A Divina Sarah Bernhardt (Sarah Bernhardt, la divine, 2024)

Sarah Bernhardt é frequentemente citada como a “primeira celebridade mundial”: em um período em que não havia redes sociais ou meios de comunicação instantânea, a atriz francesa explorou todos os recursos disponíveis à época para construir uma faceta pública que extrapolava os palcos. Entre fotografias cuidadosamente produzidas, aparições públicas, entrevistas polêmicas e uma personalidade incomum que desafiava as convenções de seu tempo, Sarah transformou sua própria figura em um espetáculo, fazendo de seu nome uma marca reconhecida internacionalmente. É essa personagem controversa que Guillaume Nicloux busca retratar na cinebiografia A Divina Sarah Bernhardt. Através de uma estrutura fragmentada de suas memórias, o filme acompanha não apenas o auge de sua carreira, mas também o fim de sua vida, revelando os contrastes entre a imagem que projetava ao mundo e a mulher que existia por trás dela.

Sandrine Kiberlain, intérprete extremamente versátil, que trafega entre o drama e a comédia com total desenvoltura, entrega uma de suas melhores performances até aqui: sua Sarah equilibra momentos de intensidade dramática e irreverência, intimidade e exuberância, revelando as contradições entre a celebridade e o ser humano por trás do mito. O roteiro, todavia, nem sempre é capaz de explorar todas as nuances dessa mulher tão singular: ao concentrar boa parte de sua narrativa nos bastidores, o filme deixa em segundo plano toda a genialidade artística que fez Sarah ser conhecida como “a divina”. Temos acesso à persona, mas não somos capazes de reconhecer a fundo a atriz que encantou inúmeras plateias no início do século XX. Claro, isso é uma escolha: as cinebiografias, em geral, optam por trazer um recorte da vida de seu protagonista ou selecionam momentos que julgam mais interessantes para o público. Mas ao apresentar a mãe amorosa, a amante manipuladora, a paciente debilitada, sob uma atmosfera pesarosa, que privilegia a melancolia do declínio físico e os conflitos pessoais de Sarah, a tal “divina”, referência à artista excepcional que ela foi, nunca é alcançada.

Um Doce Refúgio (Comme un Avion)

Escrito, dirigido e protagonizado pelo francês Bruno Podalydès, Um Doce Refúgio narra a história de Michel, um artista gráfico bem-sucedido que trabalha com seu irmão e leva uma rotina pacata ao lado de sua esposa Rachelle (Sandrine Kiberlain). Mas, ao que tudo indica, Michel não está muito contente com os rumos que sua vida urbana está tomando – e mais do que isso: ele está cansado de sua própria existência. Michael nutre uma paixão: o mundo aeronáutico e a ideia de pilotar um avião (apesar de nunca ter tido tempo para se dedicar à empreitada). Ao descobrir ao acaso que a engenharia de um caiaque é muito semelhante à de uma aeronave, o cinquentão resolve comprar este “enorme” objeto (sem que ninguém saiba) e embarcar em uma viagem solitária, porém repleta de autodescobertas.

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Contando com a fotografia cheia de vida da talentosa Claire Mathon (de Um Estranho No Lago e Meu Rei), Um Doce Refúgio é um filme que revela seu protagonista aos poucos. Michel é um tipo que vai se mostrando ao longo da narrativa: ele busca a felicidade que abandonou anos atrás no exato instante em que deixou de lados os seus sonhos. Apesar do tom cômico, no entanto, Um Doce Refúgio tem uma ponta de melancolia: é como se o cineasta nos fizesse entender que perdemos nossa essência a partir do momento em que deixamos de sonhar. Procurando fugir da crise existencial que está quase o alcançando, Michel parte em seu caiaque em uma aventura repleta de encontros inesperados, que tornam Um Doce Refúgio uma obra cheia de encantos, ainda que não seja memorável.

Apesar de tecnicamente bem estruturado, Um Doce Refúgio é irregular em seu argumento, com algumas sequências visivelmente arrastadas e que pouco agregam ao todo, fazendo com que o espectador às vezes se disperse. Ainda que o elenco seja competente, a direção de Podalydès não consegue manter a agilidade da fita e com isso algumas pontas surgem. Não que estas deficiências atrapalhem totalmente esta experiência: Um Doce Refúgio nos ensina que o que vale é ser feliz, não importa como. Nunca é tarde para corrermos atrás dos sonhos – o que é inadmissível é deixarmos a vida passar diante dos nossos olhos e simplesmente sermos coadjuvantes de nossa própria história. Esta é a maior mensagem de Um Doce Refúgio – uma pena o filme não ser assim tão grande…