Nouvelle Vague (Nouvelle Vague)

Na Paris do final dos anos 1950, surge um grupo de jovens cineastas — muitos deles oriundos da redação da lendária Cahiers du Cinéma — que seria responsável por um dos movimentos mais importantes da história do cinema: a nouvelle vague francesa. Para se ter uma noção de sua dimensão, segundo estimativa de François Truffaut, cerca de 170 novos cineastas emergiram em seus primeiros anos, entre 1958 e 1962 — número expressivo, considerando as condições da época. Nesse contexto de renovação estética e de contestação dos modelos narrativos tradicionais, Jean-Luc Godard faz sua estreia em longa-metragem com Acossado (À bout de souffle, 1960), consolidando seu nome como principal autor do movimento ao entregar aquela que é a obra mais emblemática da nouvelle vague.

Décadas depois, esse momento central na história do cinema moderno serve de contexto histórico para o homônimo Nouvelle Vague (2025), de Richard Linklater, filme que revisita os bastidores de Acossado. À medida que reconstrói o processo fílmico da obra-prima godardiana, o cineasta interroga a própria origem do mito da nouvelle vague, ao mesmo tempo que observa, à distância, o surgimento de uma modernidade cinematográfica que recusava padrões estabelecidos e estimulava a liberdade autoral.

Godard, é sabido, não era uma pessoa fácil de lidar – e, sob parâmetros atuais, seria certamente “cancelado”. Sua genialidade, no entanto, é inegável. Essa dualidade (tão comum na história da arte, diga-se de passagem) atravessa os tempos e suscita discussões recorrentes sobre o desafio de se olhar a obra para além de seu autor (ou apesar dele). Em Nouvelle Vague, essa problemática é atenuada pela carismática construção de personagem de Guillaume Marbeck, que entrega um protagonista sem caricaturas – mesmo com seus inseparáveis óculos escuros e suas frases de efeito: ora petulante, ora vulnerável, seu Godard se revela, provavelmente, muito mais simpático que o original. Zoey Deutch e Aubry Dullin, por sua vez, completam o elenco principal como, respectivamente, Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo, os protagonistas de Acossado. Enquanto ela, mesmo em sua docilidade, estabelece uma relação conflituosa com o diretor – marcada por ironias, piadas e visível insatisfação com o projeto –, o descolado Belmondo se impõe como uma figura extremamente cativante (de longe, a maior surpresa do elenco). A dinâmica entre o trio responde por alguns dos melhores momentos no filme.

No entanto, há uma ressalva: Nouvelle Vague é um projeto milimetricamente pensado por e para os apaixonados por cinema – e, principalmente, o movimento francês. Rodado em câmera de 35 mm, em preto e branco e com um design de produção impecável, Nouvelle Vague nos transporta com eficácia para aquele universo, como se, de fato, estivéssemos diante de uma obra dos anos 1960 e não de um filme contemporâneo sobre o período. Dito isso, é necessário pontuar que o longa de Linklater atua quase como fanservice: está repleto de referências, citações e personagens icônicos (aliás, a escolha de identifica-los por legendas, olhando diretamente para a câmera, funciona muito bem aqui); mas carece, é verdade, de profundidade – seja na construção de seus personagens secundários, seja em seu arco narrativo central. Assim, Nouvelle Vague é mais um filme de bastidores (bem executado, agradável de se assistir, divertido, acolhedor e direto – quase não se vê a hora passar) para os que já estão habituados a esse cenário; para quem cair de paraquedas, a história pode soar superficial, simplista demais – contentando-se, no máximo, a despertar o interesse pelo movimento e seus personagens (até mesmo por se concentrar mais em Godard e seu processo criativo do que na nouvelle vague em si). Nouvelle Vague, portanto, se assume menos como uma reinvenção do passado e mais como uma celebração – um verdadeiro gesto de amor ao cinema que, mesmo limitado, reafirma a permanência de um legado inquestionável.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Everybody Wants Some!!)

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, como seu próprio idealizador sugeriu, é uma “sequência espiritual” de Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, no original) – hoje um clássico dos anos 90, que ajudou a alavancar a carreira do então iniciante Richard Linklater. Mas não se deixe levar por isso: Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, por si só, tem méritos suficientes para ganhar o devido destaque na filmografia do cineasta.

Se no filme de 1993 Linklater acompanha o último dia de colégio de uma turma de adolescentes a caminho do que seria nosso Ensino Médio, nos anos 70, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes narra os primeiros dias de um grupo de universitários às vésperas do início das aulas, em 1980. Eles são jogadores de uma equipe de baseball, moram em uma espécie de república estudantil e estão naquela fase da vida em que acreditam ser capazes de tudo. E realmente o são.

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Jovens, Loucos e Mais Rebeldes nos traz uma ambientação perfeita dos anos 80 em vários aspectos, o que nos transporta para aquele período. E são os detalhes que impressionam: cabelo, maquiagem, figurino e cenários são cuidadosamente bem recriando, nos trazendo uma sensação de nostalgia que se acentua a cada minuto da fita por conta da ótima trilha sonora. A seleção musical de Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é excepcional, percorrendo vários gêneros que caracterizam a época. Para mim, é o ponto alto do filme.

O roteiro, por sua vez, não decepciona. Aparentemente, os diálogos são puramente despretensiosos, mas em sua totalidade são repletos de significados. Apesar de não ter necessariamente um conflito muito bem estabelecido, seu humor e dinamismo tornam as quase duas horas de fita muito leves, como se o tempo não passasse (assim como para seus personagens). A primeira parte do filme, por exemplo, parece praticamente não sair do lugar, mas é incrível o quanto a história consegue diferenciar cada um dos tipos. Apesar de todos terem um interesse em comum (o esporte), cada um deles mantém sua individualidade. Cada estereótipo está ali, inclusive aquele que é, talvez, o protagonista da trama, Jake – o ponto de equilíbrio entre seus colegas.

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Infelizmente, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes sofre por seus antecessores: o da década de 90 (que gera comparações inevitáveis porém injustas) e Boyhood – Da Infância à Juventude, obra-prima de Linklater que fatalmente aumenta as expectativas com relação à esta nova produção. No entanto, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é um filme que, em sua simplicidade, se mostra indiscutivelmente inteligente, nostálgico e divertido. O longa não perde seu tempo justificando ou mesmo julgando as ações de suas personagens; pelo contrário, ele se prende ao relato de situações e momentos típicos daquela geração. É a história de um grupo de amigos e suas aspirações, desejos e sonhos, narradas com a nostalgia capaz de nos fazer sentir saudades de uma época que nem mesmo vivenciamos.

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)

01Boyhood – Da Infância à Juventude, último trabalho do cineasta Richard Linklater (da trilogia Before), já chamava a atenção do público antes mesmo de seu lançamento – e isso é resultado da proposta atípica pela qual o diretor optou produzir sua história. O filme narra as transformações de vida de Mason, um garoto norte-americano comum entre tantos outros, especialmente entre seus 6 e 18 anos – mostrando suas visões de mundo, seus medos, dúvidas, ansiedades. Para tal feito, Richard passou os últimos doze anos acompanhando de perto o cotidiano de Ellar Coltrane, de seus dias na escola até seu ingresso na faculdade. E não apenas Ellar: todo o elenco acompanhou o artista durante esse período, se reunindo com a equipe anualmente para adicionar novas cenas à fita, apenas durante três ou quatro dias de gravações anuais.

Com um elenco em ótima sintonia (entre os nomes, temos Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater – esta última, filha do diretor), o pequeno Coltrane é excelente na construção de sua personagem – ou seria o reflexo de seu próprio crescimento? Coltrane oscila bem as nuances de Mason e carrega no olhar todas as experiências pelas quais o nosso protagonista passa. Mas se engana quem pensa que Boyhood traz apenas a história de um garoto. Na verdade, o filme conta muito menos sobre Mason e muito mais sobre a vida e as mudanças que passamos ao longo do tempo. Apesar de a narrativa se estender sobre uma perspectiva americana, é certo que Boyhood é puramente universal, alcançando qualquer espectador, ainda que de forma diferente. Muito longe dos melodramas convencionais, Boyhood nos leva de volta às nossas memórias, pessoas, lugares e, principalmente, momentos, sejam eles bons ou ruins, mas que em sua totalidade ajudam a formar nossa identidade. De forma simples, mas nunca ordinária, o cineasta insere temas que são comuns em todas as sociedades, como infância, casamento, separações, superações.

O espectador literalmente vê Mason crescer diante de seus olhos, vivenciando todos os dramas rotineiros da adolescência até chegar à fase adulta da vida – quando deve assumir uma postura mais “séria”, assim como responsabilidades. Exatamente por isso, a narrativa é de um realismo incomparável, até mesmo pela habilidade natural de Linklater em conduzir a trama. O roteiro e a edição contribuem muito para a ação da película, até mesmo se levarmos em consideração o fato de que não há uma “história” propriamente dita, com começo, meio e fim – pois aqui, a história é adaptada com o passar dos anos na vida real. A própria trilha sonora (excelente, por sinal) faz uma marcação concisa de tempo cronológico, iniciando-se com a inconfundível Yellow, do Coldplay, e passeando por Arcade Fire, Daft Punk, entre outros artistas – além também das inúmeras referências à cultura pop, com menções a Lady Gaga, Harry Potter e outros elementos da última década (incluindo impressões sobre o ataque às Torres Gêmeas e a candidatura de Barack Obama). Em suma, Boyhood é um filme também sobre a passagem do tempo.

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Com quase três horas de duração (mas, ironicamente, você nem sente o tempo passar), Boyhood é grandioso em sua simplicidade. Apesar de ficcional, Boyhood é uma obra que traz para a discussão a vida de todos nós: os desafios, os altos e baixos, a instabilidade do mundo, as primeiras experiências. Boyhood está longe de ser um filme sobre Mason: é também um retrato da existência de Davi, de Maria, Alberto, Regina – enfim, de todos. Não à toa, o longa de Richard Linklater (que custou pouco mais de 2 milhões de dólares – quase nada em comparação a outras produções norte-americanas – e demorou menos de quarenta dias de gravação) vem sido amplamente elogiado pela crítica e pelo público. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, Boyhood tem cerca de 99% de aprovação da crítica e 89% do público. Boyhood é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de seu diretor e, provavelmente, um dos mais intensos filmes do ano.