: enquanto Emmi vive sozinha após a morte do marido e mantém uma relação distante com os filhos, Ali divide um quarto com outros cinco trabalhadores imigrantes. Em uma Alemanha Ocidental ainda marcada pelo racismo e pela xenofobia, nasce um sentimento improvável entre os dois. Mas até onde as hostilidades do mundo externo podem afetar esse relacionamento?

Dirigido pelo alemão Rainer Werner Fassbinder, O medo devora a alma continua, infelizmente, sendo extremamente atual em sua abordagem de estigmas raciais ainda presentes em grande parte do mundo ocidental. É verdade que, desde o lançamento do filme, muito se avançou no debate sobre questões identitárias e na luta contra diferentes formas de discriminação. Isso não implica, entretanto, que situações enfrentadas pelo casal de protagonistas tenham deixado de existir; muitas vezes, elas apenas assumem formas menos explícitas, reproduzindo-se de maneira velada ou estrutural. Talvez o maior mérito da obra, no entanto, esteja em não se limitar à denúncia do racismo: de maneira paciente, Fassbinder também explora como a pressão externa atinge os próprios laços afetivos, levando Emmi a se deixar envolver pelas convenções e preconceitos que antes parecia disposta a enfrentar.

Encenada com certa frieza (como na vida, deve-se dizer), a reaproximação com aqueles que inicialmente a rejeitaram, todavia, não decorre de uma genuína aceitação ou mudança de mentalidade: quando todos passam a depender de Emmi (a vizinha que precisa de favores, o dono do armazém que perdeu sua ótima cliente, o filho que necessita deixar sua criança com a avó), a tolerância parece finalmente encontrar espaço, embora ela não reflita a superação definitiva de todo preconceito. Nada disso, contudo, é suficiente para romper a ligação entre Emmi e Ali, dois personagens que, à sua maneira e acima das circunstâncias, encontram um no outro um motivo para enfrentar tudo o que está por vir – e é justamente nesta tensão entre a persistência do vínculo afetivo e a violência das pressões sociais que reside um dos aspectos mais interessantes de O medo devora a alma.

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