“Prism”: Muitas Cores Refletindo Sem Inovação

Quando Katy Perry surgiu há alguns anos com o disco One of The Boys dizendo que beijou uma garota e curtiu, pouca gente acreditava que a guria se tornaria o fenômeno pop de hoje. Daí, pouco tempo depois, ela coloca uma peruca roxa e joga na cara dos invejosos seu segundo trabalho, Teenage Dream, registro que consolidou seu posto de diva pop e rendeu diversos ótimos singles, clipes e polêmicas – além de uma edição de luxo e um documentário sobre a cantora, que chegou inclusive a ser um dos pré-selecionados ao Oscar. Em 2013, Katy retorna quase triunfal com Prism, queimando a peruca da era Teenage Dream e mostrando um amadurecimento que torna o álbum um dos melhores produtos pop do ano.

Calma, nem tudo está perdido. Teve muita jogada de marketing aí, galera. Prism não é um trabalho sombrio e tão pouco se distancia completamente dos outros discos da cantora. O maior mérito aqui é mostrar o amadurecimento definitivo de Katy como cantora pop – ainda que o álbum não traga muita inovação dentro do seu propósito. A Katy brincalhona ainda está lá, a pegada “rebelde” que víamos no marketing não existe por completo – e, talvez mesmo por isso, Prism se torna, talvez, o melhor registro da carreira da cantora – apesar de, como já mencionado, não trazer nada de novo à indústria.

prismO carro chefe de Prism é Roar, primeiro single onde Katy já chega gritando “Eu sou uma campeã e você vai me ouvir rugir!”. Longe de ser uma música ruim, se espremer um pouquinho ali e acolá, é uma música que se encaixaria em Teenage Dream (e ganhou, inclusive, um clipe bem divertido e animado). Em seguinda, vem Legendary Lovers, que deixa a temperatura baixar um pouco e traz uma baladinha com batida meio indiana. Logo após, temos a ótima Birthday (uma das minhas preferidas), com todo seu gostinho de disco music (consegui enxergar pessoas dançando em boates com roupas extravagantes ao melhor estilo Dancin’ Days), além de uma letra bem “fofa”. Na mesma pegada, chega a frenética Walking on Air, viagem aos anos 90 e, para mim, a melhor faixa – além de ser um dos mais evidentes exemplos do amadurecimento vocal da cantora.


Primeira “balada”, eis que chega Unconditionally, baixando um pouco a animação mas com um refrão que já virou frase de perfil de muita gente nas redes sociais. Dark House chega com uma batida nigga (sem preconceitos) e conta com a participação de Juicy J – me lembrou também alguma coisa que Gwen Stefani fez em algum momento de sua carreira solo, mas não vou levantar polêmicas à essa altura. This is How We Do é a faixa com cara “urbana” de Prism – com refrão chiclete e recheada de elementos eletrônicos. Internacional Smile vem com toda aquele ar nostálgico que conhecemos da cantora – uma das melhores músicas dessa nova fase que nos remete aos tempos de One of The Boys. Logo em seguida, temos Ghost, uma baladinha com cara de single e que, apesar do início meio parado, tem um refrão delicioso com ótimos arranjos vocais.

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Love Me vem como uma baladinha leve e gostosa de se ouvir – mas como Ghost, parece estar meio perdida. This Moment traz um ar meio oitentista, com uma pegada meio synthpop que torna a faixa uma ótima descoberta. Double Rainbow tem cara de hit e, acredito eu, poderá virar single em breve (até porque se Katy fizer como em Teenage Dream, teremos pelo menos uns trocentos singles na era Prism…). Encerrando, Katy nos traz By The Grace of God, música de agradecimento a Deus por tudo o que tem acontecido na carreira da cantora – engraçado, mas foi a que eu menos gostei à primeira audição. Destoa um pouco do restante do álbum e seria ótima se fosse uma faixa avulsa lançada pela cantora. A edição de luxo ainda traz Spiritual – uma balada com um moderno synth produzida (e muito bem produzida) com a colaboração de John Mayer. Temos também It Takes Two, com uma ótima interpretação de Katy e um piano forte no refrão – e que tem cara de tema de filme. Choose Your Battles encerra a era Prism – e, particularmente, acho que poderia ter ficado de fora do disco (mas aí é questão pessoal mesmo…).

Como produto final, Prism consegue encerrar a era açucarada e colorida de Teenage Dream, mas o espírito contagiante da cantora ainda está presente. O que me parece é que o medo de desagradar aos fãs falou mais alto e isso fez com que Prism fosse apenas mais um registro de Katy Perry – e não um trabalho com relevância dentro da cultura pop atual. Nada é novidade – tudo parece ter sido trazido repleto de antigas influências. As faixas, apesar de percorrer vários estilos, parecem ter uma sintonia incrível – tente ouvir o álbum no modo aleatório e perceba que todas as músicas parecem estar em sincronismo. Prism é um dos melhores discos do ano, muito bem produzido (praticamente impecável do ponto de vista técnico) e cheio de boas canções – mas não traz nenhuma relevância significativa.

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P!ATD: Mais Disco Do Que Nunca

Que atire a primeira pedra quem nunca criticou um artista por, ao longo da carreira, mudar seu estilo, sonoridade ou ideais… É algo que chega a ser um tanto quanto ambíguo – afinal, se por um lado reclamamos das mudanças, por outro lado também nos entediamos com a mesmice de muitos artistas por aí. A banda norte-americana Panic! At The Disco é um ótimo exemplo disto. Desde sua estréia com A Fever You Can’t Sweat Out, de 2005, até o recentemente lançado Too Weird To Live, Too Rare To Die!, o quarto registro do grupo em estúdio, as mudanças musicais saltam aos ouvidos do público.

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Verdade seja dita: independente de qualquer coisa que tenha feito, a banda sabe como fazer. Já declarei em outras ocasiões que o P!ATD é um dos melhores grupos da atualidade, criando álbuns excepcionais em um tempo de carreira relativamente curto. De todos os CDs, particularmente acho que o mais “fraco” seja Vices & Virtues, terceiro trabalho dos garotos (apesar de conter ótimas músicas). Essa minha opinião só é mantida pelo fato de que Vices & Virtues seja, talvez, o disco menos “uníssono” da banda. Esse é, sob certo aspecto, um reflexo dos anseios da indústria fonográfica que atira para todos os lados, tentando fidelizar os antigos fãs e conquistar novos admiradores – tiro que nem sempre atinge o alvo desejado.

Too Weird To Live, Too Rare to Die (lançado no último dia 08) é, como poderia dizer, uma continuação definitiva, porém melhorada, de Vices & Virtues. Não, não é bem essa a melhor definição… Digamos que o quarto álbum seja, assim como o terceiro, uma tentativa de expandir seus horizontes sem tirar totalmente o pé de sua essência. Com isso, o P!ATD consegue criar um trabalho para o qual a crítica tende a tecer elogios enquanto os fãs mais conservadores tendem a detestar – apesar de toda a qualidade inegável do disco.

A primeira música (e primeiro single) é This is Gospel, cuja batida me remete – não sei por qual razão – a New Perspective. Com um contrabaixo generoso, a música apresenta um refrão pegajoso, embalado pela declaração “Esta é a batida do meu coração!”. Serve como single mas, particularmente, não achei grande coisa. Em seguida, a banda surpreende apresentando o segundo single Miss Jackson que, com sua batida hip-hop implacável (uma evolução explícita da criatividade do grupo) conta a história de um casal de bêbados brigando em um estacionamento antes de serem presos.

Em seguida, temos Vegas Light – para mim, a melhor das melhores música do álbum. Com uma introdução que remete a programas infantis de segunda, a música é daquelas que faz você se mexer, dançar e cantar junto. Deus ajude para que ela ganhe um clipe à sua altura, porque olha… sou suspeito para falar. Daí temos uma quebra no ritmo alucinante e ouvimos Girl That You Love, recheada de elementos eletrônicos (da bateria à voz do vocalista) e com cara de trilha de seriado (da onde eu tirei isso?). Provavelmente, Girl That You Love é apenas uma pausa para você respirar e recarregar as energias para Nicotine – que se não fosse pela performance de Brendon poderia muito bem ser tocada em alguma balada da cidade. Mas quer saber? É uma canção deliciosa!

Girls / Girls / Boys vem logo em seguida e, apesar de não permitir muita eloquência, também é uma ótima baladinha rock para dançar coladinho. Aliás, a música é o terceiro single do álbum e ganhou um clipe minimalista, com Brendon performando num fundo preto e completamente nu (não se empolgue…). Daí chegamos a um dos melhores momentos: a canção Casual Affair, que apresenta o lado mais obscuro do disco, com uma bateria agressiva e muito elementos eletrônicos. Far Young To Die também chega com uma boa ajuda eletrônica e cresce claramente ao longo de sua execução. Que tal dançar mais um pouco? Só botar Collar Full e aproveitar o ritmo agitado de sua batida e seu refrão “fofo”. O álbum se encerra com The End of All Things, música com um incrível potencial e a mais experimental de todas (taí um adjetivo ótimo para representar a banda) e que seria a melhor faixa se não pecasse pelo excesso e fosse mais simples.

Too Weird to Live, Too Rare to Die! é um disco que se revela logo de cara. No geral, é um trabalho incrivelmente mais dançante (ainda que tenha seus momentos mais calmos) e o mais eletrônico da carreira da banda. Mesmo nas faixas menos agitadas, Brendon e companhia sabem como explorar as batidas eletrônicas e o uso de sintetizadores (quem foi que disse elementos eletrônicos só servem para fazer dançar?). Ainda que boa parte dos fãs possam torcer o nariz para o álbum, o fato é que o grupo dificilmente voltará a fazer algo como A Fever You Can’t Sweat Out (com todas suas referências burlescas e erotizadas) ou Pretty. Odd (com sua elegância clássica explícita). Como resultado final, a banda não deixou de ser a boa e velha Panic! At The Disco que todos nós conhecemos. Simplesmente ela está hoje muito mais “disco” do que nunca.

“Zeski”: O Retorno Promissor de Tiago Iorc

Já falei do cantor brasiliense Tiago Iorc aqui no site em algumas ocasiões (textos que você pode conferir aqui e aqui – aliás, este último é o texto mais acessado do canal, vale ressaltar aqui). Nas ocasiões em que escrevi sobre o cantor simpático até a alma, nunca poupei elogios para o rapaz – que, com seu talento ímpar, se tornou uma das grandes sensações da música nacional nos últimos anos e um dos intérpretes mais promissores do nosso meio. O cantor, que emplacou vários hits em novelas globais em seu primeiro trabalho, lançou há poucos dias o terceiro álbum de sua carreira, Zeski, que como os anteriores, só reforça os elogios que Tiago vem recebendo de crítica e público.

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Zeski é apresentado pelo próprio Tiago como “um reencontro, um retorno ao que sempre foi mas que ainda não havia se manifestado; um auto retrato revisitado e atualizado” (diz se o cara não é um artista, hein?). De fato, Zeski é um álbum que faz um paralelo quase descarado entre os dois primeiros álbuns do cantor. Zeski une o teor pop de Let Yourself In (de 2008) com a leveza e desprendimento de Umbilical (lançado em 2011). O resultado é uma obra que é introspectiva e ao mesmo tempo convidativa, que te faz aprecia-la logo à primeira audição.

A grande novidade de Zeski é que, aqui, Tiago arrisca algumas composições em português, praticamente dividindo o álbum em duas partes distintas. Na primeira, temos canções cantadas em inglês – na minha opinião, de longe a melhor parte do álbum -, com Tiago apostando em um terreno que já conhece bem e que sabe que é sucesso. Aqui, temos canções como a balada Life of My Love, com sua melodia alegre que contagia o clima sem causar muita euforia. Também se destacam os já singles Yes And Nothing Less e It’s a Fluke – esta última, aliás, que é a grande música do álbum e a candidata a ser a “favorita” de muita gente. Ah, tem também Shelford Road, com belos acordes de violão enriquecendo sua introdução – e fazendo você cair de amores por Tiago e quase enxerga-lo sorrindo pra você enquanto canta.

Na segunda parte – que é iniciada pela faixa título do álbum Zeski, um instrumental simples e belo -, temos quatro faixas cantadas em português, onde Tiago arrisca algumas parcerias, como em Música Inédita (com a amiga Maria Gadú) e Um Dia Após o Outro (com o musicista Daniel Lopes). Além disso, Tiago também ousa ao trazer um cover de Tempo Perdido, de Renato Russo – que Tiago interpreta de forma tão pungente que extrai uma beleza que a música não teria se fosse por outro artista.

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Com Zeski, Tiago não inova, mas ainda surpreende por conseguir unir o melhor de seus dois álbuns anteriores, criando um trabalho capaz de agradar seus velhos admiradores e conquistar novos fãs. Não há nada novo, com exceção das faixas em português – que, particularmente, com exceção de Tempo Perdido, eu penso que só servem para provar que Tiago é capaz de fazer bons hits em seu idioma natal, nada além disso. Ao longo de pouco menos de 40 minutos, você consegue identificar os melhores traços dos primeiros trabalhos do artista e, por esta razão, fica a sensação de que qualquer uma das faixas poderiam ser encaixadas nos discos anteriores do rapaz – o que pode frustrar alguns fãs. Zeski, no entanto, consolida o talento de Tiago e faz você ter os melhores momentos do seu dia a cada audição – e, no cenário musical “questionável” em que vivemos, isso te surpreende.