“Meu Amigo, o Dragão”: Disney Recria Clássico Sem Abandonar a Magia

01A Disney escancarou mesmo a temporada de readaptações de seus clássicos – e agora, chega aos cinemas Meu Amigo, o Dragão, nova versão do filme dirigido por Don Chaffey, em 1977. Ao contrário do original, que se utilizava da mesma técnica do consagrado Mary Poppins (misturar personagens reais com elementos animados), este Meu Amigo, o Dragão é rodado predominantemente em live action – já a tal criatura do título é feita através de computação gráfica, dando uma nova roupagem à uma história já conhecida do público saudosista.

Quer dizer, parcialmente conhecida – já que o argumento deste novo filme é ligeiramente diferente do anterior. A trama se passa nos dias atuais e acompanha uma família, que sofre um acidente de carro durante um passeio em meio a floresta. O único sobrevivente é Pete, o filho do casal que, à deriva naquele ambiente hostil, encontra Elliot – um dragão gigante com a incrível habilidade de ficar invisível. Os anos se passam: Pete está vivendo na floresta ao lado de Elliot e a amizade entre os dois se torna cada vez mais forte – já que agora eles só têm um ao outro. No entanto, o relacionamento entre eles fica ameaçado quando o pequeno Pete é descoberto por uma guarda florestal e levado à cidade. Desolado, Elliot não medirá esforços para resgatar seu companheiro, ainda que para isso ele mesmo tenha que correr alguns riscos.

Meu Amigo, o Dragão é, na verdade, um típico longa-metragem Disney e praticamente recicla todos os itens básicos de suas produções. O visual é rico e a fotografia serve muito bem à proposta. Os tons de verde são exuberantes – inclusive os de Elliot, que aqui chama a atenção pelo excelente trabalho de computação gráfica. Outro ponto favorável de Meu Amigo, o Dragão é sua trilha sonora: apesar de abandonar totalmente o gênero musical do primeiro filme, a música é marcante, inserida em momentos oportunos que ora acentuam a carga dramática da cena ora traduzem o tom leve da narrativa. Os personagens, por sua vez, apesar de não muito bem desenvolvidos, são carismáticos (talvez por conta do bom desempenho do elenco, que conta com nomes como Bryce Dallas Howard, Wes Bentley e Robert Redford). Entretanto, curiosamente nenhum deles consegue ser tão interessante quanto o próprio Elliot. Ele recua no tom “brincalhão” da primeira fita, apresentando uma postura quase humanizada. Sua relação com Pete é invertida: é o garoto quem quase assume o papel de bicho de estimação.

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Cativante do início ao fim e repleto de aventura e fantasia, Meu Amigo, o Dragão trata de vários temas, como a amizade e família. No entanto, também critica a interferência do ser humano na natureza e como as consequências podem ser catastróficas. Mesmo com um roteiro fácil e previsível (escrito pelo próprio diretor David Lowery em parceria com Toby Halbrooks), Meu Amigo, o Dragão consegue reinventar toda a magia Disney que durante anos tem encantado a milhares de pessoas – e prova que a empresa ainda é capaz de conquistar uma nova audiência mesmo ao apresentar personagens que já amamos e já fazem parte de nossas vidas.

O Universo Fantástico de “O Conto dos Contos”

Geralmente, os contos de fadas se iniciam com a expressão “Era uma vez…” e se despedem com o célebre “…e viveram felizes para sempre”. Ao menos, foi assim que nossa cultural “cinematográfica” nos ensinou. Repare, por exemplo, na influência de Walt Disney: suas obras mais memoráveis são justamente os contos que povoaram a imaginação de cinéfilos ao longo das últimas décadas – o que contribuiu (e muito) para a criação de seu império. Mas as histórias Disney, definitivamente, estão muito longe de referenciar como deveriam o material que as originou. Princesas fofas? Heróis valentes? Animais antropomorfizados? Deixe isso de lado – e talvez assim você será capaz de apreciar como se deve o longa O Conto dos Contos.

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O filme do italiano Matteo Garrone (Gomorra, de 2008) narra três tramas paralelas que envolvem os monarcas de três reinos diferentes. Na primeira delas, um rei mata um monstro marinho para roubar o coração da criatura e fazer sua esposa estéril engravidar. No segundo núcleo, um rei libertino se apaixona pela bela voz de uma camponesa, sem saber que na realidade sua “amada” é uma idosa. Finalmente no terceiro segmento, um rei viúvo cria sua filha adolescente, que deseja se casar e sair além dos muros do castelo.

Essas histórias são unidas apenas pela época em que ocorrem. Isso até chega, no início, a dificultar ligeiramente a compreensão do espectador que for ao cinema sem antes ter lido a sinopse, porque toda a ambientação parece muito igual. No entanto, conforme o filme caminha, cada um destes “contos” mantém sua estrutura própria e, consequentemente, seu devido clímax. Para além disso, há um certo equilíbrio entre as narrativas: em alguns momentos, é visível que algumas perdem um pouco o foco, dispersando a atenção do público; em compensação, outras começam a crescer (e mesmo surpreender) durante seu desenvolvimento.

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Mas há ainda um upgrade: O Conto dos Contos é visualmente encantador. A fotografia do veterano polonês Peter Suschitzky já impressiona nos primeiros instantes, bem como toda a direção de arte do projeto. A trilha assinada pelo sempre competente Alexandre Desplat agrega bastante à atmosfera da fita, indo de pontos discretos a outros mais intensos com total naturalidade. Quanto à decupagem do cineasta, é importante observar uma coisa: diferente do que acontece nas tradicionais produções fantasiosas (vide O Senhor dos Anéis, por exemplo), que optam pelos constantes planos abertos de forma a destacar cenários exuberantes, O Conto dos Contos recorre a enquadramentos menores, o que valoriza a construção psicológica dos personagens e, consequentemente, a atuação do elenco estelar (com nomes como Salma Hayek, Toby Jones, Vincent Cassel e John C. Reilly).

A única ressalva de O Conto dos Contos é sua última parte. Fica evidente que uma história ganha maior tempo em seu desfecho, enquanto as demais ficam à deriva. A cena final soa apressada e com isso algumas brechas surgem (o que se resolveria com quinze minutos a mais de projeção), mas nada que estrague a ótima experiência que é O Conto dos Contos. O filme é uma aventura cheia de fantasia que certamente agrada aqueles que apreciam o gênero, especialmente por escolher apresentar uma visão mais adulta, grotesca e surreal de histórias que nos são entregues, em sua maioria, de maneira tão infantilizada. Esse é um dos grandes méritos de O Conto dos Contos, o que por si só já o torna um dos melhores filmes do ano.