O Último Portal (The Ninth Gate)

Muitas biografias de Roman Polanski sugerem que o diretor tenha feito um pacto com o demônio em troca da fama. Não se pode afirmar ao certo se tal pacto realmente existiu, mas é fato incontestável que Polanski tem uma vida fora dos palcos tão polêmica quanto sua própria obra. Em O Último Portal, de 1999, o diretor retoma um tema que abordara (ainda que parcialmente) trinta anos antes, em seu cultuado O Bebê de Rosemary: o satanismo, o sobrenatural, o além.

O Último Portal é uma viagem ao reino das trevas. Na trama, Dean Corso (Johnny Depp, antes da saga Piratas do Caribe) é um especialista e negociante de livros raros de caráter duvidoso e despudorado, contratado pelo milionário Boris Balkan (Frank Langella) para confirmar a autenticidade de um livro raro que, segundo consta, teria sido coescrito por Aristide Torchia e o próprio demônio. Na realidade, Boris possui um dos três únicos exemplares do livro de Torchia dos nove escritos em 1966 que teriam o poder de invocar o diabo e abrir as portas para o inferno.

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Essa é uma incursão séria de Polanski ao sobrenatural. Boa parte da obra mais autoral do diretor já tem alguns elementos essenciais em thrillers de mistério ou sobrenatural (como o já citado O Bebê de Rosemary ou O Inquilino). No entanto, em O Último Portal, Polanski vai mais a fundo, quase caindo nos clichês do gênero. Não fosse pelo talento do cineasta, O Último Portal teria tudo para ser mais um longa de suspense a tratar temas sobrenaturais – mas Polanski conduz tão bem a tensão e o clima decadente da história que o filme se torna uma obra que te deixa atordoado (positiva ou negativamente).

Polanski faz do livro misterioso o principal personagem de seu filme. Dean Corso é um anti-herói, que vai ganhando mais empatia à medida que se torna mais decadente como ser humano. A frieza de Corso e sua moral cínica deixam o personagem ainda mais interessante, enquanto ele se vê cada vez mais determinado a encontrar uma resposta para o enigma que tenta desvendar, ainda que não saiba exatamente o porquê. Aliás, não há porquês – e com isso, Polanski cria um suspense aterrorizante e aberto a inúmeras interpretações. Há grupos de debates na rede que tentam decifrar alguns enigmas da história, como a identidade da personagem de Emannuelle Seigner ou a pessoa por trás dos assassinatos da trama. Até mesmo o desfecho é de uma ambiguidade tamanha que divide os fãs, deixando uns fascinados e outros decepcionados.

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Polanski cria ainda um ambiente repleto de sugestões: a obra traz referências e citações, com pistas escondidas que conduzem às mais diversas leituras. Deixando as soluções muito fáceis de lado, Polanski é um deus fanfarrão que brinca com suas personagens como marionetes, manipulando-os da maneira que bem entender para criar seu suspense – que ainda é mais atenuado com a excelente trilha sonora do polonês Wojciech Kilar (um subestimado que, entre outros, assina a trilha de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Copolla), com toda sua erudição e mistério.

Embora tenha uma das piores avaliações da filmografia do cineasta, O Último Portal, a meu ver, é um ótimo filme, que abre margem para diversas suposições e cabe ao expectador decidir qual delas é a mais adequada para si. Apesar do ritmo lento em alguns instantes, é um thriller sobre forças ocultas e satanismo – o que aumenta ainda mais os mitos acerca da obra e, principalmente, da vida de Polanski.