Foi com Foi Apenas um Acidente, de 2025, que Jafar Panahi levou a Palma de Ouro (Palme d’or) em Cannes; entretanto, o pupilo de Abbas Kiarostami já havia conquistado o público do festival, em 1995, com seu filme de estreia, O Balão Branco – que lhe rendeu, inclusive, a Câmera de Ouro (Caméra d’or) naquela edição. Chama atenção, todavia, que o cineasta já antecipava, trinta anos antes, preocupações que marcariam sua filmografia, especialmente o olhar profundamente humanista voltado para as figuras marginalizadas de uma sociedade iraniana complexa e cheia de fraturas. A história é relativamente simples: às vésperas do Ano Novo iraniano, celebrado em março, a pequena Razieh tenta convencer sua mãe a lhe comprar um peixinho dourado. A caminho da loja, a garota perde o dinheiro que havia recebido e parte em busca de recuperá-lo com a ajuda de seu irmão mais velho.
Com roteiro do próprio Kiarostami (de quem Panahi foi assistente de direção), O Balão Branco constrói uma tensão narrativa sufocante a partir da simplicidade de um desejo infantil, revelando a capacidade do cineasta de transformar um episódio aparentemente trivial em um drama intenso. É na condução em tempo real da história que essa tensão se avoluma, à medida que, a cada momento, surgem novos obstáculos na trajetória dessa improvável heroína, exigindo esforços crescentes de uma garotinha cuja determinação contrasta diretamente com a resistência de boa parte dos demais personagens que atravessam seu caminho. Nesse cenário, a inocência precisa negociar a todo instante com a rigidez do mundo adulto. Todavia, é no suspense aparentemente banal sobre o dinheiro perdido que o filme se expande, revelando um espelho da própria sociedade iraniana: suas burocracias, desigualdades e desconfianças. Ao fim, a busca da protagonista pelo desejado peixinho dourado deixa de ser um mero capricho de uma criança mimada ao tornar-se uma alegoria da persistência humana diante de barreiras sociais aparentemente insuperáveis.
