O Convento (Consecration)

Transformar o sagrado em profano não é um argumento relativamente novo em filmes de terror. A bem da verdade, a religião é um terreno fértil para o gênero, muito embora poucas produções consigam tratar essa temática de forma verdadeiramente provocativa. O Convento é mais um desses exemplares que, embora parta de uma premissa interessante, não vai além de uma obra facilmente esquecível.

A história acompanha a oftalmologista Grace que, após receber a notícia da morte de seu irmão, um padre, viaja para um convento à beira-mar na Escócia. As circunstâncias que envolvem o evento são misteriosas: enquanto a polícia local supõe que o jovem pároco tenha simplesmente se suicidado, a madre superiora acredita que o rapaz estivera possuído por forças demoníacas.


O argumento de O Convento acerta em seu flerte com o fanatismo religioso, já que a narrativa não se debruça sobre a velha disputa entre bem e mal, mas sim em como a Igreja supostamente exerce controle sobre essas forças. É válido ainda mencionar o quanto somos imersos na trama em sua primeira parte: o filme cria uma atmosfera de estranheza, de desconforto, como se, assim como a protagonista, não pertencêssemos àquele lugar. Infelizmente, o roteiro não consegue estruturar de maneira coesa as ideias que propõem, recorrendo a soluções fáceis (como o uso excessivo de flashbacks, extremamente mal inseridos) que praticamente entregam os mistérios de graça ao espectador – muito embora, a história possa parecer sem pé nem cabeça.

O desenvolvimento das personagens também se mostra deficitário, começando pela protagonista Grace (vivida por uma apática Jena Malone). No início, ela procura explicações não apenas para a morte do irmão, mas também respostas sobre si mesma. Todas essas buscas, no entanto, se mostram infrutíferas. A figura da madre superiora (Janet Suzman) é a que melhor se insere dentro daquele ambiente hostil; sua excentricidade gera atenção, mas aos poucos ela é sumariamente abandonada. Já o Padre Romero de Danny Huston surge de forma promissora, mas se esvai até chegar a nível quase zero de relevância.

A impressão que se tem é a de tenha faltado um melhor ‘acabamento’ a O Convento. De fato, sua primeira metade é capaz de despertar, no mínimo, curiosidade. Lamentavelmente, o filme se arrasta nitidamente em sua segunda metade, seja na obviedade do roteiro, nas cenas de violência que não causam qualquer impacto, no desprezo por personagens com grande potencial e, principalmente, em sua incoerência temática. Falta um rumo. Talvez como boa parte de seus personagens, O Convento esteja pra lá de perdido…

Missão de Sobrevivência (Kandahar)

Livremente inspirado em eventos reais (histórias do roteirista Mitchell Lafortune, que esteve em atividade no Afeganistão como oficial da Agência de Inteligência de Defesa), Missão de Sobrevivência acompanha Tom Harris, um agente secreto a serviço da CIA que tem sua identidade revelada, após uma bem-sucedida missão que destruiu instalações nucleares iranianas. Caçados por todos em meio a um território hostil, Harris e seu tradutor precisam atravessar o deserto até um ponto de fuga em Kandahar para poderem retornar aos seus países de origem.

Missão de Sobrevivência é um filme que, em alguns aspectos, é bem executado tecnicamente. É inegável a eficiência de sua fotografia, que percorre a vastidão do deserto em cenas de perseguição empolgantes; ou mesmo nas sequências de combates noturnos, que até parecem emular a ambientação de jogos (como Call of Duty) – inclusive com a visão em primeira pessoa, o que aflige o espectador de maneira positiva. A montagem, por sua vez, poderia ser mais enxuta, economizando alguns minutos de projeção, tornando o longa mais palatável. Já a trilha sonora contribui para o clima de tensão da história, oscilando momentos abafados e outros que crescem à medida que a narrativa se desenrola.

No entanto, muito provavelmente o grande problema de Missão de Sobrevivência seja a estrutura de seu roteiro: talvez justamente por se tratar de um punhado de relatos a princípio não fictícios (o próprio Lafortune declarou em entrevistas que seu Tom Harris tem características de vários tipos que conheceu ao longa das missões que participou) , tudo é tratado de forma muito direta, seca, concisa. Em outras ocasiões isso não seria necessariamente algo prejudicial; mas o filme dirigido por Ric Roman Waugh possui uma infinidade de ‘lados”: temos o Talibã, iranianos, Estado Islâmico, paquistaneses – tudo de forma atabalhoada, o que embaralha os episódios. A sensação é única: todo mundo quer a cabeça do protagonista de Gerard Butler (em atuação discreta, mas funcional), mas ninguém parece ao certo saber o porquê. Sem essas motivações às claras, é difícil sustentar uma produção de quase 2 horas, principalmente quando há poucas cenas de ação, de combate – embora as que existam sejam razoavelmente bem articuladas. No final, Missão de Sobrevivência é nitidamente um filme de ação genérico, que serve como entretenimento, mas não representa nada minimamente relevante para o gênero.

Barbie (Barbie)

Com seus devidos e autênticos méritos, o furacão Barbie é um sucesso de público e crítica. Dirigido por Greta Gerwig (de Lady Bird: A Hora de Voar e Adoráveis Mulheres) – que assina o roteiro com seu velho parceiro Noah Baumbach –, Barbie é definitivamente um dos grandes filmes do ano: divertido, delicado e, acima de tudo, necessário, sem parecer piegas ou panfletário. Em outras palavras: Barbie é um filme na medida certa.

Plena em sua performance (das melhores em sua carreira), Margot Robbie é a Barbie ‘estereotipada’, aquela figura que se perpetuou ao longo de décadas e foi responsável por impor um padrão de beleza praticamente irreal às mulheres. Ela vive no mundo cor-de-rosa da Barbieland, feliz ao lado de outras bonecas (todas são Barbie), cada uma com seu papel bem definido dentro deste universo, em uma rotina que se limita à praia, festas, músicas, coreografias – enfim, um sonho! A perfeição sai dos eixos quando a boneca começa a apresentar defeitos (como os pés chatos, celulites, pensamentos de morte, etc.), o que a leva a uma aventura no mundo ‘real’.

A Barbieland de Greta Gerwig é artificialmente autêntica, como a própria cineasta sugeriu: é propositalmente falsa, exagerada até, com seus cenários em versões milimetricamente aumentadas dos brinquedos infantis da personagem – mesmo o mundo ‘real’ não foge desta abordagem: tudo é ajustado, coeso. O uso da paleta de cores também é excepcional, com o rosa predominante, mas muito bem dosado, sem causar estranhamento ou cansar a vista. O figurino reproduz as peças das mais variadas versões dos bonecos, bem como o design de produção, que recria os itens originalmente construídos pela Mattel.

O elenco, por sua vez, é competente de forma uniforme. Margot, como dito, dispensa comentários: foi a escolha mais acertada para a personagem. America Ferrera é a figura humana mais ‘humana’ da trama, com questões emocionais bem desfiadas – especialmente em sua relação com a filha adolescente, vivida por Ariana Greenblatt. Os tipos masculinos são interessantíssimos em seus arcos: Will Ferrell, como o executivo burocrático; e Simu Liu, o Ken que arranca risos com sua rivalidade com o Ken de Ryan Gosling – este, sim, a mais grata surpresa. Gosling é o maior destaque: seu Ken é de uma comicidade impecável (e, convenhamos, a cara debochada do intérprete ajuda muito). A narração de Helen Mirren também é genial: suas interferências na história rendem piadas ótimas.


Mas provavelmente é a irreverência o ponto alto de Barbie: é um filme que não leva nada a sério – nem a si mesmo. É um filme que subverte sua fórmula, satirizando a tudo e a todos. Há evidentes críticas sociais, como à intolerância ao diferente, à militância histriônica, à burocracia das instituições – mas as principais delas se concentram nos padrões de beleza que persistem ao longo dos anos e, mais fortemente, no patriarcado. No mundo invertido, homens são sumariamente tratados como as mulheres em nossa realidade; infelizmente, nossa contemporaneidade ainda é machista, misógina e cruel com o feminino, seja por ameaça ou insegurança dos homens. Felizmente, o tom satírico de um roteiro muito bem escrito torna tudo mais leve, divertido, atraente – o que proporciona uma reflexão muito mais rica justamente por não possuir um aspecto didático ou tão progressista.

Mainstream (Mainstream)

A expansão da internet e a popularização das redes sociais nos últimos anos deram voz a muitos indivíduos que, por diversas razões, jamais seriam ouvidos. Um deles é Link (Andrew Garfield), um jovem carismático que é flagrado por Frankie (Maya Hawke) durante uma intervenção artística. Supostamente criticando a sociedade do consumo, o vídeo do rapaz viraliza em diversas plataformas, elevando-o ao status de grande influenciador da noite para o dia (sob o codinome No One Special – ‘ninguém especial’). Conforme sua popularidade aumenta (e o dinheiro cai na conta), o lado mais obscuro do misterioso Link aos poucos vem à tona, o que faz com que as pessoas ao seu redor questionem a sua real personalidade.

Injustamente devorado pelas críticas, o filme da estreante Gia Coppola (neta do cineasta responsável pela trilogia O Poderoso Chefão) é uma caricatura propositalmente escrachada de nossa geração influenciável; é uma sátira ao engajamento virtual, capaz de alienar as massas vestindo uma falsa roupagem de entretenimento. Mais do que isso: esse engajamento (cujo único propósito é lucro) é capaz de manipular seus espectadores, confinando-os a uma bolha altamente tóxica.


Há quem possa se incomodar com o exagero de Mainstream­­ – e isso é, sob certo aspecto, um ótimo sinal: o sentimento de vergonha alheia ao assistir o longa se dá justamente quando concluímos que, inevitavelmente, esse é o mundo real em que vivemos na atualidade. Interpretado de forma brilhante por um Andrew Garfield ligado nos 220v, Link é o retrato dos inúmeros influencers que surgem diariamente: contraditórios, arrogantes, incoerentes, esses tipos se vendem como algo contra o sistema, mas não passam de marionetes dele. O ato final de Mainstream é primoroso: prestes a ser cancelado, Link pede desculpas, se diz arrependido e chega até a culpar o próprio público pelas baboseiras que fala (e faz). E pasmem: ele é perdoado. Sua redenção é inevitável.

Há ainda quem acuse Gia Coppola pela superficialidade com que trata o tema ou mesmo pela forma como manipula o espectador em inúmeros momentos do filme – o que me parece muito mais uma tentativa da cineasta de emular este universo do que necessariamente sua inexperiência na função. É nítido que Mainstream poderia ter sido melhor, especialmente em uma abordagem mais profunda de seu tópico principal. Fato é que, mesmo com suas deficiências, Mainstream é desconfortável – menos por seu cinema e muito mais por nos fazer enxergar a estupidez que nos cerca diariamente nos meios digitais.

O Crime é Meu (Mon Crime)

O assassinato de um famoso produtor artístico desafia a polícia parisiense na década de 1930. A principal suspeita é Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz), uma jovem aspirante a atriz, em busca do sucesso nos palcos da capital francesa. Todas as evidências sugerem que Madeleine é, de fato, a culpada: dividindo um minúsculo apartamento com sua melhor amiga, sua situação financeira vai de mal a pior; ela também fora a última pessoa a ver o tal produtor vivo; para completar, uma arma é encontrada em sua mobília. Mas o inspetor Rabusset (Fabrice Luchini) não precisa se esforçar muito: poucos dias depois, a própria Madeleine surge em seu escritório declarando-se culpada. Mas estaria ela falando a verdade ou tudo não passa de uma armação para alavancar sua carreira?


Baseado em um espetáculo teatral dos anos 30, O Crime é Meu é o novo filme do realizador francês François Ozon, que retorna à comédia após uma série de dramas e romances “substanciais” (sua última incursão no gênero cômico foi em Potiche – Esposa Troféu, de 2010). Com inspirações no cinema clássico (a chamada ‘era de ouro’), O Crime é Meu recria um dos períodos mais importantes da história do cinema: a transição entre o mudo e o falado. Para tanto, o longa recorre a uma direção de arte primorosa, sets e figurinos repletos de detalhes e uma fotografia que preza pela luz, em planos que captam toda a efervescência daquele momento.

A história sofre uma baita reviravolta em sua segunda metade, com a inserção de uma nova personagem: Odette Chaumette (Isabelle Huppert, em uma performance magnânima), uma atriz que fizera sucesso no cinema mudo e que, tentando voltar aos holofotes, surge reivindicando a autoria do crime. A partir daí, O Crime é Meu ganha contornos ainda mais interessantes, com uma galeria de tipos femininos fortes, corajosos e empoderados em uma época em que as mulheres sequer eram ouvidas, limitando-se apenas à satisfação das vontades dos homens (curiosamente, os personagens masculinos aqui são majoritariamente canastrões, mas sempre orgulhosos – do inspetor de polícia facilmente manipulado ao jovem capaz de promover seu grande amor à amante para faturar uma grana com um casamento milionário). Com uma mistura de humor ácido e trama criminal, François Ozon entrega um filme com discussões importantes, como a hipocrisia das instituições e a misoginia que perdura em nossa sociedade patriarcal. Uma pena que, após quase um século do texto original, a trama de O Crime é Meu ainda seja relativamente atual.

Asteroid City (Asteroid City)

A estrutura narrativa do novo filme de Wes Anderson abusa da metalinguagem: em preto e branco, o filme se inicia sob o formato de um documentário de TV (em tela quadrada, narrado por um elegante Bryan Cranston), que vai explorar os bastidores de produção e encenação da peça de teatro Asteroid City, roteirizada por Conrad Earp (Edward Norton) e dirigida por Schubert Green (Adrien Brody). A obra se ambienta na cidade fictícia do título, conhecida por ter sido o local onde ocorreu a queda de um grande meteoro há milhares de anos e que hoje recebe uma competição escolar de jovens gênios da astronomia. Localizada no deserto norte-americano, a pequena cidade tem sua pacata rotina interrompida por um evento sem precedentes, confinando seus habitantes a um período de quarentena.

É indiscutível que, ao longo de sua carreira, Wes Anderson se consagrou como um cineasta único: sua identidade é impressa em cada um de seus longas, em um estilo único que, inevitavelmente, ou você ama ou você odeia. Todos sabemos exatamente o que esperar de um filme de Wes Anderson: fotografias em tons pastéis e coloridos, enquadramentos milimetricamente simétricos, com movimentos precisos de câmera – inclusive travellings (no início da história, Wes faz quase um giro de 360º sob a exuberante locação, captando praticamente todos seus elementos) – e cenários de arrancar o fôlego. E Asteroid City entrega tudo isso, firmando-se como um dos filmes mais charmosos do diretor até aqui.

Muitos críticos, no entanto, alegam (e com certa razão) que seus filmes são relativamente simples em termos de roteiro: é como se a estética se sobressaísse ao conteúdo, o que, em muitos momentos, pode ser perigoso pois corre-se o risco de a história se tornar uma mera caricatura. Em sua ambição metalinguística, Asteroid City é interessantíssimo – inclusive, podemos enxergar a obra como um retrato da própria relação de Wes Anderson com seus atores (geralmente, figurinhas carimbadas em suas produções, como Jason Schwartzmann, Tilda Swinton e Adrien Brody), ou mesmo uma homenagem aos filmes de ficção B de outrora (em uma paródia mais estilizada, mas que me remeteu a Mars Attacks!, de Tim Burton); mas o enredo sem um propósito (aparentemente) definido torna o longa cansativo, pouco atraente. A coleção de personagens também é um ponto a ser visto com atenção: além da ausência de um protagonista, a quantidade é absurda. Não que seja um problema, uma vez que isso é comum no universo ‘andersiano’ (uma galeria de tipos excêntricos e inexpressivos), mas aqui a maior parte deles sofre de um vazio incômodo, com conflitos que não agregam absolutamente nada à trama, exceto por raríssimas exceções. No final, o que vemos é um elenco de primeira grandeza (Tom Hanks, Steve Carell, Willem Dafoe, Matt Dillon) fantasiado em meio a casas de boneca. Em suma, Asteroid City soa mais como um filme sobre… como fazer um filme de Wes Anderson. É um puro exercício de estilo que, como dito anteriormente, só produz 2 reações: quem gosta da obra de Anderson vai saudá-lo como uma de suas melhores realizações nos últimos anos; e quem não gosta vai acha-lo afetado, sem sentimentos, sem brilho.

Criaturas do Senhor (God’s Creatures)

Quando Brian (Paul Mescal) retorna ao pequeno vilarejo irlandês à beira-mar onde vive sua família (após passar uma longa temporada na Austrália), um mal-estar é causado. Além de chegar em meio ao enterro de um morador local, percebemos de início que algo não está totalmente resolvido entre aqueles familiares. A única a reagir com certo entusiasmo é Aileen (Emily Watson), sua mãe – enquanto os demais demonstram total desconforto com o rapaz. A própria relação com o pai, por exemplo, é nitidamente problemática.

Criaturas do Senhor, dirigida pela dupla Anna Rose Holmer e Saela Davis, é um drama psicológico cujo enredo trata sobre nossas escolhas e seus impactos a nossa volta, nos fazendo questionar nosso próprio senso de certo ou errado. O filme (que caminha a passos lentos em sua primeira parte, quase insuportáveis) sofre uma reviravolta quando Brian é acusado de um crime – e a mãe, para acobertar o filho, cria um falso álibi. Entretanto, essa mentira causa uma ruptura naquela família – e um estrago ainda maior naquela comunidade.

O filme possui uma atmosfera bucólica, ressaltada tanto por sua fotografia (predominantemente em tons terrosos, com alguns traços mais frios – especialmente azulados) quanto por sua trilha sonora – dissonante, é verdade, mas curiosamente bem adequada à proposta. Abusando de longas notas executadas em cordas, em inúmeros momentos ela complementa o próprio som ambiente, como se quase uma extensão dele.

Infelizmente, Criaturas do Senhor é prejudicado por seu ritmo arrastado: nada relevante acontece até a metade da obra – o que vemos são apenas pequenas cenas individuais que compõe aquele cenário familiar, mas que não ajudam a elucidar qualquer fato (por exemplo, nunca sabemos ao certo quais os motivos levaram Brian a sair da cidade e o porquê do desprezo de sua família). Quando a história começa a se desenrolar, a estrutura narrativa busca algumas soluções fáceis, quase flertando com um suspense, mas sem profundidade para ir além de sua superfície. Aos poucos, Aileen se dá conta de que o filho não demonstra qualquer arrependimento por seus atos. É aí que o roteiro aposta em um desfecho drástico, quase destoando de tudo o que tivemos até então. A cena final é repleta de simbolismo: soa como uma libertação de Aileen de algo muito maior, mas que infelizmente não consegue ser bem desenvolvido ao longo da história.

A Esposa de Tchaikovsky (Zhena Chaikovskogo)

“Ah, não é nada, acontece…”, diz o clérigo quando a chama da vela do noivo se apaga durante o casamento. “Esse jantar pareceu um enterro…”, revela a irmã da noiva pouco após a cerimônia. “Fuja dele”, adverte um amigo ao saber da união. Tudo indicava que o matrimônio de Antonina e Pyotr Tchaikovsky, compositor russo mais prestigiado de todos os tempos, estava fadado ao fracasso desde o início. Mas nada fora tão claro quanto as próprias palavras do gênio da música ao receber a proposta: o amor entre eles seria apenas fraterno.

O título “A Esposa de Tchaikovsky” não é à toa: o filme de Kirill Serebrennikov concentra sua narrativa no tumultuado relacionamento do casal, limitando sua protagonista feminina, porém, ao status único de esposa do compositor. Pouco sabemos sobre sua vida pregressa, sua família, sua formação, sua história; como espectadores, só temos acesso a essa personagem a partir do momento em que esta conhece o artista e se apaixona por ele (de forma quase irracional). Isto se evidencia na câmera do cineasta, cujo foco primordial é a atriz Alyona Mikhailova (excepcional em sua performance): ela domina o frame, o que inevitavelmente faz com que vejamos a história a partir de seu ponto de vista. Tchaikovsky, por sua vez, quase sempre está fora do quadro, de costas ou em algum canto mais taciturno. É como se o diretor optasse por deixar sua genialidade de lado, inclusive dispensando qualquer obra completa do musicista em sua trilha (o que pode frustrar os fãs da música clássica que entrarem no cinema pensando tratar-se de uma cinebiografia do artista).

Ambientado na Rússia no último quarto do século XIX, “A Esposa de Tchaikovsky” possui uma belíssima fotografia predominantemente em tons escuros, recorrendo ao jogo de luzes e sombras mais difusas – e que representam o estado de espírito da protagonista. Além disso, há alguns planos mais longos, que captam das expressões mais pungentes de seus personagens aos cenários irretocáveis da película. Aliás, a cenografia reconstitui bem o período, com a recriação de espaços lúgubres e ruas infestadas de pedintes e doentes, todos abandonados à sua própria sorte. A trilha sonora, por sua vez, desempenha um papel importante com a constante tensão de cordas e pianos, acentuando a conturbada relação entre aqueles personagens. Essas características técnicas são, a meu ver, as mais relevantes na composição da história como um todo, já que são essenciais para a representação de uma Rússia mergulhada no obscurantismo e que reflete, sob certo aspecto, a conduta daqueles indivíduos.

O filme não se debruça exclusivamente sobre os fatos em si; pelo contrário, o roteiro trilha seu caminho com total liberdade poética, inclusive recorre a inúmeras metáforas para expressar as obsessões e delírios daquela mulher. Não há muitas explicações; apenas acompanhamos aqueles personagens rumo à decadência – o que corrobora ainda mais a ideia de que eles são produtos de seu meio, a sociedade mencionada anteriormente. O que não é muito difícil de se compreender: se em pleno século XXI, a Rússia ainda nos parece uma nação parada no tempo em seus aspectos sociológicos, imagine o caos social deste país naquele período tomado pela insatisfação e a melancolia.

Gutland (Gutland)

O alemão Jens Fauser é um misterioso forasteiro que acaba de chegar a uma pequena aldeia em Luxemburgo, onde tenta recomeçar sua vida (e se esconder das autoridades) após participar de um assalto. Embora haja uma resistência inicial dos moradores, Jens consegue um emprego na colheita local, onde conhece Lucy, a filha do prefeito da cidade. À medida que aprofunda sua relação com a garota e se integra à comunidade, Jens descobre que não é o único com um passado tenebroso a esconder.

Dirigido por Govinda Van Maele e representante oficial de Luxemburgo ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Gutland  é uma obra de suspense cujo suspense não chega necessariamente a ser seu maior trunfo. Na verdade, o roteiro do cineasta, em parceria com Razvan Radulescu, busca evocar um clima de mistério mas, apesar da boa tentativa (favorecida pela fotografia campestre, bucólica, idílica, que capta os costumes daquela região tanto nos planos gerais externos quanto nas tomadas internas) não consegue, de fato, chegar a um resultado conclusivo. Tudo é muito vago – e não sabemos dizer se é devido à falta de desenvolvimento do argumento ou simples intenção do diretor em apresentar uma proposta que estimulasse mais o espectador (o que só funciona até certo ponto da história). Apesar da competência do protagonista de Frederick Lau, do carisma de Vicky Krieps (de Trama Fantasma  e O Jovem Karl Marx) e do aspecto noir  da fita, Gutland  é um filme do qual se espera muito, mas entrega-se pouco, não obtendo tanta relevância dentro da produção luxemburguesa atual.

Malila: A Flor do Adeus (Malila: The Farewell Flower)

Drama tailandês pré-selecionado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Malila: A Flor do Adeus  narra o reencontro de dois ex-amantes unidos, até certo ponto, pela dor do luto: enquanto Pitch (que sofre de câncer terminal) perdera a mãe, Shane lamenta a morte da filha e o casamento fracassado.

Dirigido pela cineasta transexual Anucha Boonyawatana, Malila  é um filme repleto de simbologia, especialmente por tratar questões ligadas a tradições orientais (os próprios Baisri, arranjos florais feitos por Pitch em seus últimos dias, possuem um grande significado para aquela cultura) – o que, fatalmente, pode dispersar o espectador menos acostumado. Além disso, a fita sofre com seu ritmo arrastado e ausência de diálogos, especialmente a partir de sua segunda metade, quando um dos personagens parte em uma jornada espiritual, como se em busca de absolvição. A estrutura narrativa também se mostra confusa: não temos muita noção de tempo, lugar, duração, principalmente durante as cenas entre os dois amantes, já que eles perambulam pra lá e pra cá, em meio à paisagem campestre, como se para promover um estágio de contemplação que, na verdade, não é tão estimulante. Para piorar, a fotografia apagada contribui muito ao clima monótono da obra.

No entanto, é válido ressaltar que, apesar do roteiro aparentemente desalinhado, Malila  é uma história sobre o amor eterno, daqueles que nem a morte é capaz de separar: o relacionamento entre Pitch e Shane transcende o corpo material, atingindo o espírito (que é perene). O filme sugere que dois espíritos, quando se amam verdadeiramente, de alguma forma estarão sempre unidos – tanto na vida quanto na morte. É uma pena, portanto, que a execução de Malila  não seja das melhores, o que impede que a experiência promovida seja mais satisfatória.