O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, 2009)

Poucos filmes conseguem ser tão cativantes quanto O Pequeno Nicolau, de 2009. Não por se tratar de um filme infantil, mas sobretudo por reproduzir com tamanha excelência toda a inocência, espontaneidade e encantamento próprios da infância – elementos capazes de transformar as situações mais corriqueiras em grandes aventuras.

Nicolau leva uma vida tranquila: é amado por seus pais e vive cercado por amigos, com quem se diverte dentro e fora do colégio. Ele adora ser criança – e, justamente por isso, não sabe muito bem o que quer ser quando crescer. Mas seus dias de paz estão contados: quando Nicolau flagra uma conversa entre os pais que o faz pensar que sua mãe está grávida, ele entra em pânico ao imaginar que, com a chegada do bebê, será abandonado na floresta como na clássica história do pequeno Polegar.

Dirigido por Laurent Tirard (que faleceu precocemente em 2024, aos 57 anos) e inspirado na série de livros do escritor René Goscinny, O Pequeno Nicolau adota a perspectiva infantil e preserva a ambientação da França dos anos 1950, embalada por uma trilha sonora graciosa. A narrativa acompanha as brincadeiras, as descobertas e as pequenas confusões de Nicolau e sua turma, traduzindo com humor e delicadeza a forma como as crianças percebem e compreendem o mundo à sua volta. Nesse sentido, o casting é um dos maiores acertos da obra: tanto as crianças, com suas interpretações cheias de personalidade, quanto os atores adultos demonstram uma sintonia perfeita, evidenciando a habilidade de Tirard na condução do elenco e na construção de personagens naturais e bem-humorados, sem cair na caricatura. Com raríssimas exceções, todos os tipos são incríveis: o amiguinho dedo-duro; o menino rico e mimado; o inspetor rabugento; a mãe amorosa; a professora dócil (e sua substituta casca grossa); e, claro, o pequeno Nicolau. É no olhar ingênuo de Maxime Godart que o protagonista ganha vida diante de nossos olhos – e arrisco dizer que nenhum outro garoto poderia fazê-lo. Portanto, assim é O Pequeno Nicolau: sem jamais subestimar a inteligência do espectador, é um longa que diverte e dá aquele quentinho no coração ao nos lembrar que, às vezes, basta recuperar um pouco da criança dentro de nós para redescobrir a beleza e a graça das coisas mais simples da vida.

Asterix e o Domínio dos Deuses (Astérix: Le Domaine des Dieux)

Eu já disse em outras ocasiões que foi-se a época em que animação era coisa de criança. Hoje em dia, é mais provável você encontrar uma multidão de marmanjos nas filas de desenhos animados – e as produtoras apostam cada vez mais neste segmento. Astérix e o Domínio dos Deuses, nova adaptação das histórias dos heróis Astérix e Obelix, é prova irrefutável de que este gênero pode agradar a todas as idades, de forma inteligente e divertida.

O roteiro nos transporta para os anos 50 antes de Cristo. A Gália está toda ocupada pelos romanos, com exceção de um pequeno vilarejo habitado por gauleses irredutíveis e que não cedem à pressão de Julio César. Cansado das tentativas frustradas, o governador decide inverter a estratégia, construindo um complexo de luxo (o “Domínio dos Deuses”) ao lado da aldeia gaulesa e, assim, impressiona-los e convencê-los a unirem-se a Roma. No entanto, os amigos Astérix e Obelix permanecem inflexíveis e terão que fazer de tudo para manter os romanos longe de sua comunidade.

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Nono filme animado da franquia, Astérix e o Domínio dos Deuses consegue unir com competência dois ingredientes que garantem seu sucesso: o apelo infantil (responsável por sequências nonsenses e “fofas”, capazes de agradar os pequenos) e os gags de humor voltados ao público mais adulto, onde a narrativa aposta em piadas de caráter satírico para criticar a falência de algumas instituições dentro do atual cenário francês – entre elas, a estupidez e despreparo da polícia, a burocracia das leis e a hipocrisia e arrogância dos políticos contemporâneos. A sátira pode até passar despercebida para as crianças, mas é provável que os pais se deliciem com as boas sacadas cômicas.

Infelizmente, o filme perde o fôlego em determinado momento (em que até mesmo a fotografia escura chega a incomodar), mas se recupera no desfecho – deveras infantil e fácil, mas nem por isso menor. Com bom planos que valorizam as cores e o cenário computadorizado (que inclusive pode ser conferido em terceira dimensão), Astérix e o Domínio dos Deuses nos traz ainda os carismáticos personagens dos quadrinhos criados por Albert Uderzo e René Goscinny, em uma aventura que é uma ótima opção de entretenimento para toda a família.