O Novato (Le Nouveau)

Benoit tem 14 anos e acaba de se mudar para Paris. A primeira semana no novo colégio, no entanto, não é das mais fáceis: ele passa a sofrer bullying pelo grupo de Charles, o garoto mais popular de sua sala e os únicos a lhe darem atenção e recebe-lo bem são os tipos mais rejeitados da classe. Seguindo os conselhos de seu tio, Benoit organiza uma festa e convida todos os alunos, porém só aquele bando de “cafonas” e excluídos aparecem – mas será que esses “losers” não podem forma a melhor turma de todas?

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O Novato é uma daquelas gratas e singelas surpresas com as quais nos deparamos no cinema. O filme de Rudi Rosenberg, a princípio, pode não parecer uma grande obra – e, tecnicamente, é bem simples, inclusive em sua premissa: um personagem que se sente isolado e tenta se encaixar em um determinado grupo. No entanto, a maneira leve com a qual o diretor conduz a história faz com que O Novato cresça aos poucos, de forma gradativa, como se acompanhando a odisseia de nosso protagonista em busca de reconhecimento. O público realmente torce por Benoit, um personagem facilmente identificável e que, de cara, nos desperta empatia. E são duas coisas que contribuem para isso: primeiro, o argumento muito bem desenvolvido, que se utiliza de situações comuns e também piadas rápidas, atuais e sutis, inseridas nos momentos oportunos, sem apelação; depois, a química existente entre os adolescentes do elenco, que tornam as atuações muito mais naturais. O jovem estreante Réphaël Ghrenassia, por exemplo, está em ótima performance, demonstrando um timing cômico muito bom.

Talvez o que impeça O Novato de ser impecável seja o fato de o filme buscar uma abordagem mais leve e despretensiosa para tratar um tema contemporâneo sério: o bullying. Ele existe – e é incrível imaginar como as crianças, muitas vezes sem se dar conta, podem ser cruéis uma com as outras. A opção dos roteiristas foi claramente apresentar o assunto com maior comicidade e isso impede O Novato de ser uma referência, mas também não é nenhum problema. Pelo contrário: O Novato é uma comédia deliciosa de se assistir, naquele estilo que só o cinema francês consegue fazer.

Abril e o Mundo Extraordinário (Avril et le Monde Truqué)

1941 – e a Terra está totalmente aquém daquilo descrito nos livros de História. O mundo vive um período “pré-industrial”: o carvão é o principal combustível utilizado e a humanidade está mergulhada em uma era sem grandes inovações – o rádio, a aviação e sequer a eletricidade foram descobertos. A França, ainda presa ao século XIX, é governada por Napoleão V e, assim como em outros países, cientistas desaparecem misteriosamente há mais de 70 anos. Nesse cenário catastrófico, a jovem Abril tenta dar continuidade ao trabalho de seus pais desaparecidos: um soro miraculoso que tornaria o ser humano imortal. Perseguida pela polícia, Abril parte em busca de seus pais na companhia de Darwin, seu gato falante, e Julius, um vigarista por quem a garota irá se apaixonar.

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Apesar dos ótimos traços de Jacques Tardi (responsável direto por toda concepção gráfica, de cenário a personagens) e seu diálogo direto com as HQs, o longa dirigido pela dupla estreante Christian Desmares e Franck Ekinck embarca em uma narrativa tão fantástica que chega a ser quase monótona. Embora a premissa seja interessante, a obra não consegue agradar nem crianças (dada sua suposta profundidade) nem adultos (tamanha confusão do argumento). Há uma importante reflexão sobre a importância da ciência para o desenvolvimento humano – afinal, é impossível sobreviver sem o conhecimento. Entretanto, a trama não se mostra tão interessante para suportar seu tema principal e o tal mundo extraordinário passa desapercebido.

É verdade que o cinema francês, nos últimos anos, alcançou um nível de sofisticação muito especial na produção de animações. A escola neste gênero, apesar de bem diferente das norte-americana e japonesa, desenvolveu seu estilo próprio – assim como seus filmes tradicionais, queridíssimos do público – e vem despertando o olhar da crítica. Poderíamos citar aqui títulos como Os 12 Trabalhos de Asterix, As Bicicletas de Belleville, As Aventuras de Azur e Asmar, A Pequena Loja de Suicídios, Ernest e Célestine e mesmo a recente adaptação de O Pequeno Príncipe. Com cartoons próprios e com uma atmosfera mais séria, é um nicho que vem ganhando grande espaço na atual safra de produções francesas. Infelizmente, Abril e o Mundo Extraordinário deixa a desejar, não obtendo tanta relevância neste gênero.

Os Cowboys (Les Cowboys)

O título “Os Cowboys” é, no mínimo, curioso para uma produção francesa. Mas não se deixe enganar: o filme do estreante Thomas Bidegain é bem mais do que isso e provoca um questionamento interessante: até onde um ser humano é capaz de ir por alguém que ama?

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Alain é um pai de família que vive com a mulher e seus dois filhos no leste da França. De classe média, eles são apaixonados pela cultura country – o número musical do início da fita, inclusive, é agradabilíssimo. Tudo corre bem até o dia em que sua filha Kelly desaparece misteriosamente sem deixar rastros, o que leva Alain a partir em uma busca desenfreada por informações da adolescente. Anos mais tarde, Kid, o filho mais novo, continua ao lado do pai tentando reencontrar sua irmã, ainda que tudo o leve a acreditar que isso será impossível.

Desde o início da projeção, o espectador já é pego de jeito com o clima tenso do filme. Seja pela fotografia bem produzida ou pela excepcional e atordoante trilha sonora de Moritz Reich, a tensão e angústia predominam na fita – e isso faz com que o público embarque na aventura do pai e filho e acompanhe a gradativa destruição desta família. Aos poucos, os laços vão se enfraquecendo à medida em que eles se veem mais longe de encontrar a garota. A situação ainda piora quando se descobre que Kelly não fora sequestrada – e aí, o cenário do longa é mudado, o que é um dos grandes acertos da história. Outro trunfo de Os Cowboys é a troca de protagonistas: Alain cede lugar a Kid e isso proporciona também uma nova visão dos fatos, até chegar a um desfecho glorioso.

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Os Cowboys conta ainda com atuações poderosas por grande parte de seu elenco. François Damiens, irreconhecível, consegue transmitir todo o desespero de seu personagem em busca da filha desaparecida, em uma interpretação até superior àquela registrada em A Delicadeza do Amor (que já era primorosa). Já o jovem Finnegan Oldfield é um caso à parte: ele é genial desde sua primeira aparição na tela. Por alguma razão que eu ainda não consigo bem explicar qual, vê-lo em cena me fez lembrar Hailee Steinfeld em Bravura Indômita – e seria justíssimo qualquer prêmio que o ator ganhasse por sua performance, pois sua entrega à personagem é arrepiante. Drama fortíssimo e muito bem dirigido, Os Cowboys nos faz questionar até onde vale a pena ser consumido por uma causa e acreditar nela mesmo que, em muitos casos, ela já esteja perdida.

Lolo – O Filho da Minha Namorada (Lolo)

Você certamente já viu essa história no cinema: um personagem se sente ameaçado com a aproximação entre duas pessoas e faz de tudo para destruir o relacionamento. Vamos mais além: um filho que não suporta o namorado da mãe e quer a todo custo afugentar o pretendente. No caso de Lolo – O Filho da Minha Namorada, novo filme de Julie Delpy, é o tal Lolo do título quem fica incomodado com o namoro da mãe Violette, uma moderna parisiense produtora de eventos de moda, e Jean René, um pacato programador de sistemas que acaba de se mudar para a capital francesa.

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Um filho (com evidente Complexo de Édipo) tentando sabotar a relação da mãe, como já dito, não é algo original. O que falta em Lolo, no entanto, é profundidade para tratar este tema – que tem grande potencial a ser explorado, diga-se de passagem. Lolo é uma comédia que foge dos padrões franceses, se assemelhando muito ao gênero cômico norte-americano, porém com um toque de extravagância que acaba tornando o filme um tanto quanto “estranho”, mas ao mesmo tempo, interessante. Lolo é uma produção com forte apelo para o público que espera uma comédia despretensiosa – por vezes vazia, sim, mas com capacidade para divertir o espectador que se propõe a assisti-la (ainda que algumas piadas sejam vulgares, fáceis ou recheada de clichês e sem o menor requinte).

Delpy é quase neurótica na pele de Violette, mesmo que sua personagem seja inconstante: uma profissional confiante e firme, mas uma mãe ingênua e imatura diante do filho mimado. Dany Boon é o tipo mais equilibrado da fita, praticamente o único ser “normal” em uma trama repleta de loucos. Já Vincent Lacoste é quem rouba a cena a cada aparição. Ele faz de Lolo um sociopata incrível, um aspirante a artista com o ego lá no alto para quem o mundo deve girar ao seu redor – e isso inclui a exclusividade quando se trata da mãe. Lacoste é, definitivamente, o alívio de um filme que não tenta inovar em nada e veste a camisa de ser uma comédia que busca o riso fácil e rápido. Há quem possa se incomodar ou sentir culpa? Sim, de fato. Lolo não tem impacto emocional algum, mas não deixa de ser agradável devido à sua despretensão – e isso é o que muitos procuram no cinema.

A Viagem de Meu Pai (Floride)

É inevitável: a menos que haja alguma interrupção do destino, chega uma fase na vida em que os papéis se invertem e os filhos se tornam os pais de seus próprios pais. Este é o fio que conduz a trama de A Viagem de Meu Pai, o novo filme de Philippe Le Guay.

A Viagem de Meu Pai acompanha Claude Lherminier (Jean Rochefort, em performance irretocável), um octogenário que começa a sentir, ainda que a contragosto, os sinais da demência senil. Antigo proprietário de uma grande fábrica de papel, Claude está aos poucos perdendo a noção entre realidade e fantasia e é sua filha mais velha, Carole (Sandrine Kiberlain), que o substituiu na gestão da empresa, a responsável pelo pai. A situação complica quando Claude decide viajar a Flórida para rever Alice, a outra filha que não vê há quase dez anos.

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A direção discreta de Le Guay contribui muito para que o cineasta consiga narrar uma história triste de maneira leve: o diretor encontra o equilíbrio exato entre humor e drama, concedendo total sensibilidade para uma temática difícil e que, nas mãos de outros artistas, seria tratada com apelação ou sentimentalismo barato. Para além disso, Le Guay está muito bem amparado pelas atuações excepcionais de sua dupla principal. O veterano Jean Rochefort (em seu último trabalho, já que anunciou sua aposentadoria há alguns meses, infelizmente) é um ator incrível e faz de Claude um personagem que certamente já vimos em algum momento – e por isso a compaixão do público com ele é inevitável. Claude é um típico senhor de terceira idade: para além dos ataques de confusão ou esquecimento, ele insiste em morar sozinho, afugenta a todos que querem o ajudar (inclusive as enfermeiras) e é cheio de manias e obsessões. Seus sorrisos e olhares dão um toque todo especial à sua atuação. Já Sandrine (que retoma a parceria com Le Guay) confere segurança a uma personagem dividida: ela se sente “agraciada” por ter o pai ainda vivo, mas reconhece o peso dos cuidados que ele exige. De um lado, Carole tem a consciência de que o pai precisa dela, mas sabe que terá de abrir mão de sua própria vida pessoal em algumas ocasiões.

Ninguém deveria se desentender com vinho ou com as pessoas. É perda de tempo…

Com uma rica fotografia e uma estética caprichada, A Viagem de Meu Pai é, sem dúvidas, o melhor filme de seu realizador até aqui. O longa nos leva a enxergar a vida de maneira mais solidária, humana: as pessoas estão aí, o tempo passa e não volta jamais – então por que perder tempo com desentendimentos, discussões tolas ou brigas? Isso não é piegas, mas realidade: só percebemos o quanto alguém é importante para nós quando o perdemos – então por que não amar as pessoas como elas realmente são e aproveitarmos o tempo ao lado delas enquanto elas ainda estão vivas? Nos presenteando com um belíssimo desfecho, A Viagem de Meu Pai é um título que consegue a proeza de tratar temas pesados com muita delicadeza e isso já faz dele uma obra magnífica e necessária.

Um Doce Refúgio (Comme un Avion)

Escrito, dirigido e protagonizado pelo francês Bruno Podalydès, Um Doce Refúgio narra a história de Michel, um artista gráfico bem-sucedido que trabalha com seu irmão e leva uma rotina pacata ao lado de sua esposa Rachelle (Sandrine Kiberlain). Mas, ao que tudo indica, Michel não está muito contente com os rumos que sua vida urbana está tomando – e mais do que isso: ele está cansado de sua própria existência. Michael nutre uma paixão: o mundo aeronáutico e a ideia de pilotar um avião (apesar de nunca ter tido tempo para se dedicar à empreitada). Ao descobrir ao acaso que a engenharia de um caiaque é muito semelhante à de uma aeronave, o cinquentão resolve comprar este “enorme” objeto (sem que ninguém saiba) e embarcar em uma viagem solitária, porém repleta de autodescobertas.

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Contando com a fotografia cheia de vida da talentosa Claire Mathon (de Um Estranho No Lago e Meu Rei), Um Doce Refúgio é um filme que revela seu protagonista aos poucos. Michel é um tipo que vai se mostrando ao longo da narrativa: ele busca a felicidade que abandonou anos atrás no exato instante em que deixou de lados os seus sonhos. Apesar do tom cômico, no entanto, Um Doce Refúgio tem uma ponta de melancolia: é como se o cineasta nos fizesse entender que perdemos nossa essência a partir do momento em que deixamos de sonhar. Procurando fugir da crise existencial que está quase o alcançando, Michel parte em seu caiaque em uma aventura repleta de encontros inesperados, que tornam Um Doce Refúgio uma obra cheia de encantos, ainda que não seja memorável.

Apesar de tecnicamente bem estruturado, Um Doce Refúgio é irregular em seu argumento, com algumas sequências visivelmente arrastadas e que pouco agregam ao todo, fazendo com que o espectador às vezes se disperse. Ainda que o elenco seja competente, a direção de Podalydès não consegue manter a agilidade da fita e com isso algumas pontas surgem. Não que estas deficiências atrapalhem totalmente esta experiência: Um Doce Refúgio nos ensina que o que vale é ser feliz, não importa como. Nunca é tarde para corrermos atrás dos sonhos – o que é inadmissível é deixarmos a vida passar diante dos nossos olhos e simplesmente sermos coadjuvantes de nossa própria história. Esta é a maior mensagem de Um Doce Refúgio – uma pena o filme não ser assim tão grande…

Um Homem, Uma Mulher (Un Homme et Une Femme)

Anne Gauthier é uma roteirista de cinema que vive só com o filho, após a morte de seu marido em um brutal acidente. Já Jean-Louis Duroc é um piloto de corridas, ainda se recuperando do suicídio de sua esposa, que também lhe deixara uma filha. Os dois se conhecem casualmente em uma tarde de domingo, durante a visita semanal que fazem ao colégio interno em que suas crianças estudam. Como Anne perde o trem, Jean-Louis lhe oferece uma carona de volta a Paris. Os encontros semanais se sucedem e, aos poucos, a atração inicial entre os dois se transforma em amor.

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O argumento de Um Homem, Uma Mulher não poderia ser mais simples. No entanto, o filme de Claude Lelouch é, sem dúvidas, uma das mais belas histórias de amor do cinema. Já declarei em inúmeras ocasiões ser um defensor da tese de “menos é mais” – e em Um Homem, Uma Mulher esta definição é muito bem exposta. A simplicidade da narrativa é transposta, inclusive, para o método: as profundas discussões filosóficas, existenciais e metafísicas tão comuns à época de seu lançamento (1966, período em que a nouvelle vague estava em alta) são trocadas por dramas de pessoas comuns. Suas angústias, sofrimentos e questionamentos são exprimidos na tela de forma que o expectador possa acompanha-los sem reservas (não à toa, Lelouch declarou que seu longa não tinha nada a ver com o movimento francês de então).

Um Homem, Uma Mulher ainda é considerado como a base daquilo que é o cinema de seu cineasta: para além das temáticas que tratavam as relações humanas (em especial, o relacionamento entre homem e mulher), podemos ainda observar o emprego de câmera móvel (na mão ou no ombro, em muitos casos), o uso recorrente de voz over e flashbacks e os diálogos improvisados, bem como a trilha musical marcante – aqui, Francis Lai é o responsável por um dos temas mais populares do cinema. Além disso, Lelouch utiliza as cores de forma cronológica, o que ajuda o público a se localizar no tempo: enquanto o colorido representa as lembranças de um passado recente (interrompido pela morte de seus respectivos cônjuges), o preto e branco pontuam o momento presente (pautado pelo recomeço e a busca pela felicidade). É através desta brincadeira com o “tempo narrativo” que o diretor vai revelando as memórias do casal de protagonistas.

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Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e roteiro original em 1967, além do Palma de Ouro em Cannes no ano anterior, Um Homem, Uma Mulher ainda apresenta as atuações magnânimas de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant. Anos mais tarde, Lelouch repetiria o par central na sequência Um Homem, Uma Mulher: 20 Anos Depois, não obtendo o sucesso do filme original. Mas isso não desqualifica Um Homem, Uma Mulher em nenhum aspecto. Assisti-lo ainda nos dias de hoje é uma experiência cinematográfica indescritível. Mesmo em sua simplicidade, esta produção francesa é rica em sua magnitude de sentimentos – o que por si só já lhe garante o status de obra-prima do cinema.

A Corte (L’hermine)

Um homem é acusado do homicídio de sua própria filha de apenas sete meses. Quem vai julga-lo é o temido juiz Michel Racine (Fabrice Luchini), o presidente do tribunal. Conhecido como “dez para cima” (uma referência à quantidade de anos com a qual seus réus são condenados), Racine é tão rígido com os outros como é consigo mesmo: quase inatingível, tem cara de poucos amigos e trata todos os seus casos guiando-se sempre pela razão e com extremo profissionalismo.

A Corte é, a princípio, um típico filme de “tribunal”. Praticamente toda sua narrativa é centrada no julgamento presidido por Racine: acompanhamos ali os depoimentos de defesa, acusação, testemunhas e também as percepções do júri popular que irá condenar ou não o réu. Por este motivo, é compreensível que o expectador possa se sentir um tanto entediado com a história, pois ela em poucos momentos se expande para fora daquele núcleo – e por mais que a direção de Christian Vincent seja competente, ela é incapaz de fazer com que o público abrace totalmente a “causa”.

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O roteiro consegue despertar o interesse com algumas tramas paralelas, mas há um problema: elas parecem caminhar para um lado, mas acabam indo por outro: o suposto “resfriado” de Racine é desnecessário, assim como a sequência em que o magistrado vai até sua casa e dialoga com os moradores; a entrada de uma personagem adolescente pouco (ou quase nada) agrega ao longa. Mesmo a história secundária do filme passa quase despercebida: um dos membros do júri é Ditte (Sidse Babett Knudsen), uma mulher que passou pela vida de Racine anos atrás e por quem ele ainda nutre algum tipo de sentimento – mas nunca sabemos ao certo qual é e como realmente se deu a relação entre eles.

Talvez a grande proposta de A Corte é trazer uma reflexão sobre como uma pessoa do passado pode mudar ou influenciar nosso presente. O quanto somos dependentes de alguém que, em determinado instante, foi importante para nós? São questionamentos que A Corte até levanta, mas não responde. Apesar do ritmo leve e despretensioso da obra, A Corte não chega a ser um grande filme para o público “comum”- e mais do que isso: de forma cíclica, ele termina exatamente de onde começou, obtendo pouca relevância dentro da produção cinematográfica francesa contemporânea.

Meu Rei (Mon Roi)

Tony e Georgio se conhecem casualmente e logo se apaixonam. Ela, mulher independente, é uma advogada bem-sucedida; ele, por sua vez um sedutor convicto, é dono de um restaurante e figura frequente nos eventos mais “moderninhos” da cidade. O relacionamento dos dois se intensifica, mas logo perde forças à medida que as diferenças entre eles ficam mais perceptíveis e cada um passa a conhecer o melhor e o pior do outro. Tempos depois, Tony, que está internada em uma clínica de reabilitação para se recuperar de um grave acidente de esqui, tem a oportunidade de olhar para trás e avaliar a turbulenta relação com o ex-marido.

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O roteiro muito bem desenvolvido de Meu Rei intercala as sequências de terapia de Tony com os flashbacks que a levaram até aquela situação. A transição entre os dois núcleos, no entanto, é bastante sutil, quase imperceptível (o que pode até confundir o espectador menos atento), mesmo que haja diferenças entre eles: enquanto o presente é pontuado por muita luz natural (transmitindo a ideia de tranquilidade, paz, alívio de nossa protagonista), o passado é retratado através de uma montagem mais rápida e ágil, reforçando toda tribulação daquele período.

Com personagens bem construídos, Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel se sobressaem com suas performances poderosas. Enquanto a primeira nos faz sentir de perto sua dor, parecendo uma pessoa como qualquer um de nós (não à toa, Bercot levou o prêmio de melhor atriz em Cannes), Cassel é o maior acerto do filme. Ainda que a história seja de Tony, o ator francês encarna com perfeição o tipo “cafajeste” irresistível: aquele que você ama e quer por perto, mesmo conhecendo todos os seus defeitos. Arriscaria dizer que Meu Rei apresenta as melhores atuações da carreira da dupla. Outro destaque positivo fica por conta de Louis Garrel, muito à vontade como o antagonista Solal e com um timing cômico perfeito (aliás, sua personagem é o único “comic relief” da narrativa).

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Dirigido por Maïwenn, Meu Rei se equilibra na linha tênue entre o melodrama e o antirromântico. Com um ritmo agradável, Meu Rei nos propõe refletir sobre relacionamentos abusivos e o quanto eles podem nos machucar e causar feridas ao longo da vida. Quando o amor acaba e a relação se desgasta, vale a pena insistir nela? É um questionamento que, em determinado momento de nossa existência, todos nós nos fazemos, como se fosse uma situação vivida por nós ou por alguém que conhecemos – o que torna Meu Rei uma obra com a qual o público vai facilmente se identificar.

Marguerite (Marguerite)

Será que a verdade deve ser dita em qualquer circunstância, a qualquer custo? Esta é a pergunta que permeia toda a narrativa de Marguerite, novo longa de Xavier Giannoli estrelado pela musa francesa Catherine Frot.

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Inspirado livremente na vida de Florence Foster Jenkins (considerada a pior soprano do mundo ou cinicamente conhecida como “a diva do grito”), Marguerite nos leva à França dos anos 20 para nos apresentar a Marguerite Dumont, uma aristocrata parisiense apaixonada pela música, em especial por óperas. Todos os anos, a socialite canta regularmente para seu círculo de conhecidos, mas há apenas um problema: sua voz. Marguerite acredita firmemente ser uma grande intérprete, quando na realidade não consegue cantar uma única nota sem desafinar. Seus amigos e, principalmente, seu marido são os que alimentam esta ilusão, até o dia em que Marguerite, convencida de seu talento, decide se apresentar para um público “de verdade” na Ópera Nacional de Paris.

Interpretada de forma terna por Catherine Frot, Marguerite é uma personagem encantadora. Construída com graciosidade, Marguerite faz o público rir com ela, mas nunca dela. Pelo contrário: nos sensibilizamos com esta protagonista, sentimos amor por ela. Marguerite não é em nenhum instante um motivo de chacota diante da tela; ela é uma mulher otimista, cândida, corajosa e mesmo que não possua os atributos necessários para ser uma grande cantora, o espectador se enternece por seu drama. Enganada por todos a sua volta, Marguerite sempre mantem o sorriso no rosto, o que nos comove.

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Giannoli se coloca aqui como um excelente contador de histórias: a forma como conduz a narrativa é envolvente e é amparada por um design de produção competente e uma fotografia muito pertinente. Apesar de um pouco esticado (devido a algumas tramas paralelas um tanto desnecessárias), Marguerite é uma obra agradabilíssima, que se utiliza de um argumento trágico para criticar o oportunismo na classe alta: todos ao redor de Marguerite são hipócritas, desonestos e se aproveitam da situação em algum modo – não muito diferente de nossa contemporaneidade, diga-se de passagem. Quem será o responsável por revelar a verdade à nossa protagonista, nem que ela seja tão dolorosa? Com alguns lampejos cômicos inseridos nos momentos certos, Marguerite é comovente dentro de sua proposta, se tornando, assim, uma obra indispensável.