Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You, 2025)

O título Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (e, claro, a sinopse que o acompanha) me remeteu imediatamente ao artigo Women who refuse to mother: complicating the ideology of motherhood in Northern European Art, 1400-1600, de Diane Wolfthal. No texto, a autora demonstra que, mesmo na Idade Média, a ideologia da maternidade – essa crença de que toda mulher nasce para ser mãe, sendo naturalmente amorosa e vocacionada ao cuidado – nunca foi absoluta, embora ampla e historicamente reforçada pela cultura visual e religiosa. Wolfthal não nega a maternidade enquanto experiência, mas expõe a fragilidade de sua idealização como um destino irrevogável. É justamente essa operação – não a recusa da maternidade em si, mas sua romantização – que parece ser um dos gestos mais provocativos da obra de Mary Bronstein.

Linda é uma mulher à beira do colapso total; ao longo do filme, a psicóloga precisa lidar com uma sucessão de problemas que se acumulam: o tratamento da filha (cuja doença nunca chega a ser devidamente esclarecida), um vazamento que destrói o teto de seu apartamento, os cuidados para com seus pacientes. Por sua vez, os homens à sua volta não parecem nem um pouco dispostos a ajudá-la, seja o chefe, o manobrista do colégio da filha ou o esposo ausente. Sua vida está de pernas para o ar e não há qualquer rede de apoio que se sustente: tudo depende de Linda, tudo recai sobre ela e sua (in)capacidade de lidar com o caos.

Esse sentimento sufocante é amplificado pela fotografia de Christopher Messina, constantemente em plano fechado, que persegue Linda tal qual a rotina que a atormenta. Como Woody Allen o fizera com Cate Blanchett em Blue Jasmine, por exemplo, a câmera acentua um intenso clima de claustrofobia, não apenas espacial, mas principalmente existencial: ao manter esta distância desconfortável do rosto da protagonista, o enquadramento se torna ele próprio um mecanismo de aprisionamento, como se a imagem fosse uma extensão da pressão ininterrupta que atravessa sua trajetória. A câmera é cruel ao visualizar todo o desgaste da personagem, transformando o espaço ao seu redor em um território hostil, mais um agente de violência – onde não há refúgio possível, não há acolhimento, apenas a repetição (e deterioração) de experiências que a oprimem até o fim.

Moralmente ambígua, Linda não é vítima de julgamentos; o roteiro (também de Bronstein) não busca absolvições ou condenações simplistas: as ações indevidas e os gestos agressivos de Linda são apresentados mais como sintomas de um esgotamento estrutural, e não meramente atos isolados. Se eu tivesse pernas, eu te chutaria parece mais interessado em expor um sistema (falido) que coloca sua protagonista nessa posição, um modelo que insiste em naturalizar a sobrecarga feminina como uma virtude. Assim como nas imagens analisadas por Diane Wolfthal, o desconforto provocado aqui reside menos no comportamento dessa mulher e mais na ameaça que ela pode representar a esse ideal de maternidade – que, nos nossos dias, já não é mais sustentável. O mal-estar que o filme causa (e que nos é latente diante da atuação visceral de Rose Byrne, até aqui no papel de sua carreira) nasce justamente do confronto entre essa construção perpetuada por séculos e uma experiência atual incapaz de sustentá-lo. Assim, o filme se revela um retrato incômodo e indigesto do preço cobrado às mulheres para a manutenção de um regime já em ruínas.

Café Society (Café Society)

Café Society  vem sendo saudado como um dos melhores filmes de Woody Allen nos últimos tempos – provavelmente o mais elogiado desde Meia Noite em Paris, em 2011. Não que o longa (que estreou em Cannes este ano) esteja na lista de suas obras mais primorosas ou que Allen tenha retornado à sua velha forma – mas, de fato, Café Society  é, no mínimo, um filme agradável de se ver.

A história, que se passa na década de 30 (na efervescência da chamada ‘era de ouro’ do cinema, com suas luzes e cores em technicolor) acompanha o judeu nova-iorquino Bobby (Jesse Eisenberg), que sai do Bronx para tentar ganhar a vida em Hollywood trabalhando com seu tio Phil (Steve Carell), um poderoso agente dos astros de cinema de então. Não demora muito para que o inocente Bobby se apaixone por Vonnie (Kristen Stewart), sem saber que a bela jovem é amante de Phil.

01

Café Society  é apenas Woody Allen sendo ele mesmo. Todos os “ingredientes” de seus filmes estão ali: um protagonista que é seu próprio ego (aqui potencializado às alturas com a atuação de Eisenberg), um drama cotidiano discutido entre diálogos existencialistas e piadas com judeus, uma trilha sonora regada a jazz, enfim… Café Society  é uma típica produção de Allen, contando inclusive com a mesma identidade visual de suas obras mais recentes – mérito da ótima fotografia do veterano Vittorio Storaro, que trabalha com filtros de luz que favorecem muito o estilo garboso da época.

O elenco estelar agrega muito à narrativa. Steve Carell demonstra carisma na pele do ricaço Phil, enquanto Eisenberg cai como uma luva ao personagem Bobby. É incrível o quanto o ator está um verdadeiro protagonista de Allen. Mais: Jesse é praticamente o próprio Allen. Seja na calça acima do umbigo, nas mãos na cintura ou no falar cômico, o intérprete parece ter assistido a todos os filmes em que Woody atua porque ele é cópia fiel do cineasta. Já Stewart empresta bastante sobriedade à sua Vonnie. É interessante analisar o quão bem Woody desenvolve essa personagem: o que temos em cena é uma mulher que ama dois homens com a mesma intensidade, porém de maneiras distintas (e é óbvio que ela vai optar por aquele que lhe é mais conveniente). Allen, no entanto, não procura trazer nenhum debate moralista a esta trama; ele não discute as escolhas desta figura feminina, apenas suas consequências.

O amor não correspondido mata mais pessoas no ano do que tuberculose.

Assim, Café Society  se destaca. Com seu tom terno e acolhedor, ele nos faz rir em inúmeros momentos, nos emocionar em outros tantos, refletir com algumas de suas frases de efeito, como um bom filme de Woody Allen deve ser. Sua conclusão, todavia, não é muito feliz como uma produção mais “comercial” exigiria. Pelo contrário: seu desfecho é triste, duro, assim como a vida em algumas ocasiões. É um lado mais racional para se encarar nossa existência. Café Society  não é a obra máxima de Allen, mas por ainda estar acima da média, atesta a genialidade de seu diretor.

Zelig (Zelig)

Escrito e dirigido por Woody Allen, Zelig é, sem sombra de dúvidas, um dos trabalhos mais interessantes de sua carreira – infelizmente esnobado pelo público e ofuscado por outras de suas obras mais “famosas” (porém superestimadas, a meu ver). Propositalmente estruturado como um documentário, o filme narra a história de Leonard Zelig (o próprio Woody), um homem comum com uma característica bastante peculiar: ele tem a incrível capacidade de transformar sua aparência, bem como suas maneiras e até seu intelecto, de forma a adaptar-se ao ambiente ao seu redor. Internado em um hospital em Manhattan, seu caso chama a atenção da doutora Eudora Fletcher (Mia Farrow), que acaba se apaixonando pelo paciente.

02

O que faz Zelig ser um filme tão genial é a segurança com a qual Woody brinca com a narrativa. Se o próprio estilo pseudo-documentário já lhe traz possibilidades cômicas, Allen potencializa esta perspectiva com a ironia recorrente em sua filmografia. O cineasta segue firmemente o padrão “documentário” tradicional, inserindo elementos como as filmagens em preto e branco e os depoimentos de pessoas que teriam conhecido o protagonista, por exemplo. Para além disso, as técnicas de manipulação de imagens são bastante convincentes para a época (o longa é do início da década de 80): Zelig é visto em fotos ao lado de personalidades, como Al Capone, Charles Chaplin, F. Scott Fitzgerald e, pasmem, Adolf Hitler.

Mas Zelig não é apenas uma comédia crua e sem propósito. Zelig é também uma fábula atemporal sobre a inútil necessidade do ser humano de aceitação. Para Leonard, se adaptar aos demais ao seu redor era se sentir “aceito”, era estar “seguro” – daí sua transformação. Ser “igual” era para ele um instinto de sobrevivência, uma maneira de estar integrado ao todo. Cá entre nós: pouca coisa mudou deste então. Ainda hoje, é possível encontrar milhões de “Zeligs” sem personalidade, sedentos de atenção, tentando ser apenas mais um na multidão – as redes sociais estão aí para comprovar. Zelig consegue criticar esse comportamento através de uma trama repleta de humor, que ironiza até mesmo o sensacionalismo da imprensa e o culto às celebridades. É Woody Allen em grande forma – mais até do que em seus supostos momentos mais inspirados.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) (Everything You Always Wanted to Know About Sex (But Were Afraid to Ask))

O sexo ainda hoje é um tabu – mas é curioso como muitos nomes, ao longo da história, já tentaram desmitificar esse assunto. Talvez Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) não traga muita profundidade ao tema, até mesmo se levarmos em consideração que se trata de uma obra cômica (não que a comédia não possa ser um excelente veículo de comunicação). Entretanto, é interessante analisar a narrativa de um Woody Allen em início de carreira, trazendo às telas alguns elementos que seriam marca impressa de sua extensa, cultuada e controversa filmografia.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é composto por sete esquetes, baseadas em seções do livro homônimo de David Reuben – e, definitivamente, é a tentativa de Allen de esclarecer supostas dúvidas do público em relação ao sexo (a julgar pelo título óbvio e pela estrutura narrativa). Cada “segmento” é iniciado com um questionamento e Allen utiliza-se de histórias distintas para responder cada um deles.

01

O que mais impressiona é o fato de que estamos diante de um filme do início dos anos 70. O que isso quer dizer? Bem, naquela época esta produção pode ter funcionado até que bem – mas, é claro, talvez hoje já não cause tamanho impacto. No entanto, vale a pena acompanhar a habilidade de Allen em fundir o nonsense dentro do cotidiano para explorar de forma quase surreal o quão ridículo é a visão que o ser humano, ainda hoje, tem acerca do sexo. Assim, algumas sequências são irrepreensíveis, como o núcleo do médico que se apaixona por uma ovelha ou até mesmo o bom velhinho Woody Allen caracterizado como um espermatozoide. Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é Woody Allen parodiando a tudo e a todos: Shakespeare, filmes antigos de terror, cinema italiano, programas de TV – mas principalmente a imbecilidade humana, daquele jeitinho que só ele sabe fazer. Só isso já faz com que o longa tenha seus créditos (e devido destaque) na obra alleniana.

Homem Irracional (Irrational Man)

Em Homem Irracional, novo filme de Woody Allen, o protagonista é Abe Lucas, um intelectual que acaba de se mudar para uma cidade universitária no interior dos EUA para lecionar filosofia em um campus local. Muito prestigiado, sua chegada gera mil comentários e especulações, tanto entre os alunos quanto entre seus colegas de profissão – até mesmo por conta de sua fama com as mulheres. No entanto, a realidade de Abe é um pouco mais cruel: o docente é um retrato do que podemos chamar de “frustração”. Desiludido com a vida, Abe perdeu o interesse por tudo e por todos e está à beira da depressão total. Fisicamente, então, nem se fala: com uns quilos a mais, o outrora galã sedutor não passa de um quarentão que sofre de impotência. Ainda assim, ele desperta a atenção da jovem estudante Jill, que fica fascinada pelo professor.

Inicialmente, Abe recusa as investidas de Jill, alegando querer apenas a amizade entre os dois. Um dia enquanto estão em um restaurante, os dois escutam ao acaso uma conversa aleatória: em processo de divórcio, uma mulher desesperada pode perder a guarda de seu filho, uma vez que o juiz responsável pelo caso é amigo de seu ex-marido. Neste momento, Abe redescobre a vontade de viver e ganha um propósito de vida: acreditando firmemente que as ações são melhores do que o medíocre ato de “pensar”, o professor decide assassinar o magistrado, convicto de que assim fará um bem à comunidade e, consequentemente, tornará o mundo um lugar melhor.

03

Homem Irracional é um filme ligeiramente menos cômico – segundo o próprio artista, Homem Irracional é “sério do começo ao fim”. Allen abandona sua comédia tradicional e embarca numa narrativa até mesmo “mórbida”, acompanhando a preparação de Abe para a execução do crime perfeito. Utilizando-se intensamente da narração dos personagens principais (Abe e Jill), o diretor reproduz os sentimentos, dúvidas e angústias desse casal enquanto as ações de Abe se desdobram. Com isso, Allen se apresenta aqui mais sombrio (e menos engraçado também, claro), abandonando seu velho humor e quase adentrando no suspense (há até quem enxergue traços hitchcockianos no argumento).

Joaquin Phoenix, embora não tenha o perfil mais adequado para um tipo “alleniano”, surpreende de forma positiva. Ele é a decadência em pessoa, tanto na aparência largada (com direito à barriguinha saliente) quanto emocionalmente (sua construção de Abe é bastante convincente). Emma Stone, por sua vez, faz jus ao título de “nova musa de Woody Allen” (posto já ocupado por Diane Keaton e Scarlett Johansson) e, apesar da ingenuidade de sua personagem, transmite paixão no olhar. Phoenix e Stone mantém ótima química e isso é importante para o drama que se desenrola.

01

O que talvez possa atrapalhar a experiência de Homem Irracional é seu ritmo lento, que, por vezes gera certo enfado – a primeira parte do filme, por exemplo, é pura verborragia. Outra situação incômoda é a presença de alguns personagens pouco ou mal explorados, como o namorado pateta de Jill ou a professora alcoólatra que não larga do pé de Abe. O desfecho também é um tanto quanto “nonsense”, além de algumas situações inverossímeis que não podem ser sustentadas. Homem Irracional é um filme bom, não excepcional – mas que vale a pena ser conferido justamente por ser uma produção atípica de um diretor como Allen. Algumas de suas marcas estão ali, como as inúmeras discussões filosóficas (referências e citações pipocam na tela) e existencialistas. Homem Irracional recorre a um suspense relativamente simples para questionar a ética e moralidade do ser humano – e embora possua um tom “ameno” não deixa de ter seu devido valor na filmografia do cineasta.

Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme)

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Além disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na véspera de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu na noite anterior. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, quem é o pai da criança. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro ágil (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

02

Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individualmente tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia).

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos.

Blue Jasmine (Blue Jasmine)

Ofuscado pela estreia meteórica do segundo filme da franquia Jogos Vorazes (fato que é totalmente compreensível, cá entre nós…), Blue Jasmine, o novo longa do cultuado Woody Allen, chega aos cinemas brasileiros. Após uma temporada pela Europa (filmando em locais como Paris, Roma, Barcelona e outras cidades do velho continente), o cineasta retorna ao solo norte-americano – mas não a Nova York que tanto ama e que foi consagrada em sua melhor fase.

O cenário agora é São Francisco e é para lá que a protagonista da história, a bela Jasmine, é obrigada a se mudar após perder toda a sua fortuna (tudo por, em um momento de raiva, denunciar o marido por fraudes no setor de investimentos e ver todos seus bens confiscados pelo governo, afundando-se em dívidas intermináveis). Anteriormente acostumada com uma vida repleta de luxos, agora Jasmine é forçada a procurar abrigo na modesta casa de sua irmã Ginger – irmã esta que sempre foi desprezada por Jasmine justamente por ser pouco favorecida financeiramente (além de seu duvidoso gosto para homens).

01

Blue Jasmine é uma comédia de situações – e, assim sendo, a maior parte dos bons momentos da trama se desenvolvem justamente nos pequenos casos que ocorrem a Jasmine enquanto tenta se adaptar à sua nova realidade. Se antes Jasmine era a esposa de um investidor milionário que a mimava com as maiores regalias, agora Jasmine se vê trabalhando como recepcionista em um consultório dentário e sendo assediada pelo patrão. Se antes Jasmine servia jantares e festas a centenas de pessoas, agora é obrigada a aturar os sobrinhos berrando por toda a casa, enquanto assiste a irmã se relacionando com homens cujo tipo ela detesta.

Estruturando o filme com vários flashbacks (que ajudam a contar toda trajetória de Jasmine até sua decadência financeira – e por que não dizer moral?), Woody constrói uma narrativa não muito linear, que se equilibra com momentos muito bons e outros medianos. Como na maior parte dos filmes do diretor, temos uma trilha sonora deliciosa de se ouvir – Blue Moon ao piano fica irresistível. Quanto ao elenco, não se tem muito a dizer. Alec Baldwin, ligado no modo automático, é o marido picareta de Jasmine. Sally Hawkins, como a irmã medíocre de Jasmine, é tão cativante que chegamos a torcer para que ela realmente encontre um cara legal, como sua irmã sugere (e isso nos decepciona em determinado trecho da história). Mas o destaque é, inegavelmente, de Cate Blanchet. Positiva ou negativamente.

04

Filmada de forma exaustiva por Allen, Cate é a típica musa do cineasta. Jasmine é uma personagem de ambiguidade sem par: ao longo da história, achamos que ela é vítima e também a culpada pelos acontecimentos; achamos a protagonista inteligente e também burra; consciente, mas por vezes confusa; mas em todos os momentos, Jasmine é neurótica (como uma verdadeira protagonista de Woody Allen). Isso exigiu de Cate uma atuação cheia de nuances – suas oscilações de estado emocional se refletem na voz, nos gestos, nas expressões de seu rosto e mesmo na postura da atriz. No entanto, a interpretação um tanto quanto “narcisista” de Cate (é visível que ela pretende roubar a cena, não dando espaço para mais ninguém) sufocam a sua personagem – ou seria o excesso de ostentação de sua imagem por parte de Allen? Blue Jasmine é algo novo na carreira do diretor: é aqui que Allen mais se delicia com sua protagonista. É Cate que ocupa todos os espaços do filme.

Apesar de não ser o seu melhor filme em anos (e nem dar sinal de que Allen voltará a fazer algo grandioso como antigamente), Woody entrega uma obra que ainda faz uma alusão ao relacionamento da elite e o proletariado. Jasmine, excêntrica e mesquinha, é a cara da classe alta que tanto enxergamos no próprio Allen – afinal, note que mesmo sem aparecer na frente das câmeras, é possível enxergar traços de Allen em sua Jasmine. Ao longo de sua carreira, Allen filmou tramas “parecidas” e “pouco inovadoras” (sob certo aspecto) – perceba: sempre os mesmos tipos de personagens, as mesmas características, as mesmas ambições, as mesmas narrativas. Dessa forma, Blue Jasmine se destaca simplesmente por ser um filme de Woody Allen com a cara de Woody Allen.