Rheingold: O Roubo do Sucesso (Rheingold)

De dentro de uma caverna repleta de morcegos, enquanto se protegia de um ataque armado em uma vila do norte do Irã, a mãe de Giwar Hajabi jamais imaginou o que o futuro reservaria a seu primogênito. Filho de pais curdos (músicos fugindo do decreto religioso do aiatolá Khomeini – líder supremo da Revolução Islâmica do Irã, ao final da década de 80), anos depois Giwar ficaria conhecido como Xatar – um dos rappers alemães mais famosos de todos os tempos. Sua trajetória – de jovem imigrante curdo-iraniano na Alemanha à estrela do ­hip-hop – é narrada em Rheingold: O Roubo do Sucesso, novo longa-metragem dirigido por Fatih Akin.

Inspirado na autobiografia Alles Oder Nix: Bei Uns Sagt Man, Die Welt Gehört Dir, de 2015, Rheingold acompanha a vida agitada de Giwar: sua infância tumultuada em meio aos conflitos do Oriente Médio; sua adolescência, marcada pela separação dos pais e pequenos delitos; e sua incursão definitiva no mundo do crime, traficando drogas ou participando de outros esquemas ilícitos pela Europa. Tempos mais tarde, de dentro da prisão onde cumpre pena por seu envolvimento em um dos maiores roubos de ouro da história, Giwar ascende na cena do rap alemão ao gravar (clandestinamente) seu primeiro álbum de sucesso – tornando-se, assim, Xatar.


Alemão de origem turca, Fatih Akin aparenta desde o início ser o nome ideal para este projeto. Personagens problemáticos e com caráter dúbio parecem fazer parte de sua filmografia, incluindo aqui os mais recentes (e excelentes) Em Pedaços e O Bar Luva Dourada. Diferentemente do que acontece neste último (onde a violência gráfica catapultava na tela sem qualquer pudor), Rheingold é mais tímido no uso da brutalidade em cena – muito embora o roteiro seja competente ao pontuar a presença da violência na vida de seu protagonista desde criança. Giwar vive em um círculo vicioso: não importa o que ele faça ou pra onde ele vá; todos os caminhos o levam para o mesmo lugar: a criminalidade. Emilio Sakraya, em performance exuberante, transforma-se na tela, crescendo à medida que seu personagem percorre a espiral do crime.

É nítida, porém, a inconsistência na transposição das linhas temporais da história, como se fôssemos apresentados a filmes distintos. Fatih demonstra domínio fílmico quando o enredo se concentra nos episódios de Giwar e família enquanto refugiados de guerra, da saída de sua terra natal até seus primeiros passos na criminalidade. Alguns clichês são observados, entretanto, quando o cineasta abandona essa fenda e passa a tratar os feitos delinquentes do protagonista. Não que esse ponto atrapalhe o conjunto da obra, mas é perceptível que algumas situações ali carecem de acabamento (o próprio Giwar age de forma quase amadora em alguns momentos, custando nos fazer crer em seu potencial transgressor). Curiosamente, giwar significa “nascido no sofrimento”. Coincidência ou não, Rheingold é mais eficiente ao tratar o lado “humano” de Xatar do que necessariamente seu aspecto marginal e cínico.

Blue Jean (Blue Jean)

Pode-se conjecturar duas possíveis interpretações para o título Blue Jean. A mais óbvia: em inglês, ‘blue’ representa a cor azul – predominante, inclusive, na paleta de cores do filme da estreante Georgia Oakley. Mas a palavra também pode exprimir um sentido mais profundo: triste, melancólico, deprimido – assim como pode ser a vida daqueles que precisam, de alguma forma, se esconder ou negar o que se é. É o caso da Jean, uma mulher lésbica em plena Inglaterra ao final da década de 80 (quando a conservadora Margaret Thatcher assumiu uma verdadeira batalha contra os homossexuais através da chamada Section 28): sem o apoio da família, escondendo sua condição no colégio em que dá aulas de educação física, sua sexualidade se limita a sua residência e, no máximo, ao bar que frequenta com a namorada e algumas poucas amigas.


Esse cenário conservador à sua volta sufoca a protagonista de Blue Jean. Se viver no armário não é fácil, não se aceitar é ainda mais difícil. Neste aspecto, o longa inicialmente nos dá a impressão de ser mais um drama gay fadado ao final sofrido de suas personagens. Seja pelas escolhas do roteiro; os enquadramentos que expressam a sensação de claustrofobia de Jean; a fotografia que ajuda a traduzir em imagens as emoções da professora; o filtro de câmera quase granulado; ou o excelente design de produção que reproduz em detalhes o ambiente opressor em que a trama se desenrola: tudo parece convergir para uma abordagem mais soturna, marcada pela melancolia, desesperança e desgosto.

A sutil reviravolta (ainda que demore) surge a partir da segunda metade do filme, quando floresce uma relação entre Jean e sua aluna abertamente lésbica. Embora o relacionamento entre elas pudesse ter sido melhor explorado, é nítido que ele agrega uma nova perspectiva à história, mas dessa vez muito mais otimista. Se de início Jean se recusava a afirmar sua real identidade (quase como uma homofobia ‘internalizada’), aos poucos o constante estado de tensão e medo vai se dissipando à medida que Jean toma consciência daquilo que é. Com isso, além de fugir do estereótipo ‘sofredor’ dos dramas gays convencionais, Blue Jean consegue se firmar como o estudo de um personagem rico em sua complexidade e palpável em suas intenções, um tipo real, muito favorecido pela performance de Rosy McEwen, que carrega no azul do olhar toda a humanidade de Jean. Felizmente, Blue Jean foge do óbvio – e nos mostra que, mesmo que o caminho seja árduo, é possível encontrar a felicidade sendo quem você é.

Loucas em Apuros (Joy Ride)

É muito improvável assistir a Loucas em Apuros sem compará-lo a títulos cômicos como Missão Madrinha de Casamento, Viagem das Garotas ou ainda Se Beber Não Case!. Mais: Loucas em Apuros, em certos aspectos, soa até mesmo como uma ‘resposta’ ao filme de Todd Phillips – obviamente não de forma proposital, é claro. No longa estreia de Adele Lim (roteirista de Podres de Ricos e do subestimado Raya e o Último Dragão), somos apresentados a um grupo de quatro amigas improváveis, reunidas naquela que inicialmente seria uma viagem de negócios à Ásia – mas que acaba se tornando uma sucessão de episódios inimagináveis regados a álcool, drogas e sexo.

É interessante como, mesmo em 2023, achemos ‘graça’ em ver mulheres fazendo piadas escrotas e inadequadas, agindo inconsequentemente, satisfazendo seus desejos mais tórridos – exatamente como… homens (assim como ocorre com os protagonistas de Se Beber Não Case!). Felizmente, Loucas em Apuros não busca o riso do público através de uma abordagem panfletária; pelo contrário, o texto abusa do politicamente incorreto, em situações escrachadas que beiram o absurdo. O roteiro, por sua vez, sai do eixo em alguns momentos, onde algumas cenas parecem nitidamente estar fora de ‘lugar’ – principalmente ao abraçar o drama de uma das personagens em busca de sua mãe biológica. A partir daí, há uma quebra incômoda no ritmo da narrativa, o que dá a impressão de que o filme se estende demais.


Felizmente, Loucas em Apuros compensa esses deslizes com a excelente química de seu elenco principal – atrizes competentes que dão vida a essas amigas que, embora muito diferentes entre si, possuem um mesmo sentimento: o de não pertencer a lugar algum. Cada uma, a seu modo, demonstra não se encaixar muito bem dentro de seus papéis, como se algo estivesse faltando. Essa sensação, por exemplo, é experimentada pela protagonista Audrey, uma garota asiática adotada ainda bebê por uma família branca e que vive nos EUA desde então. Sua melhor amiga, Lolo, passa por situação análoga, já que é filha de imigrantes e está naquela fase da vida em que parece não ter conquistado nada de muita relevância.

O resultado de tudo isso é uma comédia genuína que, apesar não manter um equilíbrio em sua linha narrativa, consegue cumprir sua missão: divertir. É um filme descaradamente exagerado – e que não tem vergonha de o ser. Ganha pontos ainda ao trazer alguns elementos da cultura asiática – aliás, algumas das melhores piadas surgem a partir deste contexto, mas não de forma explicitamente xenófoba (como acontecia com um dos tipos mais memoráveis de Se Beber Não Case!). Com erros e acertos, Loucas em Apuros mostra que é possível estreitar os laços de amizade mesmo diante das adversidades da vida.

Guerra Entre Herdeiros (The Estate)

Os negócios não vão lá muito bem para as irmãs Macey e Savanna: proprietárias de um estabelecimento às moscas, elas estão à beira da falência. Complicando ainda mais a situação, o banco acabara de negar um novo empréstimo às “empresárias”. Mas a dupla vislumbra uma luz no fim do túnel ao descobrir que sua tia Hilda está doente, praticamente com o pé na cova. Na esperança de se tornarem as beneficiárias de sua pomposa herança, elas decidem encarar a difícil tarefa de agradar a parente rabugenta. O que elas não imaginavam é que seus primos teriam a mesma ideia – e agora todos eles querem abocanhar uma parte dessa grana.


Dirigido por Dean Craig (jovem diretor e roteirista londrino, sem títulos relevantes a serem mencionados), Guerra Entre Herdeiros é uma comédia bastante competente em sua missão: um entretenimento sem culpa. Sem pretensões de ser um clássico exemplar do gênero, o filme assegura boas risadas através de um texto ágil e politicamente incorreto, que não busca reinventar a roda, mas sabe utilizá-la de maneira eficiente, na medida certa. A trama, que não é necessariamente original (familiares tentando por as mãos em uma herança), consegue aproveitar o melhor de seu elenco, com tipos provavelmente já vistos anteriormente, mas que funcionam em conjunto. Cada uma das irmãs, por exemplo, possui personalidades distintas: enquanto a mais jovem Savanna é a que age inconsequentemente e sem qualquer pudor, Macey é a mais contida, sobrevivente de dois divórcios e uma trajetória sem muito sucesso (o cansaço é visível em seu rosto). A insuportável tia Hilda, por sua vez, só tem olhos para os sobrinhos Beatrice e Richard – ela, uma esnobe de valores questionáveis; ele, um “sem noção” que não perde uma única oportunidade de se declarar para a prima. Em comum, esses primos só têm uma coisa: a coragem dos maiores absurdos para conquistar essa “mamata”, o que certamente garante momentos hilários ao longo da história.

Com um elenco em sintonia (importante citar as ótimas performances das protagonistas Toni Collette e Anna Faris), um roteiro com humor e que insere humanidade em cada um de seus personagens, além de uma trilha sonora seleta – Guerra Entre Herdeiros mostra que, afinal de contas, não existe família perfeita: todos temos nossas rusgas, desavenças e mágoas e, em algumas circunstâncias, elas não serão saradas. E está tudo bem. Guerra Entre Herdeiros é um belo caso de filme que não promete nada, mas entrega tudo. Ok, “tudo” é um exagero – mas para quem estiver afim de passar o tempo de forma descompromissada, Guerra Entre Herdeiros é uma boa pedida. Direto naquilo que objetiva, é uma comédia simples, sem enrolação – e, principalmente, sem medo de ser o que é.

O Convento (Consecration)

Transformar o sagrado em profano não é um argumento relativamente novo em filmes de terror. A bem da verdade, a religião é um terreno fértil para o gênero, muito embora poucas produções consigam tratar essa temática de forma verdadeiramente provocativa. O Convento é mais um desses exemplares que, embora parta de uma premissa interessante, não vai além de uma obra facilmente esquecível.

A história acompanha a oftalmologista Grace que, após receber a notícia da morte de seu irmão, um padre, viaja para um convento à beira-mar na Escócia. As circunstâncias que envolvem o evento são misteriosas: enquanto a polícia local supõe que o jovem pároco tenha simplesmente se suicidado, a madre superiora acredita que o rapaz estivera possuído por forças demoníacas.


O argumento de O Convento acerta em seu flerte com o fanatismo religioso, já que a narrativa não se debruça sobre a velha disputa entre bem e mal, mas sim em como a Igreja supostamente exerce controle sobre essas forças. É válido ainda mencionar o quanto somos imersos na trama em sua primeira parte: o filme cria uma atmosfera de estranheza, de desconforto, como se, assim como a protagonista, não pertencêssemos àquele lugar. Infelizmente, o roteiro não consegue estruturar de maneira coesa as ideias que propõem, recorrendo a soluções fáceis (como o uso excessivo de flashbacks, extremamente mal inseridos) que praticamente entregam os mistérios de graça ao espectador – muito embora, a história possa parecer sem pé nem cabeça.

O desenvolvimento das personagens também se mostra deficitário, começando pela protagonista Grace (vivida por uma apática Jena Malone). No início, ela procura explicações não apenas para a morte do irmão, mas também respostas sobre si mesma. Todas essas buscas, no entanto, se mostram infrutíferas. A figura da madre superiora (Janet Suzman) é a que melhor se insere dentro daquele ambiente hostil; sua excentricidade gera atenção, mas aos poucos ela é sumariamente abandonada. Já o Padre Romero de Danny Huston surge de forma promissora, mas se esvai até chegar a nível quase zero de relevância.

A impressão que se tem é a de tenha faltado um melhor ‘acabamento’ a O Convento. De fato, sua primeira metade é capaz de despertar, no mínimo, curiosidade. Lamentavelmente, o filme se arrasta nitidamente em sua segunda metade, seja na obviedade do roteiro, nas cenas de violência que não causam qualquer impacto, no desprezo por personagens com grande potencial e, principalmente, em sua incoerência temática. Falta um rumo. Talvez como boa parte de seus personagens, O Convento esteja pra lá de perdido…

Barbie (Barbie)

Com seus devidos e autênticos méritos, o furacão Barbie é um sucesso de público e crítica. Dirigido por Greta Gerwig (de Lady Bird: A Hora de Voar e Adoráveis Mulheres) – que assina o roteiro com seu velho parceiro Noah Baumbach –, Barbie é definitivamente um dos grandes filmes do ano: divertido, delicado e, acima de tudo, necessário, sem parecer piegas ou panfletário. Em outras palavras: Barbie é um filme na medida certa.

Plena em sua performance (das melhores em sua carreira), Margot Robbie é a Barbie ‘estereotipada’, aquela figura que se perpetuou ao longo de décadas e foi responsável por impor um padrão de beleza praticamente irreal às mulheres. Ela vive no mundo cor-de-rosa da Barbieland, feliz ao lado de outras bonecas (todas são Barbie), cada uma com seu papel bem definido dentro deste universo, em uma rotina que se limita à praia, festas, músicas, coreografias – enfim, um sonho! A perfeição sai dos eixos quando a boneca começa a apresentar defeitos (como os pés chatos, celulites, pensamentos de morte, etc.), o que a leva a uma aventura no mundo ‘real’.

A Barbieland de Greta Gerwig é artificialmente autêntica, como a própria cineasta sugeriu: é propositalmente falsa, exagerada até, com seus cenários em versões milimetricamente aumentadas dos brinquedos infantis da personagem – mesmo o mundo ‘real’ não foge desta abordagem: tudo é ajustado, coeso. O uso da paleta de cores também é excepcional, com o rosa predominante, mas muito bem dosado, sem causar estranhamento ou cansar a vista. O figurino reproduz as peças das mais variadas versões dos bonecos, bem como o design de produção, que recria os itens originalmente construídos pela Mattel.

O elenco, por sua vez, é competente de forma uniforme. Margot, como dito, dispensa comentários: foi a escolha mais acertada para a personagem. America Ferrera é a figura humana mais ‘humana’ da trama, com questões emocionais bem desfiadas – especialmente em sua relação com a filha adolescente, vivida por Ariana Greenblatt. Os tipos masculinos são interessantíssimos em seus arcos: Will Ferrell, como o executivo burocrático; e Simu Liu, o Ken que arranca risos com sua rivalidade com o Ken de Ryan Gosling – este, sim, a mais grata surpresa. Gosling é o maior destaque: seu Ken é de uma comicidade impecável (e, convenhamos, a cara debochada do intérprete ajuda muito). A narração de Helen Mirren também é genial: suas interferências na história rendem piadas ótimas.


Mas provavelmente é a irreverência o ponto alto de Barbie: é um filme que não leva nada a sério – nem a si mesmo. É um filme que subverte sua fórmula, satirizando a tudo e a todos. Há evidentes críticas sociais, como à intolerância ao diferente, à militância histriônica, à burocracia das instituições – mas as principais delas se concentram nos padrões de beleza que persistem ao longo dos anos e, mais fortemente, no patriarcado. No mundo invertido, homens são sumariamente tratados como as mulheres em nossa realidade; infelizmente, nossa contemporaneidade ainda é machista, misógina e cruel com o feminino, seja por ameaça ou insegurança dos homens. Felizmente, o tom satírico de um roteiro muito bem escrito torna tudo mais leve, divertido, atraente – o que proporciona uma reflexão muito mais rica justamente por não possuir um aspecto didático ou tão progressista.

Mainstream (Mainstream)

A expansão da internet e a popularização das redes sociais nos últimos anos deram voz a muitos indivíduos que, por diversas razões, jamais seriam ouvidos. Um deles é Link (Andrew Garfield), um jovem carismático que é flagrado por Frankie (Maya Hawke) durante uma intervenção artística. Supostamente criticando a sociedade do consumo, o vídeo do rapaz viraliza em diversas plataformas, elevando-o ao status de grande influenciador da noite para o dia (sob o codinome No One Special – ‘ninguém especial’). Conforme sua popularidade aumenta (e o dinheiro cai na conta), o lado mais obscuro do misterioso Link aos poucos vem à tona, o que faz com que as pessoas ao seu redor questionem a sua real personalidade.

Injustamente devorado pelas críticas, o filme da estreante Gia Coppola (neta do cineasta responsável pela trilogia O Poderoso Chefão) é uma caricatura propositalmente escrachada de nossa geração influenciável; é uma sátira ao engajamento virtual, capaz de alienar as massas vestindo uma falsa roupagem de entretenimento. Mais do que isso: esse engajamento (cujo único propósito é lucro) é capaz de manipular seus espectadores, confinando-os a uma bolha altamente tóxica.


Há quem possa se incomodar com o exagero de Mainstream­­ – e isso é, sob certo aspecto, um ótimo sinal: o sentimento de vergonha alheia ao assistir o longa se dá justamente quando concluímos que, inevitavelmente, esse é o mundo real em que vivemos na atualidade. Interpretado de forma brilhante por um Andrew Garfield ligado nos 220v, Link é o retrato dos inúmeros influencers que surgem diariamente: contraditórios, arrogantes, incoerentes, esses tipos se vendem como algo contra o sistema, mas não passam de marionetes dele. O ato final de Mainstream é primoroso: prestes a ser cancelado, Link pede desculpas, se diz arrependido e chega até a culpar o próprio público pelas baboseiras que fala (e faz). E pasmem: ele é perdoado. Sua redenção é inevitável.

Há ainda quem acuse Gia Coppola pela superficialidade com que trata o tema ou mesmo pela forma como manipula o espectador em inúmeros momentos do filme – o que me parece muito mais uma tentativa da cineasta de emular este universo do que necessariamente sua inexperiência na função. É nítido que Mainstream poderia ter sido melhor, especialmente em uma abordagem mais profunda de seu tópico principal. Fato é que, mesmo com suas deficiências, Mainstream é desconfortável – menos por seu cinema e muito mais por nos fazer enxergar a estupidez que nos cerca diariamente nos meios digitais.

O Crime é Meu (Mon Crime)

O assassinato de um famoso produtor artístico desafia a polícia parisiense na década de 1930. A principal suspeita é Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz), uma jovem aspirante a atriz, em busca do sucesso nos palcos da capital francesa. Todas as evidências sugerem que Madeleine é, de fato, a culpada: dividindo um minúsculo apartamento com sua melhor amiga, sua situação financeira vai de mal a pior; ela também fora a última pessoa a ver o tal produtor vivo; para completar, uma arma é encontrada em sua mobília. Mas o inspetor Rabusset (Fabrice Luchini) não precisa se esforçar muito: poucos dias depois, a própria Madeleine surge em seu escritório declarando-se culpada. Mas estaria ela falando a verdade ou tudo não passa de uma armação para alavancar sua carreira?


Baseado em um espetáculo teatral dos anos 30, O Crime é Meu é o novo filme do realizador francês François Ozon, que retorna à comédia após uma série de dramas e romances “substanciais” (sua última incursão no gênero cômico foi em Potiche – Esposa Troféu, de 2010). Com inspirações no cinema clássico (a chamada ‘era de ouro’), O Crime é Meu recria um dos períodos mais importantes da história do cinema: a transição entre o mudo e o falado. Para tanto, o longa recorre a uma direção de arte primorosa, sets e figurinos repletos de detalhes e uma fotografia que preza pela luz, em planos que captam toda a efervescência daquele momento.

A história sofre uma baita reviravolta em sua segunda metade, com a inserção de uma nova personagem: Odette Chaumette (Isabelle Huppert, em uma performance magnânima), uma atriz que fizera sucesso no cinema mudo e que, tentando voltar aos holofotes, surge reivindicando a autoria do crime. A partir daí, O Crime é Meu ganha contornos ainda mais interessantes, com uma galeria de tipos femininos fortes, corajosos e empoderados em uma época em que as mulheres sequer eram ouvidas, limitando-se apenas à satisfação das vontades dos homens (curiosamente, os personagens masculinos aqui são majoritariamente canastrões, mas sempre orgulhosos – do inspetor de polícia facilmente manipulado ao jovem capaz de promover seu grande amor à amante para faturar uma grana com um casamento milionário). Com uma mistura de humor ácido e trama criminal, François Ozon entrega um filme com discussões importantes, como a hipocrisia das instituições e a misoginia que perdura em nossa sociedade patriarcal. Uma pena que, após quase um século do texto original, a trama de O Crime é Meu ainda seja relativamente atual.

Asteroid City (Asteroid City)

A estrutura narrativa do novo filme de Wes Anderson abusa da metalinguagem: em preto e branco, o filme se inicia sob o formato de um documentário de TV (em tela quadrada, narrado por um elegante Bryan Cranston), que vai explorar os bastidores de produção e encenação da peça de teatro Asteroid City, roteirizada por Conrad Earp (Edward Norton) e dirigida por Schubert Green (Adrien Brody). A obra se ambienta na cidade fictícia do título, conhecida por ter sido o local onde ocorreu a queda de um grande meteoro há milhares de anos e que hoje recebe uma competição escolar de jovens gênios da astronomia. Localizada no deserto norte-americano, a pequena cidade tem sua pacata rotina interrompida por um evento sem precedentes, confinando seus habitantes a um período de quarentena.

É indiscutível que, ao longo de sua carreira, Wes Anderson se consagrou como um cineasta único: sua identidade é impressa em cada um de seus longas, em um estilo único que, inevitavelmente, ou você ama ou você odeia. Todos sabemos exatamente o que esperar de um filme de Wes Anderson: fotografias em tons pastéis e coloridos, enquadramentos milimetricamente simétricos, com movimentos precisos de câmera – inclusive travellings (no início da história, Wes faz quase um giro de 360º sob a exuberante locação, captando praticamente todos seus elementos) – e cenários de arrancar o fôlego. E Asteroid City entrega tudo isso, firmando-se como um dos filmes mais charmosos do diretor até aqui.

Muitos críticos, no entanto, alegam (e com certa razão) que seus filmes são relativamente simples em termos de roteiro: é como se a estética se sobressaísse ao conteúdo, o que, em muitos momentos, pode ser perigoso pois corre-se o risco de a história se tornar uma mera caricatura. Em sua ambição metalinguística, Asteroid City é interessantíssimo – inclusive, podemos enxergar a obra como um retrato da própria relação de Wes Anderson com seus atores (geralmente, figurinhas carimbadas em suas produções, como Jason Schwartzmann, Tilda Swinton e Adrien Brody), ou mesmo uma homenagem aos filmes de ficção B de outrora (em uma paródia mais estilizada, mas que me remeteu a Mars Attacks!, de Tim Burton); mas o enredo sem um propósito (aparentemente) definido torna o longa cansativo, pouco atraente. A coleção de personagens também é um ponto a ser visto com atenção: além da ausência de um protagonista, a quantidade é absurda. Não que seja um problema, uma vez que isso é comum no universo ‘andersiano’ (uma galeria de tipos excêntricos e inexpressivos), mas aqui a maior parte deles sofre de um vazio incômodo, com conflitos que não agregam absolutamente nada à trama, exceto por raríssimas exceções. No final, o que vemos é um elenco de primeira grandeza (Tom Hanks, Steve Carell, Willem Dafoe, Matt Dillon) fantasiado em meio a casas de boneca. Em suma, Asteroid City soa mais como um filme sobre… como fazer um filme de Wes Anderson. É um puro exercício de estilo que, como dito anteriormente, só produz 2 reações: quem gosta da obra de Anderson vai saudá-lo como uma de suas melhores realizações nos últimos anos; e quem não gosta vai acha-lo afetado, sem sentimentos, sem brilho.

Criaturas do Senhor (God’s Creatures)

Quando Brian (Paul Mescal) retorna ao pequeno vilarejo irlandês à beira-mar onde vive sua família (após passar uma longa temporada na Austrália), um mal-estar é causado. Além de chegar em meio ao enterro de um morador local, percebemos de início que algo não está totalmente resolvido entre aqueles familiares. A única a reagir com certo entusiasmo é Aileen (Emily Watson), sua mãe – enquanto os demais demonstram total desconforto com o rapaz. A própria relação com o pai, por exemplo, é nitidamente problemática.

Criaturas do Senhor, dirigida pela dupla Anna Rose Holmer e Saela Davis, é um drama psicológico cujo enredo trata sobre nossas escolhas e seus impactos a nossa volta, nos fazendo questionar nosso próprio senso de certo ou errado. O filme (que caminha a passos lentos em sua primeira parte, quase insuportáveis) sofre uma reviravolta quando Brian é acusado de um crime – e a mãe, para acobertar o filho, cria um falso álibi. Entretanto, essa mentira causa uma ruptura naquela família – e um estrago ainda maior naquela comunidade.

O filme possui uma atmosfera bucólica, ressaltada tanto por sua fotografia (predominantemente em tons terrosos, com alguns traços mais frios – especialmente azulados) quanto por sua trilha sonora – dissonante, é verdade, mas curiosamente bem adequada à proposta. Abusando de longas notas executadas em cordas, em inúmeros momentos ela complementa o próprio som ambiente, como se quase uma extensão dele.

Infelizmente, Criaturas do Senhor é prejudicado por seu ritmo arrastado: nada relevante acontece até a metade da obra – o que vemos são apenas pequenas cenas individuais que compõe aquele cenário familiar, mas que não ajudam a elucidar qualquer fato (por exemplo, nunca sabemos ao certo quais os motivos levaram Brian a sair da cidade e o porquê do desprezo de sua família). Quando a história começa a se desenrolar, a estrutura narrativa busca algumas soluções fáceis, quase flertando com um suspense, mas sem profundidade para ir além de sua superfície. Aos poucos, Aileen se dá conta de que o filho não demonstra qualquer arrependimento por seus atos. É aí que o roteiro aposta em um desfecho drástico, quase destoando de tudo o que tivemos até então. A cena final é repleta de simbolismo: soa como uma libertação de Aileen de algo muito maior, mas que infelizmente não consegue ser bem desenvolvido ao longo da história.