Woody Allen Questiona Ética e Moralidade em “Homem Irracional”

02Confesso que tenho certa cisma com Woody Allen. Okay, meu problema não é Allen, mas sim seus fãs: eles o endeusam demais e o tratam como se o cara fosse à prova de erros – quando sabemos bem que Woody já teve momentos ótimos e outros nem tão inspirados assim. Isso é até justificável: com mais de quarenta longas no currículo, seria impossível ao cineasta ter uma obra totalmente impecável. A verdade é que, contrariando o que seus admiradores argumentam, um filme ruim de Woody Allen é um filme ruim e pronto, como qualquer outro – e muita coisa que o diretor já fez talvez não fosse tão aclamada assim se os créditos exibissem o nome de outro artista. Felizmente, seu mais recente trabalho, Homem Irracional, apesar de apresentar lá suas deficiências, pertence à safra de suas boas produções.

Em Homem Irracional, o protagonista é Abe Lucas, um intelectual que acaba de se mudar para uma cidade universitária no interior dos EUA para lecionar filosofia em um campus local. Muito prestigiado, sua chegada gera mil comentários e especulações, tanto entre alunos quanto demais colegas de profissão – até mesmo por conta de sua fama com as mulheres. No entanto, a realidade de Abe é um pouco mais cruel: o docente é um retrato do que podemos chamar de “frustração”. Desiludido com a vida, Abe perdeu o interesse por tudo e por todos e está à beira da depressão total. Fisicamente, então, nem se fala: com uns quilos a mais, o outrora galã sedutor não passa de um quarentão que sofre de impotência. Ainda assim, ele desperta a atenção da jovem estudante Jill, que fica fascinada pelo professor.

Inicialmente, Abe recusa as investidas de Jill, alegando querer apenas a amizade entre os dois. Um dia enquanto estão em um restaurante, os dois escutam ao acaso a conversa aleatória entre uma senhora desesperada e seu grupo: em processo de divórcio, a mulher pode perder a guarda de seu filho, uma vez que o juiz responsável pelo caso é amigo de seu ex-marido. Neste momento, Abe redescobre a vontade de viver e ganha um propósito de vida: acreditando firmemente que as ações são melhores do que o medíocre ato de “pensar”, o professor decide assassinar o magistrado, convicto de que assim fará um bem à comunidade e, consequentemente, tornará o mundo um lugar melhor.

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Homem Irracional é um filme ligeiramente menos cômico – segundo o próprio artista, Homem Irracional é “sério do começo ao fim”. Não que não haja algumas piadas estrategicamente inseridas na fita; mas, de fato, Allen abandona sua comédia tradicional e embarca numa narrativa até mesmo “mórbida”, acompanhando a preparação de Abe para a execução do crime perfeito. Utilizando-se intensamente da narração dos personagens principais (Abe e Jill), o diretor reproduz os sentimentos, dúvidas e angústias desse casal enquanto as ações de Abe se desdobram. Com isso, Allen se apresenta aqui mais sombrio (e menos engraçado também, claro), abandonando seu velho humor e quase adentrando no suspense (há até quem enxergue traços hitchcockianos no argumento).

Neste palco de negativismo e insatisfação que é a trama do professor, o terreno é propício para boas atuações – e elas realmente surgem. Joaquin Phoenix, embora não seja o perfil mais adequado de um tipo “alleniano”, surpreende de forma positiva. Ele é a decadência em pessoa, tanto na aparência largada (com direito à barriguinha saliente) quanto emocionalmente (sua construção de Abe é bastante convincente). Emma Stone, por sua vez, faz jus ao título de “nova musa de Woody Allen” (posto já ocupado por Diane Keaton e Scarlett Johansson) e, apesar da ingenuidade de sua personagem, transmite paixão no olhar – no belo olhar, diga-se de passagem. Phoenix e Stone mantém ótima química e isso é importante para o drama que se desenrola. Tecnicamente, a fotografia não deixa a desejar, assim como a trilha sonora, que traz um jazz com roupagem mais moderna, mas ainda atraente.

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O que talvez possa atrapalhar a experiência de Homem Irracional é seu ritmo lento, que, por vezes gera certo enfado – a primeira parte do filme, por exemplo, é pura verborragia. Outra situação incômoda é a presença de alguns personagens pouco ou mal explorados, como o namorado pateta de Jill ou a professora alcoólatra que não larga do pé de Abe. O desfecho também é um tanto quanto “nonsense”, além de algumas situações inverossímeis que não podem ser sustentadas. Como mencionado anteriormente, Homem Irracional é um filme bom, não excepcional – mas que vale a pena ser conferido justamente por ser uma produção atípica de um diretor como Allen. Algumas de suas marcas estão ali, como as inúmeras discussões filosóficas (referências e citações pipocam na tela) e existencialistas. Homem Irracional recorre a um suspense relativamente simples para questionar a ética e moralidade do ser humano – e embora possua um tom “ameno” não deixa de ter seu devido valor na filmografia do cineasta.

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