“Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”: Adaptação do Best-Seller Francês é Boa, Mas Não Empolga

Iris e Joséphine são irmãs, mas vivem em realidades opostas. Iris é a primogênita e preferida da mãe: linda, loira, aparentemente bem casada e financeiramente estável, ela leva uma vida luxuosa e fútil. Estudou cinema quando jovem e hoje está na expectativa de uma grande obra, que parece nunca chegar. Joséphine, por sua vez, sempre foi o “patinho feio” da família: desprezada, ela trabalha como pesquisadora e tradutora, ganha pouco e tem duas filhas – incluindo uma adolescente insuportável. A situação fica ainda mais crítica quando o marido sai de casa, deixando-a com uma grande dívida no banco.

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Baseado no best-seller escrito por Katherine Pancol (que esteve na lista dos mais vendidos na França em 2006, quando foi lançado) e dirigido por Cécile Telerman, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é uma comédia dramática que nos apresenta duas protagonistas que, apesar de próximas, estão cada vez mais distantes entre si. As irmãs são diferentes em todos aspectos: como profissionais, esposas, mães, mulheres. São essas diferenças que pontuam o relacionamento entre elas, porém elas se completam de certa forma – e isso fica claro quando Iris convence Joséphine a escrever um romance e permitir que ela leve os créditos: enquanto a primeira fica com as glórias do livro, a segunda recebe o dinheiro das vendas (que vai tira-la da crise financeira) e assim os vazios de ambas ficam preenchidos.

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O roteiro deixa explícito esses dois mundos. Poderia, no entanto, abolir tramas paralelas que não acrescentam nada ao desenvolvimento das protagonistas – ou, pelo menos, troca-las por histórias mais construtivas, como o relacionamento das irmãs com a mãe ou o casamento de Iris. Outros personagens poderiam ser melhor explorados, como Luca (o misterioso estudante que desperta a atenção de Joséphine) ou Philippe (o marido que tenta salvar o casamento mas se depara com a futilidade da esposa rica). Já as atuações de Emmanuelle Béart e Julie Depardieu não chegam a ser memoráveis – na verdade, em alguns instantes elas até incomodam um pouco (mas isto deve ser reflexo da maneira como os personagens são tratados). Por sua vez, o elenco masculino está em dia com o proposto: Patrick Bruel tem uma performance concisa e madura, enquanto o espanhol Quim Gutiérrez traz muita introspecção e mistério ao seu tipo. A trilha sonora ajuda a fita, assim como a fotografia que, se não é tão excepcional, aposta em tons pastéis e acerta na sobreposição de cores.

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Talvez o desfecho pudesse ser resumido com aquele velho ditado do “aqui se faz, aqui se paga” – e isso torna as ações previsíveis demais. Apesar do bom argumento, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos não nos entrega nada alem de um filme mediano, que poderia ser mais profundo nos dramas de seus tipos. Ao invés disso, fica-se uma história rasa, por vezes superficial, que não empolga alem de sua projeção. Com muito potencial, o filme é bom à sua maneira: há seus momentos interessantes, mas não passa disso. O que não deixa de ser uma pena: Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é mais um daqueles casos em que a obra literária é infinitamente melhor que o cinema.

Faltou Tudo em “Sexo, Amor e Terapia”

Dirigido por Tonie Marshall, Sexo, Amor e Terapia é uma comédia que narra o curioso encontro entre Judith e Lambert: ela, uma mulher à frente de seu tempo, que vive sua sexualidade sem medo e mantém casos com os homens que desejar; ele, um viciado em sexo que está passando por um período de abstinência. No entanto, quando os dois passam a trabalhar no mesmo consultório como terapeutas de casais, a situação vai se tornar cada vez mais difícil para eles. 01 Poderíamos dizer que Sexo, Amor e Terapia é a história de duas pessoas que simplesmente se conheceram na hora errada: uma ninfomaníaca e um abstêmio sexual. E talvez é justamente isso que temos para falar sobre este filme porque, de fato, nada alem disso acontece na trama ao longo de sua projeção. Durante quase uma hora e meia, a narrativa se sustenta totalmente na tensão sexual entre os dois personagens principais (com flerte, joguinhos e outras firulas, de soluções fáceis e previsíveis) e também nos enfadonhos diálogos terapêuticos, que nada agregam à fita. Resumindo: não há um clímax ou um grande momento e com isso os poucos minutos de fita se tornam intermináveis. O filme não sai do lugar e quase termina da mesma forma como começou: sem despertar o menor interesse do público. 02 Para completar, parece que a química entre os protagonistas não funciona. Patrick Bruel tem cara de “homem maduro”, um tanto quanto incompatível para o papel (o tom cômico pode ter atrapalhado sua caracterização), enquanto Sophie Marceau faz caras e bocas – qualquer homem fugiria de uma mulher que agisse como ela, cá entre nós. O humor dá certo em alguns raros trechos, com piadas de caráter sexual que, sinceramente, não arrancam muitas risadas. Como comédia, é fato que Sexo, Amor e Terapia tem uma ótima proposta; é uma pena que na execução esses três ingredientes e todos os outros necessários para se fazer um bom filme faltaram.