Com Disco Homônimo, Harry Styles é o One Direction Que Você Deve Ouvir Já

O que Beyoncé, Justin Timberlake, Michael Jackson, Sting, Gwen Stefani e Ozzy Osbourne tem em comum? Bom, além de serem astros da música, todos compartilham um mesmo fato: abandonaram as bandas pelas quais ficaram conhecidos e partiram rumo à carreira solo. O mais novo artista a compor este seleto time é Harry Styles, que com seu álbum homônimo lançado há poucos dias, comprova que, definitivamente, é um dos poucos remanescentes da One Direction que merece ser levado a sério.

Mas, sejamos francos, não era preciso que Harry seguisse um projeto solo para termos a certeza de que ele sempre foi o integrante mais expressivo do grupo. Com uma voz que se destacava entre o quinteto britânico, Harry também era dono de um carisma incomparável – não à toa, sua fanbase crescia cada vez mais, até o dia em que a banda anunciou seu hiato “indefinido”, lá em meados de 2015. Desde então, muito se especulava sobre o futuro dos membros do conjunto: cada um tomou seu rumo e as apostas eram altas – principalmente em Harry, é claro. E ele realmente não decepcionou.

Harry Styles é um disco de um artista em processo de amadurecimento, especialmente quando comparado ao pop teen da 1D. Com muito menos compromisso comercial do que na época de sua boyband, Harry abandona quaisquer vestígios de seu passado recente e abraça o retrô sem desprezar o novo ou soar cafona. Ao longo de dez faixas, o intérprete abusa de referências e variedades de gêneros (em especial à musicalidade da década de 70, seja no pop, folk ou até mesmo rock), executando todos eles com competência admirável para um garoto de apenas 23 anos.

Assim, o álbum nos brinda com ótimos momentos que vão, com muito equilíbrio, do intimismo à explosão. Meet me in the Hallway, que abre o trabalho, tem uma incrível influência no folk dos anos 60, podendo facilmente passar-se por uma canção de rádio de algum cantor da época. Com quase seis minutos de duração, Sign of the Times rendeu até mesmo comparações com David Bowie. Começando timidamente, a música ganha arranjos que lhe concedem um final espetacular – de longe, é um dos pontos altos deste registro, precedida por Carolina, uma faixa com escancarada referência aos Beatles. Two Ghosts e Sweet Creature são as duas grandes baladas do disco. Enquanto a primeira é o mais próximo que Harry consegue chegar de 1D aqui, a segunda pouco se utiliza de elementos sonoros e conta com uma performance de Harry que nos faz querer cantar junto com ele.

Only Angel e Kiwi conduzem a empreitada a um novo patamar, principalmente esta última, que aposta no vocal rasgado de Styles e em uma guitarra que nos remete quase aos trabalhos mais recentes de Jack White. Ever Since New York é um pop mais comum, sem muitas camadas e que pouco surpreende, mas se encaixa muito bem dentro da proposta do CD. Indo nas raízes dos anos 70, Woman tem uma melodia muito particular, sincopada, cheia de charme e atitude. Com simplicidade e arranjos de cordas, From the Dining Table fecha o álbum harmoniosamente, com um Harry bastante sóbrio que alterna sua performance entre falsetes e vocais graves.

Com um bom repertório musical, Styles entrega um registro honesto, porém não isento de falhas. Para além das letras sem muita profundidade (cujo principal “tema” são relações conturbadas), Harry Styles se mostra “indeciso”, com uma visível ânsia em desvincular-se da imagem de ex-membro de boyband, o que faz com que ele perca seu foco. Assim, é impossível descobrirmos qual é, de fato, sua personalidade musical. Claro, faz parte de seu amadurecimento artístico, é verdade – e também, no atual cenário fonográfico, isso pouco importa, contanto que um  artista tenha hits de sucesso ou bons números na parada. Harry tem talento: o cara realmente é bom e tem potencial para se tornar um astro como aqueles inicialmente citados. Basta apenas “se encontrar”. Mas a gente também não vai ligar enquanto isso não acontecer: mesmo quando está perdido, Harry Styles prova que é a melhor coisa que o One Direction produziu durante todos estes anos…

Anúncios

Quantos “Eds Sheerans” Cabem em “Divide”?

Já se foram 2 meses desde a estreia de ÷ (pronuncia-se Divide), terceiro álbum de estúdio do britânico Ed Sheeran – e confesso que levei um tempo para trazer este texto, tentando ao máximo digerir bem o novo trabalho do ruivo mais famoso da música pop antes de tecer uma crítica baseada em impressões rápidas e fúteis. Precedido por + (Plus) e x (Multiply) – este último que levou Ed ao status de grande astro – , Divide mostra o claro amadurecimento de um intérprete que opta por entregar um disco que atira com várias possibilidades, mas carece de algo minimamente novo.

À primeira audição, é evidente que a principal característica de Divide é a mistura dos mais variados estilos. Ed não tem medo de circular por gêneros diferentes, desde a levada rap de Eraser (faixa de abertura, que apresenta um Sheeran charmoso, porém desengonçado), a batida R&B de New Man ou até mesmo Galway Girl, onde o cantor abusa de recursos que remetem à sua linhagem irlandesa. Castle on The Hill é uma canção poderosa, aparentemente inspirada nos grandes clássicos de arena de bandas como U2 e Coldplay – com aquele típico refrão capaz de levantar multidões ao encerramento de um show. Já na frenética Shape of You, Sheeran declara “eu estou apaixonado por seu corpo”, em um arranjo que cairia muito bem na voz (e tipo) de Justin Bieber – talvez esta seja uma das mais gratas surpresas do registro.

Em sua zona de conforto, Ed se mostra competente com suas baladas. Com seu estilo soul, Dive é, provavelmente, o melhor momento do cantor no álbum. Muito à vontade, Ed emula algo que ouviríamos de Bruno Mars (sem, obviamente, a potência vocal deste último). Perfect lembra canções dos anos 50 e vem carregada de um sentimentalismo que chega até a ser piegas, mas também traz uma performance eficiente de Ed, assim como Happier e a belíssima How Would You Feel, com sua melodia amparada por um ótimo piano e violão (é, ao que parece, a Thinking Out Loud deste disco). Toda marota, What Do I Know é cheia de positividade, com sua declaração de que “o amor pode mudar o mundo em um momento” e uma base em guitarra sem firulas. Já em Supermarket Flowers, que encerra a versão simples de Divide, o artista usa uma interessante metáfora para expor a dor causada pela morte de sua avó recém-falecida.

Conquistando posições ambiciosas em várias paradas, Divide é o CD mais bem acabado do britânico até aqui. Talvez o título do álbum possa fazer alusão ao quanto o artista teve que se “desdobrar” para entregar um disco diversificado como este, que apesar de conter ótimas canções, peca pela falta de ousadia. No patamar em que está e com o talento que já sabemos que tem, Ed pode entregar muito mais do que um registro requentado de seus trabalhos anteriores. Ao menos, pela diversificação, Divide se destaca por trazer músicas com mais identidade e maior potencial de singles (nenhuma é totalmente igual a outra, diferente do que acontecia em Multiply, onde o público não tinha muita noção onde cada faixa começava ou terminava). Divide funciona como produto pop, mas não é o máximo de Sheeran e de seu talento; pelo contrário, é apenas um passo do intérprete rumo a algo muito maior e que só poderá ser alcançado quando Ed subtrair sua insegurança e mostrar realmente para o que veio.

Lady Gaga Aposenta o Visual Pomposo e Solta a Voz Como Nunca em “Joanne”

Desde o subestimado Artpop (um trabalho incompreendido, que pecava pelo excesso de ideias – ainda que algumas geniais) e um passeio pelo jazz ao lado do sempre competente Tony Bennett, os little monsters aguardavam ansiosamente pelo triunfal retorno de Lady Gaga ao pop. Mesmo os que não simpatizavam com ela também tinham lá suas expectativas, afinal algumas de suas maiores “divas” haviam assumido um tom mais conceitual em seus últimos álbuns (vide Rihanna ou Beyoncé, por exemplo). Logo, há tempos faltava um bom disco pop com músicas para fazer a galera ir até o chão nas boates por aí. Para o bem ou para o mal, Joanne, novo registro de Gaga, chega recentemente às lojas dividindo opiniões, mas mostrando seu indiscutível amadurecimento como artista.

02

Sim, Gaga ultrapassou o status de “diva pop” para se tornar uma intérprete respeitada, com liberdade artística para fazer exatamente aquilo com a qual se sente confortável – e a verdade é que os figurinos extravagantes de outrora já não são tão interessantes, fazendo com que Stefani Germanotta aposente o vestido de carne e vista as botas e chapéu rosa que são os símbolos desta sua nova fase. Joanne é, provavelmente, o seu disco mais pessoal, onde Gaga solta a voz (e como) para falar de seus “demônios” internos que a apavoram e já fazem parte de sua rotina.

Apoiada em uma base composta por guitarra, baixo e bateria, Diamond Heart abre este registro sem o peso de sintetizadores, mas nem por isso menos pop. De cara, é capaz de agradar aos fãs iniciais da cantora. Faixa mais radiofônica de todo o conjunto, A-Yo segue a linha pop de sua antecessora, um hit pronto para as pistas (mesmo que não tenha o vigor de nenhum de seus clássicos anteriores). Com simplicidade e abandonando praticamente qualquer “acabamento” vocal, Joanne é de uma beleza musical única com sua percussão tímida e seu violão dedilhado. É uma calmaria que contrapõe à sequência de canções que segue: John Wayne, com sua batida diferente de tudo o que se ouviu até aqui; Dancin’ in Circles, com sua levada reggaeton que remete à era The Fame Monster; e Perfect Illusion, primeiro single que, embora não seja explosivo e nem faça tanto sentido quando ouvido individualmente, chega se firmando como um dos momentos mais coesos de Joanne.

Million Reasons é a faixa com os mais fortes elementos que referenciam ao estilo country de Joanne. Balada poderosa, aqui você é obrigado a admitir que, sim, Lady Gaga canta muito. Nos remetendo aos filmes tarantinescos que Gaga aparenta admirar bastante, Sinner’s Prayer é uma mistura experimental entre pop e country e, talvez por isso, soe tão curiosa à primeira audição. Com ótimos arranjos de metais e vocais, Come to Mama tem uma melodia incomum e é deliciosa de se ouvir – até agora não entendo às críticas a ela, para ser bem honesto. Em parceria com Florence Welch, Hey Girl traz suavidade e minimalismo, com uma letra feminista que agrega muito à proposta do álbum. Angel Down fecha a versão comum de Joanne, com uma atmosfera soturna e uma interpretação potente de Gaga, isso sem mencionar a parte instrumental muito peculiar.

Ame ou odeie, até o menos é mais quando falamos de Lady Gaga. Goste ou não, a cada dia que passa ela deixa de lado o rótulo de “esquisita” e se consagra como uma das artistas mais completas de sua era. Ainda que Joanne não seja o alívio pop que esperávamos, encontramos aqui uma Lady Gaga sem medo de retornar às suas raízes. Pelo contrário: ela busca valoriza-las, entregando um disco que, entre altos e baixos, tem seus méritos dentro da carreira da cantora. Talvez nunca mais escutaremos algo tão estrondoso quando um Bad Romance ou Pokerface, é verdade, mas é válido o esforço de Gaga em tirar as máscaras e mostrar sua verdadeira face – e já que isso pode ser inevitável, que tal aproveitarmos?

“The Black Parade”: Disco Icônico do MCR Completa 10 Anos

01Pois é, meu amigo, tire o delineador e a chapinha da gaveta porque o “emo” que vive dentro de você vai falar mais alto! The Black Parade, álbum que foi o divisor de águas na carreira da banda My Chemical Romance, acaba de ser relançado em uma edição para lá de especial em comemoração aos seus 10 anos de lançamento.

Originalmente lançado em outubro de 2006, The Black Parade, sem sombra de dúvidas, é o disco mais expressivo do quinteto estadunidense – e certamente um dos trabalhos mais importantes do cenário rock. O conceito desta ópera-rock é a maneira como a morte chega a cada um através da lembrança mais forte que esta pessoa tem de sua existência. O protagonista da história é “O Paciente”, um homem em estado terminal devido a um câncer. Prestes a falecer, ele recebe a visita da morte através de recordações de um desfile que o mesmo presenciou quando criança ao lado do pai. Outros personagens compõe o elenco desta trama, como The Mother War, The Fear ou The Regret.

O trabalho chega novamente às lojas com um material inédito: um disco bônus intitulado Living With Ghosts, que contém 11 faixas, entre demos inéditas e gravações da pré-produção do original – além das 14 canções já conhecidas do público, entre elas os hinos Welcome to The Black Parade (primeiro single), Famous Last Words, I Don’t Love You e a incrível Mama – que conta com a participação da cantora Liza Minnelli.

Ah, e tem mais: o registro também ganhou um tributo pela revista Rock Sound, que homenageou o grupo com o Rock Sound Presents: The Black Parade, onde diversos artistas (como Escape The Fate, Crown The Empire e Asking Alexandria) apresentam suas versões para as músicas que compõe o álbum.

Então, agora é correr e garantir o seu – e, claro, ressuscitar o “emo” em você!

Britney Spears Mostra Vitalidade Pop em “Glory”

Britney Spears há tempos já não precisa provar nada para ninguém. Esta é uma verdade absoluta. Mas é fato também que seu último registro, Britney Jean, não foi lá essas coisas. Sejamos honestos: na realidade, Britney nunca foi reconhecida por lançar ótimos álbuns, mas sim por suas polêmicas e seus singles extraordinários – não à toa, a loira é considerada a “princesinha do pop” (sendo Madonna a eterna rainha). Durante anos, a intérprete foi criticada por sua voz – ou a ausência dela, como alguns alegam – e após inúmeros problemas em sua vida pessoal, poucos acreditavam que Spears voltaria ao que era no início de sua emblemática carreira. E eis que surge Glory.

01Glory  não é seu melhor trabalho, mas aponta para uma evolução que ainda pode surpreender lá na frente. Definitivamente, Britney melhorou e muito. Glory  é, até aqui, seu álbum mais “coeso”, ainda que a cantora tenha atirado em várias direções. Há evidentemente uma diversidade de tendências aqui, mas é admirável o quanto Britney consegue dar uma “uniformidade” ao todo, entregando um disco que soa interessante do início ao fim. Mesmo que algumas faixas não sejam excepcionais, cada uma delas possui identidade própria e isso enriquece muito sua proposta. Vê-se claramente que o desejo de Spears é experimentar, brincar, se divertir com o que está fazendo.

Com uma melodia etérea, Invitation abre o disco com propriedade, sendo quase um prólogo repleto de sensualidade para o primeiro single dessa nova era, a já conhecida Make Me, em parceria com o rapper G-Easy. Aqui, Brit embarca numa pegada mais upbeat, sem deixar de lado seu pop já conhecido. Private Show  tem um instrumental bem gostoso de ouvir, com uma batida quase hip-hop, porém minimalista. Em seguida, Man on The Moon  traz uma sonoridade teen deliciosa, bem diferente do que ocorre em Just Luv Me, onde a artista abraça novamente o minimalismo em uma música que parece ter sido retirada de Purpose, de Justin Bieber. Tudo isso vai preparando o ouvinte para as duas canções que, de cara, mais chamam a atenção na pista: Clumsy  e Do You Wanna Come Over – esta última com uma atmosfera anos 90 e um violão de base que poderíamos chamar de “pervertido” de tanto que agrega à música.

Com gemidinhos que se tornaram uma de suas marcas registradas, Slumber Party  vem carregada no reggae  e é aqui onde encontramos a letra mais provocante desta obra onde o sexo parece ser um de seus temas principais. Com uma levada de violão e sintetizadores no refrão, Just Like Me  é o mais próximo de uma balada até então. Longe de incorporar uma espécie de Nicki Minaj da vida, Britney apresenta vocais quase falados nos principais trechos de Love Me Down – isso sem mencionar a semelhança com um estilo No Doubt lá na década passada. Hard To Forget Ya  e a ótima What You Need  encerram a versão física de Glory – na “deluxe”, outras cinco canções são adicionadas, com destaque para Change Your Mind (No Seas Cortés), Liar  e a estranha mas sensacional If I’m Dancing.

Contando com o apoio de um extenso time de produtores, Glory  não chega a ser uma obra definitiva do pop ou mesmo de sua idealizadora, mas tem um grande mérito: escancarar ao mundo que Britney 1) sim, está viva; 2) está de volta; e 3) é uma artista incrível. O álbum dificilmente vai torna-la maior do que ela já é (uma hitmaker por excelência, não?) e tampouco representará algo inovador dentro do universo pop ou de sua própria discografia, mas nos entrega aquilo que ela sabe muito bem fazer: música pop comercial e facilmente acessível – e não é exatamente isso o que esperamos dela?

Gwen Stefani Mostra Falta de Identidade Musical em “This Is What The Truth Feels Like”

E lá se vão dez anos desde que Gwen Stefani lançava o segundo disco de sua carreira solo, The Sweet Escape. Desde então, muita coisa se passou na vida da loira: o fim do casamento com Gavin Rossdale, uma ponta como jurada do The Voice EUA (substituindo Christina Aguilera) e até mesmo um retorno inesperado de sua antiga banda, No Doubt. Enquanto tudo isso acontecia em sua vida privada, a indústria fonográfica seguia seus passos. Neste período, a música mudou bastante e artistas surgiam e desapareciam num piscar de olhos. E foi só agora, uma década depois, que a cantora norte-americana decidiu lançar seu terceiro álbum: This is What The Truth Feels Like.

01

A verdade é que This is What The Truth Feels Like mantém a mesma fórmula de seus antecessores: a abrangência de sua música pop. É evidente ao ouvir o disco que a artista tenta abraçar de tudo, se aventurando por várias possibilidades. Não que o registro não tenha lá seus méritos. TIWTTFL foi bem recebido pela crítica e concedeu à sua criadora o primeiro número um solo na parada americana da Billboard (antes disso, Gwen só teria chegado ao topo com Tragic Kingdom, em 1996 – lançamento do No Doubt). TIWTTFL tenta incluir em seu repertório tudo aquilo que o pop permite, mostrando a versatilidade de Stefani. Entretanto, ainda que as canções individualmente sejam agradáveis de se ouvir, elas não são coerentes enquanto formato “álbum” – dificultando ainda mais a inútil tarefa de determinar qual é realmente a identidade sonora de Stefani.

This is What The Truth Feels Like é um caldeirão dos mais diversos estilos musicais. Há algumas boas apostas no R&B e hip-hop, como em Red Flag, a excelente Naughty e Asking 4 It (essa última tão genérica que parece uma reciclagem de várias ideias já usadas anteriormente neste cenário). Where Would I Be? já de cara remete aos tempos de No Doubt por conta da batida reggae carregada. As baladas também ganham espaço, como em Truth (que carrega no refrão o título do disco e será uma ótima opção ao vivo com voz e violão), Used to Love You (primeiro single deste registro e que ajudou a alavancar o projeto, após inúmeras tentativas frustradas de retorno com músicas menos inspiradas) e a deliciosa Send Me a Picture, minimalista em seu estilo verão. Sem parecer muito “farofa”, Obsessed é obviamente a canção mais “pista”, repleta de sintetizadores que tornam este um dos melhores instrumentais até aqui. Misery, You’re my Favorite e Me Without You são exemplos do “menos é mais” e apesar de não serem memoráveis são bastante convidativas. Já a chiclete Make me Like You (segundo single que ganhou um clipe improvável) não revoluciona, mas é bem agradável de se ouvir devido ao seu ar despretensioso.

Talvez o maior erro de Gwen como cantora seja este: falta uma identidade musical a ela. Sabe quando você grava várias faixas em seu celular para ouvir aleatoriamente? This is What The Truth Feels Like é justamente isso: várias canções que funcionam bem individualmente, mas juntas não tem qualquer propósito. Não há estética definida em TIWTTFL – o que não é necessariamente ruim, mas apenas impede Stefani de ser uma referência por si só dentro da cultura pop.

“Death of a Bachelor”: P!ATD se Reinventa em Novo Álbum

Há mais de uma década, o Panic! At The Disco surgia e, dentre os vários artistas de sua época (que dominaram o que podemos chamar de “onda emo” dos anos 2000) a banda liderada por Brendon Urie facilmente se destacava. Seja por suas apresentações pomposas, pela versatilidade das canções e discos ou simplesmente pela irreverência de seu frontman, é fato que o P!ATD foi uma das poucas e gratas surpresas daquele período que ainda continua sendo relevante no cenário fonográfico atual, ao ponto de lançar um álbum que há tempos esperávamos: o elogiado Death of a Bachelor.

01

A impressão que temos ao ouvir aos trabalhos do Panic em sua ordem cronológica é a de que os rapazes estão sempre “à procura da batida perfeita”. Único integrante remanescente da formação original, Brendon hoje parece se sentir à vontade para criar aquele que é, provavelmente, o disco mais redondo da banda desde seu debut. Não que aquilo que veio após o inigualável A Fever You Can’t Sweat Out não tenha qualidade ou sua devida importância na carreira dos caras. Muito pelo contrário: todos foram necessários para criar a identidade do grupo que, sem sombra de dúvidas, é um caleidoscópio de referências e citações – e exatamente por isso tão preciosa. Mas Death of a Bachelor, ainda que (bem) diferente do primeiro registro do Panic, chega como título definitivo na imprevisível trajetória dos roqueiros.

De forma energética, o álbum se inicia com a poderosa Victorious, onde a batida eletrônica é marcante e ousada – sem mencionar o refrão “Tonight we are victorious / Champagne pouring over us / All my friends were glorious / Tonight we are victorious”, grudento ao ponto de fazer você querer ouvi-la inúmeras vezes sem cansar. Cheia de camadas, Victorious é uma combinação perfeita de guitarras, sintetizadores, agudos – tudo junto e misturado mas em ótima harmonia. Don’t Threaten Me With a Good Time chega com sua melodia hip-hop e um tanto retro e uma base de guitarra bastante propícia. Velha conhecida dos fãs, a balada quase-gospel Hallelujah estranha um bocado à primeira audição, mas vai ganhando seu devido espaço no todo. Emperor’s New Clothes é dançante, mas peca talvez no excesso de informação – e assim como a faixa anterior, precisa ser ouvida mais algumas vezes até você se acostumar.

Título deste registro, Death of a Bachelor vai ser, para muitos, o momento mais incrível até aqui – e realmente o é. Trafegando os limites do pop e R&B e com excelentes arranjos de metais (que dão um charme muito peculiar e ela), é de longe a interpretação mais consciente de Brendon até então: seu vocal é potente e seus falsetes são inteligentes e inseridos oportunamente. E se você ama A Fever You Can’t Sweat Out, impossível não balançar ao som da deliciosa Crazy = Genius, praticamente um musical da Broadway. Grande balada do disco, LA Devotee cresce bastante com seu aumento de tom na parte final (após um intermezzo muito bem vindo). Em Golden Days, é a guitarra base que fala mais alto, além da boa performance de Urie (mas lembra vagamente as canções de muitos de seus amigos de dez anos atrás do que algo que a Panic faria). The Good, The Bad and The Dirty não chega a empolgar demais, apesar de bem executada. House of Memories possui uma boa melodia, mas por algum motivo não carrega o mesmo brilho das demais – embora haja uma quebra de ritmo interessante. Encerrando o álbum com grandiosidade, é em Impossible Year que enxergamos até as influências de – pasmem – Frank Sinatra na formação musical da banda. É aqui também que temos um dos melhores desempenhos de Brendon em anos, através de uma composição que aposta na sutileza da combinação piano e voz – vale lembrar que, em alguns casos, menos é mais e isso fica evidente nesta faixa irrepreensível.

02

A verdade é que o P!ATD nunca teve medo de inovar e explorar a si mesmo, tentando ao máximo inventar e reinventar idéias. Com arranjos inesperados (mas não totalmente surpreendentes), Death of a Bachelor deu a Brendon seu primeiro número 1 na parada norte-americana da Billboard 200, além de inúmeras e amistosas críticas. Para os fãs, um disco que exibe toda a monstruosidade que é o vocal de Brendon e sua criatividade ao compor música pop que, ainda que previsível e com certa estrutura já montada (introdução tímida e explosão no refrão), consegue funcionar pela sua diversificação. É como se, finalmente após tanto tempo, a banda – ou melhor, seu vocalista – soubesse o que quer fazer e como fazer. E isso, meu amigo, não tem Billboard que pague…