“Carros 3”: Pixar se Redime Com Melhor Filme da Série

Carros sempre foi considerado um dos poucos fracassos da parceria entre Disney e Pixar, mas devido a sua própria “essência” é um produto que vende bem (há quem diga, inclusive, que a única razão para Carros existir é a ampla comercialização da marca). Só isso explica o terceiro longa da franquia – que, felizmente, é a redenção dos estúdios, já que Carros 3 é o melhor filme protagonizado pelo corredor Relâmpago McQueen. Ok, faltaria muito para que essa nova aventura estrelada por automóveis falantes estivesse na lista dos grandes títulos da Pixar, mas, até aqui, Carros 3 é a produção mais bem executada e madura da série.

O argumento é batido: a velha crise do herói de outrora ultrapassado pela juventude. Neste caso, falamos do lendário McQueen – literalmente ultrapassado pelos carros mais jovens que entraram no circuito de corridas. Afastado repentinamente daquilo que mais ama devido a um acidente, seu maior desejo agora é voltar a ser um campeão, contando para isso com o auxílio da treinadora Cruz Ramirez.

Carros 3 é um filme de esporte, narrado de forma robusta e com muito mais profundidade que seus antecessores. Com sua história repleta de alegorias e metáforas, o longa dirigido pelo estreante Brian Fee trata sobre o processo natural de envelhecimento, sendo o capítulo da série com mais “cara” de Pixar. Se a franquia sempre fora acusada de ser mais voltada às crianças, Carros 3 apresenta uma trama muito mais desenvolvida – praticamente uma homenagem ao primeiro longa e com claras referências aos anos 80, principalmente ao clássico Rocky – Um Lutador. Há um trecho em que quase se recria uma cena do título oitentista, isso sem falar na construção do protagonista Relâmpago McQueen – cujo maior rival é ele mesmo, já que além de suas limitações “biológicas” (ele já não possui o mesmo gás de antigamente) há também a questão de aceitar que o tempo passou e, inevitavelmente, a hora de parar está próxima. Apesar de ser desprezada em alguns instantes como antagonista, Cruz Ramirez também é uma personagem interessante e que agrega certo “feminismo” a um tipo de narrativa que, inicialmente, seria capaz de agradar apenas o público masculino. Com ela, algumas pontas são abertas até mesmo para uma sequência.

Com um visual bastante agradável (as cenas de corrida são ótimas), Carros 3 ainda leva uma vantagem em relação aos demais: já que a película anterior é descartável e pouco expressiva, este novo episódio é praticamente uma continuação direta (e louvável) do primeiro filme e, por mais que esteja longe de receber o selo de qualidade da Pixar, redime os estúdios pelos erros cometidos na franquia até então.

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“Meu Amigo, o Dragão”: Disney Recria Clássico Sem Abandonar a Magia

01A Disney escancarou mesmo a temporada de readaptações de seus clássicos – e agora, chega aos cinemas Meu Amigo, o Dragão, nova versão do filme dirigido por Don Chaffey, em 1977. Ao contrário do original, que se utilizava da mesma técnica do consagrado Mary Poppins (misturar personagens reais com elementos animados), este Meu Amigo, o Dragão é rodado predominantemente em live action – já a tal criatura do título é feita através de computação gráfica, dando uma nova roupagem à uma história já conhecida do público saudosista.

Quer dizer, parcialmente conhecida – já que o argumento deste novo filme é ligeiramente diferente do anterior. A trama se passa nos dias atuais e acompanha uma família, que sofre um acidente de carro durante um passeio em meio a floresta. O único sobrevivente é Pete, o filho do casal que, à deriva naquele ambiente hostil, encontra Elliot – um dragão gigante com a incrível habilidade de ficar invisível. Os anos se passam: Pete está vivendo na floresta ao lado de Elliot e a amizade entre os dois se torna cada vez mais forte – já que agora eles só têm um ao outro. No entanto, o relacionamento entre eles fica ameaçado quando o pequeno Pete é descoberto por uma guarda florestal e levado à cidade. Desolado, Elliot não medirá esforços para resgatar seu companheiro, ainda que para isso ele mesmo tenha que correr alguns riscos.

Meu Amigo, o Dragão é, na verdade, um típico longa-metragem Disney e praticamente recicla todos os itens básicos de suas produções. O visual é rico e a fotografia serve muito bem à proposta. Os tons de verde são exuberantes – inclusive os de Elliot, que aqui chama a atenção pelo excelente trabalho de computação gráfica. Outro ponto favorável de Meu Amigo, o Dragão é sua trilha sonora: apesar de abandonar totalmente o gênero musical do primeiro filme, a música é marcante, inserida em momentos oportunos que ora acentuam a carga dramática da cena ora traduzem o tom leve da narrativa. Os personagens, por sua vez, apesar de não muito bem desenvolvidos, são carismáticos (talvez por conta do bom desempenho do elenco, que conta com nomes como Bryce Dallas Howard, Wes Bentley e Robert Redford). Entretanto, curiosamente nenhum deles consegue ser tão interessante quanto o próprio Elliot. Ele recua no tom “brincalhão” da primeira fita, apresentando uma postura quase humanizada. Sua relação com Pete é invertida: é o garoto quem quase assume o papel de bicho de estimação.

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Cativante do início ao fim e repleto de aventura e fantasia, Meu Amigo, o Dragão trata de vários temas, como a amizade e família. No entanto, também critica a interferência do ser humano na natureza e como as consequências podem ser catastróficas. Mesmo com um roteiro fácil e previsível (escrito pelo próprio diretor David Lowery em parceria com Toby Halbrooks), Meu Amigo, o Dragão consegue reinventar toda a magia Disney que durante anos tem encantado a milhares de pessoas – e prova que a empresa ainda é capaz de conquistar uma nova audiência mesmo ao apresentar personagens que já amamos e já fazem parte de nossas vidas.

Wall-e

Começo esta crítica com uma confissão arriscada: para mim, Wall-e é a melhor obra da Pixar em todos os tempos. Digo que é arriscado porque, bem, estamos falando da Pixar – empresa à frente de sucessos como a trilogia Toy Story, Up – Altas Aventuras ou Procurando Nemo. Mas tenho algumas especulações que sustentariam minha tese (ou ao menos minha modesta opinião) de que Wall-e é a obra-prima dos estúdios de John Lasseter; um verdadeiro trunfo da animação e uma das produções mais cativantes que eu já tive o imenso prazer em assistir.

04Pelo princípio: assim como em outras produções da Pixar, Wall-e possui protagonistas improváveis (a não ser que você ache comum brinquedos ou carros que falam, um rato que sonha em ser chefe de cozinha ou um peixe palhaço à procura do filho perdido). Neste caso, falamos do robozinho do título, único “habitante” de um planeta Terra bem diferente daquilo que poderíamos esperar em um filme que se passa no futuro: inóspita e repleta de lixo por todos os lados. Solitário, Wall-e passa seus dias na árdua tarefa de “limpar” a Terra (juntando todo o lixo acumulado durante gerações) enquanto coleciona objetos utilizados pelos humanos que, agora, vivem no espaço. No entanto, a rotina pacata de Wall-e muda com a chegada inesperada de Eva, uma sonda moderna e sofisticada enviada ao planeta com a missão de descobrir sinais de vida vegetal que indiquem um retorno da sustentabilidade da vida humana.

Com uma sinopse razoavelmente simples, muito pouco poderia se esperar de Wall-e. Até mesmo porque Wall-e, apesar de ser uma animação, não é feito diretamente para crianças. Há de se dizer, inclusive, que as crianças podem criar certa resistência ao filme – o que é completamente justificável. Wall-e foi feito para quem gosta de cinema. É a sétima arte em seu mais puro estado, uma experiência visual que remete o espectador aos primórdios da comédia muda (de Charles Chaplin a Buster Keaton, por exemplo), à ficção científica que tomou conta das telonas por volta da década de 70 e ao maior clichê cinematográfico de todos os gêneros: o encontro casual (e o desenrolar da relação) entre homem e mulher.

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O que torna Wall-e uma obra sublime (no mais amplo sentido da palavra) é que a experiência visual proporcionada pelo longa se estende sobre os itens anteriormente citados, mas de forma muito mais requintada. Comédia muda a começar porque Wall-e é um filme que conta sua história sem os artifícios do diálogo narrativo. Diria que, se muito, apenas um terço do filme tem diálogos falados. Toda a narrativa é contada através de suas imagens. Wall-e, por exemplo, exprime todas as suas emoções através praticamente de seus olhos (que transmitem tristeza, timidez, seu jeito desengonçado de ser e até mesmo seu interesse na humanidade). Esse mérito da produção é resultado de uma característica da Pixar com a qual já estamos habituados: a perfeição com que os estúdios trabalham sua técnica. Wall-e é simplesmente impecável do ponto de vista técnico. Isso fica evidenciado a cada momento através das belas imagens criadas pela equipe Pixar, enchendo os olhos do espectador com planos e sequências inspiradoras, formando uma fotografia ímpar. A cena do balé de Eva e Wall-e no espaço é uma daquelas sequencias cinematográficas para entrar na história – comparada às vassouras cheias de vida de Fantasia ou ao beijo inocente de A Dama e o Vagabundo.

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Em se tratando de ficção científica, Wall-e segue na contramão do roteiro que se poderia esperar do gênero. Não é apenas uma abordagem “futurista”, mas uma obra que propaga também questões ambientais (e por que não humanitárias) que vão muito alem do que muitos filmes, documentários ou obras do gênero pregam. A sátira ao consumo desenfreado, por exemplo, está presente claramente na quantidade de lixo acumulada ao longo dos anos e que o robô tenta, inutilmente, organizar. Com uma história simples, o longa passa uma mensagem muito mais direta e comovente do que muitos discursos ecológicos e humanitários por aí, até mesmo por uma razão: Wall-e é um filme otimista, há esperança de um futuro melhor. Isso fica evidenciado na forma como o robô coleciona os objetos humanos que o fascinam, como se a cada objeto, o melhor da raça humana fosse separado. É muita ternura em um único personagem.

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O encontro casual entre homem e mulher, finalmente, é ainda mais terno porque, neste caso, o casal em questão é formado por dois robôs. Isso não impede que a Pixar recrie uma fábula contemporânea (digo, futurista) sobre a solidão. Wall-e, quando encontra Eva, se apaixona de forma pura pelo robô. Na verdade, o que temos aqui é a simples história de um ser solitário que descobre o amor – e como o amor muda seu universo. É o amor em seu estado mais honesto e que produz os mais ricos sentimentos: o cuidado, o ciúme, o respeito, a confiança, o medo da perda. É uma das histórias de amor mais puras que o cinema foi capaz de produzir em anos, evidenciada pela excelência no trabalho de animação que reproduziu com esmero todos os movimentos dos personagens e deram vida a cada um deles.

O menos surpreendente, no entanto, é que, assim como boa parte dos filmes da Pixar, Wall-e é uma animação que agrada adultos, mas principalmente aqueles que amam o cinema (o que torna Wall-e a melhor produção da Pixar). Desde sua cena inicial (com a bela visão do planeta Terra acompanhada de uma belíssima trilha sonora – que é um caso a parte e mereceria um texto especial), Wall-e nasceu para emocionar e consegue isso muito bem através também de uma singela (mas encantadora) homenagem à história do cinema, com referências a grandes obras que até hoje cativam o público. Wall-e, solitário em sua humilde residência, assiste a trechos do musical Alô, Dolly!, enquanto tenta imitar os passos vistos na tela – em uma das cenas mais “fofas” que já presenciei no cinema. Wall-e é um daqueles momentos únicos, uma pérola cinematográfica inigualável e incontestável – revelando-se um dos maiores clássicos do cinema e a obra definitiva da Pixar, empresa conhecida por sua excelência e qualidade, que alcançou em Wall-e sua magnitude.

“Detona Ralph”: Rendição dos Games no Cinema?

Os fissurados por games sempre foram carentes de uma obra cinematográfica que abordasse o tema e fizesse jus a todo esse universo (que é rico, criativo e imenso). Daí que a Disney em mais uma tentativa de dominar o mundo aparece com Detona Ralph, uma animação que tem, aparentemente, a missão de ser a rendição dos games no cinema. E a proposta vai por água abaixo…

detona5Inicialmente, vou esclarecer duas situações: primeiro, eu nunca fui muito fã de games (o que não me torna necessariamente uma pessoa não indicada a escrever essa crítica, como você verá mais a frente); segundo, eu gostei de Detona Ralph. Os gamers de plantão podem me criticar, mas não achei que o longa seja esse caos que muita gente chata tem falado. Pelo contrário: dentro daquilo que se espera das produções dos estúdios Disney, Detona Ralph é uma daquelas animações que agradam como um todo – mas nunca a um grupo específico.

Basicamente: a história gira em torno de Ralph, o “vilão” de um jogo de fliperama que, cansado de ser tratado com desprezo pelos outros personagens de seu universo, tenta conquistar uma medalha em outro jogo para ser finalmente reconhecido. Acontece que sem Ralph, o game corre o risco de ser desligado e, enquanto busca sua medalha, o vilão se mete em confusões que podem colocar em risco os demais jogos do fliperama.

detona2A idéia é criativa e as referências ao universo gamer estão ali. Mas, até para um ser que não conhece tanto de game (leia-se aqui “eu”), essas referências poderiam ser muito mais bem utilizadas, especialmente em relação aos personagens dos jogos. Um exemplo de boa utilização que poderia ser levada em todo o restante do filme é uma das cenas iniciais, quando Ralph participa de uma espécie de “reunião” com outros vilões – e ali encontramos alguns personagens clássicos e nostálgicos para os que nasceram entre as décadas de 80 e 90.

Obviamente, a Disney encontrou problemas para recriar essas personagens no filme devido ao licenciamento (o que pode ser usado e como pode ser usado). Talvez isso tenha “engessado” um pouco o roteiro quanto às referências gamers e tenha deixado os viciados em jogos eletrônicos um pouco decepcionados. Por outro lado, uma boa observação se faz presente aqui: as crianças de hoje, acostumadas com games em alta definição e histórias mirabolantes, não entenderiam muito bem tais referências. Falo isso com a certeza de quem assistiu ao filme em uma sessão recheada de crianças (na maior parte entre 3 e 10 anos) e constatou que os pirralhos não estavam muito empolgados.

detona3Outra observação aqui: quem foi que disse que a história era sobre jogos eletrônicos? Não, não é essa a intenção. A narrativa é sobre um personagem de um game inventado – o universo gamer só serve de plano de fundo para o desenrolar da trama, mas o filme em si não tem essa pretensão, apesar das referências estarem presentes. Se o longa não é sobre videogames, então, cada um vai dar a sua visão especial para a história – e, se tratando da Disney, não teríamos como esperar algo muito diferente, certo? Ou seja: o choro dos fãs mais alucinados por jogos não tem uma razão muito palpável.

Daí concluímos que Detona Ralph é uma daquelas produções que funciona bem para quem quer assistir a uma animação sem muita pretensão. Os personagens são divertidos e cativantes, enquanto a história segue por um fluxo coerente que desperta o seu interesse. É divertido – mas não te fará rolar ao chão de tanto rir. Apesar das comparações óbvias com Toy Story (os personagens do fliperama ganham vida quando as máquinas são desligadas, assim como os brinquedos de Woody quando não há um humano por perto), Detona Ralph não é um clássico conto de fadas da Disney, apesar de alguns elementos que remetem a tudo aquilo que consagrou a empresa – e talvez por isso tenha afugentado certos cinéfilos e gamers.

detona6Detona Ralph é um dos indicados ao Oscar de melhor animação, concorrendo com FrankenweenieValentePiratas PiradosParaNorman. Com muita  honestidade (afinal, fui assistir ao filme sem muita empolgação), acredito que é o único que mereça tirar o prêmio de Burton (se Valente faturar esse Oscar, eu faço uma carta de próprio punho à Academia), caso Frankenweenie não ganhe – fato para o qual já estou me preparando psicologicamente. Apesar de não agradar necessariamente nenhum grupo específico, Detona Ralph funciona, principalmente, para mostrar que a Disney ainda tem culhões para criar boas animações, ainda que muitos torçam o nariz para algumas de suas obras – prova disso  são as boas críticas que tem recebido (no site Rotten Tomatoes, ele tem 86% de aprovação). Bom, não se pode agradar a todos. Ralph que o diga…

Disney + Lucasfilm: o que se pode esperar?

Uma notícia movimentou a comunidade cinematográfica (e os nerds de plantão) nesta última semana: a Disney – sim, a empresa do Mickey – comprou a produtora Lucasfilm – sim, da saga Star Wars -, do lendário cineasta George Lucas. O valor da transação saiu pela bagatela de 4 bilhões de dólares – valor bem menor daquilo que foi pago pela aquisição da Pixar, em 2006, que saiu por pouco mais de 7 bilhões de dólares. E, assim como aconteceu com a empresa de John Lasseter, já surgem as mais diversas opiniões sobre esta aquisição, mas todas tentando responder a uma mesma pergunta: qual será o futuro de Star Wars?

A imagem mais vista nas últimas semanas.

Vamos entender, primeiramente, o que tudo isso significa. A Walt Disney Pictures é, hoje, simplesmente o maior conglomerado de mídia e entretenimento da indústria. Fundada em 1923, é dona de uma porrada de marcas e produtos, responsável por angariar fãs das mais diversas idades em todo o mundo, apaixonados por seus personagens e histórias. Foi a empresa que produziu o primeiro longa metragem em animação da história, o clássico Branca de Neve e os Sete Anões, que se tornou um modelo na produção de animações até hoje e apresentou ao mundo aquilo que seria uma “marca” dos filmes Disney: histórias de contos de fadas recheados de magia, músicas pegajosas, animaizinhos antropomorfizados, vilões malvados, princesas meigas, final feliz e etc…

Cena de “Fantasia”, um clássico (entre tantos outros) dos estúdios Disney.

Já a Lucasfilm, fundada em 1971, é a produtora de filmes e efeitos especiais (excelentes, diga-se de passagem) do cineasta George Lucas, conhecida principalmente por produzir os seis filmes da série Star Wars, terceira série  cinematográfica mais lucrativa de todos os tempos (perdendo para o bruxinho Harry Potter e James Bond). Criada pelo próprio George, Star Wars se tornou não apenas uma franquia cinematográfica de sucesso, mas desencadeou uma série de outros produtos (jogos, quadrinhos, séries de TV e outros), transformando Star Wars em um fenômeno mundial da cultura pop.

Assim, com o contrato anunciado nos últimos dias, a Lucasfilm passa a fazer parte do conglomerado Walt Disney, juntando-se a empresas como a Marvel, a Touchstone Pictures, Buena Vista, entre outras. Daí, você pode argumentar o seguinte: duas empresas fantásticas, quando se juntam, só pode resultar em algo fantástico, certo? Então… há discussões. Não é porque duas empresas produzem produtos bons que o produto de sua fusão também será bom. Um exemplo dentro do próprio universo Disney é a aquisição da Pixar. Antes da compra, a Pixar era responsável pela produção dos filmes, enquanto a Disney ficava responsável pela distribuição dos longas. Agora, há enormes críticas envolvendo essa fusão e o que muitos argumentam é que, após ser comprada pela Disney, a Pixar acabou “perdendo a mão” e se rendendo aos encantos da empresa do ratinho Mickey. De fato, os últimos filmes Pixar começam a dar sinais de alerta: ValenteCarros 2 foram desastres de crítica e público, alcançando os piores índices de aprovação dos filmes da empresa. Por outro lado, juntas, Disney e Pixar produziram Toy Story 3Up – Altas AventurasWall-e, considerados excelentes filmes.

Mais um exemplo positivo: em parceria com a Marvel desde 2009, a Disney criou o sucesso Os Vingadores, terceira maior bilheteria de todos os tempos – em boa parte, devido às sessões em 3D que, em geral, custam em média o dobro das sessões convencionais. Mas não é só nas bilheterias que Os Vingadores se destaca: o filme também é sucesso de crítica – alguns consideram a melhor adaptação de heróis já produzidas no cinema. E já foi anunciada a continuação do longa para 2015.

Da mesma forma, há opiniões divididas entre os fãs da saga Star Wars. Criada inicialmente em 1977, a primeira trilogia foi lançada em espaço de 3 anos. Dezesseis anos após o término da primeira sequencia, uma nova trilogia foi  lançada, seguindo o mesmo espaço de três anos. Foi uma série que mudou a cara da indústria cinematográfica, em uma época onde grandes diretores surgiam – como Steven Spielberg, Coppola e Scorcese. Com Star Wars, nascia os chamados blockbusters, conquistando uma legião de fãs e admiradores da franquia. Agora, o sétimo episódio da saga já foi anunciado pela Disney – assim, para causar mesmo! – e os fãs que cresceram com a série já começam a ficar alvoroçados.

George Lucas, um gênio por definição, é cultuado até hoje pelos fãs da série – apesar das escorregadas dos últimos episódios.

A preocupação é uma só: e se a Disney resolver colocar a mãozinha onde não deve? É uma hipótese muito válida. Não que a Disney seja uma produtora ruim – afinal, seria sacanagem falar isso da empresa que criou O Rei Leão, PinóquioA Bela e a Fera e tantos outros filmes e personagens que povoam o imaginário infantil. Mas há uma probabilidade de “infantilizar” Star Wars? Sim, há. Mas também há a possibilidade de se fazer algo extraordinário com isso – e, se tratando da Disney, essa última é a mais provável.

Quando adquiriu a Marvel, a Disney foi criticada duramente, pois ninguém acreditava que a empresa poderia criar bons filmes de super-heróis. Daí a Disney cospe Os Vingadores na cara dos críticos e todo mundo fica calado. Muita gente torce o nariz para os últimos filmes da Pixar, mas e Toy Story 3, como fica? Não dá para saber ao certo o que vai acontecer daqui pra frente. Se pensarmos racionalmente, vamos chegar à conclusão de que a Disney é uma companhia inteligente e que quer alcançar lucros. Dificilmente eles farão algo que não possa arrancar milhões dos bolsos dos telespectadores. Alem disso, tem muita gente que argumenta que após os últimos episódios da série, nada poderá ficar pior em Star Wars.

Fãs de Star Wars, não se desesperem: está aí o máximo que pode acontecer com os personagens da série. #NOT

Nisso tudo, o mais admirável é a posição de George Lucas. Que gênio abriria mão de toda sua obra? Foi uma das atitudes mais admiráveis que já vi na vida: o cara cria um império, um universo que muda toda uma geração e, ao ver que não vai mais poder seguir com ele, decide coloca-lo nas mãos de outro – quando muitos o guardariam para si e morreriam com seu legado. George já havia declarado diversas vezes que não voltaria a fazer Star Wars, lembre-se disso. Colocar seu universo nas mãos do ratinho Mickey foi a solução mais viável para que seu universo não morra – ao menos tão cedo.

O que certamente vai acontecer é a Disney querer faturar com Star Wars – afinal, qual seria o motivo da compra? Apenas preservar a obra de George Lucas? Aham, está bem, vou acreditar nisso. É certo que a Disney vai criar milhares de produtos da franquia para alavancar sua receita – e isso vai desde cadernos até parques temáticos, já imaginou? A maior certeza é que a saga Star Wars ainda tem muito a faturar antes de morrer – se é que isso vai um dia acontecer. Façam suas apostas.

Haja Coragem Para Assistir “Valente”

É desnecessário dizer que a Pixar nos deixou mal acostumados. Afinal, ao longo dos anos, a qualidade inegável de seus filmes só produziu aquela sensação de que sempre podemos esperar um pouco mais do estúdio. Entretanto, há pouco mais de 5 anos, a Pixar juntou forças com a Disney – e Valente, que chegou aos cinemas brasileiros essa semana, mostra os primeiros (e preocupantes) sinais dessa junção que está desencadeando uma grande crise de criatividade na empresa.

Valente, de longe, lembra muito mais um daqueles clássicos dos estúdios Disney. Tem tudo ali: princesas, bruxas, poções mágicas, animais antropomorfizados, trilha sonora com músicas pegajosas, lição moralista, etc. Daí alguém pode perguntar “mas não foi justamente isso que criou todo o sucesso da Disney?” e eu respondo que sim, afinal, estamos falando da empresa que revolucionou a animação no cinema e criou clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões, Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, A Bela e a Fera, O Rei Leão, só para citar alguns. O problema com Valente reside justamente no currículo da Pixar e as expectativas que temos sobre ela.

Família ainda permanece como um dos temas centrais das obras Pixar.

Quem imaginaria que um robô futurista apaixonado, um peixe palhaço, um boneco caubói com sentimentos ou mesmo um rato com dotes culinários poderiam, em algum momento, ser protagonistas de uma animação? A marca registrada da Pixar durante quase 2 décadas de existência foi criar personagens nada convencionais, apostando em histórias incomuns e sempre (sempre mesmo) nos surpreendendo. Exatamente por isso, Valente, para os amantes dos filmes do estúdio, parece muito mais um conto da carrochinha do que um produto Pixar.

O roteiro, baseado em lendas escocesas, tem como pano de fundo a cultura bretã e narra a trajetória de Merida, uma jovem princesa que, para fugir de um casamento arranjado, recorre à uma bruxa que transforma sua mãe em um urso. Ao longo da história, Merida tenta desfazer o feitiço e recuperar sua mãe, ao mesmo tempo em que deve restabelecer os laços com sua progenitora.

Alguns traços inerentes às obras da Pixar, até então, estão presentes ali. O primeiro está no conceito de família, aqui representado pelo relacionamento entre pais e filhos. Merida está mais próxima, espiritualmente falando, à figura paterna (guerreiro, destemido, valente) do que à sua mãe (educada, sensata, acolhedora). É como se a garota estivesse entre a cruz e a espada, estando mais propensa à liberdade (representada pelo pai) do que à tradição (espelhada na mãe). Aqui, a princesa também luta por seu final feliz – mas, diferente do que acontece nos contos de fadas tradicionais, este final feliz não inclui o casamento com o príncipe encantado. Para Merida, seu happy ending é sua liberdade para fazer o que quiser ou mesmo para amar a quem desejar. É o primeiro longa da Pixar a ter como protagonista uma “mulher”. Entretanto, Merida age muito mais como um garoto de oito anos do que uma princesa tradicional dos estúdios Disney. Talvez tenha sido estratégia para não afastar completamente os garotos e também para fugir das comparações com o fiasco A Princesa e o Sapo.

E o destino que tanto foi pregado no inicio do longa? Cadê?

O problema no roteiro se mostra em um filme que mesmo curto (cerca de 1 hora e meia) se torna cansativo. Tudo é muito clichê e coincidente e falta uma boa dose de humor. Assisti a uma sessão com a sala recheada de crianças e pais e pude contar as poucas risadas que ouvi. Para ser honesto, teve apenas uma única sequência em que eu realmente ri – e não lembro qual foi, o que quer dizer que não foi uma cena tão marcante. As únicos instantes cômicos da trama se revelavam na figura dos irmãos trigêmeos de Merida e na tentativa de sua mãe em se adaptar às suas próprias convenções no corpo de um urso.

Okay, nem tudo em Valente é ruim. Como sempre, a Pixar dá uma aula nos cenários – que são de tirar o fôlego. As belas paisagens escocesas foram retratadas com perfeição e aproximam ainda mais as animações dos filmes em live action. Bom, o melhor exemplo disto é o cabelo excepcional de Merida: vermelho, desalinhado, jogado ao vento (representando muito bem o espírito da jovem e contrastando com o penteado contido e alinhado da mãe) e que tomou quase 1/3 de toda a produção, que durou 6 anos. O 3D, também, apesar de não ter muito exagero, também me impressionou. Geralmente, efeitos 3D são usados em cenas com objetos sendo arremessados ou caindo de grandes alturas, esbanjando falta de criatividade. Aqui, os efeitos nos deixavam praticamente dentro da história, quase sentindo a brisa das árvores ou a água da cachoeira no rosto.

Rebeldia adolescente. Então…

Há também uma ou outra sequência que até divirta ou mesmo mereça atenção, como a inicial, quando o pai de Merida enfrenta um urso gigante, ou mesmo o duelo de arco e flecha quando, para disputar sua própria mão e não ser obrigada a casar, Merida com dificuldades para atirar, rasga seu vestido colado, revelando suas formas – numa cena até certo ponto sensual, assim como sua mãe nua (okay, coberta) após ser liberta do feitiço. Ah, e obviamente, destaque também para o belíssimo curta La Luna, exibido antes do filme, que é uma verdadeira preciosidade. Vale a pena você chegar antes para ver esse espetáculo.

“La Luna”, já considerado a obra-prima dos curtas da Pixar, é o que mais vale o ingresso.

Valente já rendeu, apenas nos EUA, mais de US$ 200 milhões, o que não é ruim se a animação fosse feita por qualquer outro estúdio, menos a Pixar, acostumada a gerar blockbusters. Se ajustarmos a inflação, Valente é a segunda pior bilheteria do estúdio, perdendo apenas para Carros 2 (que, até agora, foi o único longa da Pixar sem nenhuma indicação ao Oscar). Além disso, Valente é a terceira animação da Pixar a ficar abaixo dos 90% de críticas positivas, faturando míseros 76% de aprovação (o que é alto, mas não para a empresa que criou Wall-e, Up Altas Aventuras e Toy Story), perdendo também para os dois filmes da franquia Carros.

Mas tudo bem Carros e Carros 2 não irem muito bem. Afinal, essa franquia, claramente, é uma tentativa da Disney de vender brinquedinhos e faturar alto com produtos. Certo? Mas Valente não tem esse perfil. E se Carros consegue faturar alto com a venda de sua linha é porque, ainda que fraco, os personagens tem algum tipo de potencial. Não é o que acontece com Valente, cujos personagens individualmente não tem grande representatividade, a começar por sua protagonista, que durante todo o filme é apenas uma mera espectadora de todos os acontecimentos e não faz jus ao título.

“Carros”: estratégia para aumentar faturamento ou deslize da Pixar?

Ao que parece, a Pixar está se rendendo à Disney. Prova disso é a produção de continuações ao invés de apostar em novas personagens. Além de Carros 2, já foram anunciadas as continuações de Monstros S.A. e Procurando Nemo. Ou seja, limita-se a criatividade da empresa para apostar em tipos já conhecidos, numa tentativa explícita de se faturar um pouco mais do público. Valente é um filme mediano. Tem um visual deslumbrante (mesmo, sem exageros), mas pouco estimula o público, seja crianças ou os pais delas. Apostou numa fórmula certeira da Disney, os contos de fadas com lição de moral, mas decepcionou os espectadores acostumados aos personagens pouco convencionais e ortodoxos. Valente é um bom desenho para os padrões Disney, mas muito abaixo do padrão inovador e criativo da Pixar.

Pixar: A Fantástica Fábrica de Sonhos Americana

A fusão entre Pixar e Walt Disney rendeu uma parceria de sucesso. Enquanto a primeira empresa se encarrega de toda a produção, a segunda cuida de todos os aspectos relacionados à distribuição dos filmes. Há quem faça comparações entre os dois estúdios, o que é previsível e justificado: cada um deles, em sua determinada época, trouxe uma relevante contribuição para o cinema.

Se durante muito tempo a Disney povoou o imaginário de milhares de pessoas com suas produções mágicas e encantadoras, hoje é a Pixar quem mora no coração desta geração mais moderna – e por esta razão, a empresa recebeu o merecido titulo de “nova fábrica dos sonhos norte-americana”. Com essa perspectiva em mente, Robert Velarde apresenta sua obra “A Fábrica de Sonhos da Pixar”.

Guia dos filmes Pixar, "A Fábrica de Sonhos da Pixar" fala sobre os temas centrais da obra do estúdio.

 

Que os filmes da Pixar são divertidos e garantia de entretenimento, todo mundo concorda. O que Robert pretende com seu livro é mostrar outro lado da obra do estúdio que revolucionou a maneira de se fazer animação – e que muitas vezes é dificilmente percebido pelo público. Praticamente em todos os longas-metragens da empresa é possível identificar valores humanos que vão além da simples animação feita por computação gráfica.

A trilogia "Toy Story" trata abertamente do tema da amizade.

 

Longe de ser um livro de caráter religioso, Robert traça o perfil dos dez primeiros filmes do estúdio sob um olhar ético, baseado nas virtudes que encontramos nos ensinamentos religiosos cristãos. Temas centrais das histórias como amizade, família, coragem e outros são abordados por Robert sob uma perspectiva que nos leva a repensar e refletir sobre nossos valores mais essenciais e como podemos construir um mundo melhor tendo-os como base de nossas vidas.

Em "Up - Altas Aventuras", temos uma maravilhosa sequencia que mostra todo o amor do tímido Carl por sua esposa.

 

Muitas vezes, somos tão surpreendidos pelas histórias e pelas extraordinárias animações dos filmes que não percebemos os conceitos mais simples que podem ser absorvidos ali. E é justamente esse o intuito de Robert: levantar debates. No final de cada capítulo, há uma série de perguntas que podem ser respondidas individualmente ou em grupo – o que mostra também o direcionamento (pseudo) didático da obra.

Já em "Wall-e", o robô inocente e, por vezes, infantil se apaixona por Eva. Além disso, a questão da tecnologia nos nossos tempos também é abordada.

 

Em “Procurando Nemo” ou “Up – Altas Aventuras”, é possível levantar um debate sobre os valores humanísticos relacionados à família (seja na relação entre pai e filho ou no amor maduro de um casal apaixonado). Já na trilogia “Toy Story”, o sentimento de amizade é predominante. Em “Vida de Inseto”, o segundo filme da Pixar, encontramos nitidamente aspectos relacionados à justiça e à coragem.

Aparentemente, “A Fábrica de Sonhos da Pixar” pode parecer um livro de caráter cristão. Mas não o é. De fato, há diversas referencias a textos bíblicos – portanto, a leitura do livro acompanhada de uma Bíblia pode ajudar bastante – e relações dos temas centrais com a vida cristã. Mas, como cito, trata-se de ensinamentos da vida cristã – e não apenas da vida religiosa, protestante. Robert conduz o leitor a experimentar a sensação de que podemos ser pessoas melhores a partir do momento que refletimos sobre a vida e sobre seus verdadeiros valores. Tanto é que os primeiros dois capítulos do livro são dedicados a uma visão geral sobre os conceitos de virtude e sabedoria, assim como falam sobre dois pontos essenciais nos filmes da Pixar, a imaginação e a criatividade – que são fatores importantes dentro da vida cristã.

Leitura obrigatória, para os amantes das obras da empresa, “A Fábrica de Sonhos da Pixar” é um guia dos filmes do estúdio sob a ótica moral e ética. Mais do que um livro biográfico, é um bom material para debate que nos leva a refletir (individualmente ou em grupo) sobre os tópicos mais essenciais na vida humana, como a amizade, o amor, a justiça, fé e, sem dúvida alguma, nossa capacidade de sonhar.