“Silêncio”: Um Filme Que Causa Barulho

Falar sobre religião não é fácil. No cinema, este tema, por mais bem tratado que seja, sempre levanta infindáveis debates e discussões – e isso não seria diferente ao falarmos de Silêncio, novo filme de Martin Scorsese, um cineasta cuja maior parte de sua filmografia foi inspirada em seu catolicismo (ainda que não fosse o objeto primário de seus principais títulos). Imersiva em sua plenitude, esta nova obra do diretor de Taxi Driver e Touro Indomável é um dos projetos mais pessoais de Scorsese, que aqui deixa de lado o crime e a máfia (presente em seus melhores longas) para falar sobre a fé e seu questionamento.

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Silêncio é a adaptação do livro homônimo escrito por Shūsaku Endō em1966, apontado como um dos melhores romances históricos do século XX (apesar de pouco conhecido no Brasil) e abertamente uma das obras literárias mais relidas por Scorsese. A história acompanha a viagem de dois padres portugueses ao Japão, durante o século XVII, para reencontrar seu mestre que, segundo informações, teria renunciado sua fé cristã e estaria vivendo conforme os costumes locais (em uma região onde a prática do cristianismo era severamente repreendida pelas autoridades japonesas).

Amparado pela bela fotografia de Rodrigo Prieto que, em conjunto com o competente design de produção de Dante Ferretti, emprega um tom clássico à toda narrativa (onde cada plano aberto pode ser visto como uma pintura antiga), Silêncio é visual e tecnicamente impecável. As cores dos quadros são ofuscadas por um profundo aspecto de neblina, um recurso que reafirma toda a morbidez da trama. Sonoramente, Scorsese abandona praticamente o uso de qualquer trilha musical, abusando dos sons (revelando um ótimo trabalho de edição e mixagem) e, como sugere o título, do silêncio – como se parar estender a tensão do momento e permitir que o espectador possa refletir sobre aquilo que vê na tela. É importante ainda ressaltar que a direção de Scorsese vai além, se mostrando principalmente na performance espetacular de todo o elenco, em especial do protagonista vivido por Andrew Garfield. É interessante analisar o quanto Garfield se doa a esta personagem, nos entregando uma de suas mais surpreendentes atuações até então. Inegavelmente, o intérprete está em sua melhor fase.

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Mas é no desenvolvimento de seu drama que Silêncio se torna o que é: um grande filme. A história caminha sem pressa, dando tempo necessário ao longo de quase três horas de duração para que tudo transcorra de forma abrangente. Apesar do possível tom xenófobo que alguns possam alegar (quando a cultura japonesa é um tanto “vilanizada”, enquanto o catolicismo é glorificado), Silêncio é um filme que incomoda e faz o público sair de sua zona de conforto para refletir. Em uma época de discursos religiosos inflamados de ódio, Silêncio convida o espectador a questionar sua fé, independente de religiosidade. A fé não está apenas nas atitudes; ela está presente dentre de nós – e aí somos incitados a buscar entender a fé e questiona-la. Isso fica claro através do personagem Kichijiro, um tipo que não mede esforços para sobreviver, ainda que creia. Essa espécie de “Judas” (esta é uma clara relação estabelecida entre o padre Rodrigues e Jesus) não demonstra lealdade a nada, mas ainda assim não deixa de acreditar. Fica a questão: quais são os limites da fé? Mais do que isso: até onde ela pode chegar sem desrespeitar o outro?

Em produção por mais de 20 anos, Silêncio é um filme que nos oferece uma experiência cinematográfica única de contemplação e reflexão. É verdade que não é uma obra para todo o público, mas é certo que é o projeto da vida seu idealizador, ainda que não seja completamente entendido. Esnobado pela Academia, talvez hoje seja difícil enxergar a dimensão de Silêncio dentro da filmografia de Scorsese, mas certamente ele se perpetuará em um futuro não muito distante como um dos momentos mais importantes da carreira de um dos maiores artistas de cinema em todos os tempos.

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