“Carros 3”: Pixar se Redime Com Melhor Filme da Série

Carros sempre foi considerado um dos poucos fracassos da parceria entre Disney e Pixar, mas devido a sua própria “essência” é um produto que vende bem (há quem diga, inclusive, que a única razão para Carros existir é a ampla comercialização da marca). Só isso explica o terceiro longa da franquia – que, felizmente, é a redenção dos estúdios, já que Carros 3 é o melhor filme protagonizado pelo corredor Relâmpago McQueen. Ok, faltaria muito para que essa nova aventura estrelada por automóveis falantes estivesse na lista dos grandes títulos da Pixar, mas, até aqui, Carros 3 é a produção mais bem executada e madura da série.

O argumento é batido: a velha crise do herói de outrora ultrapassado pela juventude. Neste caso, falamos do lendário McQueen – literalmente ultrapassado pelos carros mais jovens que entraram no circuito de corridas. Afastado repentinamente daquilo que mais ama devido a um acidente, seu maior desejo agora é voltar a ser um campeão, contando para isso com o auxílio da treinadora Cruz Ramirez.

Carros 3 é um filme de esporte, narrado de forma robusta e com muito mais profundidade que seus antecessores. Com sua história repleta de alegorias e metáforas, o longa dirigido pelo estreante Brian Fee trata sobre o processo natural de envelhecimento, sendo o capítulo da série com mais “cara” de Pixar. Se a franquia sempre fora acusada de ser mais voltada às crianças, Carros 3 apresenta uma trama muito mais desenvolvida – praticamente uma homenagem ao primeiro longa e com claras referências aos anos 80, principalmente ao clássico Rocky – Um Lutador. Há um trecho em que quase se recria uma cena do título oitentista, isso sem falar na construção do protagonista Relâmpago McQueen – cujo maior rival é ele mesmo, já que além de suas limitações “biológicas” (ele já não possui o mesmo gás de antigamente) há também a questão de aceitar que o tempo passou e, inevitavelmente, a hora de parar está próxima. Apesar de ser desprezada em alguns instantes como antagonista, Cruz Ramirez também é uma personagem interessante e que agrega certo “feminismo” a um tipo de narrativa que, inicialmente, seria capaz de agradar apenas o público masculino. Com ela, algumas pontas são abertas até mesmo para uma sequência.

Com um visual bastante agradável (as cenas de corrida são ótimas), Carros 3 ainda leva uma vantagem em relação aos demais: já que a película anterior é descartável e pouco expressiva, este novo episódio é praticamente uma continuação direta (e louvável) do primeiro filme e, por mais que esteja longe de receber o selo de qualidade da Pixar, redime os estúdios pelos erros cometidos na franquia até então.

“Pets – A Vida Secreta dos Bichos” Recicla Trama da Concorrente Pixar

Max é um cachorro que mora com sua dona em um apartamento em Nova York. Único habitante canino, ele é alvo de todo carinho e mimos possíveis até a chegada de Duke, um cão de rua que sua dona acabara de resgatar. Pronto! A rivalidade entre eles é imediata. Entretanto, quando os dois se perdem na cidade e são perseguidos por uma “gangue“ de bichos que vivem no esgoto, Max e Duke terão que se unir para encontrar o caminho de volta para casa, enquanto seus amigos da vizinhança saem à sua procura.

A premissa de Pets – A Vida Secreta dos Bichos, nova animação da Illumination Entertainment (empresa responsável por Meu Malvado Favorito e Minions), não é original. É escancarado o fato de que Pets praticamente recicla a história do primeiro filme da franquia Toy Story, da concorrente Pixar. Ou seja, Pets é uma versão “animal” de uma fábula que já estamos cansados de conhecer (inclusive pela proposta da trama de mostrar “o que os bichos de estimação fazem quando seus donos não estão por perto”), porém como muito menos requinte, obviamente.

01

Mas se por um lado falta originalidade ao argumento, Pets consegue ainda ser “diferente” por trazer um entretenimento muito mais exagerado, escrachado e até “bobo” – mas o suficiente para fazer com que o público se divirta de verdade. O humor é predominante, os personagens são bem explorados e é muito interessante ver a forma como a história “brinca” com os estereótipos animais – em muitos instantes, o espectador chega a pensar “É exatamente assim que o meu gato age!” ou “Nossa, igualzinho ao meu cão!”. Além disso, o desenvolvimento dramático de Pets abre margem também para cenas de ação que valorizam o cenário colorido e o bom trabalho da equipe liderada pela dupla de diretores Chris Renaud e Yarrow Cheney.

Ainda que esteja longe de ser um filme memorável (o trailer entrega muito da obra, infelizmente), Pets consegue cumprir aquilo que promete: divertir. Uma coisa é certa: Pets é uma verdadeira homenagem ao relacionamento dos humanos com seus animais de estimação – e isso é fruto de uma observação muito peculiar do comportamento de ambos. Ao sair da sessão, você que for levar sua criança e ainda não tiver um pet em casa, prepare-se: um novo morador pode estar a caminho.

Pixar Entrega Obra Menor em “O Bom Dinossauro”

A primeira pergunta que passou pela minha cabeça após assistir a O Bom Dinossauro foi “Esse filme é realmente necessário?” – e esta questão me perturbou durante um tempo. Sim, porque sejamos honestos: após entregar uma de suas melhores animações em todos os tempos (Divertida Mente), a Pixar não precisava – nem nunca precisou, na verdade – provar nada a ninguém. Mais do que isso: é sempre com muita expectativa que aguardamos qualquer projeto do estúdio, afinal sempre somos surpreendidos, certo? Bem…

01

O Bom Dinossauro não é ruim, entenda – mas deixou a desejar. E muito. A trama parte de um conceito clássico do cinema: um herói que precisa buscar coragem para conquistar algo. Assim, conhecemos Arlo, o caçula dos três filhos de uma família de dinossauros. Diferente dos irmãos, Arlo é um desastre nos afazeres cotidianos por conta do medo que possui de tudo e de todos, apesar da ajuda e incentivo dos pais. Após uma série de fracassos, Arlo tem a chance de matar a criatura que está roubando a comida que sua família armazenara para o inverno – mas descobre que o ladrão é um menino humano primitivo e, por pena, deixa-o escapar. Mais tarde, tentando consertar a situação, Arlo se afasta do seu lar e reencontra o garotinho, tornando-se amigo dele e procurando um caminho de volta para casa.

Embora comece de forma promissora (questionando o espectador sobre como seria a relação entre humanos e dinossauros caso o asteroide que teria dizimado os grandes répteis não tivesse atingido a Terra), O Bom Dinossauro é um filme que não empolga e, principalmente, não surpreende. Pior: a narrativa é uma cópia de várias outras fitas infantis. Para começar, a abordagem sobre amizade nos remete imediatamente a Toy Story, com dois personagens que não se dão muito bem mas, devido às circunstancias, precisam se “suportar” para sobreviver. É possível também nos lembrarmos de Procurando Nemo na jornada que o protagonista faz em busca de seu objetivo – com quebras narrativas para apresentar outros personagens (com a diferença aqui que nenhum deles é engraçado). Ainda conseguimos enxergar certa referência a Mogli na forma como Spot, o pequeno humano, é retratado. Mas nenhuma associação é tão descarada quanto ao clássico Disney O Rei Leão – inclusive com sequências que são praticamente idênticas ao filme de 1994. O grande problema é que em O Bom Dinossauro não se trata de uma homenagem – aqui, estamos falando de um punhado de idéias já vistas que soam batidas, previsíveis e, mais do que tudo, manipuladoras.

01

Assim, O Bom Dinossauro se torna deveras cansativo ao longo de sua uma hora e meia de projeção – quase uma eternidade – , o que faz com que o público mais adulto não consiga se enternecer. Para as crianças, faltam personagens mais cativantes (além de uma dose de humor que chame a atenção dos pequenos). O Bom Dinossauro é até bem feito tecnicamente (os frames são bem executados, mostrando a excelência tecnológica Pixar, capaz de produzir cenários incríveis), mas carece de uma história, digamos, mais original. Não é o caso de dizer que estamos diante do pior filme da Pixar, até porque temos Carros 2 e Valente aí para competir. Mas é fato que O Bom Dinossauro não chega a ser um marco no estúdio. Definitivamente, O Bom Dinossauro é legal, porém desnecessário.

Pixar Acerta Mais Uma Vez Com “Divertida Mente”

03Após uma série de desenhos que dividiram opiniões (respectivamente Carros 2, Valente e Universidade Monstros), a Pixar parece ter finalmente retomado as rédeas de suas produções, presenteando o público com o impecável Divertida Mente. Aplaudido em sua estreia, na última edição do Festival de Cannes, a comovente trama sobre as emoções de uma menina de 11 anos entusiasmou a crítica e há quem aposte nela como uma das favoritas ao prêmio de melhor animação no próximo Oscar – merecido e inevitável, uma vez que é improvável que a temporada do gênero consiga produzir algo tão esplendoroso e criativo quanto Divertida Mente.

Divertida Mente antropomorfiza cinco emoções em personagens inesquecíveis: Medo, Raiva, Nojinho, Tristeza e Alegria. Eles são os responsáveis pelo “centro de controle” – uma espécie de sala panorâmica de onde podem enxergar toda a realidade de Riley (uma pré-adolescente que acaba de se mudar com os pais para outra cidade) e, assim, gerenciar suas memórias e reações ao meio externo. Ligadas a esta central, existem neste mundo as ilhas (“Família”, “Amizade”, “Bobeira”, “Honestidade” e “Hóquei” – o esporte preferido da garota), criadas e mantidas com as memórias particulares de cada tipo. Os problemas começam a surgir quando Alegria e Tristeza vão parar fora de seu posto de trabalho, se perdendo na consciência de Riley.

O espectador mais atento é capaz de perceber que Divertida Mente é quase dividido em dois filmes: entre cortes rápidos e uma montagem bem feita, o longa alterna o percurso de Tristeza e Alegria rumo ao centro de controle e as reações de Riley sem essas duas emoções em sua mente. A partir daí, o diretor Pete Docter (que teria se inspirado em sua própria filha) consegue unir esses dois meios e explicar também cada parte do cérebro, recriando um universo fabuloso, repleto de ambientes ricos e criativos. O banco de memórias, por exemplo, é mostrado como uma grande biblioteca (com os livros sendo substituídos por esferas). A área dos sonhos, por sua vez, é como um grande estúdio de cinema – uma das sacadas mais geniais do filme. Há até mesmo explicações sobre a criação dos nossos amigos imaginários e o porquê esquecemos certas coisas – uma cena, no mínimo, hilária.

02

Mas esta rica abordagem psicológica ainda não é tudo. Divertida Mente ainda é engraçado – não de forma “boba”, mas inteligente. Tecnicamente impecável, o trabalho de arte é um espetáculo à parte – inclusive merece ser destacada aqui a equipe de criação, responsável por cenários exuberantes e personagens muito bem desenvolvidos. Divertida Mente é exatamente aquilo que nós fãs esperamos da Pixar: uma obra complexa mas sem enrolação, divertida e emocionante, que alem de passar ótimas mensagens (que reforçam valores como família, amizade, coragem) é intensamente criativa – garantindo um lugarzinho no pódio de melhores produções do estúdio. Em outras palavras, Divertida Mente é a Pixar apenas sendo a Pixar.

Wall-e

Começo esta crítica com uma confissão arriscada: para mim, Wall-e é a melhor obra da Pixar em todos os tempos. Digo que é arriscado porque, bem, estamos falando da Pixar – empresa à frente de sucessos como a trilogia Toy Story, Up – Altas Aventuras ou Procurando Nemo. Mas tenho algumas especulações que sustentariam minha tese (ou ao menos minha modesta opinião) de que Wall-e é a obra-prima dos estúdios de John Lasseter; um verdadeiro trunfo da animação e uma das produções mais cativantes que eu já tive o imenso prazer em assistir.

04Pelo princípio: assim como em outras produções da Pixar, Wall-e possui protagonistas improváveis (a não ser que você ache comum brinquedos ou carros que falam, um rato que sonha em ser chefe de cozinha ou um peixe palhaço à procura do filho perdido). Neste caso, falamos do robozinho do título, único “habitante” de um planeta Terra bem diferente daquilo que poderíamos esperar em um filme que se passa no futuro: inóspita e repleta de lixo por todos os lados. Solitário, Wall-e passa seus dias na árdua tarefa de “limpar” a Terra (juntando todo o lixo acumulado durante gerações) enquanto coleciona objetos utilizados pelos humanos que, agora, vivem no espaço. No entanto, a rotina pacata de Wall-e muda com a chegada inesperada de Eva, uma sonda moderna e sofisticada enviada ao planeta com a missão de descobrir sinais de vida vegetal que indiquem um retorno da sustentabilidade da vida humana.

Com uma sinopse razoavelmente simples, muito pouco poderia se esperar de Wall-e. Até mesmo porque Wall-e, apesar de ser uma animação, não é feito diretamente para crianças. Há de se dizer, inclusive, que as crianças podem criar certa resistência ao filme – o que é completamente justificável. Wall-e foi feito para quem gosta de cinema. É a sétima arte em seu mais puro estado, uma experiência visual que remete o espectador aos primórdios da comédia muda (de Charles Chaplin a Buster Keaton, por exemplo), à ficção científica que tomou conta das telonas por volta da década de 70 e ao maior clichê cinematográfico de todos os gêneros: o encontro casual (e o desenrolar da relação) entre homem e mulher.

01

O que torna Wall-e uma obra sublime (no mais amplo sentido da palavra) é que a experiência visual proporcionada pelo longa se estende sobre os itens anteriormente citados, mas de forma muito mais requintada. Comédia muda a começar porque Wall-e é um filme que conta sua história sem os artifícios do diálogo narrativo. Diria que, se muito, apenas um terço do filme tem diálogos falados. Toda a narrativa é contada através de suas imagens. Wall-e, por exemplo, exprime todas as suas emoções através praticamente de seus olhos (que transmitem tristeza, timidez, seu jeito desengonçado de ser e até mesmo seu interesse na humanidade). Esse mérito da produção é resultado de uma característica da Pixar com a qual já estamos habituados: a perfeição com que os estúdios trabalham sua técnica. Wall-e é simplesmente impecável do ponto de vista técnico. Isso fica evidenciado a cada momento através das belas imagens criadas pela equipe Pixar, enchendo os olhos do espectador com planos e sequências inspiradoras, formando uma fotografia ímpar. A cena do balé de Eva e Wall-e no espaço é uma daquelas sequencias cinematográficas para entrar na história – comparada às vassouras cheias de vida de Fantasia ou ao beijo inocente de A Dama e o Vagabundo.

03

Em se tratando de ficção científica, Wall-e segue na contramão do roteiro que se poderia esperar do gênero. Não é apenas uma abordagem “futurista”, mas uma obra que propaga também questões ambientais (e por que não humanitárias) que vão muito alem do que muitos filmes, documentários ou obras do gênero pregam. A sátira ao consumo desenfreado, por exemplo, está presente claramente na quantidade de lixo acumulada ao longo dos anos e que o robô tenta, inutilmente, organizar. Com uma história simples, o longa passa uma mensagem muito mais direta e comovente do que muitos discursos ecológicos e humanitários por aí, até mesmo por uma razão: Wall-e é um filme otimista, há esperança de um futuro melhor. Isso fica evidenciado na forma como o robô coleciona os objetos humanos que o fascinam, como se a cada objeto, o melhor da raça humana fosse separado. É muita ternura em um único personagem.

02

O encontro casual entre homem e mulher, finalmente, é ainda mais terno porque, neste caso, o casal em questão é formado por dois robôs. Isso não impede que a Pixar recrie uma fábula contemporânea (digo, futurista) sobre a solidão. Wall-e, quando encontra Eva, se apaixona de forma pura pelo robô. Na verdade, o que temos aqui é a simples história de um ser solitário que descobre o amor – e como o amor muda seu universo. É o amor em seu estado mais honesto e que produz os mais ricos sentimentos: o cuidado, o ciúme, o respeito, a confiança, o medo da perda. É uma das histórias de amor mais puras que o cinema foi capaz de produzir em anos, evidenciada pela excelência no trabalho de animação que reproduziu com esmero todos os movimentos dos personagens e deram vida a cada um deles.

O menos surpreendente, no entanto, é que, assim como boa parte dos filmes da Pixar, Wall-e é uma animação que agrada adultos, mas principalmente aqueles que amam o cinema (o que torna Wall-e a melhor produção da Pixar). Desde sua cena inicial (com a bela visão do planeta Terra acompanhada de uma belíssima trilha sonora – que é um caso a parte e mereceria um texto especial), Wall-e nasceu para emocionar e consegue isso muito bem através também de uma singela (mas encantadora) homenagem à história do cinema, com referências a grandes obras que até hoje cativam o público. Wall-e, solitário em sua humilde residência, assiste a trechos do musical Alô, Dolly!, enquanto tenta imitar os passos vistos na tela – em uma das cenas mais “fofas” que já presenciei no cinema. Wall-e é um daqueles momentos únicos, uma pérola cinematográfica inigualável e incontestável – revelando-se um dos maiores clássicos do cinema e a obra definitiva da Pixar, empresa conhecida por sua excelência e qualidade, que alcançou em Wall-e sua magnitude.

“Detona Ralph”: Rendição dos Games no Cinema?

Os fissurados por games sempre foram carentes de uma obra cinematográfica que abordasse o tema e fizesse jus a todo esse universo (que é rico, criativo e imenso). Daí que a Disney em mais uma tentativa de dominar o mundo aparece com Detona Ralph, uma animação que tem, aparentemente, a missão de ser a rendição dos games no cinema. E a proposta vai por água abaixo…

detona5Inicialmente, vou esclarecer duas situações: primeiro, eu nunca fui muito fã de games (o que não me torna necessariamente uma pessoa não indicada a escrever essa crítica, como você verá mais a frente); segundo, eu gostei de Detona Ralph. Os gamers de plantão podem me criticar, mas não achei que o longa seja esse caos que muita gente chata tem falado. Pelo contrário: dentro daquilo que se espera das produções dos estúdios Disney, Detona Ralph é uma daquelas animações que agradam como um todo – mas nunca a um grupo específico.

Basicamente: a história gira em torno de Ralph, o “vilão” de um jogo de fliperama que, cansado de ser tratado com desprezo pelos outros personagens de seu universo, tenta conquistar uma medalha em outro jogo para ser finalmente reconhecido. Acontece que sem Ralph, o game corre o risco de ser desligado e, enquanto busca sua medalha, o vilão se mete em confusões que podem colocar em risco os demais jogos do fliperama.

detona2A idéia é criativa e as referências ao universo gamer estão ali. Mas, até para um ser que não conhece tanto de game (leia-se aqui “eu”), essas referências poderiam ser muito mais bem utilizadas, especialmente em relação aos personagens dos jogos. Um exemplo de boa utilização que poderia ser levada em todo o restante do filme é uma das cenas iniciais, quando Ralph participa de uma espécie de “reunião” com outros vilões – e ali encontramos alguns personagens clássicos e nostálgicos para os que nasceram entre as décadas de 80 e 90.

Obviamente, a Disney encontrou problemas para recriar essas personagens no filme devido ao licenciamento (o que pode ser usado e como pode ser usado). Talvez isso tenha “engessado” um pouco o roteiro quanto às referências gamers e tenha deixado os viciados em jogos eletrônicos um pouco decepcionados. Por outro lado, uma boa observação se faz presente aqui: as crianças de hoje, acostumadas com games em alta definição e histórias mirabolantes, não entenderiam muito bem tais referências. Falo isso com a certeza de quem assistiu ao filme em uma sessão recheada de crianças (na maior parte entre 3 e 10 anos) e constatou que os pirralhos não estavam muito empolgados.

detona3Outra observação aqui: quem foi que disse que a história era sobre jogos eletrônicos? Não, não é essa a intenção. A narrativa é sobre um personagem de um game inventado – o universo gamer só serve de plano de fundo para o desenrolar da trama, mas o filme em si não tem essa pretensão, apesar das referências estarem presentes. Se o longa não é sobre videogames, então, cada um vai dar a sua visão especial para a história – e, se tratando da Disney, não teríamos como esperar algo muito diferente, certo? Ou seja: o choro dos fãs mais alucinados por jogos não tem uma razão muito palpável.

Daí concluímos que Detona Ralph é uma daquelas produções que funciona bem para quem quer assistir a uma animação sem muita pretensão. Os personagens são divertidos e cativantes, enquanto a história segue por um fluxo coerente que desperta o seu interesse. É divertido – mas não te fará rolar ao chão de tanto rir. Apesar das comparações óbvias com Toy Story (os personagens do fliperama ganham vida quando as máquinas são desligadas, assim como os brinquedos de Woody quando não há um humano por perto), Detona Ralph não é um clássico conto de fadas da Disney, apesar de alguns elementos que remetem a tudo aquilo que consagrou a empresa – e talvez por isso tenha afugentado certos cinéfilos e gamers.

detona6Detona Ralph é um dos indicados ao Oscar de melhor animação, concorrendo com FrankenweenieValentePiratas PiradosParaNorman. Com muita  honestidade (afinal, fui assistir ao filme sem muita empolgação), acredito que é o único que mereça tirar o prêmio de Burton (se Valente faturar esse Oscar, eu faço uma carta de próprio punho à Academia), caso Frankenweenie não ganhe – fato para o qual já estou me preparando psicologicamente. Apesar de não agradar necessariamente nenhum grupo específico, Detona Ralph funciona, principalmente, para mostrar que a Disney ainda tem culhões para criar boas animações, ainda que muitos torçam o nariz para algumas de suas obras – prova disso  são as boas críticas que tem recebido (no site Rotten Tomatoes, ele tem 86% de aprovação). Bom, não se pode agradar a todos. Ralph que o diga…

Disney + Lucasfilm: o que se pode esperar?

Uma notícia movimentou a comunidade cinematográfica (e os nerds de plantão) nesta última semana: a Disney – sim, a empresa do Mickey – comprou a produtora Lucasfilm – sim, da saga Star Wars -, do lendário cineasta George Lucas. O valor da transação saiu pela bagatela de 4 bilhões de dólares – valor bem menor daquilo que foi pago pela aquisição da Pixar, em 2006, que saiu por pouco mais de 7 bilhões de dólares. E, assim como aconteceu com a empresa de John Lasseter, já surgem as mais diversas opiniões sobre esta aquisição, mas todas tentando responder a uma mesma pergunta: qual será o futuro de Star Wars?

A imagem mais vista nas últimas semanas.

Vamos entender, primeiramente, o que tudo isso significa. A Walt Disney Pictures é, hoje, simplesmente o maior conglomerado de mídia e entretenimento da indústria. Fundada em 1923, é dona de uma porrada de marcas e produtos, responsável por angariar fãs das mais diversas idades em todo o mundo, apaixonados por seus personagens e histórias. Foi a empresa que produziu o primeiro longa metragem em animação da história, o clássico Branca de Neve e os Sete Anões, que se tornou um modelo na produção de animações até hoje e apresentou ao mundo aquilo que seria uma “marca” dos filmes Disney: histórias de contos de fadas recheados de magia, músicas pegajosas, animaizinhos antropomorfizados, vilões malvados, princesas meigas, final feliz e etc…

Cena de “Fantasia”, um clássico (entre tantos outros) dos estúdios Disney.

Já a Lucasfilm, fundada em 1971, é a produtora de filmes e efeitos especiais (excelentes, diga-se de passagem) do cineasta George Lucas, conhecida principalmente por produzir os seis filmes da série Star Wars, terceira série  cinematográfica mais lucrativa de todos os tempos (perdendo para o bruxinho Harry Potter e James Bond). Criada pelo próprio George, Star Wars se tornou não apenas uma franquia cinematográfica de sucesso, mas desencadeou uma série de outros produtos (jogos, quadrinhos, séries de TV e outros), transformando Star Wars em um fenômeno mundial da cultura pop.

Assim, com o contrato anunciado nos últimos dias, a Lucasfilm passa a fazer parte do conglomerado Walt Disney, juntando-se a empresas como a Marvel, a Touchstone Pictures, Buena Vista, entre outras. Daí, você pode argumentar o seguinte: duas empresas fantásticas, quando se juntam, só pode resultar em algo fantástico, certo? Então… há discussões. Não é porque duas empresas produzem produtos bons que o produto de sua fusão também será bom. Um exemplo dentro do próprio universo Disney é a aquisição da Pixar. Antes da compra, a Pixar era responsável pela produção dos filmes, enquanto a Disney ficava responsável pela distribuição dos longas. Agora, há enormes críticas envolvendo essa fusão e o que muitos argumentam é que, após ser comprada pela Disney, a Pixar acabou “perdendo a mão” e se rendendo aos encantos da empresa do ratinho Mickey. De fato, os últimos filmes Pixar começam a dar sinais de alerta: ValenteCarros 2 foram desastres de crítica e público, alcançando os piores índices de aprovação dos filmes da empresa. Por outro lado, juntas, Disney e Pixar produziram Toy Story 3Up – Altas AventurasWall-e, considerados excelentes filmes.

Mais um exemplo positivo: em parceria com a Marvel desde 2009, a Disney criou o sucesso Os Vingadores, terceira maior bilheteria de todos os tempos – em boa parte, devido às sessões em 3D que, em geral, custam em média o dobro das sessões convencionais. Mas não é só nas bilheterias que Os Vingadores se destaca: o filme também é sucesso de crítica – alguns consideram a melhor adaptação de heróis já produzidas no cinema. E já foi anunciada a continuação do longa para 2015.

Da mesma forma, há opiniões divididas entre os fãs da saga Star Wars. Criada inicialmente em 1977, a primeira trilogia foi lançada em espaço de 3 anos. Dezesseis anos após o término da primeira sequencia, uma nova trilogia foi  lançada, seguindo o mesmo espaço de três anos. Foi uma série que mudou a cara da indústria cinematográfica, em uma época onde grandes diretores surgiam – como Steven Spielberg, Coppola e Scorcese. Com Star Wars, nascia os chamados blockbusters, conquistando uma legião de fãs e admiradores da franquia. Agora, o sétimo episódio da saga já foi anunciado pela Disney – assim, para causar mesmo! – e os fãs que cresceram com a série já começam a ficar alvoroçados.

George Lucas, um gênio por definição, é cultuado até hoje pelos fãs da série – apesar das escorregadas dos últimos episódios.

A preocupação é uma só: e se a Disney resolver colocar a mãozinha onde não deve? É uma hipótese muito válida. Não que a Disney seja uma produtora ruim – afinal, seria sacanagem falar isso da empresa que criou O Rei Leão, PinóquioA Bela e a Fera e tantos outros filmes e personagens que povoam o imaginário infantil. Mas há uma probabilidade de “infantilizar” Star Wars? Sim, há. Mas também há a possibilidade de se fazer algo extraordinário com isso – e, se tratando da Disney, essa última é a mais provável.

Quando adquiriu a Marvel, a Disney foi criticada duramente, pois ninguém acreditava que a empresa poderia criar bons filmes de super-heróis. Daí a Disney cospe Os Vingadores na cara dos críticos e todo mundo fica calado. Muita gente torce o nariz para os últimos filmes da Pixar, mas e Toy Story 3, como fica? Não dá para saber ao certo o que vai acontecer daqui pra frente. Se pensarmos racionalmente, vamos chegar à conclusão de que a Disney é uma companhia inteligente e que quer alcançar lucros. Dificilmente eles farão algo que não possa arrancar milhões dos bolsos dos telespectadores. Alem disso, tem muita gente que argumenta que após os últimos episódios da série, nada poderá ficar pior em Star Wars.

Fãs de Star Wars, não se desesperem: está aí o máximo que pode acontecer com os personagens da série. #NOT

Nisso tudo, o mais admirável é a posição de George Lucas. Que gênio abriria mão de toda sua obra? Foi uma das atitudes mais admiráveis que já vi na vida: o cara cria um império, um universo que muda toda uma geração e, ao ver que não vai mais poder seguir com ele, decide coloca-lo nas mãos de outro – quando muitos o guardariam para si e morreriam com seu legado. George já havia declarado diversas vezes que não voltaria a fazer Star Wars, lembre-se disso. Colocar seu universo nas mãos do ratinho Mickey foi a solução mais viável para que seu universo não morra – ao menos tão cedo.

O que certamente vai acontecer é a Disney querer faturar com Star Wars – afinal, qual seria o motivo da compra? Apenas preservar a obra de George Lucas? Aham, está bem, vou acreditar nisso. É certo que a Disney vai criar milhares de produtos da franquia para alavancar sua receita – e isso vai desde cadernos até parques temáticos, já imaginou? A maior certeza é que a saga Star Wars ainda tem muito a faturar antes de morrer – se é que isso vai um dia acontecer. Façam suas apostas.