Clássico livro escrito por Charles Dickens, Oliver Twist é uma obra muito mais citada do que propriamente lida. É uma literatura que serve de inúmeras referências, ainda que poucos a conheçam profundamente. No cinema, por exemplo, o texto de Dickens já teve várias versões – mas nenhuma delas pode ser considerada tão fiel à obra literária quanto a versão que o cineasta Roman Polanski dirigiu em 2005.
Concebido como uma homenagem do cineasta aos seus filhos, Oliver Twist conta a comovente história do garoto órfão que é “vendido” para um coveiro. Sofrendo com a crueldade da família que o “adotara”, Oliver foge para Londres, onde é recolhido das ruas e acolhido por Fagin, um velho marginal que comanda um esquema envolvendo prostitutas e crianças criminosas. Sem muita aptidão para o crime, Oliver conhece um bondoso homem em quem enxerga uma figura paterna. No entanto, Fagin, temendo que Oliver denuncie seu esquema, planeja um assalto à residência do senhor rico que o pequeno deseja como pai.
Polanski assume a empreitada de dirigir este clássico literário após seu honroso reconhecimento por O Pianista (pelo qual ganhou o Oscar de melhor direção), em 2002. Grande parte do êxito obtido pelo diretor se deve à sua equipe técnica (praticamente a mesma de seu filme anterior). O trabalho de arte ao recriar a negra e suja Londres vitoriana é uma aula de cinema – em uma época onde cenários são construídos por computador, tornando filmes muito mais artificiais. Baseado em gravuras da época, a cenografia é impecável e contribui para acentuar o sentimento de isolamento de Oliver na precária cidade – sentimento este que nos remete, quase que imediatamente, ao mesmo drama vivido pelo personagem de Adrien Brody em O Pianista. Maquiagem, fotografia e a belíssima trilha sonora de Rachel Portman ainda acentuam essa sensação, dando um ar muito mais intenso ao roteiro de Ronald Harwood (que trabalhou com Polanski em O Pianista).
Quanto às atuações, seria impossível não mencionar Ben Kingsley, excelente em sua caracterização como o velho Fagin. Em um dos melhores papéis de sua carreira (mas menosprezado pela crítica), ele faz uma ótima composição de personagem, um vilão incontestável, mas que desperta certa compaixão ao se mostrar tão afável e carinhoso com o pequeno Oliver. Aliás, o personagem título não poderia ter sido melhor escalado. Barney Clark (que mais tarde só faria uma ponta em Pecados Inocentes, infelizmente) estrela brilhantemente este filme de peso, em uma das melhores atuações mirins dos últimos anos. Suas expressões faciais e seus olhos lacrimejantes deixam qualquer um comovido – o que corrobora a opinião da crítica de que dificilmente outro ator fará tão bem este personagem depois de Barney.
Oliver Twist de Polanski é, provavelmente, a mais bela e fiel adaptação ao romance que o originou – distanciando-se apenas de uma história infantil para criar um drama de sofrimento tão triste quanto o próprio livro. Polanski produz um filme que aborda a crueldade humana e lança uma profunda reflexão sobre a sobrevivência da inocência em um mundo tão corroído pela maldade e egoísmo. Em uma das cenas mais emocionantes, Oliver decide visitar Fagin na prisão – mostrando toda sua inocência e gratidão por um homem que, mesmo com seus defeitos, o acolhera quando em perigo. Oliver Twist nas mãos de Polanski se torna a mais pura e definitiva versão da obra de Dickens, ofuscando todas as produções anteriores do clássico.





