Asteroid City (Asteroid City)

A estrutura narrativa do novo filme de Wes Anderson abusa da metalinguagem: em preto e branco, o filme se inicia sob o formato de um documentário de TV (em tela quadrada, narrado por um elegante Bryan Cranston), que vai explorar os bastidores de produção e encenação da peça de teatro Asteroid City, roteirizada por Conrad Earp (Edward Norton) e dirigida por Schubert Green (Adrien Brody). A obra se ambienta na cidade fictícia do título, conhecida por ter sido o local onde ocorreu a queda de um grande meteoro há milhares de anos e que hoje recebe uma competição escolar de jovens gênios da astronomia. Localizada no deserto norte-americano, a pequena cidade tem sua pacata rotina interrompida por um evento sem precedentes, confinando seus habitantes a um período de quarentena.

É indiscutível que, ao longo de sua carreira, Wes Anderson se consagrou como um cineasta único: sua identidade é impressa em cada um de seus longas, em um estilo único que, inevitavelmente, ou você ama ou você odeia. Todos sabemos exatamente o que esperar de um filme de Wes Anderson: fotografias em tons pastéis e coloridos, enquadramentos milimetricamente simétricos, com movimentos precisos de câmera – inclusive travellings (no início da história, Wes faz quase um giro de 360º sob a exuberante locação, captando praticamente todos seus elementos) – e cenários de arrancar o fôlego. E Asteroid City entrega tudo isso, firmando-se como um dos filmes mais charmosos do diretor até aqui.

Muitos críticos, no entanto, alegam (e com certa razão) que seus filmes são relativamente simples em termos de roteiro: é como se a estética se sobressaísse ao conteúdo, o que, em muitos momentos, pode ser perigoso pois corre-se o risco de a história se tornar uma mera caricatura. Em sua ambição metalinguística, Asteroid City é interessantíssimo – inclusive, podemos enxergar a obra como um retrato da própria relação de Wes Anderson com seus atores (geralmente, figurinhas carimbadas em suas produções, como Jason Schwartzmann, Tilda Swinton e Adrien Brody), ou mesmo uma homenagem aos filmes de ficção B de outrora (em uma paródia mais estilizada, mas que me remeteu a Mars Attacks!, de Tim Burton); mas o enredo sem um propósito (aparentemente) definido torna o longa cansativo, pouco atraente. A coleção de personagens também é um ponto a ser visto com atenção: além da ausência de um protagonista, a quantidade é absurda. Não que seja um problema, uma vez que isso é comum no universo ‘andersiano’ (uma galeria de tipos excêntricos e inexpressivos), mas aqui a maior parte deles sofre de um vazio incômodo, com conflitos que não agregam absolutamente nada à trama, exceto por raríssimas exceções. No final, o que vemos é um elenco de primeira grandeza (Tom Hanks, Steve Carell, Willem Dafoe, Matt Dillon) fantasiado em meio a casas de boneca. Em suma, Asteroid City soa mais como um filme sobre… como fazer um filme de Wes Anderson. É um puro exercício de estilo que, como dito anteriormente, só produz 2 reações: quem gosta da obra de Anderson vai saudá-lo como uma de suas melhores realizações nos últimos anos; e quem não gosta vai acha-lo afetado, sem sentimentos, sem brilho.

Águas Rasas (The Shallows)

O cenário é estonteante: uma praia paradisíaca no México, com águas claras e um visual arrebatador. É para lá que a estudante Nancy viaja após perder sua mãe em decorrência de um câncer. Quando a jovem adentra o mar em sua prancha, ela esbarra em um cadáver de baleia encalhado, despertando assim a atenção de um tubarão que prontamente a ataca. Ferida e sem saída, Nancy se refugia em uma rocha no meio do oceano, iniciando uma luta desesperada por sobrevivência.

Já comentei em outras ocasiões que o terror não é um dos meus gêneros favoritos – e aqueles que se utilizam de animais como antagonistas muito menos. Simples questão de gosto. Mas isso não me impede de falar sobre Águas Rasas, novo longa do realizador espanhol Jaume Collet-Serra (de A Casa de Cera e A Órfã). Já de cara, um aviso: o filme não é nada inovador. Na realidade, Águas Rasas tem um argumento até mesmo questionável, que referencia escancaradamente dois clássicos do cinema: o próprio Tubarão, de Steven Spielberg em 1975, e Náufrago, estrelado por Tom Hanks em 2000. Entretanto, ainda que as referências sejam boas, o roteiro é nitidamente fraco. Poderíamos dividir a fita em duas partes: a primeira, destinada à apresentação de sua protagonista (algo que dura por volta da primeira meia hora de projeção e é uma sucessão de episódios que não ajudam o público a nutrir qualquer empatia por Nancy); e a segunda, onde acompanhamos a personagem em sua busca pela sobrevivência.

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Mas se o roteiro peca no desenvolvimento de uma história mais “palpável”, Águas Rasas acerta na escolha de Blake Lively. Dona de uma beleza invejável, a atriz é a personificação do “erotismo” em cena. Seja no loiro dos cabelos, nas curvas do corpo ou tentando uma ou outra palavra em espanhol, Lively é o típico padrão de beleza norte-americano. E mais do que isso: ainda que sua personagem não seja das melhores, ela consegue manter o espectador atento devido à aflição que transmite. Além disso, a fotografia de Águas Rasas é ótima e, com seus planos certeiros, valoriza bem as locações – recomendo que o filme seja assistido no cinema para que você, leitor, possa apreciar esse ponto altamente favorável da produção.

A crítica lá fora tem sido generosa com Águas Rasas (houve quem dissesse que o filme é o “Tubarão do século XXI”). Não vamos exagerar. Águas Rasas não é tudo isso, mas é uma obra competente em sua proposta de entreter – só o fato de ter uma curta duração já ajuda bastante. O longa ainda tem uma particularidade: ele está na linha tênue entre uma produção “séria” e o trash da década de 80 – logo, se você for fã deste estilo, é capaz de sair da sessão com um sorrisão no rosto.

Negócio das Arábias (A Hologram for the King)

Inspirado no livro homônimo de Dave Eggers, Negócio das Arábias conta a história de Alan Clay (Tom Hanks), um norte-americano de meia idade e mais uma das vítimas da recessão que assombrou o país em 2008. À beira da falência, Alan se sente culpado pelo fim do casamento e deprimido por não poder bancar os estudos da filha – isto sem mencionar sua saúde um tanto debilitada. Sem muitas opções, o cinquentão viaja para a Arábia Saudita disposto a ofertar um inovador sistema de teleconferência ao rei árabe, que pretende construir uma surpreendente metrópole no meio do deserto.

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Negócio das Arábias é mais um dos inúmeros filmes sobre crise existencial na meia idade – apostando, inclusive, naquela velha fórmula de mandar o protagonista para algum lugar exótico e ali, em meio ao choque cultural e auto avaliação, fazer com ele encontre redenção. O problema de Negócio das Arábias é sua ausência de argumento. Mais do que isso: falta ritmo à narrativa. Às vezes, o roteiro flerta com um lado mais cômico, depois mais dramático, tem até umas pitadas de romance, mas nada realmente interessante ou relevante acontece – pois faltam boas piadas, dramas consistentes e um casal mais apático. Pior: não há um clímax e a única coisa que resta ao espectador é acompanhar a odisseia de Clay em busca de algo que talvez nem ele mesma saiba o que é.

O filme até que dá uma melhorada a partir de sua segunda parte – quando Sarita Choudhury entra em cena, personificando como ninguém o papel da mulher naquela cultura (uma pena que a química entre ela e Hanks seja muito fraca, apesar do desempenho satisfatório deste último). Entretanto, entre flashbacks e tiradas cômicas (batidas e até mesmo xenofóbicas, em alguns instantes) e um personagem principal sem profundidade, Negócio das Arábias é um filme que não sabe ao certo para que veio. E quer honestidade? Não cabe ao público descobrir isso…