Sirât (Sirât, 2025)

Em uma rave isolada nas montanhas do sul do Marrocos, dois rostos se distinguem na massa de corpos entregues à incessante música eletrônica: claramente isolados, atentos a tudo e a todos que veem, Luis e seu filho procuram por Mar, filha e irmã que desaparecera meses antes em uma festa semelhante. Enquanto circulam naquele ambiente que lhes é visivelmente estranho, a dupla distribui as fotos da garota perdida, buscando qualquer informação que possa leva-los ao seu paradeiro – mas todo o esforço parece ser em vão. Uma nova esperança surge, no entanto, quando eles descobrem a existência de uma última festa, mais afastada, em meio ao deserto marroquino e decidem seguir um grupo de figuras alternativas, cujas formas de vida parecem tão instáveis quanto o território hostil pelo qual irão se aventurar.

“O fim do mundo já está acontecendo há alguns anos…”, diz um personagem ao ouvir um relato no rádio – frase que, sob certa perspectiva, pode indicar o ponto de partida alegórico de Sirât, novo filme de Oliver Laxe (e cuja produção envolve nomes como os irmãos Agustín e Pedro Almodóvar). O “sirat” é um conceito central do Islã: segundo a tradição, trata-se da ponte que todos os seres humanos deverão atravessar no dia do Juízo Final; estendida sobre o inferno, ela conduz ao paraíso e, naturalmente, atravessá-la com sucesso depende unicamente das ações da pessoa em vida (os justos chegam ao seu destino, enquanto os ímpios tropeçam e caem no inferno).

Sirât foge da narrativa comum, estando muito mais preocupado em trazer perguntas do que sugerir respostas. Pouco sabemos, de fato, sobre seus personagens, suas motivações (à exceção óbvia de Luis, para quem a busca da filha torna-se uma obsessão) ou mesmo sobre aquilo que exatamente os move a seguir em frente mesmo diante do desgaste físico, dos riscos da empreitada e, principalmente, da desesperança que se avizinha a cada passo. Ao se recusar a oferecer explicações, o filme desloca seu interesse para a experiência da travessia, especialmente a partir da segunda metade do filme, quando o espectador é convidado a acompanhar um percurso (moral, físico e simbólico) que os sentencia a todo instante, rumo a uma absolvição que não se sabe ao certo se virá ou não.

A aridez do deserto, filmada com rigor pelas lentes do diretor de fotografia Mauro Herce, não funciona apenas como cenário; ela é uma extensão do estado interno daqueles personagens, intensificando o silêncio, o vazio e a exaustão daqueles seres. À medida que o roteiro se despe de justificativas, qualquer expectativa de redenção se dissolve e o que resta é apenas a travessia em si, com toda sua ambiguidade. Não há consolo – e, por vezes, o filme parece até desafiar seu público, proporcionando-lhe momentos de tensão que podem até mesmo soar gratuitos. Ao final, Sirât evidencia-se menos para uma narrativa de resoluções, sem fechamento: é um filme que abandona o conforto do destino final, mas insiste nos desafios do caminho, sugerindo justamente que, entre a perdição e a salvação, o que nos restar é arcar com o peso dessa travessia.

Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie)

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.