“Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!”: Richard Linklater de Volta Aos Anos 80

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, como seu próprio idealizador sugeriu, é uma “sequência espiritual” de Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, no original) – hoje um clássico dos anos 90, que ajudou a alavancar a carreira do então iniciante Richard Linklater. Mas não se deixe levar por isso: Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, por si só, tem méritos suficientes para ganhar o devido destaque na filmografia do cineasta.

Se no filme de 1993 Linklater acompanha o último dia de colégio de uma turma de adolescentes a caminho do que seria nosso Ensino Médio, nos anos 70, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! narra os primeiros dias de um grupo de universitários às vésperas do início das aulas, em 1980. Eles são jogadores de uma equipe de baseball, moram em uma espécie de república estudantil e estão naquela fase da vida em que acreditam ser capazes de tudo. E realmente o são.

03

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! nos apresenta uma ambientação perfeita dos anos 80 em vários aspectos. O design de produção é primoroso, fazendo com que o espectador seja transportado para aquela época. E são os detalhes que impressionam: cabelo, maquiagem, figurino e cenários são minimamente cuidados, nos trazendo uma sensação de nostalgia que se acentua a cada minuto da fita por conta da ótima trilha sonora. A seleção musical de Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! é excepcional, percorrendo vários gêneros mas sem descaracterizar o período. Para mim, é o ponto mais favorável do filme.

Os diálogos, por sua vez, não decepcionam. Aparentemente, são puramente despretensiosos, mas em sua totalidade são repletos de significados. Apesar de o roteiro não ter necessariamente um conflito muito bem estabelecido, seu humor e dinamismo tornam as quase duas horas de fita muito leves, como se o tempo não passasse (assim como para seus personagens). A primeira parte do filme, por exemplo, parece praticamente não sair do lugar, mas é incrível o quanto a história consegue diferenciar cada um dos tipos. Apesar de todos terem um interesse em comum (o esporte), cada um deles mantém sua individualidade. Cada estereótipo está ali, inclusive aquele que é, talvez, o protagonista da trama, Jake – o ponto de equilíbrio entre seus colegas.

02

Infelizmente, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! sofre pelos seus antecessores: o da década de 90 (que gera comparações inevitáveis porém injustas) e Boyhood – Da Infância à Juventude, obra-prima de Linklater que fatalmente aumenta as expectativas com relação à esta nova produção. No entanto, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! é um filme que, em sua simplicidade, se mostra indiscutivelmente inteligente, nostálgico e divertido. O longa não perde seu tempo justificando ou mesmo julgando as ações de suas personagens; pelo contrário, ele se prende ao relato de situações e momentos típicos daquela juventude. É a história de um grupo de amigos e suas aspirações, desejos e sonhos, narradas com a nostalgia capaz de nos fazer sentir saudades de uma época que nem mesmo vivenciamos.

“Kung Fury”: Os Anos 80 Para Matar a Saudade

Eu sou um fã incondicional do cinema trash – e, neste caso, quanto mais ruim, melhor! Não à toa, um dos meus artistas preferidos é Robert Rodriguez, cineasta por trás de “bobeiras” como a saga Machete, Planeta Terror ou o aclamado Um Drink no Inferno – mas isso é uma outra história. Só fiz essa pequena introdução para que você, leitor, entenda minha empolgação com o projeto Kung Fury, do sueco David Sandberg, que estreia na direção cinematográfica com uma pérola em formato de curta-metragem que é uma ode de amor à cultura dos anos 80.

02

A história central de Kung Fury se passa na Miami da década oitentista e acompanha o detetive Kung Fury – um policial que ganha super poderes após ser atingido por um raio e mordido por uma cobra (oi?). Lá pelas tantas, Adolf Hitler (aqui também sob a alcunha de “Kung Führer”) invade o presente e ataca a delegacia em que o nosso herói atua. Com isso, Kung Fury decide viajar no tempo até a Alemanha, em plena Segunda Guerra Mundial, para liquidar de vez o líder nazista.

A sinopse não poderia ser mais nonsense: não há compromisso com nada. Quer assistir algo despretensioso apenas para passar o tempo e se divertir? Kung Fury é uma ótima pedida. Na verdade, sob o ponto de vista narrativo, cá entre nós, o filme é até “bobinho” – como se o roteiro fosse apenas uma passarela por onde o diretor tenta desfilar o maior conteúdo possível de referências à década de 80. E é nisso que o curta se sobressai: Kung Fury é pura nostalgia! A ideia é justamente essa: homenagear os anos 80 e toda sua cultura através de uma comédia que procura satirizar/parodiar os filmes policiais e de artes marciais desse período.

01

São as inúmeras as referências da fita – e é louvável a maneira como David consegue condensar todo este arsenal em pouco mais de 30 minutos de projeção. A estética visual é altamente atraente, seja nos figurinos e na fotografia (com a imagem repleta de defeitos, como os bons filmes “ruins” devem ser), alem da ótima trilha sonora – que ficou por conta do ator, cantor e produtor David Hasselhoff, que nos transporta ao synthpop do início da década de 80, com todos seus sintetizadores predominando em alto e bom som. Os efeitos especiais, por sua vez, são bastante competentes (principalmente se levarmos em conta que se trata de uma produção independente), com cenários feitos totalmente em chroma key – acentuando a atmosfera de amadorismo da película. Kung Fury possui ainda um humor fantástico: é cheio de boas e inteligentes piadas, lançadas nos momentos mais oportunos por personagens adoráveis, como nosso protagonista – o próprio David Sandberg, absolutamente hilário. Alem dele, vale também mencionar o policial Triceracop, as “vikings” gostosonas Katana e Barbarianna, Hackerman (nome óbvio) e até mesmo o icônico Thor (que com seu peitoral “épico”, segundo o próprio Kung Fury, atua melhor que o insosso Chris Hemsworth).

Ainda se fosse um fiasco, Kung Fury seria assunto: o filme foi rodado através de financiamento coletivo, pelo site Kickstarter, conseguindo arrecadar mais de US$ 600 mil – dinheiro muito bem empregado, diga-se de passagem. Kung Fury é divertido e inteligente e prova que não há limites para a criatividade – independente se você é um produtor hollywoodiano de sucesso ou simplesmente um nerd apaixonado por cinema.