D.U.F.F. (The DUFF)

Imagine vários filmes de comédia adolescente da década de 90 pra cá, como As Patricinhas de Beverly Hills, Garotas Malvadas, 10 Coisas Que eu Odeio em Você ou Gatos, Fios Dentais e Amassos. Pense em tudo o que eles tem em comum – de recursos visuais a personagens. Selecione corretamente os melhores pontos, aqueles que você sabe que vão funcionar de forma certeira. Pois bem: isto é D.U.F.F.

D.U.F.F. conta a história de Bianca, uma típica adolescente às vésperas do fim do colégio. Ela não é a garota mais linda nem a mais estilosa, curte clássicos de terror, não é popular e muito menos esportista; por outro lado, compensa todas essas “particularidades” com seu bom humor e lealdade aos amigos. Até descobrir que é uma “DUFF” – do inglês designated ugly fat friend, expressão utilizada para se referir àquela menina não tão favorecida fisicamente que serve de intermédio entre as amigas e as demais pessoas. Revoltada, ela pede ao seu vizinho bonitão que a ajude a melhorar o visual e ser mais sociável – em troca disto, ela se dispõe a auxilia-lo a passar de ano.

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Essa sinopse (ou parte dela) poderia se encaixar em qualquer comédia adolescente que se preze. D.U.F.F. é puramente um emaranhado de todos os clichês comuns ao gênero, desde a narrativa completamente batida, a trilha sonora pop e efeitos especiais aos personagens do longa, como o atleta com o corpo escultural, a loira fútil que sonha em ser a rainha do baile e o amor platônico da protagonista (que, no final, se mostra um grande imbecil). Tudo ali produz a incrível sensação de “já vi isso em algum lugar” – e ela é real. De fato, não há nada minimamente original no filme. No entanto, D.U.F.F. possui um ritmo tão leve e despretensioso que o espectador não se incomoda tanto com isso. Pelo contrário: quanto mais o filme avança, mais o público embarca na história.

A minha velha defesa é de que os clichês, quando bem utilizados, podem render resultados satisfatórios. D.U.F.F. é prova disso. Com uma boa química entre o elenco (com destaque para o casal Mae Whitman e Robbie Amell) e um humor estrategicamente pontual, D.U.F.F. não é uma produção extraordinária, mas cumpre muito bem sua proposta de entreter. Boa surpresa para um filme repleto de clichês – que são muito bem-vindos quando sabiamente utilizados.

Frankenweenie (Frankenweenie)

Dizem por aí que Tim Burton não produz um bom filme desde 2007, quando dirigiu o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, longa que recebeu boas críticas mas não empolgou tanto o público nas bilheterias. De fato, as produções que se seguiram não foram as mais felizes para o cineasta. Alice no País das Maravilhas recebeu uma enxurrada de críticas negativas (apesar de ser uma das maiores bilheterias da história – em boa parte devido ao uso do 3D), enquanto Sombras da Noite tem a pior aprovação das fitas burtonianas. Entretanto, se há um gênero cinematográfico que Burton conhece bem é a animação – o que explica o frisson do público pelo lançamento de Frankenweenie.


Frankenweenie
é baseado livremente no curta  homônimo dirigido pelo próprio Tim Burton em 1984. Originalmente filmado em live-action, o curta não teve uma recepção calorosa na época pelos estúdios Disney, que produziram o projeto mas não lhe deram a devida importância. Anos depois,  Burton traz de volta às telas a história de um garoto que perde seu cão Sparky em um trágico atropelamento. Inconsolado com a perda do melhor amigo, o garoto tenta ressuscitar seu cão através de experimentos científicos, motivados pelas aulas de ciência do colégio.

Rodado em stop-motion e totalmente em 3D, Frankenweenie é, talvez, o filme que melhor traduza o universo de Tim Burton até aqui. Há inúmeras referências ao universo burtoniano, a começar pelos personagens do longa, que são definições quase explícitas dos rascunhos do diretor. Um deles, por exemplo, foi retirado de seu livro de poemas O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra. A fotografia em preto e branco também remete aos filmes de terror B que Tim Burton tanto admirava quando criança. E quem não pensou em Vincent Price quando viu a cara do professor de ciências do garoto Victor?

O roteiro foi adaptado sem perder a essência do original, com uma estrutura clara e concisa – a história ora comove, ora faz rir, ora faz chorar, ora dá medo (quebrando a cara de muitos que acreditavam que Burton não seria capaz de segurar quase 1 hora e meia de animação a partir de um curta com cerca de 30 minutos). Além dos personagens já conhecidos, novos tipos são introduzidos, com tramas que agregam à linha narrativa principal, tornando-a muito mais envolvente.

Frankenweenie é um dos retratos mais fiéis da obra burtoniana. Além disso, este retrato tem qualidade cinematográfica indiscutível, mostrando que o cineasta ainda está em boa forma – e é por isso que pode se dar ao luxo de realizar o projeto que quiser, sem medo de represálias. O que vai ser daqui pra frente, não se sabe. Mas Frankenweenie é, de longe, um dos melhores filmes de seu idealizador até aqui – além de se sobressair, individualmente, como uma grande animação.