Amor Por Direito (Freeheld)

Na trama de Amor Por Direito, escrita por Ron Nyswaner (de Filadélfia), acompanhamos a luta da detetive Lauren Hester e sua companheira Stacie Andree para conquistar os benefícios da pensão de Hester, após a policial ser diagnosticada com um câncer no pulmão. O diretor Peter Sollett, no entanto, é um artista de filmografia modesta até aqui – mas foi ousado ao escolher como protagonistas de seu filme a dupla Julianne Moore e Ellen Page. Moore, recém-oscarizada por seu brilhante trabalho em Para Sempre Alice, é sem dúvida uma das atrizes mais interessantes de sua geração. Page, por sua vez até então menos cultuada, se assumiu homossexual no início de 2014. Mais do que isso: Amor Por Direito chegou aos EUA pouco depois que o país, em uma decisão histórica, legalizou o casamento gay (resultado de anos de ativismo e incontentáveis batalhas judiciais de movimentos a favor dos direitos civis dos homossexuais).

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Infelizmente, Amor Por Direito não consegue ser tão intenso quanto a magnitude de sua história. Baseado em fatos reais, Amor Por Direito se limita a um melodrama por vezes eloquente, exagerado. Nyswaner não consegue recriar um roteiro tão envolvente quanto em Filadélfia: o argumento fica perdido no dramalhão convencional, apelativo em alguns instantes e sem muito charme. Tampouco Moore está em sua melhor performance. Tudo bem, sua transformação física é impressionante – e é um delírio ver o quanto Julianne se despe de toda vaidade para compor suas personagens. Mas o excesso de carga dramática de seu tipo nos soa um tanto artificial e, consequentemente, cansativo, fazendo com que a atuação de Moore sirva apenas de “escada” para Page. Sua Stacie se resume a poucas cenas inspiradas, visivelmente à sombra da grande suposta “estrela” do filme. A “desculpa” seria de que Stacie seria tímida demais na vida real, mas a verdade é que o talento da novata não se sobressai.

Mas Amor Por Direito não é totalmente descartável, rendendo até mesmo algumas boas cenas – principalmente as sequências durante as sessões de vereadores, que mostram toda a hipocrisia e arrogância da classe política (mas até esses momentos são inflamados de discursos tendenciosos, perceba). Em suma, todas as soluções são fáceis e talvez seja este o termo que melhor defina Amor Por Direito. Logo, se você quiser derramar umas lágrimas e não se importar de ser quase que forçado a isso, eis um filme que não vai te decepcionar. Apenas esteja ciente: carregue o lenço no bolso, mas prepare-se para sair do cinema vazio.

A Mão Que Balança o Berço (The Hand That Rocks The Cradle)

Rebecca De Mornay não faria nada tão expressivo em sua carreira após o sucesso de A Mão Que Balança o Berço, um thriller de Curtis Hanson (de Los Angeles – Cidade Proibida) que foi amplamente elogiado pelo público e crítica na época de seu lançamento. Na trama, Rebecca dá vida a Peyton Flanders, uma babá que passa a atormentar a vida de uma família para vingar a morte de seu esposo.

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Com um roteiro simples mas conciso, que vai nos dando pistas sobre os atos de Peyton mas sem se perder no meio-campo tentando explicar suas motivações, Hanson é competente ao transpor o argumento para a tela sem grandezas ou inventices. Do ponto de vista técnico, inclusive, A Mão que Balança o Berço é um filme que não chega a ser brilhante – na verdade, é bem mediano em diversos momentos. Porém é nítido o talento do cineasta para as sequências de suspense, que cresce à medida que a fita se desenrola e quase chega a alcançar o terror psicológico – não em nível tão requintado, é verdade, mas o suficiente para proporcionar um ótimo entretenimento.

Rebecca faz uma atuação coerente e bem articulada, sendo a escolha perfeita para o papel. Seu talento é imprescindível para a construção de Peyton, que ora é pura inocência, ora é pura maldade – o anjo e o demônio na mesma pessoa. As nuances de Peyton são bem delineadas por De Mornay, que recebeu bastante atenção na época. Soma-se ao elenco Annabella Sciorra, a dona de casa tranquila, porém frágil, alheia a todos atos da babá – a mocinha ideal, que ainda tem crises de asma, aumentando sua fraqueza diante das telas; e também uma Julianne Moore em início de carreira, com um tipo extravagante e esperto que chega a ter seu devido ponto alto na narrativa.

Apesar de a história não apresentar nada significativamente novo, A Mão que Balança o Berço nos traz personagens que são verossímeis – e isso é importante para que o público se identifique com o núcleo central. Trata-se de um filme bem feito e redondo, com um roteiro bem construído que pode até não marcar a vida do espectador, mas é suficiente para prender sua atenção durante a projeção.

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right)

Nic e Jules (respectivamente, Annette Bening e Julianne Moore) estão casadas há anos e tem dois filhos, concebidos por inseminação artificial a partir da doação de esperma de um desconhecido. As crianças crescem e decidem encontrar o doador do sêmen que os gerou – descobrindo, então, o boa praça Paul (Mark Ruffalo), o que colocará em risco a paz domiciliar.

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Se no início de Minhas Mães e Meu Pai o público chega a pensar estar diante de uma comédia descartável, aos poucos o filme de Lisa Cholodenko cresce até se tornar uma narrativa de gênero não definido, mas nem por isso desinteressante. O roteiro bem construído deixa de lado o tom cômico para trilhar um caminho mais propenso ao drama, mas fugindo dos clichês característicos do gênero e focando principalmente as relações entre os personagens. Minhas Mães e Meu Pai não é uma trama sobre um casal homossexual: é uma história sobre pessoas e relacionamentos (tanto que o longa funcionaria da mesma forma se os protagonistas fossem um casal formado por um homem e uma mulher).

Bening e Moore abrilhantam a película com suas atuações. Enquanto a primeira está ótima em sua composição da lésbica masculinizada (mas em nenhum momento estereotipada, como poderíamos esperar), Julianne empresta suavidade e leveza ímpares para a segunda mãe. Fica claro quem é quem na história: a mãe crítica que pega no pé e preza pelo futuro das crianças e aquela que é mais carinhosa e se preocupa com a felicidade dos filhos independente de suas escolhas. Ruffalo também desempenha bem sua tarefa na trama, assim como os promissores Josh Hutcherson e Mia Wasikowska – que parecem muito a vontade em cena e mantêm ótima interação com os veteranos.

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Apesar de não apresentar nenhum grande clímax, Minhas Mães e Meu Pai é um filme sobre uma família incomum – ou melhor, sobre um novo e moderno modelo de “família”. Não procura promover muitos debates, tampouco trazer algum tipo de ruptura ao abordar um casamento gay ou levantar questões sobre preconceito – o que seria o esperado ao lermos a sinopse superficialmente. Com um ar de cinema independente, Minhas Mães e Meu Pai é leve, redondo e bem feito, mérito não somente do ótimo trabalho do elenco mas também da direção de Lisa, que faz uma obra que apesar de não ser tão grandiosa quanto cinema “social”, é um entretenimento para se apreciar sem medo.

Para Sempre Alice (Still Alice)

A trama de Para Sempre Alice acompanha uma renomada doutora de linguística e mãe de família exemplar que é diagnosticada com uma espécie precoce de Alzheimer. Ao longo da fita, o público acompanha a luta diária de Alice contra sua doença, o abandono de suas funções acadêmicas e a busca de apoio no relacionamento com o esposo e os filhos.

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Para Sempre Alice é um drama que gira em torno da atuação de sua protagonista, a sempre competente Julianne Moore – não à toa, seu trabalho lhe rendeu sua quinta indicação ao Oscar e Moore é apontada como a favorita ao prêmio deste ano. Julianne carrega no olhar todo o sofrimento de sua personagem (aliás, é incrível a capacidade da intérprete de se comunicar com o olhar), que se vê gradativamente perdendo tudo aquilo que conquistou: Para Sempre Alice é um filme sobre as perdas irreparáveis da vida. Curiosamente, no entanto, Alice não me parece a melhor performance de Moore; particularmente, acredito que a atriz já teve outros momentos tão ou mais empolgantes quanto este (Julianne passou desapercebida, por exemplo, com seu ótimo papel em Mapas Para as Estrelas). A parte disso, os demais nomes do elenco são competentes, desde o veterano Alec Baldwin até Kristen Stewart, que desponta como uma grata surpresa no longa. Arriscaria dizer que, em um ano em que Emma Stone ganhou uma indicação ao Oscar de melhor coadjuvante com um tipo morno em Birdman, Kristen poderia facilmente estar na disputa.

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Com um roteiro que foge de soluções fáceis ou melodramáticas, Para Sempre Alice é, no entanto, até mesmo anticlimático: talvez por sua abordagem deveras delicada, não há grandes momentos de explosão dramática capazes de arrebatar o público. É um filme que constrói sua narrativa aos poucos, à medida que acompanhamos a trajetória de nossa heroína – o que inevitavelmente causa alguns instantes de monotonia. A direção objetiva e razoavelmente simples da dupla Wash Westmoreland e Richard Glatzer (este último que também sofre uma doença degenerativa) entrega uma obra apenas mediana, que só fica maior por conta de Julianne Moore, que é o centro de tudo o que acontece aqui – até mais do que sua própria personagem.

Mapas Para as Estrelas (Maps to the Stars)

Não sou um conhecedor do cinema de David Cronenberg. Para ser bastante honesto, meu único contato com sua obra foi em Cosmópolis, um filme enfadonho, cansativo, sem pé nem cabeça e que me irritou profundamente. Exatamente por isso (e por não ter conhecimento de sua filmografia), a única coisa que me chamou a atenção em Mapas Para as Estrelas é a presença de Julianne Moore – atriz por quem nutro uma admiração ímpar. Mas, frustrando minhas expectativas, me deparei com uma fita bastante singular e que, dentro de sua proposta, me agradou e me fez repensar meus conceitos sobre o diretor.

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Tudo bem, Mapas Para as Estrelas não é um primor cinematográfico – tampouco é a obra-prima de seu idealizador, pelo que tenho reparado nas críticas que busquei. Pelo contrário: tem alguns que o consideram até mesmo um filme “fraco” na carreira de Cronenberg. Na trama, somos transportados a uma Hollywood quase surreal (para alguns, “nua e crua” – aliás, vi esses adjetivos em quase todos os textos que li sobre a obra, mas acredito que esteja bastante longe disto), onde somos apresentados a alguns personagens icônicos: temos um ator mirim em ascensão que está voltando da reabilitação; uma atriz de meia idade em decadência, cuja carreira sobrevive apenas de glórias passadas e escândalos atuais; um psicólogo que fez fortuna com livros de autoajuda e sua esposa, que passa a maior parte do tempo cuidando da carreira do filho; um motorista de limusine que tenta a sorte como ator; e, ligando todos estes tipos, uma jovem distante de todo este universo, que chega a Los Angeles trazendo nas malas um mistério que pode afetar a vida de todos.

As tramas destes personagens se desenvolvem em meio a histórias de sexo, fantasmas, loucura – em uma mistura frenética e inusitada que cai como uma luva para a Hollywood tão decadente de Cronenberg. Sua visão do mundo das celebridades é avassaladora, mostrando toda perversão e crueldade de uma realidade que é desconhecida para muitos. O cineasta não economiza no choque: é como se qualquer situação, por mais comum que seja, tome proporções gigantescas. O excesso é simplesmente natural, já faz parte da vida de cada um dos personagens, que vivem em um eterno clima de tensão e círculo vicioso: todos se conhecem e possuem, a seu modo, os mesmos problemas – até, obviamente, a chegada de Agatha, a garota misteriosa a quem nos referimos anteriormente.

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A atuação do elenco em Mapas Para as Estrelas é, no mínimo, extraordinária. Já de cara, digo: Julianne Moore toma o filme para si. Por mais que os demais se esforcem, é Julianne que atrai os holofotes a cada aparição. Arrisco dizer que esta seja sua melhor performance em anos. Moore consegue ser atordoante em cena e mesmo fazendo um tipo arrogante, o espectador é capaz de torcer por ela (sua personagem é uma atriz que não consegue lidar muito bem com a idade e com os fantasmas do passado, que inclui a morte da mãe em um incêndio). Mia Wasikowska há muito se desvencilhou de sua apática Alice burtoniana e já pode ser considerada uma das melhores intérpretes de sua geração. Mia cresce gradualmente no decorrer da fita, sendo a responsável pelo grande clímax da história e pelo desfecho lírico. Outro destaque fica com Evan Bird, que agarrou bem a responsabilidade de viver uma celebridade adolescente em crise, com todas suas irritações causadas, sobretudo, pelas privações que deve enfrentar.

Com uma trilha sonora confusa e atordoante, montagem vaga em certos momentos e fotografia pontual, Mapas Para as Estrelas é um filme onde se consegue ver o desejo do diretor em chocar o público e pronto. O mundo nefasto das celebridades é visto aqui sob uma ótica que preza pela “estranheza”, pelo “anormal”. pelo “repulsivo”. Mapas Para as Estrelas não é uma pérola do cinema, mas perturba, incomoda, constrange, enoja e é indigesto mesmo horas depois que o assistimos.

Como Não Perder Essa Mulher (Don Jon)

É interessante olhar para Joseph Gordon-Levitt e acompanhar sua trajetória no cinema. Em poucos anos de trabalho, o ator conseguiu criar uma carreira em ascensão – de adolescente desengonçado a quase galã hollywoodiano, se tornando um dos atores mais prestigiados e promissores de sua geração. Portanto, é com muita empolgação que o público recebeu na última semana o filme Como Não Perder Essa Mulher – primeiro trabalho do artista atuando como ator, roteirista e diretor.

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Gordon sempre foi um ator diferente dos demais, buscando constantemente sair de sua zona de conforto com projetos distintos e desafiadores. No entanto, dividindo as críticas, Como Não Perder Essa Mulher parece ser um passo um pouco precipitado na carreira do excelente ator – que optou por um tema com potencial para uma ótima história, mas que ficou limitado a um roteiro fraco. Na trama, Gordon é Jon – um tipo jovem tão comum nas grandes metrópoles. Ele é bonito, gosta de malhar, não é muito inteligente, mas é elegante e tem boa conversa – e isso facilita muito seu envolvimento com as mulheres. Jon também tem um bom apartamento, carro, divide seu tempo entre a família e o trabalho de barman, além de frequentar a igreja ao menos uma vez na semana para confessar seus pecados. Até aí, tudo beleza. Mas já no início da narrativa, Jon se revela: é viciado em pornografia. Passa horas de seu dia consumindo filmes “adultos”, fotos sensuais e qualquer produto de caráter erótico – assumindo até mesmo sentir mais prazer com a pornografia do que com o próprio ato sexual.

Há alguns anos, Steve McQueen abordou uma temática parecida no polêmico Shame, onde um homem comum também não tem controle sobre seus impulsos sexuais. O que difere basicamente ambos os personagens é que Jon é viciado não no ato em si (apesar de curtir fazer sexo com mulheres) – mas na pornografia como produto. Não consegue sentir na cama o mesmo prazer que sente ao se masturbar vendo um vídeo na internet (afinal, não é toda pessoa que está disposta a fazer na vida real o que se vê em vídeos pornográficos, convenhamos…). Talvez é esse descontrole de Jon que o leve a procurar a mulher perfeita, ideal, disposta a fazer tudo aquilo que vê nas cenas – até encontrar Barbara (personagem de Scarlett Johansson), por quem se apaixona e passa a viver uma vida de submissão passiva.

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É aí que o filme começa a declinar. Diretamente, porque não parece rolar muita química entre o casal. Joseph é até simpático, mas Scarlett não convenceu. Sua personagem é insuportável e a relação entre os dois é um porre. A situação complica ainda mais quando Barbara descobre o vício de Jon. Mas nada supera o encontro totalmente desnecessário de Jon com Esther (vivida por Julianne Moore). No início, Esther é quase vista como uma psicótica carente por atenção, mas logo é revelado que Esther era uma mulher casada que perdera recentemente esposo e filho.

O filme tem uma boa proposta . Joseph parece ter tido uma boa intenção – mas, bem, de boas intenções o inferno está cheio. A trama não se desenrola – e o que se vê é uma sucessão de cenas repetidas que caem nos clichês do gênero, deixando-a excessivamente maçante em sua segunda parte. Os atores estão ligados no automático – com exceção de Scarlett que fez um dos piores tipos de sua carreira, distanciando-se completamente do ideal nota “10” que Jon tanto almejava. Não sei se a ideia foi proposital, mas sua personagem fútil soava artificial e estereotipada.

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Mas Johansson não faz o único tipo fútil da trama. Todos ali são: os amigos de Jon que avaliam as mulheres na boate, a adolescente que não desgruda do celular, as mulheres das baladas que vão para a cama na primeira noite e, principalmente o próprio personagem título – que tem verdadeira obsessão por seu corpo, indo regularmente à academia e aproveitando os momentos de exercício para rezar as penitências como forma de absolvição de seus pecados ou mesmo sua irritação no trânsito. Homens, talvez, possam até se identificar com o personagem; mulheres, assistirão a Como Não Perder Esta Mulher e talvez se incomodem com a forma como a figura feminina é exposta tão descaradamente – reflexo de nossa própria geração, que valoriza corpos e não mentes, que enchem academias no verão e deixam bibliotecas vazias, que dão ibope para baladeiros que gastam fortunas em uma noite enquanto pessoas passam fome diante de nossos olhos. Joseph tinha tudo nas mãos para criar um ótimo estudo sobre o vício da pornografia, ou mesmo abordar uma crítica à sociedade midiática e obcecada pela imagem – mas talvez sua pouca experiência tenha tornado Como Não Perder Essa Mulher um filme raso, superficial e uma total perda de tempo.

Carrie, A Estranha (Carrie)

Fazer um remake sempre é arriscado, especialmente quando se trata de uma produção que tenha marcado um gênero ou uma época. Imagine, hoje, algum corajoso tentar refilmar um terror psicológico como O Bebê de Rosemary ou um clássico instantâneo como O Poderoso Chefão. O risco já começa porque os fãs das obras originais de cara tendem a torcer o nariz para as novas produções. Depois ainda há sempre aquela expectativa quanto à refilmagem (será melhor do que a original?) que acaba frustrando muita gente. É mais ou menos dessa forma que o remake de Carrie, A Estranha foi recebido – e, para deixar os fãs do texto de Stephen King irritados, a versão de 2013 parece não ter decolado.

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Convenhamos: Carrie, A Estranha, original de 1976, dirigido por Brian de Palma, é uma obra única. Ainda com suas deficiências, é um filme que ou você assistiu ou sabe do que se trata porque já ouviu falar. Baseado na história de Stephen King, o longa retrata a adolescência de Carrie White, uma garota tímida e perturbada que vive sob os cuidados e vigilância da mãe – uma fanática religiosa que encara qualquer ato de promiscuidade (ou muito menos do que isso) uma afronta aos preceitos bíblicos que em acredita cegamente. A criação da mãe influencia o comportamento de Carrie no colégio, onde a garota é constantemente humilhada pelos demais alunos. Ao longo da trama, no entanto, Carrie descobre que possui poderes telecinéticos (permitindo-lhe movimentar  objetos apenas com a força do pensamento) e utiliza suas novas habilidades para se vingar daqueles que tanto a desprezaram.

Excetuando uma ou outra cena, o remake de 2013 é bem fiel à obra de 1976. Tem lá suas novas incursões (nessa versão, por exemplo, a diretora Kimberly Peirce opta por iniciar a trama com o nascimento perturbador de Carrie), mas no geral o filme segue a mesma linha narrativa da versão original. Ainda assim, a refilmagem é infinitamente inferior à obra de Brian de Palma. O principal erro de Kimberly – que dirigiu Meninos Não Choram – foi o uso demasiado de efeitos especiais, em minha opinião. A tentativa foi dar ênfase aos poderes telecinéticos de Carrie, obviamente; mas o exagero fica evidente e tornam algumas cenas bizarras ou desnecessárias. A sequencia em que Carrie levita sua mãe e a lança sobre o chão é um momento de profundo desgosto – confesso que ri em diversos momentos tamanha a bizarrice das situações. Brian, na versão original, demonstra os poderes de Carrie de maneira sutil e equilibrada. Isso contribui para que a primeira versão soe muito mais assustadora do que a atual.

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Outro erro é a continuidade do roteiro. Ele se perde em alguns momentos ou soam totalmente previsíveis e com pouca lógica. Exemplo claro: em  pleno século XXI (mais uma diferença em relação ao filme de Brian), Carrie é uma garota que não sabe o que é menstruação – mas utiliza o Google para pesquisar sobre poderes telecinéticos. Lógica? Nenhuma. Outro ponto que não ajuda é a própria protagonista que – sinto dizer, pois adoro o trabalho de Chloë Grace Moretz – simplesmente não foi uma boa escolha. Chloë faz caras e bocas, olhares exagerados – enfim, está muito longe de viver sua personagem, como o fez Sissy Spacek (que inclusive foi indicada ao Oscar de melhor atriz naquela ocasião). Até mesmo Julianne Moore está ligada no automático – em um visível desperdício de talento.

Para deixar a situação ainda mais desfavorável, a fotografia do projeto não ajuda. O cenário pouco sombrio não cria uma atmosfera propícia para sustos no espectador, assim como a trilha sonora que arrisca umas canções mais recentes e soam totalmente artificiais (a música dos créditos, por exemplo, é de dar pena…). Sendo assim, Carrie, A Estranha, de 2013, é um filme que perde por uma razão maior: no processo de adaptação da história para os dias atuais, algumas mudanças seriam inevitáveis. O problema é que essas mudanças não ajudam a melhorar a trama – o que deixa os fãs antigos frustrados e não permite que o novo público possa apreciar a história. Kimberly perde a chance de consolidar seu estilo para criar simplesmente um filme mediano, que não assusta e muito menos convence.