O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias

Há algumas semanas, postei aqui no site uma matéria sobre o cineasta Tim Burton e suas incríveis histórias que encantam os apaixonados pelo cinema. Na ocasião, entretanto, ainda não tinha lido O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias, uma reunião de pequenos poemas escritor pelo artista que descrevem bem um pouco da personalidade imaginária do autor.

Ao longo de pouco mais de 120 páginas, Tim Burton nos revela um pouco de seu mundo. Philippe Barcinski apresenta a obra com a seguinte declaração:

A mente de Burton é um universo à parte. E este livro parece ser sua melhor radiografia.”

A verdade é que este livro nos apresenta algumas características que são primordiais na obra do diretor, como a melancolia (presente em Edward Mãos de Tesoura), a fantasia e imaginação (marcantes em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas), o ambiente gótico (explorado em A Noiva Cadáver), entre outros. É isso que o leitor vai encontrar nesse livro, que retrata bem a mente insana do cineasta como nenhum outro filme seu poderia fazer. O leitor vai ser apresentado a personagens que beiram o grotesco, o bizarrismo e também a inumanidade.

A leitura é obrigatória para os amantes do trabalho de Burton – e mesmo para aqueles que não a conhecem. Os 23 poemas escritos apresentam a ambiguidade tão comum à obra de Tim: ao mesmo tempo que é triste, é também engraçado. Os poemas tratam as relações afetivas e também os conflitos psicológicos de cada um de seus personagens. São figuras infantis bastante distintas que, na maior parte das vezes, são incompreendidas e lutam para encontrar seu lugar em um mundo cada vez mais cruel. Os heróis para Burton são infelizes, decadentes e sem esperança – expondo um lado mais sombrio que existe em cada um de nós.

Para completar, o livro é recheado de ilustrações criadas pelo próprio autor. Os desenhos são facilmente identificados, pois a forma tão peculiar de Burton já é bastante conhecida em seus filmes. Vale também destacar a excelente tradução de Márcio Suzuki, que conseguiu preservar as características do texto original, como as figuras de linguagem, as métricas e também o jogo de palavras.

Dia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.

A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!),
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.

Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.

Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.

(“A menina de muitos olhos”)

O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias
Tim Burton (tradução de Márcio Suzuki)
Editora Girafinha, 2010, 123 páginas.

Cisne Negro (Black Swan)

Quando li a sinopse de Cisne Negro, confesso que não me interessei imediatamente. Achei-o apenas mais um drama como tantos outros, que tentam prender a atenção do telespectador com histórias clichês sobre artistas que enfrentam uma má fase em sua carreira e buscam superação. A única coisa que me entusiasmou foi o fato do filme ter Natalie Portman como protagonista – pois além de acha-la talentosa, considero-a uma das mulheres mais bonitas do cinema. Entretanto, minhas expectativas foram superadas logo nas cenas iniciais da bela obra de Darren Aronofsky.

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Não se trata apenas de um filme qualquer: é um dos melhores dramas psicológicos da década. O longa conta a história de Nina, uma dançarina cuja marca é a perfeição. Após anos atuando em pequenos papéis, ela tem a grande chance de sua carreira ao ser escolhida para protagonizar o clássico O lago dos cisnes. Nina é a artista ideal para o papel de Cisne Branco: é doce, meiga, delicada; por outro lado, mesmo com toda sua técnica perfeita, ela é incapaz de interpretar com desenvoltura o Cisne Negro, que exige uma postura sensual, maligna, perversa, completamente oposta à sua personalidade.

O foco da narrativa persegue a trajetória de Nina ao compor essa personagem. Até então, tudo bem. É um percurso pelo qual muitos atores passam e também um tema já abordado outras vezes no cinema. Para recriar o Cisne Negro, ela tem de lutar contra forças que nunca havia enfrentado antes, como a pressão da mãe protetora ou o assédio de seu instrutor. Mas, principalmente, ela tem de enfrentar uma força maior: ela mesma. À medida que ela vence esses desafios, ela começa a encontrar os verdadeiros passos para sua dança. Ou seja, a superação na carreira só chega quando Nina consegue superar seus traumas pessoais, em uma guerra contra si mesma que é, por muitas vezes, dolorosa e sofrida.

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Nina é obcecada pela perfeição, pela técnica, pela ambição de ser uma protagonista, que é incapaz de perceber os limites que separam sonho e realidade – mudança constante no filme. E Natalie Portman não ganhou o Oscar de melhor atriz à toa. A transformação pela qual sua personagem passa no decorrer da trama (em curtos espaços de tempo) é absorvida e transmitida de forma tocante pela jovem atriz. É possível sentir cada dor, cada gota de sangue, cada suor que é derramado por Nina durante sua jornada. É como se Natalie também tivesse de superar suas próprias dúvidas e incertezas para compor esta que, ao que tudo indica, é a personagem de sua vida.

Destaque também para as atuações de Vincent Cassel (como o exigente coreógrafo de balé) e Barbara Hershey, que brilhou como a mãe de Nina, uma bailarina frustrada por ter de abandonar sua carreira para cuidar da filha. Inesperadamente, temos também uma Winona Ryder caótica, interpretando a veterana dançarina Beth, que também se torna uma das inimigas de Nina em seus pesadelos mais macabros. A trilha sonora é outro ponto forte, sendo indispensável para a caracterização da história.

Drama psicológico que surpreende e seduz ao mesmo tempo, Cisne Negro é mais do que uma simples lição sobre as dificuldades da vida e suas superações. Alguns o consideram até mesmo um thriller, pois a forma como a história caminha ao longo da película é assustadora. Com atuações brilhantes e direção impecável, Cisne Negro é uma metáfora sobre a condição do artista moderno e sua ambição pelo reconhecimento e, principalmente, pela perfeição, que pode levar a cada um de nós a descobrir sentimentos (e um outro lado de si) que podem nos surpreender.

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