O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding)

01É curioso o fato de que após 1990, com Uma Linda Mulher (seu primeiro grande sucesso e filme pelo qual levou sua primeira indicação ao Oscar), Julia Roberts tenha se dedicado a produções menos significativas. Claro que seus trabalhos durante os sete anos seguintes aproveitavam o nome da então “queridinha hollywoodiana” e até alcançaram certa notoriedade (como Tudo Por Amor, Dormindo com o Inimigo ou O Dossiê Pelicano). Mas foi apenas com O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997) que Julia voltou aos holofotes hollywoodianos, protagonizando uma história que é quase uma unanimidade para os fãs do gênero que a consagrou.

Roberts interpreta Julliane, uma crítica gastronômica independente e com uma extensa lista de relacionamentos mal sucedidos – entre eles, uma paixão ardente com Michael (Dermot Mulroney), com quem esteve junto por cerca de um mês e, por medo ou sei lá o quê, terminou repentinamente, deixando o rapaz inconsolável. Apesar disso, Julliane e Michael continuaram a amizade e cumplicidade – na verdade, enquanto Michael colocava a amiga em um pedestal quase inalcançável, Julliane seguia sua vida normalmente, pulando de um relacionamento fracassado a outro. Até o dia em que Julliane recebe uma ligação inesperada: Michael vai se casar… com outra. É nesse momento que Julliane descobre que ainda ama o rapaz e, mesmo sendo convidada para ser a madrinha do casório, a bela não vai poupar esforços para separar o casal e recuperar seu grande amor.

O Casamento do Meu Melhor Amigo começa com um número musical açucarado e que pode até nos dar uma falsa pista do que está por vir. Afinal, apesar de ser uma comédia romântica, O Casamento de Meu Melhor Amigo flerta muito mais com a “comédia” do que com o romance. Não que não haja boas sequencias para fazer os casais suspirarem, mas o timming do diretor australiano P. J. Hogan para o humor é muito claro. Hogan não se intimida a apostar, inclusive, nos clichês mais prováveis da comédia pastelão (como nos inúmeros tombos que Julliane sofre ao longo da trama ou no excesso de caricatura da personagem de Diaz, por exemplo). As piadas estão bem inseridas no decorrer da história – o que é um ponto favorável do roteiro de Ronald Bass (o mesmo de Lado a Lado, Quando um Homem Ama Uma Mulher e Rain Man), que dosa bem o humor e o romance da narrativa. A inesquecível cena em que o amigo gay de Julliane canta I Say a Little Prayer no restaurante lotado (contagiando a todos no local) é tão deliciosa quanto Mulroney sussurrando The Way You Look Tonight ao pé do ouvido de Roberts – o que deixa claro que apesar do evidente apelo cômico da história, o romance também ganha espaço no filme.

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Com uma atuação excelente, Julia faz o tipo atrapalhado e quase psicótico daquela que sofre uma clara dor de cotovelo. A atriz é um charme e oscila bem as inúmeras transformações de sua personagem, surpreendendo aqueles que costumam desprezar sua atuação. Dermot Mulroney é suficientemente sóbrio no papel do “mocinho” que nunca esqueceu a “mocinha”. Fica-se o destaque no elenco para Cameron Diaz (que até então só havia mostrado suas curvas em O Máskara, três anos antes), divertidíssima como a noiva insegura de Michael e Rupert Everett, que faz George, o amigo homossexual que protagoniza boas cenas na trama (aliás, o mesmo Rupert que é assumidamente homossexual e confessou que perdeu inúmeros papéis no cinema em decorrência disso – uma lástima).

O final de O Casamento do Meu Melhor Amigo nos deixa com uma ponta de tristeza, afinal ele foge completamente do happy ending que esperamos de um filme do gênero. A despedida entre os dois amigos, apenas com uma troca de olhares e um abraço, dá aquele nó na garganta – porque, apesar de recorrer a métodos pouco louváveis, Julliane aparentemente ama o rapaz. Mas amar é também abrir mão de certas coisas para que a outra pessoa possa ser feliz, certo? O Casamento do Meu Melhor Amigo se firma como um dos melhores trabalhos de Julia em anos e também uma comédia romântica memorável. Tecnicamente bem feito, é o tipo de filme que não importa quantas vezes você já assistiu: se você gostou, vai sempre parar para assistir novamente. Até porque já não se fazem mais filmes como este…

Um Lugar Chamado Notting Hill

Houve quem considerasse Um Lugar Chamado Notting Hill uma das melhores comédias românticas em anos. De fato, o filme lançado em 1999 conquistou o público e a crítica – o que é um caso, no mínimo, curioso, uma vez que Um Lugar Chamado Notting Hill é um produto recheado de clichês e não traz nenhuma inovação ao gênero que consagrou seus protagonistas.

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Sim, Um Lugar Chamado Notting Hill é repleto de clichês – começando por sua trama que acompanha o relacionamento amoroso entre duas pessoas de mundos completamente distintos: ele, o pacato dono de uma livraria especializada em publicações sobre viagens que vive no tranquilo bairro londrino de Notting Hill; ela, uma famosa atriz de cinema, envolvida em inúmeros escândalos e que faturou 15 milhões por seu último filme – o mesmo valor que Julia Roberts teria recebido para protagonizar esta produção. Ambos se conhecem no fortuito dia em que Anna casualmente visita o estabelecimento de Will – e a partir daí, entre encontros e desencontros, os dois iniciam um relacionamento terno e que mudaria para sempre a vida dos amantes.

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Mas os clichês não param por aí. Tudo em Um Lugar Chamado Notting Hill nos dá a sensação de dejavú. É inevitável já no encontro do casal no início do longa – afinal, quer coisa mais comum do que o cara que derruba o suco na roupa da menina? Praticamente só perde para o garoto que derruba os livros da mocinha no chão e ocorre a fatídica troca de olhares… Talvez isso se deve ao fato de que o roteiro de Um Lugar Chamado Notting Hill foi escrito por Richard Curtis – famoso roteirista do gênero, com outro grande sucesso no currículo: o elogiado Quatro Casamentos e um Funeral. Na verdade, se analisarmos com certa atenção, há muitas coisas em comum entre os dois argumentos, inclusive alguns personagens – como o grupo de amigos do mocinho ou a mulher com cabelo esquisito. Richard parece até mesmo ter “reciclado” algumas cenas (como a sequencia em que o mocinho recebe uma carona dos amigos no carro cheio de gente ou quando reúne o grupo para pedir conselhos). Até mesmo o personagem de Hugh Grant em Um Lugar Chamado Notting Hill poderia soar como o “alguns anos mais tarde…” de seu papel em Quatro Casamentos e um Funeral – tudo funcionaria muito bem e se encaixaria perfeitamente.

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Mas mesmo assim, Um Lugar Chamado Notting Hill é um filme que tem um charme muito particular. Talvez isso se dê pelo mesmo roteiro que, apesar de conter algumas falhas, é bem inteligente ao saber dosar tanto humor quanto romantismo. As piadas são estrategicamente bem inseridas ao longo da trama e se revezam com as boas cenas românticas, com ótimos diálogos. Da mesma forma, o desenvolvimento das personagens também é coeso: ambos, apesar de tudo, são totalmente críveis e humanos – uma ótima sacada aqui foi retratar a estrela como uma pessoa comum (“Eu sou apenas uma garota parada em frente a um homem, pedindo a ele que a ame”, diz Anna em certo momento). A direção de Roger Mitchell, no entanto, se apresenta bastante oscilante – com momentos muito lentos (que podem cansar o espectador) e outros de ritmo frenético – mas nada que atrapalhe o bom desempenho do elenco.

Hugh é cativante, mesmo fazendo um tipo já manjado em comédias românticas. Julia Roberts, por sua vez, apresenta uma ótima atuação, fazendo uma personagem que, ao que parece, foi inspirada em si mesma – afinal, assim como Anna, Julia também sofreu bastante com os tabloides sensacionalistas ao redor do mundo. Seu sorriso em cena orna suavemente com a música tema de abertura: She, na voz de Elvis Costello (completando a trilha sonora). A química entre Hugh e Roberts é fundamental para a história, fazendo com que o espectador torça pelo happy ending entre os dois. Outro destaque fica ainda por conta de Rhys Ifans, o amigo sem noção de Will, que protagoniza divertidas cenas ao longo das duas horas de exibição.

O desfecho, previsível, é provavelmente o ápice de todos os clichês aos quais o filme recorre. No entanto, Um Lugar Chamado Notting Hill é uma comédia romântica infinitamente superior a outros produtos do gênero. Cumprindo muito bem sua proposta, é uma produção bem feita, cuidadosamente bem executada, com um ótimo design e uma fotografia ímpar – o que não seria muito diferente tratando-se um longa rodado no charmoso bairro de Notting Hill. Longe de ser impecável, Um Lugar Chamado Notting Hill é equilibrado e inteligente, e mesmo suas deficiências tornam o filme um entretenimento excepcional – algo difícil de se encontrar no cinema hoje em dia.

Os Queridinhos da América (America’s Sweethearts)

01Ah, o mundo das celebridades… Não é muito curioso o fato de que este universo cheio de peculiaridades tenha interessado o diretor Joe Roth. Apesar de sua obra como cineasta ser relativamente modesta, é como produtor que Roth se destaca: entre seus últimos sucessos, estão a versão burtoniana de Alice no País das Maravilhas, Encontro Explosivo (com Cruise e Cameron) e o mais recente Malévola. Ou seja, “celebridades” é um assunto que Roth pode discutir com bastante propriedade porque efetivamente o conhece. No entanto, seu trabalho mais significativo como cineasta não alcançou o esperado sucesso de crítica que propunha, apesar de ter tido um bom desempenho nas bilheterias.

Os Queridinhos da América é um daqueles filmes que tinha tudo para ser um sucesso antes mesmo de seu lançamento. Afinal, o elenco selecionado era uma reunião dos maiores astros hollywoodianos na época. A começar, pela estrela maior: Julia Roberts, que acabara de receber o primeiro Oscar da carreira por sua atuação em Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento. Naquele momento, a simples menção do nome de Julia já era o suficiente para que um projeto fosse adiante – não à toa, o nome da atriz é o primeiro a se ver na tela, apesar de sua personagem ser praticamente uma secundária. Depois, há Catherine Zeta-Jones, sempre linda, um ano antes de coestrelar Chicago – pelo qual faturou o Oscar de melhor coadjuvante. O time masculino, por sua vez, conta com os simpáticos John Cusack e Billy Crystal – este último um dos principais apresentadores da cerimônia do Oscar e que também assina a produção e o roteiro do longa.

A premissa de Os Queridinhos da América é abordar o mundo das celebridades. O filme começa com uma espécie de reportagem que explica o porquê Gwen Harrison e Eddie Thomas (Catherine e Cusack, respectivamente) formam o casal mais famoso – e rentável – de Hollywood. Eles são jovens, bonitos, possuem uma ótima química na telona e seus trabalhos são campeões de bilheteria. Mas há um problema: Gwen, que se apaixonara por um ator espanhol, quer o divórcio imediato, enquanto Eddie se recupera da separação em um retiro espiritual. Se juntos o casal é imbatível, separados eles vão de mal a pior: o último filme de Gwen, por exemplo, foi um fiasco e a bela é constantemente massacrada pela crítica, enquanto Eddie apresenta um quadro psiquiátrico deplorável. É aí que surge Lee Philips (Billy Crystal), um experiente assessor de imprensa e produtor que tem a missão de mostrar à mídia que Gwen e Eddie estão ainda vivendo harmoniosamente para, assim, divulgar o novo filme do casal.

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A proposta, ao que tudo indica, é flagrar o que se passa nos bastidores da indústria cinematográfica, mas é um fato que Os Queridinhos da América acaba se mostrando muito mais uma comédia romântica. E mesmo como comédia romântica, o longa parece não funcionar. Apesar de possuir alguns momentos divertidos, o roteiro de Crystal não tem criatividade, além da ausência de piadas inteligentes que justifiquem o gênero. Isso fica mais evidente com a direção insegura de Joe Roth, que não possui o menor timing – nem como comédia nem como romance. Como resultado, o filme fica totalmente perdido: o romance entre Eddie e Kiki (assistente e irmã de Gwen) não convence, as tiradas são forçadas e algumas cenas são vergonhosas. E, contrariando as expectativas, nem mesmo o elenco estelar consegue salvar: Julia é apática, sem graça; Billy apenas refaz seu tipo clássico e Cusack é irritantemente extravagante. Salva-se aqui Catherine que, mesmo excessivamente caricata, é hilária na pele da atriz cheia de excentricidades.

No fim, com um design de produção conveniente com a proposta do filme e uma trilha sonora que até consegue dar um charme ao tentar alavancar o estilo cômico da trama, Os Queridinhos da América é até “agradável”. Não fará você suspirar com uma bela história de amor, não fará você se contorcer com piadas bem feitas e muito menos irá propor algum tipo de discussão sobre os bastidores do mundo das celebridades – mas vai cair como uma luva se você estiver procurando uma trama leve, sem compromisso. Com um imenso potencial, Os Queridinhos da América é um exemplo perfeito de como uma direção frouxa e um argumento fraco são capazes de estragar uma produção – mesmo com um elenco queridinho pelo público.

Uma Linda Mulher (Pretty Woman)

Ele, um homem de negócios com a agenda lotada e em fim de relacionamento a caminho de Los Angeles, dirigindo um carro com marcha manual que lhe é pouco familiar. Ela, uma prostituta do Hollywood Boulevard que divide o apartamento com uma amiga e a muito custo consegue o dinheiro para o aluguel. Estes são os dois protagonistas desta irresistível comédia romântica que abriu a década de 90 com o pé direito.

O encontro dessas duas personagens não poderia ser mais fortuito: com dificuldades para achar o caminho (e também sem saber dirigir muito bem o carro emprestado – já que seu primeiro veículo foi uma limusine automática), Edward contrata Vivian para leva-lo até o hotel em que ficará hospedado por uma semana. Precisando levantar urgentemente o dinheiro do aluguel (já que a amiga de quarto torrou toda a grana em uma noitada), Vivian vê em Edward a solução para seus problemas – ainda que por uma noite. Não demora muito para que o jeito simples e despojado da garota de programa conquiste Edward e ele a convide para “trabalhar” para o galã durante uma semana. A paixão entre os dois, a partir daí, será inevitável.

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Se em Bonequinha de Luxo, em 1961, o desejo de Holly era encontrar um marido rico que a sustentasse, em Uma Linda Mulher o que Vivian mais almeja é abandonar a vida da prostituição. Personagem forte, Vivian sabe exatamente o que quer: mesmo como prostituta, recusa-se a ter um cafetão, preferindo escolher a dedo os clientes com os quais se relaciona – e, óbvio, o que faz com cada um deles (beijo na boca, por exemplo, é proibido). Por outro lado, Edward, apesar de ser um homem de sucesso profissionalmente, é triste e altamente influenciável – principalmente por seu advogado Jason, que enriqueceu trabalhando para o empresário. Ironicamente, contrariando o que se poderia esperar de uma comédia romântica, Vivian não precisa de Edward: o bonitão é apenas um estímulo para que Vivian abandone a profissão. O mais “dependente” na história é Edward: apesar de bem sucedido na profissão, sua vida pessoal vai de mal a pior. É Vivian quem lhe abre as portas para um mundo novo – onde o dinheiro não é o principal elemento e as coisas simples passam a ter um grande valor.

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A perfeita sintonia entre os protagonistas tornam Uma Linda Mulher muito mais agradável. Richard Gere, que não fazia um bom filme há anos, é intensamente cativante no papel de Edward, enquanto Julia Roberts é encantadora vivendo a prostituta Vivian (não à toa, Julia recebeu aqui sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz). O sorriso de Julia na tela é visualmente esplêndido, algo que fica ainda mais bonito em meio ao ótimo design de produção do filme – assim como sua trilha sonora, embalada por canções que permanecem na memória daqueles que viveram os anos 90. O diretor Garry Marshall (um especialista no gênero e que repetiu a parceria com Julia e Richard no menos cultuado Noiva em Fuga, de 1999) soube unir bem todos estes elementos, o que contribui para tornar seus personagens muito mais humanos do que em outras comédias românticas – apesar das inúmeras improbabilidades do roteiro (afinal, poucas prostitutas são tão belas quanto Julia Roberts e poucos quarentões são tão simpáticos como Gere).

Uma linda Mulher é uma comédia romântica aos moldes dos anos 40 (obviamente com um toque moderno para a época) e que ressuscitou o gênero na década de 90 – especialmente quando o cinema vinha apostando naquelas produções recheadas de homens truculentos brigando feito loucos e trocando tiros por aí no final dos anos 80. Uma Linda Mulher é uma espécie de Cinderela versão moderna e, apesar de sua protagonista ser uma personagem politicamente incorreta, é impossível não se apaixonar por sua história. Apesar do roteiro um tanto quanto “clichê” (mas divertido e inteligente o suficiente para conquistar o público), Uma Linda Mulher é definitivamente, um clássico dos anos 90 que até hoje diverte e encanta – e muito.

Closer: Perto Demais (Closer)

Closer: Perto Demais foi vendido como “uma história de amor madura”. Baseada na peça teatral de Patrick Marber, talvez esta seja a melhor definição do que o filme realmente é: uma trama de amor moderna – e, como sugere o título, uma olhada muito mais próxima nas fraquezas e problemáticas das relações humanas no nosso tempo.

A narrativa segue os encontros e desencontros de quatro personagens. Dan, um jornalista fracassado, cruza casualmente com a striper Alice, recém-chega dos EUA, em meio à agitação da capital britânica. Passado um tempo, Dan conhece Ana em uma sessão fotográfica e passa a se relacionar com a artista. Também de forma casual (através da troca de identidades em um chat na internet), Ana se envolve com o médico Larry – formando uma espécie de casal “perfeito”: ambos bem sucedidos em suas profissões, é o casal que, aparentemente, vive um conto de fadas. No entanto, quando o envolvimento entre Ana e Dan é descoberto por Larry, ocorre uma espécie de troca de casais – formando o “retângulo” amoroso central.

Sim, confesso que explicando assim, tudo pode parecer um pouco confuso – mas não o é. Closer é direto, despudorado, bem resolvido – assim como suas personagens. Isso se reflete em um roteiro afiado, com diálogos abertos, marcantes e, por muitas vezes, descarados. Houve, na época de lançamento, quem classificasse o filme como imoral (apesar da ausência de cenas de sexo ou nudez). Talvez essa classificação tenha sido gerada pela forma sincera (por muitas vezes vulgar ou violenta) como as personagens se relacionam com seus pares – e até mesmo consigo mesmas.

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Closer é um desenrolar de traições, relações sexuais e relacionamentos entre os quatro personagens. Entre idas e vindas, eles se amam e se odeiam; se traem, mentem uns para os outros, exibindo personalidades por vezes amorais. Em um determinado momento, Ana joga na cara de Dan que “ele não conhece nada sobre o amor porque ele não entende compromisso”. Esse desenrolar frenético se evidencia no roteiro, por vezes, atropelado: ocorrem saltos cronológicos na narrativa (meses e até anos) que evidenciam o desequilíbrio dessas relações e tornam o filme, sob certo aspecto, circular: termina exatamente do ponto onde começou.

Quanto ao elenco, é necessário dizer: Closer é impressionante. Jude Law, um tanto apático, é o que menos causa frisson, mas faz um trabalho eficiente. Julia Roberts, mais serena do que nunca, traz uma atuação segura que se adequa bem à sua personagem, assim como Clive Owen, que faz um tipo beirando a paranoia que é o retrato de muitos homens que encontramos por aí. No entanto, é Natalie Portman quem realmente brilha (muito antes de Cisne Negro – pelo qual faturou o Oscar de Melhor Atriz). Na pele de Alice, Natalie é enigmática, sensual e controversa – arriscaria dizer, uma das melhores antagonistas femininas do cinema.

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Mike Nichols, com uma direção precisa, lança diversos planos fechados em seus atores, o que realça o sofrimento de suas protagonistas – como na cena do ensaio fotográfico de Alice. Com uma fotografia moderna, o filme tem poucas tomadas externas – o que fortalece o clima de intimidade que estaremos invadindo. A trilha sonora, que passeia de Bebel Gilberto com “Samba da Benção” à belíssima The Blower’s Daughter” de Damian Rice, acentua ainda mais o clima intimista do longa, nos deixando mais a vontade para invadir a privacidade de suas personagens.

Com uma visão pessimista em diversos momentos, Closer lança um olhar sobre a problemática dos relacionamentos humanos, nos mostrando bem de perto as fraquezas de nossa natureza. Serve para explanar as contradições das relações, expondo a impotência do homem diante daquilo que sente – e daquilo que deseja. Longe dos blockbusters norte-americanos (com suas tramas recheadas de mocinhos e vilões), Closer é um filme próximo à vida real, onde os personagens não são julgados por serem bons ou maus – ainda que você, em algum momento, possa sentir repulsa às suas ações. Diferente das histórias de amor hollywoodianas convencionais (aqui parece que não há o amor verdadeiro; apenas uma projeção que jamais será atendida), Closer tem um grande mérito: sua imprevisibilidade e, assim como o amor, é um filme onde o espectador mergulha de cabeça – sem se preocupar com o que está por vir.