Sangue Pela Glória (Bleed for This)

Escrito e dirigido por Ben Younger, um cineasta de currículo modesto até o momento, Sangue Pela Glória acompanha a incrível história real do pugilista Vinny Pazienza, campeão mundial que, após um grave acidente de carro que o deixou à beira da morte, teve uma das reviravoltas mais inspiradoras do mundo dos esportes.

Definitivamente, Sangue Pela Glória não é o melhor filme do gênero, apesar do incrível potencial de sua trama. Seus principais personagens sofrem de uma visível falta de desenvolvimento, refletindo diretamente as falhas de seu argumento. Tudo acontece de forma muito rápida: o roteiro é direto e seco, sem muito espaço para aprofundar algumas situações – como a última luta de Vinny, provavelmente a disputa mais importante de sua carreira, mas que recebeu pouco espaço de cena.

01

No entanto, são as performances sólidas de Miles Teller e Aaron Eckhart (este último, quase irreconhecível) que seguram as quase duas horas de filme. Ambos estão muito bons, especialmente o jovem Miles – é estimulante ver o quanto o ator vem progredindo, apesar das escolhas recentes um tanto desastrosas. Este certamente poderia ser o papel de sua vida e Miles, literalmente, dá seu sangue, sendo praticamente o responsável por toda empatia que nutrimos por Vinny – mas é uma pena que a produção não colabora para fazer este um grande projeto. Com produção executiva de Martin Scorsese, Sangue Pela Glória é o tipo de filme que você de imediato percebe que poderia ser muito maior, mas fica limitado a ser apenas mediano.

Silêncio (Silence)

Falar sobre religião não é fácil. No cinema, este tema, por mais bem tratado que seja, sempre levanta infindáveis debates e discussões – e isso não seria diferente ao falarmos de Silêncio, filme de Martin Scorsese, um cineasta cuja maior parte de sua filmografia foi amparada em seu catolicismo (ainda que não fosse o objeto primário de seus principais títulos). Imersiva em sua plenitude, esta obra do diretor de Taxi Driver e Touro Indomável é um dos projetos mais pessoais de Scorsese, que aqui deixa de lado o crime e a máfia (presente em seus melhores longas) para falar sobre a fé e seu questionamento.

01

Silêncio é a adaptação do livro homônimo escrito por Shūsaku Endō em1966, apontado como um dos melhores romances históricos do século XX (apesar de pouco conhecido no Brasil) e abertamente uma das obras literárias mais relidas por Scorsese. A história acompanha a viagem de dois padres portugueses ao Japão, durante o século XVII, para reencontrar seu mestre que, segundo informações, teria renunciado sua fé cristã e estaria vivendo conforme os costumes locais (em uma região onde a prática do cristianismo era severamente repreendida pelas autoridades).

Amparado pela bela fotografia de Rodrigo Prieto que, em conjunto com o competente design de produção de Dante Ferretti, emprega um tom clássico à toda narrativa (onde cada plano aberto pode ser visto como uma pintura antiga), Silêncio é visual e tecnicamente impecável. As cores dos quadros são ofuscadas por um profundo aspecto de neblina, um recurso que reafirma toda a morbidez da trama. Sonoramente, Scorsese abandona praticamente o uso de qualquer trilha musical, abusando dos sons (revelando um ótimo trabalho de edição e mixagem) e, como sugere o título, do silêncio – como se para estender a tensão do momento e permitir que o espectador possa refletir sobre aquilo que vê na tela. É importante ainda ressaltar que a direção de Scorsese vai além, se mostrando principalmente na performance espetacular de todo o elenco, em especial do protagonista vivido por Andrew Garfield. É interessante analisar o quanto Garfield se doa a esta personagem, nos entregando uma de suas mais surpreendentes atuações até então. Inegavelmente, o intérprete está em sua melhor fase.

02

Mas é no desenvolvimento de seu drama que Silêncio se torna o que é: um grande filme. A história caminha sem pressa, dando tempo necessário ao longo de quase três horas de duração para que tudo transcorra de forma abrangente. Apesar do possível tom xenófobo que alguns possam alegar (quando a cultura japonesa é um tanto “vilanizada”, enquanto o catolicismo é glorificado), Silêncio é um filme que incomoda e faz o público sair de sua zona de conforto para refletir. Em uma época de discursos religiosos inflamados de ódio, Silêncio convida o espectador a questionar sua fé, independente de religiosidade. A fé não está apenas nas atitudes; ela está presente dentre de nós.

Em produção por mais de 20 anos, Silêncio é um filme que nos oferece uma experiência cinematográfica única de contemplação e reflexão. É verdade que não é uma obra para todo o público, mas é certo que é o projeto da vida seu idealizador, ainda que não seja completamente entendido. Esnobado pela Academia, talvez hoje seja difícil enxergar a dimensão de Silêncio dentro da filmografia de Scorsese, mas certamente ele se perpetuará em um futuro não muito distante como um dos momentos mais importantes da carreira de um dos maiores artistas de cinema em todos os tempos.

Seremos História? (The Turning Point)

Desde o início de sua carreira, Leonardo DiCaprio sempre se mostrou um árduo defensor das causas ambientais. Elogiado por inúmeros grupos ambientalistas devido ao trabalho que promove desde então, o intérprete foi nomeado pela ONU, em 2014, seu mensageiro da paz e representante das alterações climáticas no mundo – o que o tornou gabaritado para estrelar o potente documentário Seremos História?.

Com produção executiva de Martin Scorsese e direção de Fisher Stevens, Seremos História? acompanha a jornada de três anos do astro hollywoodiano em busca de respostas às ameaças ao meio ambiente. Durante o período, o ator rodou o planeta, visitando locais onde as mudanças climáticas são mais evidentes e causam maior impacto – como a Flórida, nos EUA, que sofre todos os anos com inundações; a Groenlândia, cujas geleiras se derretem mais rapidamente a cada dia; ou mesmo algumas ilhas do Pacífico, prestes a desaparecer com o aumento do nível do mar.

02

A proposta do documentário é simples: alertar o público de que a situação é crítica e tem de ser discutida com urgência. O texto de Mark Monroe argumenta que os governos mundiais precisam tomar ações imediatas para preservar o meio ambiente. Entre elas, a cobrança de impostos sobre combustíveis que emitem dióxido de carbono; o incentivo ao uso de energias renováveis (como a eólica, por exemplo); e até mesmo uma nova dieta alimentar. A dificuldade, segundo a obra, reside inicialmente no fato de que as informações sobre as alterações do clima são bastante controversas: se por um lado há quem defenda que o aumento da temperatura mundial não é nada perto da evolução da humanidade nos últimos anos, os mais pessimistas acreditam que o momento é crucial: por mais que não possamos frear as consequências, devemos desde já arregaçar as mangas e buscar soluções que ajudem a minimizar os impactos causados.

Uma nação informada é uma nação empoderada.

DiCaprio discute o tema com os tipos mais variados: entre líderes políticos, cientistas e outros, Leonardo entrevista nomes como o presidente norte-americano, Barack Obama, o secretário-geral da ONU e o Papa Francisco, primeiro pontífice a se pronunciar acerca do aquecimento global. Apesar de sua visível falta de domínio do assunto, o ator é corajoso ao expor na tela aqueles que, de acordo com o roteiro, seriam os grandes vilões – incluindo nomes de políticos e empresas do ramo alimentício. Além disso, ele não se intimida ao dizer que o Acordo de Paris (assinado por líderes de vários cantos do mundo) não pode ficar restrito apenas ao papel; pelo contrário, ele deve abranger medidas concretas que precisam ser implementadas o quanto antes.

Já disponibilizado no National Geographic Channel, além de outras plataformas, Seremos História? é, antes de um documentário muito bem produzido, um poderoso alerta a todos nós: cada um é responsável, em menor ou maior escala, pelo que acontece no mundo e todos podemos fazer a nossa parte. A conscientização aqui é fundamental. A pergunta do título é interessante e é justamente o que esta produção deseja: nos fazer refletir se, afinal, seremos capazes de salvar o planeta (e a nós mesmos) ou nos deixaremos ser consumidos por nossa própria arrogância.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

Há muito que se falar sobre a extensa filmografia de Martin Scorsese, mas o que mais chama a atenção é sua versatilidade. O cineasta já trafegou por vários gêneros, mas faltava-lhe ainda um filme que pudesse ser assistido por seus filhos – como o próprio argumentou. Este foi o ponto de partida para a concepção de A Invenção de Hugo Cabret – uma requintada produção que atende aos anseios do diretor tanto como pai quanto, principalmente, como cinéfilo que é.

Paris, 1930. Após a morte de seu pai relojoeiro, o jovem e inocente Hugo vai viver na Gare Du Nord, a famosa e exuberante estação de trem da capital francesa – e lá, o órfão passa seus dias acertando os relógios do local e sobrevivendo de pequenos furtos. Além do talento com as engrenagens, Hugo também herdou do pai um misterioso autômato, que ele tenta remontar com as peças roubadas da loja de brinquedos da estação. Um dia, pego em flagrante, Hugo é obrigado a trabalhar no local e lá acaba se tornando amigo da enteada de seu chefe. O que as duas crianças não imaginam é que o dono do comércio é o velho cineasta George Méliès – e entre muitas aventuras, os dois vão se aprofundando cada vez mais no passado daquele homem.

02

Uma característica que me encanta em Scorsese é seu pleno domínio da linguagem cinematográfica. Isto, é claro, só pode ser fruto das incontáveis horas que o diretor passou estudando cinema – Scorsese é sinônimo de erudição cinematográfica, todos sabem disso (não à toa, ele é fundador da The Film Foundation, organização responsável pela restauração de filmes antigos e raros). Perito na área, Martin consegue explorar com propriedade várias vertentes – e em A Invenção de Hugo Cabret não é muito diferente: ele tem pleno poder sobre o que está em suas mãos, mesmo que esta linguagem para ele seja “nova” (afinal, é a primeira incursão de Martin em um filme infantil e rodado em 3D). Contrariando os que duvidavam de sua capacidade de estar à frente de um projeto juvenil, bastam alguns poucos minutos de sua película para entendermos o quão genial é Scorsese.

“O cinema era nosso lugar especial…”

Visualmente arrebatador, A Invenção de Hugo Cabret faturou os principais prêmios técnicos do Oscar. E não é conversa: o longa é realmente majestoso. Com uma fotografia primorosa, dourada e cheia de luz (recriando bem a Paris da época), alguns movimentos de câmera improváveis surgem a todo instante, revelando cenários de tirar o fôlego, que são valorizados com a ótima montagem. Repare, por exemplo, na profundidade da câmera ao capturar a plataforma da estação parisiense. O 3D aqui é fundamental. É interessante analisar que Scorsese o utiliza de forma coerente, não apenas depara ornamentar sua fita, mas principalmente como instrumento indispensável para sua história, o que a enriquece muito mais.

01

Mas, apesar de ser um filme com crianças, A Invenção de Hugo Cabret não é exclusivamente para elas – e é aqui que entendemos sua dimensão. Apaixonado por cinema, Martin Scorsese faz uma bela homenagem aos primórdios desta arte através da figura de Méliès. Quem não o conhece, terá a oportunidade de ser introduzido ao universo deste fantástico artista. Enquanto os irmãos Lumière (os criadores do cinematógrafo, que Méliès tentaria inutilmente adquirir) filmavam banalidades rotineiras, Méliès era um velho conhecido do teatro de variedades – e isto foi essencial para que ele levasse às telas o ilusionismo. Por esta razão, até hoje George Mélièr é considerado o pai dos efeitos especiais. Infelizmente, sua produção de mais de 500 obras se perdeu com o tempo e pouca coisa foi recuperada – mas sua memória ainda vive. Scorsese junta todo este material e cria um filme que engrandece o cinema como arte. Embora existam algumas oscilações no roteiro (que ora foca o garoto, ora foca Méliès – e isso acaba o deixando um tanto desconexo), A Invenção de Hugo Cabret é, de longe, um dos momentos mais inspirados de Martin, repleto de significados e que se revela uma verdadeira ode à sétima arte.

O Rei da Comédia (The King of Comedy)

Menosprezado pela crítica e esquecido pelo público, O Rei da Comédia abriu o Festival de Cannes em 1983, mas logo foi ofuscado pelos demais clássicos de Martin Scorsese. De fato, lançado logo após Touro Indomável (pelo qual Robert De Niro faturou o segundo Oscar de sua carreira), esta tragicomédia hoje pode ser encarada como um curioso e cruel retrato do mundo das celebridades e a corrida pela fama – o que leva o espectador a se questionar a razão do filme não ser tão celebrado quanto outras obras de seu idealizador.

02

De forma enérgica e inspirada, De Niro encarna o papel de Rupert Pupkin, um aspirante a comediante que deseja ingressar no show business, mesmo não possuindo o talento que acredita. Entre seus devaneios e os gritos da mãe no porão de casa, seu maior sonho é ser o novo “rei da comédia”. Determinado a isso, ele tenta se aproximar de Jerry Langford (Jerry Lewis), um famoso artista do horário nobre, para conseguir lhe apresentar seu número. Aos poucos, Rupert se torna mais obsessivo, ao ponto de sequestrar seu ídolo, exigindo uma aparição em seu programa.

Talvez dois fatos tenham contribuído para que O Rei da Comédia não tenha sido um sucesso instantâneo. O primeiro é que o longa foi rodado logo após o presidente norte-americano Ronald Reagan levar um tiro de um jovem que teria assumido ser fã de Taxi Driver, realizado pouco tempo antes. Em segundo lugar, é verdade que o título engana: O Rei da Comédia não é filme totalmente cômico. Ou sejamos honestos: nas mãos de outros cineastas, talvez até fosse uma produção que buscasse o riso fácil, mas não é o que acontece aqui. Apesar de ter um humor ácido, sim, e gerar algumas risadas no decorrer da fita, O Rei da Comédia não é engraçado. Scorsese se utiliza da comicidade para gerar uma reflexão sobre a rejeição – e isso dá a O Rei da Comédia um tom melancólico, perturbador, sinistro.

01

Com uma belíssima fotografia (que recria de maneira competente a Nova York da época, com seus talk-shows e luzes que atraem qualquer indivíduo) e uma trilha sonora pra lá de eficiente, Scorsese dá outros rumos ao roteiro bem escrito de Paul D. Zimmerman, tornando O Rei da Comédia um filme repleto de detalhes que o engrandecem à medida que você presta mais atenção na narrativa. Apesar de não ter a comédia que o título sugere e também não possuir a violência das produções anteriores do diretor (que sequer recorre a técnicas extravagantes aqui), O Rei da Comédia é uma implacável sátira ao culto às celebridades e a busca pelo sucesso, que tornam o ser humano refém de suas próprias bizarrices.