Lady Gaga Aposenta o Visual Pomposo e Solta a Voz Como Nunca em “Joanne”

Desde o subestimado Artpop (um trabalho incompreendido, que pecava pelo excesso de ideias – ainda que algumas geniais) e um passeio pelo jazz ao lado do sempre competente Tony Bennett, os little monsters aguardavam ansiosamente pelo triunfal retorno de Lady Gaga ao pop. Mesmo os que não simpatizavam com ela também tinham lá suas expectativas, afinal algumas de suas maiores “divas” haviam assumido um tom mais conceitual em seus últimos álbuns (vide Rihanna ou Beyoncé, por exemplo). Logo, há tempos faltava um bom disco pop com músicas para fazer a galera ir até o chão nas boates por aí. Para o bem ou para o mal, Joanne, novo registro de Gaga, chega recentemente às lojas dividindo opiniões, mas mostrando seu indiscutível amadurecimento como artista.

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Sim, Gaga ultrapassou o status de “diva pop” para se tornar uma intérprete respeitada, com liberdade artística para fazer exatamente aquilo com a qual se sente confortável – e a verdade é que os figurinos extravagantes de outrora já não são tão interessantes, fazendo com que Stefani Germanotta aposente o vestido de carne e vista as botas e chapéu rosa que são os símbolos desta sua nova fase. Joanne é, provavelmente, o seu disco mais pessoal, onde Gaga solta a voz (e como) para falar de seus “demônios” internos que a apavoram e já fazem parte de sua rotina.

Apoiada em uma base composta por guitarra, baixo e bateria, Diamond Heart abre este registro sem o peso de sintetizadores, mas nem por isso menos pop. De cara, é capaz de agradar aos fãs iniciais da cantora. Faixa mais radiofônica de todo o conjunto, A-Yo segue a linha pop de sua antecessora, um hit pronto para as pistas (mesmo que não tenha o vigor de nenhum de seus clássicos anteriores). Com simplicidade e abandonando praticamente qualquer “acabamento” vocal, Joanne é de uma beleza musical única com sua percussão tímida e seu violão dedilhado. É uma calmaria que contrapõe à sequência de canções que segue: John Wayne, com sua batida diferente de tudo o que se ouviu até aqui; Dancin’ in Circles, com sua levada reggaeton que remete à era The Fame Monster; e Perfect Illusion, primeiro single que, embora não seja explosivo e nem faça tanto sentido quando ouvido individualmente, chega se firmando como um dos momentos mais coesos de Joanne.

Million Reasons é a faixa com os mais fortes elementos que referenciam ao estilo country de Joanne. Balada poderosa, aqui você é obrigado a admitir que, sim, Lady Gaga canta muito. Nos remetendo aos filmes tarantinescos que Gaga aparenta admirar bastante, Sinner’s Prayer é uma mistura experimental entre pop e country e, talvez por isso, soe tão curiosa à primeira audição. Com ótimos arranjos de metais e vocais, Come to Mama tem uma melodia incomum e é deliciosa de se ouvir – até agora não entendo às críticas a ela, para ser bem honesto. Em parceria com Florence Welch, Hey Girl traz suavidade e minimalismo, com uma letra feminista que agrega muito à proposta do álbum. Angel Down fecha a versão comum de Joanne, com uma atmosfera soturna e uma interpretação potente de Gaga, isso sem mencionar a parte instrumental muito peculiar.

Ame ou odeie, até o menos é mais quando falamos de Lady Gaga. Goste ou não, a cada dia que passa ela deixa de lado o rótulo de “esquisita” e se consagra como uma das artistas mais completas de sua era. Ainda que Joanne não seja o alívio pop que esperávamos, encontramos aqui uma Lady Gaga sem medo de retornar às suas raízes. Pelo contrário: ela busca valoriza-las, entregando um disco que, entre altos e baixos, tem seus méritos dentro da carreira da cantora. Talvez nunca mais escutaremos algo tão estrondoso quando um Bad Romance ou Pokerface, é verdade, mas é válido o esforço de Gaga em tirar as máscaras e mostrar sua verdadeira face – e já que isso pode ser inevitável, que tal aproveitarmos?

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Retrospectiva 2013 – Parte 4: As Revelações, Os Singles e as Decepções da Música em 2013

Continuando a retrospectiva da indústria fonográfica em 2013, chegou a hora de listar quais foram os singles que não saíram da boca da galera, os artistas que chegaram marcando território e, para variar, aqueles que enfiaram o pé na jaca e decepcionaram a crítica e o público por seus trabalhos não tão memoráveis (ou ruins, mesmo).

revela

LORDE
Lorde deu um up considerável em sua carreira no ano de 2013, saindo do status alternativo e chegando ao mainstream com a ajuda de companheiros de profissão e, obviamente, divulgação na internet. Aproveitando isso, sua gravadora apressou a gravação de seu álbum de estréia, Pure Heroine, colocando-a nas paradas mundiais do dia para a noite.

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ARIANA GRANDE
As comparações entre Ariana Grande e a diva R&B Mariah Carey não são injustas. Ariana, assim como Mariah, é uma das poucas cantoras capazes de reproduzir o whistle (o maior registro agudo alcançado pela voz humana). Muitas das músicas da ex-atriz da Nickelodeon (cujo primeiro registro foi lançado em 2013) parecem ter sido retiradas de algum disco perdido de Mariah Carey lá pela década de 90…

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IMAGINE DRAGONS
Com a canção Radioactive, a banda Imagine Dragons ficou mais de 50 semanas na lista da Billboard – e foi até considerado o hit do ano pela revista Rolling Stones. Com pouco mais de cinco anos de carreira, a banda participou da trilha sonora do segundo filme da saga Jogos Vorazes e recebeu duas indicações para o Grammy Awards, em 2014.

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ICONA POP
Formado em 2009, o dueto sueco de electrop pop já havia chamado atenção há alguns anos quando, em 2011, a Rolling Stones o consideraram a estréia mais promissora do ano. Mas a banda cresceu e 2013 foi um ótimo ano para a dupla, que era presença constante no top 10 de vários países mundo afora.

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MACKLEMORE & RYAN LEWIS
A dupla já tem alguns anos de estrada separadamente. A proposta do rapper Macklemore e do produtor Ryan Lewis é misturar hip-hop e pop, de forma até mesmo divertida. A fama global veio em 2013 com o vídeo viral de Thrift Shop, que colocou os caras no topo da parada de oito países, incluindo EUA, Reino Unido e Austrália.

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singles

DO WHAT U WANT – Lady Gaga
Em 2013, Lady Gaga lançou seu injustiçado ARTPOP, cuja primeira música de trabalho é Applause. No entanto, quem merece aplausos mesmo é Do What U Want, parceria de Gaga com R. Kelly, que utiliza sintetizadores (tão comuns a artistas indie) em dose equilibrada, alem de uma temática sexual – que fez a música chamar a atenção e, para muitos, ser considerada a melhor faixa de Lady Gaga desde Bad Romance, do seu primeiro disco.

BLKKK SKKKN HEAD – Kanye West
Carro chefe do ótimo álbum YeezusBlack Skinhead prova que Kanye West sabe fazer música – e sabe fazer bem. Nenhuma novidade, já que falamos de um artista cujos trabalhos são frequentemente bem recebidos pela crítica.

ROYALS – Lorde
Para provar o que falamos acima sobre a neozelandesa, Royals entra na lista. Royals ajudou Lorde em sua turnê pelos EUA, alem de gerar um contrato milionário para a garota – que, ao que tudo indica, é alta aposta para 2014.

GET LUCKY –  Daft Punk feat. Pharrell
Demonstrando o poder da internet, Get Lucky é uma música que caiu nas graças do público com o mínimo de divulgação (nem clipe oficial a música teve). Antes mesmo de ser lançada, a música já estava bombando pela rede, gerando inúmeros coversremixes.

WRECKING BALL – Miley Cyrus
Definitivamente, em se tratando de single, difícil deixar Miley Cyrus de fora. Seu Wrecking Ball foi uma das músicas mais comentadas do ano. Ótima balada, o clipe da canção é bom e polêmico, gerador de diversos memes na internet e marcando a nova fase tresloucada da ex-Hannah Montana.

MENÇÃO NACIONAL HONROSA (ou não)

SHOW DAS PODEROSAS – Anitta
Amigão, cá entre nós, que brasileiro não cantou o refrão “PRE-PA-RA” ao menos uma única vez ao longo de 2013? Críticas a parte em relação à funkeira, a música pegou geral e se tornou um dos maiores hits nacionais (se não, o maior) do ano, tornando Anitta uma celebridade instantânea e figurinha carimbada nos programas televisivos de domingo – além, óbvio, das inúmeras paródias e versões criadas na internet.

DECEP

01BRITNEY SPEARS
O que era para ser um disco pessoal e intimista, acabou se saindo uma farofa… Britney errou a receita e seu Britney Jean não decolou e se tornou um dos piores álbuns do ano. Com singles como Work BitchPerfume, o trabalho é totalmente descartável na carreira da princesinha do pop (que também já não é mais tão princesinha assim, hein, cá entre nós…).

02BACKSTREET BOYS
Talvez desejando alcançar o mesmo sucesso que a boy band britânica One Direction, os rapazes do Backstreet Boys (que já foram considerados a maior boy band de todos os tempos) lançaram o álbum In a World Like This – esquecido pela crítica e desprezado pelos fãs.

03ARCTIC MONKEYS
O quinto álbum de estúdios da banda Arctic Monkeys, AM, estreou em primeiro lugar nas paradas do Reino Unido, vendendo mais de 150 mil cópias apenas na primeira semana. Porém, alguns críticos torceram o nariz para o registro, alegando as diferenças em relação aos trabalhos anteriores da banda britânica.


04ONE DIRECTION

Já elogiei a boy band em outras ocasiões (afinal, como música pop, as canções da banda funcionam bem). O problema é que eles parecem estar engessados à uma receita que os consagraram há alguns anos atrás – e seu Midnight Memories parece uma compilação dos trabalhos anteriores dos rapazes, não promovendo nenhuma evolução significativa na carreira da banda.

0530 SECONDS TO MARS
Love Lust Faith + Dreams, quarto álbum de estúdio da banda de rock alternativo 30 Seconds to Mars, não foi muito bem recebido pela crítica e pelos fãs da banda – e rendeu, no máximo, o ótimo clipe para a faixa Up In The Air. E só. Infelizmente, nem só de clipes com pretensões cinematográfica e megalomaníacas a indústria fonográfica sobrevive…

Afinal, “Artpop” é Digno de Aplausos?

Você pode até tentar ficar indiferente – mas é inegável que Lady Gaga é uma grande artista. Cá entre nós, em pouco mais de cinco anos, ela conseguiu o que muitas “divas” não alcançaram em décadas: ameaçar o posto de Madonna de “rainha do pop” – e, convenhamos, se Madonna não se cuidar, quem sabe… No sentido mais amplo da expressão, Gaga é uma artista completa – ainda que com várias deficiências – e acaba de entregar ao público o terceiro registro de sua carreira, o aguardado Artpop – que divide as opiniões e colocam em cheque toda a badalação em torno da cantora pop.

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Por que Artpop divide opiniões? Bom, os little monsters (como Gaga carinhosamente apelida seus fãs) consideram Artpop o álbum do ano – e uma das maiores realizações da cultura pop nos últimos tempos. A crítica, por sua vez, o classifica como um dos maiores fiascos da indústria fonográfica na  história. De fato, Artpop não é um trabalho totalmente inovador – chega a ser até mesmo “medíocre” (entendedores entenderão o que eu quero dizer com esse adjetivo – claramente, ele não vem como crítica). No entanto, mesmo os fãs mais afoitos deverão admitir que, apesar de toda sua propaganda artística, Artpop é um disco que tenta estar muito próximo à arte – mas essa aproximação só aparece no discurso. Na prática…


Para produzir e promover Artpop, Gaga escalou um time de peso. Entre os produtores, estão nomes como David Guetta (olha a farofa aí, gente!), will.i.am (pegada pop, hein?) e Rick Rubin – só para citar alguns. O artista norte-americano Jeff Koons é quem assina a capa do álbum – onde temos Gaga nua como uma nova Vênus, uma referência à tela clássica de Sandro Botticelli. A ideia por trás de tudo isso? Bom, Gaga pretende levar a arte à cultura pop, aproximar estes dois mundos que, apesar de parecerem próximos, são bem distintos. A pretensão de Gaga aqui é fazer com que o acesso à alta cultura seja mais simples – e, obviamente, nada melhor do que a música pop para fazer isso. No entanto, essa integração entre os dois universos ficou um tanto quanto superficial. Faltou alguma coisa – que você perceberá na primeira audição de Artpop.

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Não que Artpop seja ruim. Dizer isso a essa altura da carreira de um nome como Lady Gaga é, no mínimo, injustiça. Artpop é um álbum bom – se desconsiderarmos seu propósito, obviamente. Na verdade, estamos diante de um claro exemplo de como funciona a cena pop na atualidade: ao longo de 15 faixas, Gaga consegue produzir uma música de qualidade, deixando-a na frente de muitas de suas concorrentes. Aura, que abre o disco, lembra em muito a batida de Daft Punk e tem guitarras simulando o som de cítara – deliciosa. A pegada R&B do conjunto fica por conta das ótimas Sexxx Dreams e Do What U Want – esta última que conta com a participação de R. Kelly, formando um belo dueto.

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Venus, outra bela canção do álbum, vem recheada com um passado oitentista, explicitado pelo uso de sintetizadores. Dope, por sua vez, é a grande baladinha do disco, com seus acordes de  piano e uma bela interpretação vocal da cantora – música que talvez jamais imaginaríamos em um registro como este. Donatella (inspirada na estilista da Versace) tem uma ótima pegada urbana e também é uma grande surpresa do álbum. Menos inspiradora, no entanto, é a própria faixa título, que não chega a empolgar muito – ao menos, os ouvintes mais atentos e críticos.

Como produto final, Artpop é um álbum que mostra exatamente o que Lady Gaga é: uma artista que sabe ser artista. Vamos admitir: Gaga não é uma excelente cantora, não é ótima dançarina, não toca lá essas coisas nem compõe como uma poetisa. Mas como uma boa artista, ela pega tudo aquilo que sabe fazer satisfatoriamente bem e melhora para alcançar um status de “diva cool” que a galera descolada adora. Como muito de seus contemporâneos na música pop, Gaga sabe que imagem nesse mundo é tudo. Nesse propósito, Artpop é muito bom isoladamente, mas que se perde dentro dos rumos que pretende tomar e serve para mostrar que Gaga é uma grande home não apenas no palco – mas, principalmente, fora dele. Este é o grande mérito da cultura pop.