O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children)

Não é difícil entender as razões que levaram Tim Burton a estar à frente de um projeto sobre seres peculiares – afinal, o próprio diretor é um tipo muito peculiar de artista. Sua obra é identificável logo à primeira vista, ainda que o conjunto dela não seja necessariamente excepcional – na verdade, Burton vem colecionando algumas produções bastante questionáveis nos últimos anos, deixando o espectador e a crítica em dúvida com relação aos seus dotes como cineasta. Mas é inegável que O Lar das Crianças Peculiares, seu mais novo trabalho, é aquilo que podemos chamar de exercício de estilo, como veremos mais adiante.

A história é adaptada do best-seller O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, romance escrito pelo norte-americano Ransom Riggs, lançado em 2011 e que se tornou uma febre mundial. Com ares de franquia teen, a trama principal da série acompanha um grupo de crianças com poderes especiais – entre eles, o jovem Jacob (Asa Butterfield). Após a morte repentina de seu avô (um veterano de guerra cheio de casos para contar), o adolescente segue algumas pistas e viaja até o País de Gales para visitar o orfanato de que tanto seu ente falecido lhe falara quando ainda era criança. Ao chegar lá, Jacob descobre uma fenda temporal que o transporta ao ano de 1943, onde ele conhece as crianças que dão o título ao longa e sua guardiã, a Srta. Peregrine (Eva Green). No entanto, uma monstruosa ameaça paira sobre o local – recaindo sobre Jacob a responsabilidade de proteger aquele grupo.

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Deixando de lado o material original (afinal, para aqueles que leram o livro, são nítidas as variações feitas pelo roteiro do próprio Ransom Riggs em parceria com Jane Goldman), O Lar das Crianças Peculiares sofre de um evidente desequilíbrio narrativo. A primeira parte da fita praticamente se concentra em Jacob e nas demais crianças, desenvolvendo apropriadamente cada uma delas (o que, consequentemente, faz com que o ritmo neste momento seja mais lento). Apesar do excesso de personagens, cada um deles ganha tempo suficiente em cena para ter suas peculiaridades devidamente exploradas. Curiosamente, no entanto, é a personagem de Eva Green quem ganha menos destaque, resumindo-se apenas a uma mera coadjuvante. Green só aparece na tela com a função de “explicar” os fatos (muitas vezes de forma desnecessariamente didática) e agregar um ar de mistério ao ambiente – o que até confunde o espectador quanto ao seu real caráter. Mais decepcionante ainda, o vilão interpretado por Samuel L. Jackson exagera na canastrice, passando pouca credibilidade para quem assiste.

Mas se o filme demora a acontecer, ele não para em sua parte final (como se para recuperar o tempo perdido). Aqui, encontramos as melhores sequências, como o confronto entre as crianças e os etéreos, com direito inclusive a um exército de caveiras. A partir daí, a ação se acelera, ainda que algumas inverossimilhanças surjam aqui e ali. Jacob não chega a ser um grande herói (ele não é nada além de um garoto comum de sua idade) e é difícil digerir o romance entre ele e a bela Emma Bloom (a mesma que, décadas atrás, se envolvera com seu avô). O lance das fendas temporais também soa confuso em alguns instantes, sendo mencionado como se apenas para encontrar soluções (fáceis) para o argumento.

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Mas se há deslizes no roteiro, eles são compensados com o aspecto visual do longa. O universo de Tim Burton está impresso ali, desde o jardim do orfanato até o parque de diversões macabro, por exemplo. O design dos monstros é incrível e os efeitos especiais são muito “pés no chão” – para se ter noção, Burton recorre até a técnica de stop motion (o que, de imediato, nos faz recordar de Beetlejuice, repare). Curiosidade: Tim ainda dá o ar da graça, rapidamente – mas para conferir isso você terá que prestar atenção.

O desfecho de O Lar das Crianças Peculiares até abre ponta para uma continuação, mas o arco dramático é fechado sem muita dificuldade. O filme perde bastante pela sua instabilidade narrativa, é verdade, mas compensa por outros pontos, em especial pela sua estética irrepreensível. Talvez O Lar das Crianças Peculiares sofra com seu público alvo, que não é bem definido – afinal, do ponto de vista literário, a história é simples para os pequenos, mas Burton não economiza no clima gótico e assustador, o que pode afugentar naturalmente os mais jovens. O Lar das Crianças Peculiares é um filme muito agradável, com potencial para uma franquia de sucesso, mas não é, necessariamente, peculiar como o título sugere. Pelo contrário: é um puro exercício de estilo de seu idealizador, cuja peculiaridade já está para lá de manjada…

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

Há muito que se falar sobre a extensa filmografia de Martin Scorsese, mas o que mais chama a atenção é sua versatilidade. O cineasta já trafegou por vários gêneros, mas faltava-lhe ainda um filme que pudesse ser assistido por seus filhos – como o próprio argumentou. Este foi o ponto de partida para a concepção de A Invenção de Hugo Cabret – uma requintada produção que atende aos anseios do diretor tanto como pai quanto, principalmente, como cinéfilo que é.

Paris, 1930. Após a morte de seu pai relojoeiro, o jovem e inocente Hugo vai viver na Gare Du Nord, a famosa e exuberante estação de trem da capital francesa – e lá, o órfão passa seus dias acertando os relógios do local e sobrevivendo de pequenos furtos. Além do talento com as engrenagens, Hugo também herdou do pai um misterioso autômato, que ele tenta remontar com as peças roubadas da loja de brinquedos da estação. Um dia, pego em flagrante, Hugo é obrigado a trabalhar no local e lá acaba se tornando amigo da enteada de seu chefe. O que as duas crianças não imaginam é que o dono do comércio é o velho cineasta George Méliès – e entre muitas aventuras, os dois vão se aprofundando cada vez mais no passado daquele homem.

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Uma característica que me encanta em Scorsese é seu pleno domínio da linguagem cinematográfica. Isto, é claro, só pode ser fruto das incontáveis horas que o diretor passou estudando cinema – Scorsese é sinônimo de erudição cinematográfica, todos sabem disso (não à toa, ele é fundador da The Film Foundation, organização responsável pela restauração de filmes antigos e raros). Perito na área, Martin consegue explorar com propriedade várias vertentes – e em A Invenção de Hugo Cabret não é muito diferente: ele tem pleno poder sobre o que está em suas mãos, mesmo que esta linguagem para ele seja “nova” (afinal, é a primeira incursão de Martin em um filme infantil e rodado em 3D). Contrariando os que duvidavam de sua capacidade de estar à frente de um projeto juvenil, bastam alguns poucos minutos de sua película para entendermos o quão genial é Scorsese.

“O cinema era nosso lugar especial…”

Visualmente arrebatador, A Invenção de Hugo Cabret faturou os principais prêmios técnicos do Oscar. E não é conversa: o longa é realmente majestoso. Com uma fotografia primorosa, dourada e cheia de luz (recriando bem a Paris da época), alguns movimentos de câmera improváveis surgem a todo instante, revelando cenários de tirar o fôlego, que são valorizados com a ótima montagem. Repare, por exemplo, na profundidade da câmera ao capturar a plataforma da estação parisiense. O 3D aqui é fundamental. É interessante analisar que Scorsese o utiliza de forma coerente, não apenas depara ornamentar sua fita, mas principalmente como instrumento indispensável para sua história, o que a enriquece muito mais.

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Mas, apesar de ser um filme com crianças, A Invenção de Hugo Cabret não é exclusivamente para elas – e é aqui que entendemos sua dimensão. Apaixonado por cinema, Martin Scorsese faz uma bela homenagem aos primórdios desta arte através da figura de Méliès. Quem não o conhece, terá a oportunidade de ser introduzido ao universo deste fantástico artista. Enquanto os irmãos Lumière (os criadores do cinematógrafo, que Méliès tentaria inutilmente adquirir) filmavam banalidades rotineiras, Méliès era um velho conhecido do teatro de variedades – e isto foi essencial para que ele levasse às telas o ilusionismo. Por esta razão, até hoje George Mélièr é considerado o pai dos efeitos especiais. Infelizmente, sua produção de mais de 500 obras se perdeu com o tempo e pouca coisa foi recuperada – mas sua memória ainda vive. Scorsese junta todo este material e cria um filme que engrandece o cinema como arte. Embora existam algumas oscilações no roteiro (que ora foca o garoto, ora foca Méliès – e isso acaba o deixando um tanto desconexo), A Invenção de Hugo Cabret é, de longe, um dos momentos mais inspirados de Martin, repleto de significados e que se revela uma verdadeira ode à sétima arte.