Uma Jornada de Bicicleta (À bicyclette!, 2024)

Mathias Mlekuz e Philippe Rebbot cultivam uma amizade de longa data e decidem empreender uma ambiciosa travessia de bicicleta em memória do jovem Youri, filho de Mathias, que se suicidara pouco tempo antes. O roteiro da viagem – literal e simbolicamente – é um livro escrito pelo rapaz, no qual registrara o trajeto de uma jornada realizada anteriormente por diversas cidades da Europa. Assim, na companhia de um simpático cachorro, os dois amigos se lançam a uma experiência que busca transformar o peso do luto em uma celebração da vida e da própria amizade.

Uma Jornada de Bicicleta é o resultado desse processo docuficcional: o que se vê na tela é a condensação de cerca de 150 horas de filmagens, gravadas sem um roteiro predefinido e construídas a partir da improvisação – dos diálogos, dos gestos e dos percalços enfrentados pela dupla. A proposta inicial envolvia apenas o desejo de repetir os passos de Youri, tendo partido de Philippe Rebbot a ideia de prestar essa homenagem artística ao filho do amigo. Desse modo, Mathias e Philippe seguem estrada afora acompanhados por uma equipe de cinco pessoas e, ao longo de um mês, revisitam lugares, pessoas e vivências para manter viva a presença de Youri. Sem indicações prévias, foi na montagem que se definiram as escolhas daquilo que permanece (e do que se ausenta), preocupando-se em preservar o que fosse narrativamente essencial.

O filme preserva uma notável sensação de espontaneidade, muito ressaltada por seu viés documental: a câmera, por vezes, assume uma postura observacional, como na sequência em que o grupo reencontra uma antiga namorada de Youri – trecho que se aproxima do registro direto de um documentário, quase como se estivéssemos diante do fragmento de algum título do gênero. Em outros momentos, essa naturalidade é levemente questionada – como na cena em que a dupla sai ao encontro de Josef, filho de Mathias que se junta à viagem, e esquece as chaves do quarto em que estavam hospedados. Há elementos que corroboram para tensionar essa naturalidade, especialmente a trilha sonora, muito precisa e emocionalmente conduzida, mas cujo tom remete discretamente à ficção, em especial, à comédia.

Todavia, essa fricção não enfraquece o conjunto da obra; pelo contrário, a tensão entre o registro mais cru e a elaboração ficcional reforça o caráter híbrido do filme, situado na zona tênue entre o documentário e a ficção. Não por acaso, o espectador só apreende plenamente essa posição narrativa quando conhece previamente a história ou quando, ao final, os créditos sobem juntamente com as fotografias do grupo. Assim, mais do que um mero relato do deslocamento físico – que poderia reduzir o longa a um road movie genérico sob duas rodas –, o filme parece propor não apenas uma reflexão sobre a memória, mas também um exercício de cinema sobre os limites da representação: entre a vida vivida e a vida encenada, Uma Jornada de Bicicleta afirma a docuficção não como uma indecisão formal, mas como uma escolha consciente de recriação da experiência real por meio da linguagem cinematográfica.

O Vendedor de Orquídeas (El Vendedor de Orquídeas)

Aos 80 anos, Oswaldo Vigas foi tema de exposição “Vigas Los Comienzos”, contendo as obras que o artista plástico venezuelano produziu no início de sua bem sucedida carreira. Dias antes, ele pega a estrada ao lado de sua esposa Jeannine, à procura de um trabalho feito quando ainda jovem, em 1945 – o tal “O Vendedor de Orquídeas” que dá título ao documentário. Nessa busca pela pintura perdida, Vigas retorna aos locais onde cresceu e recorda momentos marcantes de sua trajetória.

Escolher sempre quer dizer renunciar…

Muito mais do que uma simples peça que faltava para completar o acervo, “O Vendedor de Orquídeas” tinha também um forte valor sentimental: a tela trazia à memória um momento da juventude de Vigas que o marcaria para sempre e o definiria como artista e, principalmente, como pessoa. Foi a última vez que Reynaldo, seu irmão que desenvolveu um quadro de esquizofrenia, serviu-lhe como modelo. Tomado por um sentimento de culpa ao abandonar a família por conta de sua carreira, Vigas conta trechos de sua vida, desde a infância pobre em uma zona periférica à renúncia da medicina para se dedicar às artes.

O mais interessante em O Vendedor de Orquídeas, no entanto, é a sensação acolhedora que transmite. Sabe quando você senta no sofá com seus avós e eles começam a contar histórias antigas, naquele clima de intensa nostalgia? É exatamente assim que você se sente ao assistir a O Vendedor de Orquídeas – e isto não é difícil de entender: dirigido por Lorenzo Vigas, filho de Oswaldo, este road movie possui uma narrativa que carrega um agradável espirito familiar (como se o diretor houvesse posto a câmera na mão para filmar casualmente seu “velho” ao longo de sua odisseia, como se um mero registro de família). Além disso, O Vendedor de Orquídeas possui um protagonista extremamente carismático, sensível e humano – fugindo do estereotipo do artista cheio de firulas e estrelismo. Isso faz com que a identificação com o público ocorra de forma gratuita e natural. Daí para se apaixonar por esta grande figura, é rapidinho…

Xenia (Xenia)

Quando crianças, Danny e Odysseas foram abandonados pelo pai e criados pela mãe viciada. Assim, os dois cresceram com inúmeros traumas, inclusive o de ser estrangeiros em sua própria terra natal – já que a mãe era albanesa e o preconceito contra estes na Grécia é avassalador. Depois de anos separados, os irmãos se reencontram após a morte da mãe e embarcam em uma jornada para a realização de seus sonhos individuais: enquanto o mais novo (um garoto de 15 anos abertamente homossexual e problemático) quer reencontrar o pai e rapidamente resolver suas dificuldades financeiras e de cidadania, o mais velho quer tentar a sorte em um programa de TV e se tornar uma grande estrela da música.

01

Xenia é um melodrama grego, com personagens que carregam nas costas inúmeras tragédias e, por isso, pode soar como um punhado de clichês em alguns momentos, com situações claramente inverossímeis quando não fáceis (um hotel abandonado que serve de moradia, um barco à espera dos viajantes, etc. – isso sem contar um coelho gigante, cuja intenção é criar alguma simbologia, mas que não consegue cumprir sua proposta). Danny, o irmão homossexual, é carregado de trejeitos e irritante como protagonista – e isso não é devido à sua condição sexual. Mimado e intrometido, é o tipo que não desperta muita empatia. Ody, por sua vez, é o típico heterossexual “não muito heterossexual”, sonho de consumo gay. No entanto, ambos os personagens perdem muito com as atuações de seus intérpretes: enquanto Nikos Gelia (Ody) mantém uma expressão uniforme em todo o filme, Kostas Nikouli (Danny) exagera nas caras e bocas, quase compensando o que faltou no primeiro.

02

Representante da Grécia ao Oscar de melhor produção em língua estrangeira no próximo ano, Xenia é quase uma música da Katy Perry: praticamente um teenage dream, mas em versão gay. Não, isso não é o problema. O erro é o exagero de melodrama que, inevitavelmente, afasta o espectador. O roteiro também não colabora, nos dando a falsa ideia de que irá por um caminho quando acaba indo pelo outro (às vezes, parece um drama; depois um road movie; outra hora, uma aventura). Para completar a “tragédia” grega, a direção é amadora, enquanto a edição e fotografia são banais. Talvez o filme pudesse até ganhar certo atrativo se aprofundasse sua narrativa nas questões atuais de uma sociedade grega marcada pelo preconceito. Apesar de até esboçar uma tentativa nesse aspecto, Xenia não se estende – e, com isso, fica a sensação de que o filme é apenas um passatempo otimista em relação à vida.

Cidades de Papel (Paper Towns)

Ainda criança, Quentin se apaixonou à primeira vista por Margo, sua nova vizinha – com quem criou um forte laço de amizade. Apesar das claras diferenças entre eles, os dois amigos eram inseparáveis e passaram a infância praticamente juntos. No entanto, a adolescência não foi tão favorável: aos poucos, os antigos melhores amigos foram se afastando, criando novas amizades e tornando-se quase estranhos um para o outro. Às vésperas do fim do colégio, os dois se reaproximam por uma noite – enchendo Quentin de esperança, já que o garoto jamais esqueceu seu primeiro e único amor.

01

Cidades de Papel é baseado no romance homônimo de John Green, mesmo autor de A Culpa é das Estrelas – um dramalhão água com açúcar que levou milhares de adolescentes às salas de cinema no ano passado e promoveu (para variar) a velha discussão sobre as adaptações de textos literárias para as telonas. Green, de fato, sabe como conversar com essa geração; o talento do escritor é inegável e o sucesso de sua obra está aí para comprovar (tanto que as produções de outros de seus títulos já foram anunciadas). Entretanto, irei concentrar minha crítica ao filme individualmente e não ao livro que o originou – e neste aspecto, Cidades de Papel não é lá um grande feito.

Há alguns motivos que impedem que Cidades de Papel seja um filme necessário, mas antes de tudo vale dizer que a ideia não é nova nem a forma como ela foi desenvolvida. É uma típica produção voltada ao público juvenil, com aquela abordagem repleta de sensibilidade para criar uma atmosfera “fofa” e até mesmo nostálgica. Tudo bem, o longa até consegue isso em algumas raras ocasiões, mas (sem querer levantar comparações) é um fato que o espectador tem na memória a imagem muito forte de As Vantagens de Ser Invisível – um drama praticamente unânime. Em alguns momentos, é impossível não associar os dois longas. Acompanhe: um protagonista tímido que tem uma paixão platônica por uma moça explosiva; os amigos que lamentam a fatídica separação; os bailes do colégio (com direito até mesmo a cena de dança descolada).

02

Por mais que o público não queira associar, chega um instante em que a história quase pede isso – e quando o espectador é capaz de esquecer um pouco o “concorrente”, aparece o segundo problema de Cidades de Papel: o argumento. Apesar de começar bem e você até sentir que a narrativa vai decolar, o filme mergulha em uma busca sem sentido do nosso protagonista por Margo – e quanto mais ele avança, mais Cidades de Papel perde o charme, ficando quase desinteressante. Com algumas sequências que nos remetem quase a um road movie teen, a obsessão de Quentin por Margo não é crível e é aí que outras subtramas vão surgindo, junto com os estereótipos (um adolescente virgem dizendo que pegou todas, a loura gostosa, o colega nerd que nunca fez nenhuma loucura), alguns ali apenas para preencher o roteiro porque não acrescentam absolutamente nada ao conjunto da obra.

Tecnicamente bem feito, Cidades de Papel poderia se sair melhor se deixasse de lado a história entre Quentin e Margo (um tipo sem o menor atrativo – e por isso fica difícil entender o fascínio de Quentin por ela) e se aprofundasse mais nos dramas do grupo de amigos. Talvez a completa falta de química entre Cara Delevingne e Nat Wolff contribuiu para que este casal não seja tão memorável quanto os personagens de Logan Lerman e Emma Watson, apesar do bom desempenho de Wolff – tanto que o ator e seus companheiros se saem muito bem juntos, mostrando bastante sintonia (há cenas que parecem ser tiradas dos bastidores). O filme até se sai bem em alguns trechos de humor e com algumas referências à cultura pop, mas se perde na falta de profundidade onde realmente valia a pena. Talvez devesse ser vendido (e se desenvolvido) como uma celebração à amizade e à juventude – e não um romance adolescente barato. Dessa forma, fica a sensação de que alguma coisa faltou, apesar de Cidades de Papel não ser um desperdício. É apenas menor do que aquilo que tenta ser.