Marlene Dietrich já havia protagonizado algumas produções no cinema mudo alemão antes de alcançar a fama internacional com O Anjo Azul, o primeiro da parceria com o cineasta Josef von Sternberg (no início dos anos 1930, a dupla realizaria outros filmes, como O Expresso de Xangai e A Vênus Loura, ambos de 1932). Na história, Marlene dá vida a Lola Lola, uma clássica femme fatale e principal atração da casa de espetáculos que dá título ao longa. É ela quem arrebata o coração de Immanuel Rath, um respeitado professor que perde o controle ao cair em seus encantos, desencadeando uma trágica espiral de decadência.
É interessante observar que parte do impacto do longa reside na habilidade de Sternberg em manipular a atmosfera dramática: a narrativa se inicia com uma leveza quase cômica, beirando a comédia de costumes enquanto satiriza a rigidez e a pose do imaculado professor diante de seus alunos (um bando de adolescentes que frequentam assiduamente aquele antro de perversão). No entanto, gradativamente vemos surgir diante dos nossos olhos um clima denso e melancólico: à medida que Rath se afunda no universo noturno de Lola, uma opressão sufocante passa a tomar conta da tela. O diretor ancora esse universo na estética expressionista alemã, mobilizando recursos visuais associados ao movimento, como os espaços carregados de sombras profundas, a iluminação contrastada e os cenários angulosos, para expressar a derrocada e a perda de dignidade desse personagem. O cabaré, assim, deixa de ser o simples palco em que Lola exibe seu talento e seduz os homens para tornar-se aos poucos o cenário da inevitável ruína de Rath.
Há, entretanto, uma inversão na dinâmica do casal central: embora muitos considerem Lola o protótipo perfeito da femme fatale, nota-se que, durante o primeiro ato, Lola parece demonstrar um afeto genuíno por Rath, acolhendo-o sem uma intenção claramente maliciosa. Sua sedução, embora calorosa, nos parece mais amigável do que predatória – o que, em grande parte pela atuação magnética e humanizada de Dietrich, faz o espectador nutrir uma sincera empatia por ela. Contudo, quando o professor abre mão de sua dignidade, abandonando sua profissão e submetendo-se cegamente à mulher, Lola gradualmente se despe de toda afabilidade, transformando-se na figura dominadora que o consome e o descarta no momento em que ele perde todos os traços do indivíduo que ela um dia admirou. O Anjo Azul permanece, dessa forma, como uma obra-prima sobre a decadência moral: entre as sombras expressionistas de Sternberg e performances inesquecíveis, o resultado é um estudo sobre a fragilidade da condição humana traduzido em uma tragédia hipnótica que, quase um século depois, ainda é fascinante.
