Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by Your Name)

Aclamado pela crítica e público, Me Chame Pelo Seu Nome desponta como um dos grandes favoritos nas principais categorias do Oscar em 2018. De fato, o longa dirigido por Luca Guadagnino, para além de sua excepcional cinematografia (o que, em minha opinião, já o configura como um dos melhores títulos do gênero neste aspecto), trata com sensibilidade o despertar da paixão adolescente, tendo como cenário a idílica paisagem italiana no início dos anos 80.

É mais um verão na vida do jovem Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, filho único de uma família norte-americana com ascendência europeia. Tudo muda, no entanto, com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico convidado pelo pai do adolescente a passar as férias com a família e ajuda-lo em suas pesquisas sobre cultura greco-romana. Aos poucos, as afinidades entre Elio e Oliver se tornam mais vigorosas, fazendo vir à tona novos sentimentos que marcarão para sempre a vida do garoto.

Baseado no livro homônimo de André Aciman, o argumento de Me Chame Pelo Seu Nome acompanha o crescimento de seu personagem principal e a evolução de seus sentimentos pelo hóspede tão desejado. Há quem reclame do ritmo da narrativa (provavelmente aqueles que esperam calorosas sequências de sexo entre os protagonistas, algo que – sinto informar – felizmente não acontece), alegando que a fita custa a engrenar. Com efeito, a atração entre Elio e Oliver pode até parecer imediata, logo à primeira cena, na troca de olhares do casal; mas sim, o envolvimento entre eles ocorre aos poucos, em meio a diálogos soltos, encontros casuais, toques inesperados – entre outros momentos propícios ao florescer de uma paixão.

Entretanto, quando os sentimentos são revelados, o filme ganha uma intensidade monstruosa, muito estimulada pela incrível química entre Chalamet e Hammer. Enquanto o mais velho (que nunca fora reconhecido necessariamente por seu talento, mas sobretudo por sua beleza clássica) consegue manter a distância narrativa apropriada a seu personagem (ele nunca ofusca, mas também nunca é ofuscado), Timothée tem uma atuação irretocável, conseguindo transmitir todas as ânsias, angústias, medos do tímido Elio. A menos que surja outra grande performance nesta temporada, o Oscar de melhor ator “precisa” ser dele – os últimos 15 minutos de película são arrebatadores e é ele quem faz toda a diferença para que isto ocorra.

A fotografia iluminada de Sayombhu Mukdeeprom é a responsável pelo clima de veraneio da fita, capturando com precisão a paisagem campestre da Itália da década de 80. A câmera passeia com naturalidade, nos colocando como observadores da história do plano mais conveniente possível. O design de produção contribui muito para a ambientação, que nos remete ao período em questão já nos instantes iniciais. A trilha sonora, no entanto, favorece muito o filme, uma vez alocada de forma irrepreensível. Ela é tímida, mas não imperceptível e funciona como um poderoso agente na trama – senti particularmente uma certa influência das trilhas “quebradas” da nouvelle vague (como em inúmeras obras de Godard ou Truffaut, por exemplo).

É interessante perceber o quanto o cinema gay (uma definição a qual não gosto de recorrer) tem crescido ao longo dos anos: se antes, essas histórias ficavam muito restritas às produções baratas ou alternativas, elas vem alcançando o “mainstream” e ganhando destaque em inúmeras premiações – não apenas por sua temática, que fique claro, mas pela qualidade inegável destas produções. É o caso de Me Chame Pelo Seu Nome: talvez ele possa não trazer nada necessariamente novo (há até mesmo alguns clichês, sejamos honestos); mas sua cinematografia é, até aqui, uma das melhores no gênero, transformando este em um filme indiscutivelmente importante. Visual e tecnicamente belo, Me Chame Pelo Seu Nome é uma história de amor convencional, sim, mas narrada com a sensibilidade e excelência necessários para transforma-lo em um “cinema gay” de primeiro escalão.

Assim é a Vida (C’est La Vie)

É curioso o fato de que Assim é a Vida tenha chegado tão timidamente aos cinemas brasileiros, mesmo carregando nos créditos os nomes de Eric Toledano e Olivier Nakache – os parceiros de roteiro e direção responsáveis por Intocáveis, a maior bilheteria francesa da história. Felizmente, essa nova produção da dupla é uma das gratas surpresas do ano, uma deliciosa comédia contemporânea capaz de divertir o espectador sem subestimar sua inteligência. A trama relativamente simples acompanha um dia de trabalho de Max (Jean-Pierre Bacri), um promotor de eventos que tem a difícil missão de organizar um casamento badalado, realizado em um castelo francês do século XVIII.

Entretanto, a equipe de Max não é lá muito profissional – e nessas condições, surgem vários personagens com suas respectivas vicissitudes: a gerente do buffet que arranja confusão com todos os empregados; um animador com o ego inflado; o noivo cheio de manias; o garçom maluco que se passa por convidado para “cantar” a noiva; o fotógrafo que abusa do estagiário e só se preocupa em encher a barriga. Enfim, conforme o tempo passa e a festa se desenrola, os problemas surgem e caberá ao “multitarefas” Max resolve-los e entregar ao exigente casal uma noite dos sonhos.

Assim é a Vida apresenta arcos e soluções muito interessantes: há alguns estereótipos do gênero, é verdade, mas o filme não se limita a isso; pelo contrário, existe um equilíbrio, nada é em excesso. Além disso, pequenas tramas paralelas vão acontecendo e dão certo alívio à narrativa principal, abrindo espaço suficiente para que os personagens em cena sejam desenvolvidos de maneira satisfatória.

Mas há um ponto importante a ser mencionado: há quem diga que a comédia é um gênero de filme que não exige muito tecnicamente. Assim é a Vida, no entanto, nos surpreende por ser brilhantemente bem executado: a direção com um ótimo timing cômico (muito valorizada pelas grandes atuações do elenco); a fotografia iluminada e cheia de vida de David Chizallet, que praticamente nos insere dentro da festa; a edição que constrói um ritmo muito mais dinâmico à fita; a trilha sonora muito bem escolhida e orquestrada – todos estes elementos tornam Assim é a Vida um longa muito agradável. Arriscaria dizer que, levando em consideração o desafio cinematográfico de então, Assim é a Vida é ligeiramente superior ao sucesso Intocáveis, dado principalmente o desafio do pequeno espaço cênico que concentra uma quantidade razoável de tipos – esses, por sua vez, que refletem muito bem (como em poucas outras produções) a pluralidade da sociedade francesa atual e globalizada. Assim é a Vida, dessa forma, é a grande comédia do ano – daquelas que a gente não vê tão fácil por aí…

Corpo e Alma (Testről és Lélekről)

Endre é um homem de meia idade que trabalha como gerente financeiro em uma empresa do ramo alimentício. Com um dos braços paralisados, ele mora sozinho e visivelmente prefere a solidão ao envolvimento com outras pessoas. A reclusa e metódica Mária, por sua vez, tem dificuldades para interagir com quem quer que seja, ainda que seja superdotada (traços evidentes da Síndrome de Asperger). Essas características são propícias para que ela possa exercer com naturalidade sua profissão: ela é uma espécie de agente de qualidade e vai prestar seus serviços no matadouro em que Endre atua.

Não é muito difícil ao espectador entender que o relacionamento entre os dois não será, à primeira vista, muito fácil. A virada no roteiro de Corpo e Alma, contudo, ocorre quando descobrimos que essas duas pessoas solitárias partilham todas as noites de um mesmo sonho: um casal de cervos que vivem juntos em uma floresta. Conectados por este cenário lírico mas incapazes de qualquer comunicação na realidade, aos poucos um sentimento incomum aproxima estes protagonistas e eles decidem se aprofundar nesta história inusitada.

Provavelmente, o argumento de Corpo e Alma é um dos mais originais a chegar aos cinemas este ano e é muito favorecido pelas atuações da dupla que o protagoniza (Alexandra Borbély e Géza Morcsányi) e a direção concisa da húngara Ildikó Enyedi – aliás, Corpo e Alma é o representante da Hungria ao Oscar de produção em língua estrangeira no próximo ano. Infelizmente, o lento desenrolar da narrativa prejudica muito um filme que, em sua proposta, poderia ser uma experiência muito mais interessante. Entendemos, na verdade, que o ritmo empregado não é à toa; pelo contrário, ele é até necessário para podermos compreender as alusões de seu roteiro – o mesmo roteiro que inclusive não poupa o espectador de cenas que poderiam o fazer se contorcer na poltrona (as sequências de carnificina no matadouro, por exemplo, são importantíssimas para delinear o início frio e apático da relação dos dois personagens principais). Corpo e Alma causa estranheza, sim, mas curiosamente não é isto que o torna menos acessível, mas sua monotonia: longos espaços silenciosos, diálogos aparentemente desconexos e uma incrível sensação de que tudo demora a acontecer. E quando o filme “engrena”, somos surpreendidos pelos créditos finais, após quase 2 horas de projeção (sem ao menos um desfecho palatável). Corpo e Alma é uma aparente e linda história de amor entre dois seres incompletos e suas idiossincrasias, que apesar de bem executado sofre por ser arrastado e um tanto incomum.

O Poder e o Impossível (6 Below: Miracle on the Mountain)

Baseado no best-seller Crystal Clear, O Poder e o Impossível é um daqueles filmes em que você já sabe o que vai acontecer só de assistir ao trailer. Isso porque tudo o que vemos na tela nos remete às diversas outras produções do gênero, que recorrem aos mesmos elementos batidos para tecer uma trama de superação. No caso do novo longa de Scott Waugh (cujo currículo modesto inclui títulos meramente esquecíveis), o protagonista é Eric Lamarque (Josh Hartnett), um jovem rebelde à procura de respostas na vida: por conta do vício em drogas e do temperamento instável, ele abandonou uma carreira de sucesso nos esportes e agora vive recluso aos pés de uma montanha, onde pratica snowboard na neve. Às vésperas de uma audiência jurídica, Eric é surpreendido pelo tempo fechado e acaba ficando perdido em meio à vastidão do gelo, iniciando assim uma desesperada luta pela sobrevivência.

O roteiro (um tanto corrido, diga-se de passagem) do estreante Madison Turner possui duas narrativas distintas: uma central, no presente, que acompanha nosso herói durante sua odisseia; e uma alternativa, construída através de flashbacks, que nos ajuda a compreender o drama atual de nosso personagem. Há então uma certa dose de emoção e o argumento recorre a variados clichês já usados a exaustão, mas que o público “engole” com facilidade (como as cenas da infância de Eric, a pressão do pai autoritário, o abandono, etc.). Cria-se, assim, uma inevitável previsibilidade na história, é verdade; mas ao mesmo tempo gera-se também uma aproximação com o espectador. Nós sabemos o desfecho, mas ainda assim permanecemos à frente da tela esperando que ele ocorra. Muito dessa empatia é fruto da boa performance de Josh Hartnett que, através de sua atuação sóbria mas convincente, consegue transmitir toda a angústia de Eric ao se ver sem saída diante das situações mais adversas. Aliado a isso, temos ainda um eficiente trabalho técnico, da trilha sonora inserida em momentos chaves aos ótimos efeitos especiais e maquiagem. Dessa forma, é nítido que O Poder e o Impossível é um filme de fácil comercialização, já que possui exatamente aquilo que o público comum espera ao ir ao cinema. O problema, para os mais exigentes, é que este tipo de história de superação já está saturada e ao permanecer na fórmula batida tão comum a outros longas do gênero, O Poder e o Impossível se limita a um bom entretenimento, mas que já está pra lá de manjado…

Mulheres Divinas (Die Göttliche Ordnung)

A trama de Mulheres Divinas é ambientada em um pequeno vilarejo suíço no início dos anos 70. Neste lugar, aparentemente esquecido e distante de todo o restante do mundo, vive Nora e sua família. Sua rotina se restringe aos cuidados com a casa, à educação dos filhos e à subordinação ao esposo (e também ao sogro implicante, com quem tem lá suas desavenças). Mas o país está em alvoroço: o direito de voto das mulheres está sendo discutido e será decidido em breve. Revoltada com o marido por tê-la proibido de trabalhar e indignada com as injustiças envolvendo outras mulheres próximas a ela, a pacata e tímida dona de casa passa a se interessar cada vez mais pela causa feminista e decide defender a igualdade de gêneros, se tornando uma das ativistas mais influentes daquela comunidade.

Com um tema atualíssimo, o roteiro de Mulheres Divinas é competente ao partir do micro para alcançar o macro: ele não contempla as grandes paralizações, discursos ou maiores nomes de um movimento; mas foca em acontecimentos incluindo pessoas simples e comuns, no perímetro que envolve aquela singela vila em seu cotidiano – e isto ajuda a aproximar o espectador, como se o fizesse acreditar que grandes mudanças podem partir de pequenas ações. A obra de Petra Biondina Volpe carrega sua representatividade sem pesar na mão, sendo bastante agradável ao construir sua protagonista (a eficiente Marie Leuenberger) aos poucos, de forma progressiva – ela deixa de ser apenas “mais uma” para se tornar uma líder generosa; ela passa a ter voz não apenas diante dos outros, mas principalmente para si – uma transformação essencial para seu autoconhecimento.

Representante suíço ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira, Mulheres Divinas é um longa com evidente caráter social, produzido, entretanto, em um formato “industrial”, pré-moldado, como se já direcionado não apenas ao entretenimento do público mas também sua conscientização. Não que isso seja um defeito; pelo contrário, envolve o espectador não apenas por sua história (mais contemporânea do que nunca) mas também por ser bem executado tecnicamente. É antes de tudo o retrato de uma luta que perdura até hoje – afinal de contas, os tempos mudaram, mas ainda temos muito a evoluir.

Tom of Finland (Tom of Finland)

Touko Valio Laaksonen foi um artista finlandês que, sob o pseudônimo “Tom of Finland”, ficou conhecido por sua obra de intenso teor homoerótico, em uma época em que a homossexualidade era vista como algo anormal e até mesmo um crime em muitos países (especialmente no leste europeu). Inicialmente marginalizada na Europa do pós Segunda Guerra (apesar de ser bastante conhecida no meio queer ‘underground’ de então), sua arte ganhou notoriedade nos Estados Unidos na década de 70, sendo difundida nas mais variadas plataformas (até mesmo em HQs de histórias eróticas envolvendo homens musculosos sem camisa ou vestindo roupas de couro, montados em motocicletas). Sua influência foi tamanha que, sendo gay ou não, é impossível que você nunca tenha se deparado com algum desenho de Tom por aí (mesmo desconhecendo sua autoria).

O filme de Dome Karukoski (que carrega no título o nome de seu protagonista) acompanha a vida de Tom desde o fim da Segunda Guerra, quando iniciou suas primeiras gravuras na Islândia e Alemanha, até sua ascensão na América. A ambientação dos períodos é competente, em especial na recriação dos cenários e design de produção, que favorecem muito a trama, bem como a maquiagem, que praticamente é o único “marcador de tempo” da película – uma vez que o roteiro escrito por Aleksi Bardy (também produtor) trafega por diversos momentos sem muitos critérios (resultado de inúmeras entrevistas e até mesmo consultoria). As passagens entre as situações expostas não possuem naturalidade – o público só entende o que está acontecendo porque, sob certo aspecto, Tom of Finland tem lá suas doses de didatismo.

O roteiro ganha pontos, entretanto, ao abordar o relacionamento de Tom com sua irmã (que desconhecia sua sexualidade) e também com Veli Mäkistä, com quem viveu durante 28 anos. Também acerta ao expor a hipocrisia da sociedade europeia do século passado, que proibia a homossexualidade, mas “permitia” que seus soldados mantivessem relações às escondidas nos parques públicos ou que mulheres fossem condenadas a casamentos de faixada com homens gays apenas em nome da moral pública. Também pincela rapidamente o início da epidemia da AIDS e como ela impactou a comunidade gay na ocasião.

O que prejudica Tom of Finland, no entanto, é seu conservadorismo. Com a mesma intensidade com que a obra de Tom foi transgressora para sua época, faltou ousadia ao narrar sua história com maior veemência. Talvez justamente por isto o longa tenha sido a escolha da Finlândia para representa-la na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018. De fato, considerando o histórico de nossa querida Academia, não seria surpreendente que Tom of Finland estivesse entre os 5 finalistas – afinal, Tom of Finland é tecnicamente belo e bem feito. Uma pena que não ousa se sobressair em nada exceto um simples registro biográfico.

Últimos Dias em Havana (Últimos Días en La Habana)

Centro de Havana. Dois homens compartilham uma habitação dentro de um cortiço humilde. Enquanto Diego (Jorge Martínez) está confinado em sua cama afetado pelo avanço de uma doença que o devasta, Miguel (Patricio Wood) divide seu tempo entre o trabalho no restaurante e os cuidados para com o amigo doente. As diferenças entre os dois são gritantes. Apesar de prostrado por conta da doença, Diego é irreverente e cheio de vontade viver, daquelas pessoas capazes de transformar o ambiente em que vivem e reunir a todos; já o carrancudo Miguel é calado e de poucos amigos e sonha ansiosamente com o dia em que deixará a capital cubana e partirá rumo aos EUA – como se sua existência (e sobrevivência) dependesse unicamente disto.

A narrativa tragicômica de Últimos Dias em Havana retrata com bastante poesia a ruína e degeneração da sociedade cubana que vem se estendendo por anos. O cineasta Fernando Pérez mostra a rotina civil de Cuba (não a turística, mas a real) através dos rostos sofridos de seus moradores, das ruas pobres, das casas deterioradas – enfim, da decadência de uma nação que parece ter simplesmente parado no tempo. Exceto por discretas referências a recursos atuais, não conseguiríamos identificar ao certo em que época a história se passa (um exemplo disto é o fato de Diego estar padecendo por uma enfermidade cujos tratamentos melhoraram muito nos dias atuais) e isto cria um clima de insatisfação, inquietude, desesperança.

É nesse cenário caótico, todavia, que a improvável amizade entre Miguel e Diego se desenvolve. Mostrando um competente trabalho de direção de atores, Pérez extrai atuações excepcionais de ambos protagonistas, que demonstram total sintonia em cena. A surpresa fica por conta de Gabriela Ramos, a jovem atriz que interpreta a sobrinha de Diego, grávida aos 15 anos e que vive em pé de guerra com a mãe. Ela também é a responsável pela narração que encerra a obra, onde quebra-se a quarta parede para relatar o desfecho dos personagens. Últimos Dias em Havana é uma síntese da comunidade cubana na atualidade contada através de uma história sobre amizade e sonhos, que prova que o cinema deste país ainda tem muito a oferecer.

Sem Amor (Nelyubov)

Uma das cenas mais angustiantes de Sem Amor (novo longa de Andrei Zvyagintsev, de Leviatã e Elena) traduz, literalmente, todo o sentido do filme: enquanto os pais trocam ofensas entre si, o pequeno Alyosha, de 12 anos, chora escondido em um canto do apartamento. O casal está em um complicado processo de separação: eles não se amam mais (se é que um dia se amaram), já estão em um novo relacionamento e agora decidem quem ficará com a guarda da criança, por quem não demonstram ter qualquer sentimento.

O cineasta russo se apropria desta pequena fábula familiar (tão comum nos nossos dias) para, ainda que não explicitamente, criticar a decadência da sociedade de seu país na contemporaneidade – embora o tema seja universal, é claro. Através da alternância entre diálogos profundos, silêncios incômodos e uma trilha sonora incrível, Zvyagintsev estrutura sua narrativa através de sequências que nos ajudam a compor cada uma de suas personagens. Em uma geração individualista, a preocupação pelo outro se esvaece: valorizamos nossos corpos na academia, rimos nos salões de beleza, sorrimos ao tirar a selfie nas redes sociais – mas somos incapazes de demonstrar afeto pelo próximo. Estamos cada vez mais distantes uns dos outros (a cena do interrogatório com um grupo de resgate reflete bem essa afirmação), criamos barreiras intransponíveis e vivemos mais fechados em nossa bolha particular.

A negligência dos pais para com o filho é avassaladora. Vemos uma criança à beira do colapso diante de dois progenitores que, definitivamente, não o amam. O filme, no entanto, estabelece seu principal conflito quando Alyosha some misteriosamente, sem deixar vestígios. A partir daí, o casal sai em busca do filho desaparecido. Nesta odisseia, cada um se esquiva das culpas e aponta o dedo para o outro, já que não há entendimento eles. Ninguém baixa a guarda, todos querem dar a última palavra. Não temos pista sobre o paradeiro da criança: ela entra e sai do filme sem qualquer referência e não sabemos ao certo se ela fugiu, se foi raptada ou o que quer que seja.

Se em Leviatã havia um certo alívio cômico no decorrer da fita, Sem Amoré um drama realístico, cruel e indigesto, daqueles que realmente machucam. Enxergamos, ainda que nas entrelinhas, um possível questionamento a respeito do aborto: se existem mulheres sem vocação para a maternidade, por que “força-las” a assumir esta responsabilidade? Mas este é só um detalhe. Há uma atmosfera de melancolia que permeia a história, muito acentuada pela excepcional fotografia da fita. Os frames de abertura são um prenúncio do que está por vir: a frieza da paisagem russa é estendida na relação de suas personagens e também nos seus sentimentos (ou na falta deles). Fica-se, assim, uma reflexão: se é inverno lá fora, faz muito mais frio no coração de cada um.

Amante Por um Dia (L’Amant d’un Jour)

A nouvelle vague foi um dos mais intensos e frutíferos momentos da história do cinema, mas ela ficou lá atrás, não há dúvidas. Philippe Garrel, entretanto, está entre nós, fiel a um movimento tão singular e rico quanto sua filmografia – infelizmente pouco conhecida pelo grande público brasileiro, que só passou a (re)conhecer Garrel através de seu filho, Louis, o astro francês de Os Sonhadores. Ainda que o cineasta tenha iniciado sua carreira quando a “nova anda” já não era tão nova assim, sobram títulos marcados por características da nouvelle vague na obra de Garrel (pai) – e Amante Por um Dia, seu mais novo longa-metragem, é um desses trabalhos.

Jeanne (Esther Garrel) acaba de terminar o noivado com um homem por quem fora (e ainda é) perdidamente apaixonada. À beira do colapso total, ela vai buscar abrigo no pequeno apartamento do pai, Gilles (Eric Caravaca), um professor universitário que acabara de engatar um namoro às escondidas com Ariane (Louise Chevilotte), sua aluna de mesma idade da filha. Jeanne e Ariane se aproximam e tornam-se amigas, mas não demora muito para que os problemas comecem a surgir.

Já nos minutos iniciais, é possível observar o contraste existente entre as duas personagens femininas: enquanto uma corre de euforia ao encontro de seu amado, a outra chora a perda de seu par. Céu e inferno, alegria e tristeza, sorrisos e lágrimas. O contraste, todavia, é alimentado durante toda a narrativa até que, ao final, a situação se inverta. A relação entre os três protagonistas, por sua vez, se constrói em meio às crises nervosas de Jeanne, ataques de ciúmes, infidelidade, descaso – em um emaranhado de sentimentos que acabará corrompendo esse trio tão incomum.

Segundo o próprio idealizador, O Amante de um Dia é a terceira parte de uma trilogia precedida por O Ciúme (2013) e À Sombra das Mulheres (2015). Compõem este conjunto tanto por sua temática (romances que falam sobre relacionamentos amorosos) quanto por sua estética, que evoca o cinema clássico francês nos recursos que utiliza: a fotografia em preto e branco, de um granulado sutil; os diálogos habituais entre os personagens (muitas vezes fora de quadro); as caminhadas nas ruas, que exploram os ambientes externos; a narração off; a trilha sonora irregular – entre outros artifícios que, ainda que não tão habituais no cinema atual, dão identidade à filmografia de seu diretor. Há planos, por exemplo, que parecem ser retirados de fotografias antigas: em um deles, o rosto limpo de Chevillote é captado com tamanha delicadeza, que é impossível não nos recordarmos dos filmes franceses de outrora.

Dizem por aí que o amor é como duas pessoas segurando a ponta de um elástico: o primeiro que soltar machuca o outro. Todos estamos, no entanto, invariavelmente propensos a sofrer, a nos deixar sofrer ou a fazer sofrer – assim é o amor. As relações amorosas tendem a ser conturbadas em suas inúmeras camadas e é constantemente explorada no cinema. Poucos cineastas, entretanto, conseguem tratar este tema infinito de forma tão interessante – e um deles é Philippe Garrel.

The Square – A Arte da Discórdia (The Square)

Não é difícil entender os motivos que levaram The Square a faturar a Palma de Ouro em Cannes nesta sua última edição. Já nos primeiros minutos do novo filme de Ruben Östlund (do excelente Força Maior, de 2014) o espectador já tem a consciência de estar diante de uma obra bastante singular e provocante, seja pelo humor mordaz ou pelo desconforto.

O protagonista é Christian, praticamente um modelo daquilo que seria um “homem ideal” contemporâneo: ele é belo, inteligente, com uma carreira bem sucedida, culto, se veste bem – enfim, o tipo que chama a atenção por onde passa. Ele é o curador de um museu de arte moderna na cidade de Estocolmo que está prestes a lançar uma nova exposição: “The Square”, um espaço físico delimitado por um quadrado no chão, onde as pessoas são “convidadas” a ajudarem uma às outras promovendo, assim, suas cidadania e solidariedade.

Mas seu próprio senso de cidadania e solidariedade são ameaçados quando, em uma manhã qualquer, Christian é surpreendido por uma jovem na rua fugindo da agressão de um homem. Christian prontamente a protege e, junto a um outro pedestre, impede o pior. Bela atitude, não? Só que não demora muito para ele perceber que sua carteira, celular e abotoaduras (de família, é bom frisar) foram roubados. Pois é, ele foi vítima de um golpe. A partir daí, é só ladeira abaixo.

The Square é uma crítica social a partir da observação comum e direta de um personagem em uma determinada situação (ou conjunto delas), mesmo quando levada ao absurdo. O próprio Östlund fez isso em Força Maior, ganhando o Prêmio do Júri em Cannes daquele ano. The Square não é, de fato, uma comédia, mas abusa de sequências cômicas para cutucar as feridas em suas múltiplas camadas, de maneira incrivelmente sutil, quase imperceptível em alguns instantes. As críticas, entretanto, não são tão simples. The Square satiriza, por exemplo, a prepotência da burguesia e o falso sentimento de solidariedade (afinal, ajudamos o outro porque enxergamos sua necessidade ou para não nos sentirmos culpados por não ajudar?). A tolerância liberal também é abordada: em uma sequência controversa, um senhor com Síndrome de Tourette interrompe o debate de um artista famoso, mas ninguém ousa falar nada – afinal, ele é a pobre vítima de uma doença. O racismo estrutural também é presente quando, por exemplo, Christian hesita ao invadir um prédio e sugere ao seu funcionário que o faça. O funcionário? Negro.

Mas talvez a discussão mais perceptível que The Square traga é quanto à velha questão: o que é arte? Um vídeo no Youtube pode ser considerado uma obra de arte capaz de chocar? Um punhado de granito no chão que acidentalmente foi removido pode ser reposto? Na cena icônica de The Square (em minha modesta opinião, uma das mais incríveis no cinema em tempos), um homem perambula como macaco em meio a um salão requintado repleto de milionários filantropos e artistas. Apesar da violência da performance, ninguém se manifesta – quem teria coragem de dizer que aquilo não é arte para parecer inculto diante dos demais? Vemos a arrogância e o ar de superioridade da classe artística. O que se segue é arrebatador e faz de The Square um dos melhores filmes do ano até aqui – daqueles que provocam seja pelo humor repleto de ironia ou pelo incômodo que causa e que muitas vezes é a única coisa que nos faz realmente refletir.