Coldplay Equilibra Melancolia e Energia em “A Head Full of Dreams”

O maior problema de uma banda de identidade única é evoluir ao longo da carreira sem perder esta identidade – afinal, é ela que torna um artista especial para os fãs. Isso sempre acaba gerando polêmicas. É impossível para qualquer nome de sucesso permanecer na inércia do primeiro álbum; geralmente, eles evoluem (para melhor ou pior) e algumas mudanças são muito transparentes. Os britânicos do Coldplay sofreram com isso. Oriundos de uma época em que se faltava novidade na indústria fonográfica, o grupo liderado por Chris Martin já não acompanha o mesmo estilo dos primeiros discos – como a obra-prima do britpop Parachutes, berço de pérolas como Yellow ou Trouble. A Head Full of Dreams, novo registro do Coldplay, traz de uma forma positiva um pouco de todas as fases anteriores da banda.

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A faixa-título já abre o álbum com o clima lá em cima: é super empolgação e nos remete instantaneamente a Mylo Xyloto, com seu instrumental carregado e eletrônico – ditando praticamente a primeira parte do novo trabalho. Com uma interessante batida indie chega Birds, lembrando vagamente coisas do tipo Two Door Cinema Club ou, surpreendentemente, Radiohead. Com participação discreta de Beyoncé, temos Hymn For The Weekend – talvez o momento mais pop deste disco. Sem muita inovação, no entanto, a música até tenta trazer uma pretensiosa atmosfera dançante, mas tudo o que resta é Chris Martin soltando os pulmões para dizer que “a vida é uma bebida e o amor é uma droga”. Everglow distoa de todo as demais devido à sua melancolia, mas não chega a ser uma má escolha – inclusive, já dá pra imaginar Chris interpretando-a ao vivo com seu piano colorido.

O primeiro single é Adventure of a Lifetime e tem a batida mais dançante até aqui, com uma guitarra à la Daft Punk que a deixa muito mais empolgante e alguns momentos em que não se sabe se quem está no microfone é Chris Martin ou Adam Levine. Tove Lo dá o ar da graça na ótima Fun, com seus incríveis arranjos pop – mas uma pegada mais “crua” a faria ainda melhor. Kaleidoscope é a transição das duas partes do álbum – e poderia passar despercebida, não fosse pela belíssima melodia de piano enquanto ocorre a leitura de um poema antigo e, pasmem, um trecho da tradicional Amazing Grace, cantada por ninguém menos que Barack Obama. Aí vem Army of One – uma faixa que demora para acontecer, mas tem um incrível potencial em apresentações ao vivo. Com voz grave, X Marks The Spot tem um toque meio R&B e é bem diferente das demais – acabando com um fade-out totalmente desnecessário. Daí chegamos a uma das melhores composições do grupo em tempos: Amazing Day, menos eletrônica e, talvez por isso, grandiosa. Encerrando A Head Full of Dreams, temos Up & Up – canção que, claro, cai como uma luva para encerrar também os shows dos rapazes, com um incrível solo de guitarra (cortesia de Noel Gallagher).

Boatos dizem que A Head Full of Dreams será o último CD do Coldplay – os mesmos sugeriram isso diversas vezes. Se é verdade, não sabemos. Mas pode-se afirmar que as experiências advindas dos discos anteriores (a energia pop exacerbada de Mylo Xyloto e a melancolia pungente de Ghost Stories) fundiram-se aqui para criar um registro equilibrado. Percebe-se que as canções foram produzidas com cuidado e capricho, como nos velhos tempos – ainda que faltasse aquela identidade, que só é percebida em certos instantes. Ainda assim, A Head Full of Dreams encerraria a era Coldplay de maneira categórica – não grandiosa como eles merecem, mas ao menos com a vitalidade que tanto precisam.

“Boyhood – Da Infância à Juventude”: Doze Anos de Trabalho e uma Obra-Prima

01Boyhood – Da Infância à Juventude, último trabalho do cineasta Richard Linklater (da trilogia Before), já chamava a atenção do público antes mesmo de seu lançamento – e isso é resultado da proposta atípica pela qual o diretor optou produzir sua história. O filme narra as transformações de vida de Mason, um garoto norte-americano comum entre tantos outros, especialmente entre seus 6 e 18 anos – mostrando suas visões de mundo, seus medos, dúvidas, ansiedades. Para tal feito, Richard passou os últimos doze anos acompanhando de perto o cotidiano de Ellar Coltrane, de seus dias na escola até seu ingresso na faculdade. E não apenas Ellar: todo o elenco esteve lado a lado ao artista durante esse período, se reunindo com a equipe anualmente para adicionar novas cenas à fita, apenas durante três ou quatro dias de gravações anuais.

Com um elenco em ótima sintonia (entre os nomes, temos Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater – esta última, filha do diretor), o pequeno Coltrane é excelente na construção de sua personagem – ou seria o reflexo de seu próprio crescimento? Coltrane oscila bem as nuances de Mason e carrega no olhar todas as experiências pelas quais o nosso protagonista passa. Mas se engana quem pensa que Boyhood traz apenas a história de um garoto. Na verdade, o filme conta muito menos sobre Mason e muito mais sobre a vida e as mudanças que passamos ao longo do tempo. Apesar de a narrativa se estender sobre uma perspectiva americana, é certo que Boyhood é puramente universal, atingindo a cada espectador, ainda que de forma diferente. Muito longe dos melodramas convencionais, Boyhood nos leva de volta às nossas memórias, pessoas, lugares e, principalmente, momentos, sejam eles bons ou ruins, mas que em sua totalidade ajudam a formar nossa personalidade. De forma simples, mas nunca ordinária, o cineasta insere temas que são comuns a todas as sociedades, como infância, casamento, separações, superações.

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O espectador literalmente vê Mason crescer diante de seus olhos, vivenciando todos os dramas rotineiros da adolescência até chegar à fase adulta da vida – quando deve assumir uma postura mais “séria”, assim como responsabilidades. Exatamente por isso, a narrativa é de um realismo incomparável, até mesmo pela habilidade natural de Linklater de conduzir a trama. O roteiro e a edição contribuem muito para a ação da película, até mesmo se levarmos em consideração o fato de que não há uma “história” propriamente dita, com começo, meio e fim – pois aqui, a história é adaptada com o passar dos anos na vida real. A própria trilha sonora (excelente, por sinal) faz uma marcação concisa de tempo cronológico, iniciando-se com a inconfundível Yellow, do Coldplay, e passeando por Arcade Fire, Daft Punk, entre outros artistas – alem também das inúmeras referências à cultura pop, com menções a Lady Gaga, Harry Potter e outros elementos da última década (incluindo impressões sobre o ataque às Torres Gêmeas e a candidatura de Barack Obama). Em suma, Boyhood é um filme também sobre o passar do tempo.

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Com quase três horas de duração (mas, ironicamente, você nem sente o tempo passar), Boyhood é grandioso em sua simplicidade, não abrindo margens para dramas ou histórias absurdas, pois reflete, sobretudo, a vida. Apesar de ser ficcional, Boyhood é uma obra que traz para a discussão a vida de todos nós: os desafios, os altos e baixos, a instabilidade do mundo, as primeiras experiências. Boyhood não é apenas um filme sobre Mason – mas é também o retrato da existência de Davi, de Maria, Alberto, Regina – enfim, de todos. Não à toa, o longa de Richard Linklater (que custou pouco mais de 2 milhões de dólares – quase nada em comparação a outras produções norte-americanas – e demorou menos de quarenta dias de gravação) vem sido amplamente elogiado pela crítica e pelo público. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, Boyhood tem cerca de 99% de aprovação da crítica e 89% do público. Boyhood é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de seu diretor e, provavelmente, um dos mais intensos filmes do ano.

“Ghost Stories”: Coldplay Longe das Origens e Perto do Coração

A banda de rock britânica Coldplay pegou muita gente de surpresa quando anunciou, em março, o lançamento de seu sexto registro de estúdio, Ghost Stories, sucessor do questionável Mylo Xyloto, de 2011. Questionável porque Mylo Xyloto era um disco conceitual e experimental que, apesar das críticas mistas, não agradou totalmente aos fãs dos rapazes – que clamavam por uma volta do Coldplay às antigas e melancólicas composições de sucesso que consagraram o grupo  e não ao estilo “colorido” e animado (quase infantil) de MXGhost Stories chega as lojas ainda este mês, mas já foi disponibilizado no iTunes Radio – e, já à primeira audição, escancara as diferenças com o álbum que o antecedeu.

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Contando com a participação de vários produtores (como do DJ Avicii, Paul Epworth e Timbaland – este último que já trabalhou com Justin Timberlake, Madonna, Rihanna e 50 Cent, entre outros vários artistas de sucesso), Ghost Stories é um disco que, ao longo de suas nove faixas, mostra que o grupo liderado por Chris Martin parece não se arriscar muito. No entanto, a busca por novas sonoridades (principalmente eletrônicas) está presente no álbum, revelando um trabalho que, ainda que esteja distante daquilo que a banda fazia nos primeiros anos é capaz de agradar.

Ghost Stories abre com Always in My Head – com sua introdução sublime e seu refrão cativante, onde Chris declara que “você está sempre em minha cabeça”, ao som de uma guitarra deliciosa. De longe, uma das melhores músicas do disco. Em seguida, Magic (primeiro single já lançado anteriormente) sugere que não há nada mais mágico do que estar ao lado de quem se ama. A baladinha simplista não é nada próximo aos grandes sucessos de outrora, mas é totalmente amigável – e, ao vivo, com Chris ao piano, certamente ficará ainda melhor. Ink é outra baladinha experimental, que talvez executada por uma banda menor não teria a mesma felicidade e eficiência. Sem muita grandeza, é uma daquelas canções que cairiam bem em qualquer trilha sonora.

True Love vem carregada de elementos eletrônicos, que a deixa com um ar meio acústico, apesar dos belos arranjos de cordas e da guitarra que segura a música ao longo de sua execução. Midnight tem uma falsa pretensão melancólica e, apesar de não ser uma obra-prima, é a faixa cuja letra mais se aproxima das composições antigas do grupo. Nada alem disso. A canção tem uma pegada eletrônica bem minimalista, acentuada pelo uso explícito do autotune na voz de Chris – tornando-a quase experimental. Another’s Arms segue a mesma linha eletrônica-experimental de Midnight – mas menos minimalista (talvez pelos belos arranjos vocais femininos). Oceans é a música mais acústica do álbum, apesar de crescer ao longo de seus mais de cinco minutos – exceto por seu final sintetizado e, particularmente, desnecessário. Em seguida, A Sky Full of Stars, a aguardada composição produzida por Avicii, se traduz no momento mais dançante do trabalho até aqui, mesclando a agitação “disco” com o acústico de um violão que dá todo o ritmo – faltou apenas a Nicki Minaj fazendo um feat. para completar a situação (só que nunca). Fechando Ghost Stories, temos a bela introdução ao piano de O (sim, apenas “o”) – talvez a faixa que mais lembre a melancolia do Coldplay de Parachutes – um belo momento que encerra bem o disco.

02Ghost Stories é um grande ponto de interrogação na cabeça dos fãs da banda. Não é o disco que se esperava, porém é um trabalho bom que, ainda que um pouco engessado, absorve bem as novas experiências que o quarteto adquiriu ao longo de quase 20 anos de estrada. O que se percebe é que aos poucos o grupo britânico vem apresentando um novo conteúdo, distanciando-se de suas origens, mas sem perder por completo a essência que os fãs tanto amam. O maior distanciamento, à primeira audição, fica nas letras, pois Chris nunca esteve tão amante como aqui – o álbum é carregado de letras com frases clichês e talvez piegas, como “eu não quero ninguém mais alem de você”, “eu penso em você” ou (o ápice do amor romântico) “diga que me ama ou minta” – frases que em composições pop seriam amplamente satirizadas. Talvez seja reflexo do fim (surpresa!) do casamento entre Chris Martin e a atriz Gwyneth Paltrow – como dizem, até mesmo um pé na bunda serve para alguma coisa. Talvez seja o interesse repentino de Chris na boyband britânica One Direction e, especialmente, em seu frontman Harry Styles (amplamente elogiado pelo cantor de clássicos como YellowClocksTroubleFix YouThe Scientist e uma porrada de músicas boas). Fato é que Ghost Stories não traz uma inovação total ao som da banda, mas mostra que o Coldplay está em boa forma – suficiente para criar um projeto pensado, conceitual e focado na experimentação, capaz ainda de atingir o coração da crítica e do público.