“Ghost Stories”: Coldplay Longe das Origens e Perto do Coração

A banda de rock britânica Coldplay pegou muita gente de surpresa quando anunciou, em março, o lançamento de seu sexto registro de estúdio, Ghost Stories, sucessor do questionável Mylo Xyloto, de 2011. Questionável porque Mylo Xyloto era um disco conceitual e experimental que, apesar das críticas mistas, não agradou totalmente aos fãs dos rapazes – que clamavam por uma volta do Coldplay às antigas e melancólicas composições de sucesso que consagraram o grupo  e não ao estilo “colorido” e animado (quase infantil) de MXGhost Stories chega as lojas ainda este mês, mas já foi disponibilizado no iTunes Radio – e, já à primeira audição, escancara as diferenças com o álbum que o antecedeu.

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Contando com a participação de vários produtores (como do DJ Avicii, Paul Epworth e Timbaland – este último que já trabalhou com Justin Timberlake, Madonna, Rihanna e 50 Cent, entre outros vários artistas de sucesso), Ghost Stories é um disco que, ao longo de suas nove faixas, mostra que o grupo liderado por Chris Martin parece não se arriscar muito. No entanto, a busca por novas sonoridades (principalmente eletrônicas) está presente no álbum, revelando um trabalho que, ainda que esteja distante daquilo que a banda fazia nos primeiros anos é capaz de agradar.

Ghost Stories abre com Always in My Head – com sua introdução sublime e seu refrão cativante, onde Chris declara que “você está sempre em minha cabeça”, ao som de uma guitarra deliciosa. De longe, uma das melhores músicas do disco. Em seguida, Magic (primeiro single já lançado anteriormente) sugere que não há nada mais mágico do que estar ao lado de quem se ama. A baladinha simplista não é nada próximo aos grandes sucessos de outrora, mas é totalmente amigável – e, ao vivo, com Chris ao piano, certamente ficará ainda melhor. Ink é outra baladinha experimental, que talvez executada por uma banda menor não teria a mesma felicidade e eficiência. Sem muita grandeza, é uma daquelas canções que cairiam bem em qualquer trilha sonora.

True Love vem carregada de elementos eletrônicos, que a deixa com um ar meio acústico, apesar dos belos arranjos de cordas e da guitarra que segura a música ao longo de sua execução. Midnight tem uma falsa pretensão melancólica e, apesar de não ser uma obra-prima, é a faixa cuja letra mais se aproxima das composições antigas do grupo. Nada alem disso. A canção tem uma pegada eletrônica bem minimalista, acentuada pelo uso explícito do autotune na voz de Chris – tornando-a quase experimental. Another’s Arms segue a mesma linha eletrônica-experimental de Midnight – mas menos minimalista (talvez pelos belos arranjos vocais femininos). Oceans é a música mais acústica do álbum, apesar de crescer ao longo de seus mais de cinco minutos – exceto por seu final sintetizado e, particularmente, desnecessário. Em seguida, A Sky Full of Stars, a aguardada composição produzida por Avicii, se traduz no momento mais dançante do trabalho até aqui, mesclando a agitação “disco” com o acústico de um violão que dá todo o ritmo – faltou apenas a Nicki Minaj fazendo um feat. para completar a situação (só que nunca). Fechando Ghost Stories, temos a bela introdução ao piano de O (sim, apenas “o”) – talvez a faixa que mais lembre a melancolia do Coldplay de Parachutes – um belo momento que encerra bem o disco.

02Ghost Stories é um grande ponto de interrogação na cabeça dos fãs da banda. Não é o disco que se esperava, porém é um trabalho bom que, ainda que um pouco engessado, absorve bem as novas experiências que o quarteto adquiriu ao longo de quase 20 anos de estrada. O que se percebe é que aos poucos o grupo britânico vem apresentando um novo conteúdo, distanciando-se de suas origens, mas sem perder por completo a essência que os fãs tanto amam. O maior distanciamento, à primeira audição, fica nas letras, pois Chris nunca esteve tão amante como aqui – o álbum é carregado de letras com frases clichês e talvez piegas, como “eu não quero ninguém mais alem de você”, “eu penso em você” ou (o ápice do amor romântico) “diga que me ama ou minta” – frases que em composições pop seriam amplamente satirizadas. Talvez seja reflexo do fim (surpresa!) do casamento entre Chris Martin e a atriz Gwyneth Paltrow – como dizem, até mesmo um pé na bunda serve para alguma coisa. Talvez seja o interesse repentino de Chris na boyband britânica One Direction e, especialmente, em seu frontman Harry Styles (amplamente elogiado pelo cantor de clássicos como YellowClocksTroubleFix YouThe Scientist e uma porrada de músicas boas). Fato é que Ghost Stories não traz uma inovação total ao som da banda, mas mostra que o Coldplay está em boa forma – suficiente para criar um projeto pensado, conceitual e focado na experimentação, capaz ainda de atingir o coração da crítica e do público.

Keane: Dez (?) Anos em Coletânea “Colorida”

Há algumas bandas que, por mais que se queira, é impossível não gostar. Por mais que se tente achar algum defeito, alguma brecha, algum “porém”, você acaba desistindo e se entregando ao talento indubitável do artista; aquele tipo de banda que ainda que não seja sua preferida, você reconhece que é boa e faz coisas de qualidade. Este é o sentimento que eu nutro pelos garotos do grupo inglês Keane, que está prestes a lançar (em 11 de novembro de 2013, conforme anunciado em seu site) um álbum compilatório para celebrar os dez anos de carreira do quarteto (ou melhor, de seu primeiro single comercial, Everybody’s Changing, de 2003 – já que a banda existe desde 1995).

keaneAgora, here we go: liderada pelo vocalista Tom Chaplin, o Keane se destacou no cenário musical a partir de 2003, pouco antes do seu bem sucedido álbum de estréia, Hopes And Fears. Desde então, o grupo (que mescla um estilo entre o rock alternativo britânico, indie e algumas pinceladas de new wave – veja vocês…) tem estado em evidência e conquistado uma legião de fãs ao redor do mundo, com suas explícitas influências em artistas como U2, A-ha, R.E.M., The Smiths e outros, em maior ou menor proporção, mas que contribuíram para formar a identidade musical do conjunto.

Com quatro álbuns nas costas (o último, Strangeland, foi lançado em 2012), eis que a banda tem uma ideia: lançar uma coletânia com os maiores hits de sua carreira. O resultado disso será a compilação The Best Of Keane, já na pré-venda no site oficial dos rapazes e com diversas edições (simples, edição de luxo com DVD, livro e o caralho a quatro outros atrativos – o que se traduz em uma ótima fonte de receita extraída dos fãs alucinados).

bestA playlist será recheada com canções como Perfect SymmetrySovereign Light Café e ai! morri Somewhere Only We Know, entre outros grandes sucessos – além de algumas faixas inéditas preparadas para o álbum, como Won’t Be Broken e a já liberada Higher Than The Sun – que ganhou um ótimo clipe na última semana. No vídeo, é retratado a trajetória da banda em uma espécie de animação, que acompanha as fases vividas pelos garotos e os álbuns de sua carreira. Dirigido por Chris Boyle, o vídeo caiu bem para a canção que, musicalmente, é reflexo de tudo o que a banda fez durante esses anos na estrada.


Olha, seria um pouco de hipocrisia falar que eu não estou aguardando ansiosamente pela coletânea – afinal, o som do grupo é delicioso de se ouvir, além dos hits que são muito bons e, unidos todos os melhores então…! Era tudo o que os fãs (e os nem tão fãs, mas admiradores) esperavam. E, é claro, a banda também né? Afinal, faturar um extra sem fazer coisa muito nova é sempre um bom negócio… #maldade