“Nasce Uma Estrela”: Um Filme Feito Sob Medida Para Lady Gaga

Em sua estreia como diretor, Bradley Cooper apostou em um projeto que não tinha como dar errado: o remake  do clássico Nasce Uma Estrela  (o quarto, para ser mais exato), um filme descaradamente feito sob medida para Lady Gaga. A trama, que acompanha o relacionamento conturbado entre o astro do rock Jackson Maine e a jovem cantora Ally, caiu como uma luva para ser a Lady Gaga o que Evita  foi para Madonna, praticamente um presente de Cooper com um bilhete dizendo “Toma, Gaga, vem cá, vamos esfregar seu talento na cara dos haters, ok?”.

E, de fato, a cantora (e agora atriz) não decepciona: Gaga chama o filme pra si. Não que a personagem exija muito dela, mas a artista tem um carisma inegável – isto sem mencionar os dotes musicais já conhecidos pelo público. Aliás, a trilha sonora de Nasce uma Estrela  é irretocável: Shallow, por exemplo, carro-chefe do longa, é até aqui uma das favoritas ao Oscar de melhor canção no próximo ano. Gaga até ofusca o protagonista de Cooper que, com sua barba e cabelos desgrenhados, entrega uma atuação no máximo mediana, destacando-se, sobretudo, na parte vocal. Juntos, felizmente, a dupla mantém uma química interessante em cena.

O roteiro, no entanto, carrega uma forte carga melodramática, algo que em décadas anteriores até caía bem – hoje nem tanto. A forma como o argumento desenvolve os personagens enquanto “artistas” é desestimulante, especialmente na segunda metade da fita, com a decadência de Jack (destinada desde o início, o que não permite ao espectador digerir essa transição) e a ascensão de Ally (que, no ato final, nada mais é do que uma paródia da própria Lady Gaga). Assim, as melhores sequencias de Nasce Uma Estrela  são os momentos de diálogos e intimidades entre o casal e um ou outro número musical mais empolgantes. No conjunto da obra, este Nasce Uma Estrela  é um filme sonora e visualmente bem executado, mas que não passaria de uma produção genérica não fosse o apelo da história e, claro, os astros que a estrelam.

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“Sniper Americano”: Um Filme Mediano de Eastwood

01Sniper Americano, novo longa de Clint Eastwood, conquistou recentemente um feito memorável: o filme foi o maior lançamento hollywoodiano na história para o mês de janeiro – batendo um recorde que pertencia, até então, ao megalomaníaco Avatar, de James Cameron. Esse fato ilustra uma verdade: o público norte-americano é patriota e dá valor ao seu país. Sniper Americano arrecadou mais de US$ 200 milhões apenas nos EUA e 6 indicações ao Oscar 2015, incluindo o prêmio de melhor filme – mas isso não faz de Sniper Americano uma produção isenta de defeitos ou acima da média.

O filme é uma adaptação da autobiografia de Chris Kyle, um soldado de elite do exército norte-americano, considerado o atirador mais letal da história. Após anos servindo seu país, o combatente morreu em 2013 durante um exercício de tiro no Texas, quando foi assassinado por um veterano de guerra com problemas psicológicos. A narrativa acompanha Chris em suas quatro missões, período em que matou mais de cem pessoas – se tornando, assim, uma lenda viva em sua corporação.

Sniper Americano é aquele típico filme que Hollywood adora levantar a moral (concedendo-lhe inúmeros elogios) e capaz de levar milhares ao cinema – mas nem sempre cumprindo com sua proposta. Não que a fita seja ruim; a bem da verdade, há um ponto em Sniper Americano que é irrepreensível: a atuação de Bradley Cooper, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. O bonitão ganhou uns quilos e músculos a mais e ficou fisicamente impecável, mostrando total entrega em sua performance. Cooper ganhou o respeito de muita gente se distanciando do belo rapaz de olhos claros que protagonizava comédias românticas estúpidas e provando que é um artista de talento. A parte esse quesito, há de se mencionar o ótimo trabalho de fotografia do longa, assim como sua edição, som e efeitos especiais, cuja qualidade ficava explícita nos momentos mais oportunos da trama.

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Entretanto, talvez dois pecados sejam bastante perceptíveis: o roteiro de Jason Hall e a direção de Clint (ou talvez, seja um ou outro e não temos como saber quem necessariamente é o culpado). Apesar de Clint se posicionar de forma competente nas cenas de ação, o cineasta perde a mão nas sequências mais dramáticas, onde as questões familiares e pessoais de Kyle foram tratadas com total superficialidade. Talvez, a ideia aqui era fazer de Chris um grande herói de guerra (como o realmente pode ter sido), mas o roteiro não foi capaz disso. Como resultado, quem vê Sniper Americano fora do olhar norte-americano não consegue se identificar com sua personagem central e chega até mesmo a achar irreal sua obsessão. Em outras palavras, a vida privada de Chris é deixada de lado – e quanto mais isso acontece, mais desumano ele se torna.

Apesar dos primores técnicos, Sniper Americano não é um filme que tende a agradar ao público fora dos EUA. Aliás, se por lá a crítica especializada já não é unanime, quem dirá fora deste contexto. Sniper Americano vem recebido uma enxurrada de comentários negativos por conta de sua propaganda de guerra – afinal, cá entre nós, louvar como herói um homem que tirou a vida de tanta gente é, no mínimo, hipocrisia (mesmo que ele tenha salvo a vida de outros tantos). Por mais que contenha algumas cenas incríveis (especialmente os créditos finais acompanhados com a trilha de Ennio Morricone, que é uma ode de amor de Clint à sua terra natal), Sniper Americano funciona muito mais como um anúncio e engrandecimento do povo norte-americano do que uma biografia elogiável – e prova, como nunca, que mesmo um filme mediano de um diretor conceituado ainda assim será mediano.

Limite: Eis a Questão de “Sem Limites”

Dizem por aí que um ser humano comum usa apenas entre 10 a 20% da capacidade de seu cérebro. Tal teoria nunca foi, de fato, comprovada – o que gera polêmica entre os estudiosos do assunto. Entretanto, fica a questão: existe realmente alguma substância que nos permita utilizar o potencial de nosso cérebro por completo? Partindo dessa idéia, surge a história de Sem Limites, do diretor Neil Burger (de O Ilusionista, 2006), que estreou nessa sexta-feira (24) nos cinemas nacionais.

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Eddie Morra (Bradley Cooper) é um escritor fracassado passando por uma crise de criatividade e inspiração que o impede de terminar seu livro. Entretanto, após ser abandonado por sua namorada, Eddie reencontra seu ex-cunhado que lhe oferece uma droga que, segundo ele, ativaria toda a capacidade de seu cérebro. Após ingerir a substância, Eddie se transforma em um novo homem: termina seu livro, quintuplica seu dinheiro apostando na bolsa de valores, fala fluentemente novos idiomas, se relaciona com as mais belas mulheres da cidade, torna-se mais seguro de si… Enfim, Eddie se torna, definitivamente, um ser superior e totalmente diferente daquilo que sempre foi. Mas à medida que sua dependência por esse remédio cresce, ele se vê inserido num problema comum a qualquer usuário de drogas: a abstinência. E como conseqüência de seu uso excessivo, Eddie entra aos poucos em um estado deplorável, que pode o levar à morte assim como fizera com tantos outros usuários.

O filme convence porque tem um roteiro direto, uma fotografia moderna e a narrativa é feita no tempo certo, o que não cansa o telespectador. Uma sacada genial de Neil foi alterar a “tonalidade” do filme, que ora é acizentada, fria, sombria (quando o personagem está sóbrio) e ora clara, organizada (quando sob efeito da substância). Bradley Cooper está bem na pele de nosso protagonista – e também é gratificante ver Robert DeNiro de volta às telas com um personagem que, se por um lado é pequeno em cena, é importante na história e comprova a boa forma do veterano astro de Hollywood.

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Sem Limites, de longe, não é um filme perfeito: há alguns erros que merecem ser apontados. Entre eles, o roteiro óbvio, que nos leva a prever algumas sequencias e nos deixa cientes de que mesmos os melhores roteiros tem algumas falhas (isso sem falar que, apesar de bom, não sabemos se estamos diante de um suspense, um filme de ação ou qualquer outro gênero). Além disso, puritanismo à parte, sabemos bem que nem todos os usuários de drogas conseguem ter um final feliz, como acontece com Eddie. Ao ingerir a substância NZT, ainda em fase de teste, Eddie se despe de seu verdadeiro “eu” para se tornar uma pessoa que ele considera melhor, mas até onde isso é real? Ele não reconhece seus limites e se torna um personagem por vezes irritante, ambicioso, cheio de si e sem nenhuma consciência moral do que é certo ou errado, pois, afinal, só pensa em si mesmo e em todos os benefícios que a droga pode trazer a ele.

O final nos dá a idéia de que pode haver uma continuação para a história. Se isto acontecer, com certeza valerá a pena voltar ao cinema para saber o desfecho da narrativa. Entretanto, não se empolgue: você não perderá nada caso isto não aconteça. Sem Limites é um bom filme, um thriller bem feito que é ideal para um cinema com o pessoal da faculdade no final de semana. E esta é justamente a sua limitação.