Matt Morgan (Kirk Douglas) e Craig Belden (Anthony Quinn) são amigos de longa data – muito embora suas vidas tenham tomado rumos distintos: enquanto o incorruptível Morgan torna-se xerife de um pacato vilarejo, Belden domina a cidade de Gun Hill como um rico e influente fazendeiro local. Apesar das diferenças que definem suas trajetórias, os dois ainda preservam o forte vínculo construído no passado, marcado por respeito e lealdade. Separados não apenas pela distância – mas, principalmente, pelos valores que passam a orientar suas vidas – , os dois terão essa amizade posta à prova quando a esposa de Morgan, uma mulher indígena, é violentada e morta pelo filho de Belden.
Lançado em 1959 (período em que o western, ainda em seu ápice, passa por uma transição para narrativas mais maduras – mas, ao mesmo tempo, já indicando sinais de saturação), Duelo de Titãs é um exemplar do gênero que se insere em um momento particularmente significativo de Hollywood (e, também, na carreira de John Sturges que, um ano depois, lançaria o épico Sete Homens e um Destino). Ao retomar elementos recorrentes do faroeste clássico – como a figura do xerife, a vingança e o confronto entre homens – Sturges tensiona essas convenções, indo além da simples oposição entre heróis e vilões e concentrando seu conflito na relação entre os antigos amigos, o que faz da amizade rompida o estopim de uma trama sobre justiça.

Embora Morgan aja inicialmente como um legítimo representante da lei, sua busca pelo responsável pelo crime é também movida por uma dor pessoal que torna difícil separar o dever do desejo de vingança. Todavia, Sturges evita transformar essa motivação em um simples impulso vingativo: ao fazer de Belden não apenas o ex-companheiro de Morgan mas, também, o pai do criminoso (que, naturalmente, é obrigado a se colocar em defesa do próprio filho), o diretor se aprofunda na complexidade do conflito. Assim, para ambos protagonistas, fazer justiça significa, inevitavelmente, confrontar seus próprios vínculos afetivos – e isso nunca é fácil.
O título original (Last Train From Gun Hill) faz referência ao último trem que parte da cidade naquela noite – elemento que não apenas dá nome ao filme, mas estabelece o tempo-limite que estrutura sua narrativa, especialmente em sua segunda metade: quando Morgan finalmente captura o assassino para levá-lo a julgamento na cidade vizinha, ele se vê momentaneamente impedido de partir de Gun Hill. Temos aqui o próprio motor dramático de Duelo de Titãs: enquanto aguarda a chegada do trem, Morgan é cercado por Belden e seus homens. A partir daí, a estação ferroviária torna-se o palco de uma disputa contra o tempo, em que cada minuto aproxima Morgan tanto do cumprimento de seu dever como homem da lei quanto do confronto com Belden.
No fim, Duelo de Titãs, evidenciando a maturidade narrativa alcançada pelo western no período, aposta menos nas brigas, tiros e confrontos tão comuns ao gênero e encontra justamente na relação entre Morgan e Belden seu maior trunfo: Sturges não coloca frente a frente um homem da lei e um delinquente, mas dois homens que, apesar da amizade construída sobre princípios que lhes eram caros, passaram a defender novos valores inconciliáveis – embora compreendam (e até admirem, sob certo aspecto) as motivações um do outro. O duelo final, portanto, não celebra apenas o fim de uma amizade, mas marca a ruptura entre os valores que um dia os uniram e aqueles que agora os colocam em lados opostos.