Carros 3 (Cars 3)

Carros sempre foi considerado um dos poucos fracassos da parceria entre Disney e Pixar, mas devido a sua própria “essência” é um produto que vende bem (há quem diga, inclusive, que a única razão para Carros existir é a ampla comercialização da marca). Só isso explica o terceiro longa da franquia – que, felizmente, é a redenção dos estúdios, já que Carros 3 é o melhor filme protagonizado pelo corredor Relâmpago McQueen. Ok, faltaria muito para que essa nova aventura estrelada por automóveis falantes estivesse na lista dos grandes títulos da Pixar, mas, até aqui, Carros 3 é a produção mais bem executada e madura da série.

O argumento é batido: a velha crise do herói de outrora ultrapassado pela juventude. Neste caso, falamos do lendário McQueen – literalmente ultrapassado pelos carros mais jovens que entraram no circuito de corridas. Afastado repentinamente daquilo que mais ama devido a um acidente, seu maior desejo agora é voltar a ser um campeão, contando para isso com o auxílio da treinadora Cruz Ramirez.

Carros 3 é um filme de esporte, narrado de forma robusta e com muito mais profundidade que seus antecessores. Com sua história repleta de alegorias e metáforas, o longa dirigido pelo estreante Brian Fee trata sobre o processo natural de envelhecimento, sendo o capítulo da série com mais “cara” de Pixar. Se a franquia sempre fora acusada de ser mais voltada às crianças, Carros 3 apresenta uma trama muito mais desenvolvida – praticamente uma homenagem ao primeiro longa e com claras referências aos anos 80, principalmente ao clássico Rocky – Um Lutador. Há um trecho em que quase se recria uma cena do título oitentista, isso sem falar na construção do protagonista Relâmpago McQueen – cujo maior rival é ele mesmo, já que além de suas limitações “biológicas” (ele já não possui o mesmo “gás” de antigamente) há também a necessidade de aceitar que o tempo passou e, inevitavelmente, a hora de parar está próxima. Apesar de ser desprezada em alguns instantes como antagonista, Cruz Ramirez também é uma personagem interessante e que agrega certo “feminismo” a um tipo de narrativa que, inicialmente, seria capaz de agradar apenas o público masculino. Com ela, algumas pontas são abertas até mesmo para uma sequência.

Com um visual bastante agradável (as cenas de corrida são ótimas), Carros 3 ainda leva uma vantagem em relação aos demais: já que a película anterior é descartável e pouco expressiva, este novo episódio é praticamente uma continuação direta (e louvável) do primeiro filme e, por mais que esteja longe de receber o selo de qualidade da Pixar, redime os estúdios pelos erros cometidos na franquia até então.

Meu Amigo, O Dragão (Pete’s Dragon)

01A Disney escancarou mesmo a temporada de readaptações de seus clássicos – e agora, chega aos cinemas Meu Amigo, o Dragão, nova versão do filme dirigido por Don Chaffey, em 1977. Ao contrário do original, que se utilizava da mesma técnica do consagrado Mary Poppins (misturar personagens reais com elementos animados), este Meu Amigo, o Dragão é rodado predominantemente em live action, com a tal criatura do título feita através de computação gráfica, dando uma nova roupagem à uma história já conhecida do público saudosista.

Quer dizer, parcialmente conhecida – já que o argumento deste novo filme é ligeiramente diferente do anterior. A trama se passa nos dias atuais e acompanha uma família, que sofre um acidente de carro durante um passeio em meio a floresta. O único sobrevivente é Pete, o filho do casal que, à deriva naquele ambiente hostil, encontra Elliot – um dragão gigante com a incrível habilidade de ficar invisível. Os anos se passam: Pete está vivendo na floresta ao lado de Elliot e a amizade entre os dois se torna cada vez mais forte – já que agora eles só têm um ao outro. No entanto, o relacionamento entre eles fica ameaçado quando o pequeno Pete é descoberto por uma guarda florestal e levado à cidade. Desolado, Elliot não medirá esforços para resgatar seu companheiro, ainda que para isso ele mesmo tenha que correr alguns riscos.

Meu Amigo, o Dragão é, na verdade, um típico longa-metragem Disney e praticamente recicla todos os itens básicos de suas produções. O visual é rico e a fotografia serve muito bem à proposta. Os tons de verde são exuberantes – inclusive os de Elliot, que aqui chama a atenção pelo excelente trabalho de computação gráfica. Outro ponto favorável de Meu Amigo, o Dragão é sua trilha sonora: apesar de abandonar totalmente o gênero musical do primeiro filme, a música é marcante, inserida em momentos oportunos que ora acentuam a carga dramática da cena, ora traduzem o tom leve da narrativa. Os personagens, por sua vez, apesar de não muito bem desenvolvidos, são carismáticos (talvez por conta do bom desempenho do elenco, que conta com nomes como Bryce Dallas Howard, Wes Bentley e Robert Redford). Entretanto, curiosamente nenhum deles consegue ser tão interessante quanto o próprio Elliot. Ele recua no tom “brincalhão” da primeira fita, apresentando uma postura quase humanizada. Sua relação com Pete é invertida: é o garoto quem quase assume o papel de bicho de estimação.

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Cativante do início ao fim e repleto de aventura e fantasia, Meu Amigo, o Dragão trata de vários temas, como a amizade e família. No entanto, também critica a interferência do ser humano na natureza e como as consequências podem ser catastróficas. Mesmo com um roteiro fácil e previsível (escrito pelo próprio diretor David Lowery em parceria com Toby Halbrooks), Meu Amigo, o Dragão consegue reinventar toda a magia Disney que durante anos tem encantado a milhares de pessoas – e prova que a empresa ainda é capaz de conquistar uma nova audiência mesmo ao apresentar personagens que já amamos e já fazem parte de nossas vidas.