Cruzada

Gladiador  foi, sem dúvida, um sucesso inigualável, capaz de ressuscitar um gênero: o épico. De fato, o longa dirigido por Ridley Scott desencadeou uma sucessão de outros filmes da mesma espécie (como Tróia, Alexandre, entre outros – apesar de nenhum deles ter obtido tamanho êxito), além de dar carta branca a seu idealizador para embarcar em um projeto adormecido há anos: Cruzada.

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Este épico medieval narra a disputa entre muçulmanos e cristãos pela posse de Jerusalém, no século XII. Na versão romanceada destes acontecimentos reais, acompanhamos Balian (Orlando Bloom, muito antes de aparecer como veio ao mundo curtindo uma praia com Katy Perry), um jovem ferreiro francês que guarda luto pela morte da esposa e do filho. Temente a Deus, logo o viúvo descobre que seu pai é o nobre Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), um lorde e valente soldado do rei Baldwin. Levado por Godfrey à Terra Santa, aos poucos Balian ascende na corte e, mesmo fazendo alguns inimigos entre a nobreza local, ele conquista a simpatia do rei e seu conselheiro.

Ridley Scott está acostumado a superproduções – e em Cruzada ele faz uso de quase tudo o que aprendeu (com maestria) em Gladiador. O design de produção é, no mínimo, espetacular. As pesquisas e referências visuais foram extensas, sendo imprescindíveis para a recriação de cenários, figurinos e objetos com absoluto domínio. Filmado no Marrocos, Scott dá uma aula de técnica: a cena do ataque de Saladino a Jerusalém é riquíssima em detalhes, sendo mostrada dos mais diversos ângulos possíveis – algo que apenas um cineasta com o gabarito de Scott seria capaz de fazer. A exemplo do que fez em Gladiador (inclusive alguns planos são praticamente os mesmos), o diretor utiliza artifícios como a câmera tremida e cortes rápidos para recriar as sequencias de batalhas – comparáveis até àquelas de clássicos como Lawrence da Arábia ou mesmo O Senhor dos Anéis.

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Mesclando tipos reais com fictícios (com total licença poética), Cruzada tem um resultado “técnico” que impressiona, porém não inova. Fica claro que Scott usa seu ego para fazer uma cópia quase fiel de sua obra antecessora, o que incomoda em alguns instantes. A narrativa, no entanto, é bastante equilibrada do ponto de vista ideológico: diferente do que é comum acontecer no cinema (onde o Islã é frequentemente associado ao terrorismo, produzindo uma série de estereótipos nada palpáveis), Cruzada  vai claramente contra o fanatismo religioso. Não há um vilão ou mocinho: existe uma certa uniformidade entre os personagens – e, em tempos de discursos acirrados de ódio religioso pelo mundo afora, uma proposta como esta sempre é interessante.

O Universo Fantástico de “O Conto dos Contos”

Geralmente, os contos de fadas se iniciam com a expressão “Era uma vez…” e se despedem com o célebre “…e viveram felizes para sempre”. Ao menos, foi assim que nossa cultural “cinematográfica” nos ensinou. Repare, por exemplo, na influência de Walt Disney: suas obras mais memoráveis são justamente os contos que povoaram a imaginação de cinéfilos ao longo das últimas décadas – o que contribuiu (e muito) para a criação de seu império. Mas as histórias Disney, definitivamente, estão muito longe de referenciar como deveriam o material que as originou. Princesas fofas? Heróis valentes? Animais antropomorfizados? Deixe isso de lado – e talvez assim você será capaz de apreciar como se deve o longa O Conto dos Contos.

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O filme do italiano Matteo Garrone (Gomorra, de 2008) narra três tramas paralelas que envolvem os monarcas de três reinos diferentes. Na primeira delas, um rei mata um monstro marinho para roubar o coração da criatura e fazer sua esposa estéril engravidar. No segundo núcleo, um rei libertino se apaixona pela bela voz de uma camponesa, sem saber que na realidade sua “amada” é uma idosa. Finalmente no terceiro segmento, um rei viúvo cria sua filha adolescente, que deseja se casar e sair além dos muros do castelo.

Essas histórias são unidas apenas pela época em que ocorrem. Isso até chega, no início, a dificultar ligeiramente a compreensão do espectador que for ao cinema sem antes ter lido a sinopse, porque toda a ambientação parece muito igual. No entanto, conforme o filme caminha, cada um destes “contos” mantém sua estrutura própria e, consequentemente, seu devido clímax. Para além disso, há um certo equilíbrio entre as narrativas: em alguns momentos, é visível que algumas perdem um pouco o foco, dispersando a atenção do público; em compensação, outras começam a crescer (e mesmo surpreender) durante seu desenvolvimento.

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Mas há ainda um upgrade: O Conto dos Contos é visualmente encantador. A fotografia do veterano polonês Peter Suschitzky já impressiona nos primeiros instantes, bem como toda a direção de arte do projeto. A trilha assinada pelo sempre competente Alexandre Desplat agrega bastante à atmosfera da fita, indo de pontos discretos a outros mais intensos com total naturalidade. Quanto à decupagem do cineasta, é importante observar uma coisa: diferente do que acontece nas tradicionais produções fantasiosas (vide O Senhor dos Anéis, por exemplo), que optam pelos constantes planos abertos de forma a destacar cenários exuberantes, O Conto dos Contos recorre a enquadramentos menores, o que valoriza a construção psicológica dos personagens e, consequentemente, a atuação do elenco estelar (com nomes como Salma Hayek, Toby Jones, Vincent Cassel e John C. Reilly).

A única ressalva de O Conto dos Contos é sua última parte. Fica evidente que uma história ganha maior tempo em seu desfecho, enquanto as demais ficam à deriva. A cena final soa apressada e com isso algumas brechas surgem (o que se resolveria com quinze minutos a mais de projeção), mas nada que estrague a ótima experiência que é O Conto dos Contos. O filme é uma aventura cheia de fantasia que certamente agrada aqueles que apreciam o gênero, especialmente por escolher apresentar uma visão mais adulta, grotesca e surreal de histórias que nos são entregues, em sua maioria, de maneira tão infantilizada. Esse é um dos grandes méritos de O Conto dos Contos, o que por si só já o torna um dos melhores filmes do ano.

“O Hobbit – A Desolação de Smaug” e a Polêmica Entre Literatura e Adaptação Cinematográfica

Analisar O Hobbit – A Desolação de Smaug individualmente é uma tarefa arriscada. Segunda parte de uma nova trilogia baseada na obra de Tolkien e que serve como uma espécie de prólogo para os eventos da franquia O Senhor dos Anéis, o filme que estreou nesta sexta-feira pode até decepcionar os fãs da obra literária, mas não deixa dúvidas quanto sua superioridade em relação a O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, lançado no ano passado.

01Antes do lançamento e baseado na leitura de O Hobbit, dizia que, provavelmente, A Desolação de Smaug seria o melhor da saga. Pela estrutura do livro e levando em consideração os eventos abordados na primeira parte da franquia, tudo levava a crer que este seria o filme com mais ação, mais rápido e mais envolvente dos três. Bom, isso só poderia afirmar no próximo ano, quando O Hobbit – Lá e de Volta Outra Vez tem previsão de estreia – afinal, Peter Jackson termina seu filme em um momento propício para aquele que pode ser a maior aventura épica do cinema em todos os tempos (ou não).

Na época de O Senhor dos Anéis, Jackson tinha em suas mãos três livros distintos, com material suficiente para muito mais do que uma trilogia. Daí, a franquia foi esse sucesso que todos sabemos – e lá vamos nós acompanhar o diretor tentando dar vida a  uma nova série da terra média. Mas agora, Peter tem em suas mãos um livro com pouco menos de 300 páginas, até infantilizado – se comparado com O Senhor dos Anéis. Mas por evidentes motivos financeiros, seria inevitável a extensão da adaptação de O Hobbit. Como ambos os livros se complementam em determinado momento, a tarefa não parecia tão difícil. Mas alguns sinais dessa dificuldade soavam evidentes logo no início.

O Hobbit – Uma Jornada Inesperada é um filme arrastado. Isto já fica claro na primeira parte da fita, quando Gandalf reúne os anões na toca do hobbit Bilbo Bolseiro para discutir os detalhes da empreitada: chegar a Erebor, antigo lar dos anões, e destruir Smaug, dragão que agora habita o local e protege a fortuna que roubara dos antigos moradores do local. Com quase 3 horas de duração, Uma Jornada Inesperada era cheio de altos e baixos mas que, ao que tudo indicava, parecia trilhar bem a história de Tolkien. Em A Desolação de Smaug, a série começa a encorpar e ficar muito mais interessante – porém com algumas restrições que não são suficientes para desabonar o longa como “cinema” – mas são pedras no sapato dos fãs de Tolkien.

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Em A Desolação de Smaug, a jornada do primeiro longa continua – mas a história fica muito mais rápida (tanto que quase não percebemos o tempo passar ao longo de mais de 2 horas e meia de projeção). Recheado de ação e cenas de batalhas, A Desolação de Smaug confirma o talento de Jackson para dirigir filmes de fantasia – algo que o coloca quase no mesmo patamar dos mestres George Lucas e Steven Spielberg. Peter usa sua câmera para filmar em diferentes ângulos e situações e mostra que sabe utilizar bem todos os recursos visuais que tem à disposição para criar cenas que prendem os olhos do espectador na tela – aliás, nada seria possível sem os recursos computacionais, que criam uma película totalmente “digital”, mas nem por isso menos artificial (com exceção de uma cena em que Legolas – sim, ele retorna! – e Tauriel estão discutindo sobre a traição da elfa). O uso do 3D, porém,  se torna dispensável à medida que a narrativa avança, mas ajuda a apreciar as belas paisagens capturadas por Jackson.

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O roteiro ainda permite que os atores façam seu trabalho com competência. Martin Freeman está visivelmente muito mais à vontade com sua personagem do que em Uma Jornada Inesperada. Aliás, ele serve como alívio em alguns momentos cômicos, com suas caras e expressões ótimas. Luke Evans surge como Bard (personagem queridíssimo pelos fãs do livro), aqui retratado como um revolucionário perseguido na Cidade do Lago. Richard Armitage, mesmo com uma batata quente na boca, consegue transmitir bem a crescente obsessão de Thorin pelo tesouro de seu povo e, principalmente, pelo poder. Há ainda Benedict Cumberbatch, que empresta voz e expressões (modificados em computador) para criar Smaug – que, como o livro sugere, é grandioso em cena, assim como todo seu tesouro e deixa muito fã de efeitos especiais com tesão. Mesmo o Gandalf interpretado por Ian McKellen surge com moral suficiente para tornar o filme mais sombrio, enquanto outras tramas se desenvolvem com mais adrenalina.

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Tanta agilidade na narrativa, no entanto, não deixa que o filme se perca em alguns momentos. Para preencher as quase 3 horas de projeção, muita coisa teve que ser inserida na história. Se boa parte do que não estava em O Hobbit (livro) foi inserido para explicar alguns acontecimentos de O Senhor dos Anéis que ficaram de fora na primeira trilogia (e para criar o vínculo entre ambas as séries), também tem muita coisa descartável. A começar pelo romance (até aqui) desnecessário entre o anão Kili e a elfa Tauriel – personagem inexistente na obra de Tolkien e criada exclusivamente para esta franquia, em uma clara tentativa de criar um personagem feminino forte dentro de um universo masculinizado. Isso há tempos já incomodava os fãs de Tolkien que ficaram ainda mais incomodados com a sequência final entre Smaug e os anões – fidelidade à obra, cadê? Confesso que no cinema, especialmente durante a segunda metade do filme (quando as coisas começavam a realmente engrenar), ficava maravilhado com as cenas – mas balançava a cabeça negativamente em diversos momentos, em sinal de desaprovação à inverossimilhança com o livro que originou a saga (nem vou comentar sobre Beorn, personagem interessantíssimo de Tolkien que praticamente fez uma participação especial na trama, contrariando muita gente).

Isso é meio confuso, confesso. O Hobbit – A Desolação de Smaug é um ótimo filme – mas ao mesmo tempo o menos fiel em relação à literatura. Um amigo meu certa vez comentou que, nas mãos de Peter JacksonO Senhor dos Anéis se tornara um conto de fadas. Resistia, mas depois de assistir A Desolação de Smaug tive que concordar. A produção é muito mais uma livre adaptação do que Tolkien escreveu – o que pode agradar cinéfilos, mas talvez não leitores tradicionais e eloquentes. Deixa a desejar como adaptação – mas isso não diminui O Hobbit – A Desolação de Smaug como cinema. O final (ainda que distante da obra de Tolkien) abre espaço para um terceiro filme que promete – mas isso só no próximo ano. Por ora, você, cinéfilo, aproveite; você, leitor e fã de Tolkien, chore…