Vingança (Revenge)

Sim, o título entrega o filme: Vingança é uma soberba obra sobre… vingança. O longa de estreia de Coralie Fargeat mantém a velha estrutura já conhecida do rape and revenge (literalmente “estupro e vingança”), um subgênero do exploitation muito comum na década de 70. Neste thriller  francês, somos apresentados a Jen (Matilda Lutz), a típica figura que habita o imaginário de todo homem heterossexual: uma espécie de Lolita, jovem, atraente, desfilando em roupas provocantes (enquanto chupa um pirulito) e fazendo pose. Ela mantem uma relação com Richard, um empresário casado que a leva para uma casa em meio à paisagem inóspita do deserto marroquino, onde o bonitão se reúne todo ano para uma espécie de caçada com os amigos. A situação se complica com a chegada antecipada de Dimitri e Stanley, os dois sócios de Richard, que já de cara se sentem atraídos pela garota. Após ser estuprada, Jen é assassinada pelo próprio amante e seus comparsas – bom, ao menos é nisso em que eles acreditam. Jen sobrevive à tentativa de homicídio e parte em uma busca frenética para se vingar do trio.

Apesar do roteiro extenso (em especial na condução da odisseia da mocinha rumo ao seu propósito sangrento), Vingança chama a atenção por sua boa cinematografia, em especial pela fotografia munida de cores vibrantes e uma trilha sonora que contribui muito à narrativa (composta por músicas pop e alguns trechos com sintetizadores, que dão à fita uma cara de produção setentista, mas num toque muito mais moderno). É interessante notar ainda a evolução de nossa protagonista: seu instinto de vingança a torna uma verdadeira máquina de matar, impiedosa, fria e calculista. Importante, no entanto, destacar alguns pontos que acompanham esta trajetória, principalmente a mise-en-scène de Fargeat, que não poupa na violência, mas a reproduz de forma muita estilizada e visceral. Há muito sangue, mas nada é completamente gratuito – lembrando em alguns momentos o cinema tarantinesco (a perseguição final, por exemplo, é fantástica). Ainda é importante destacar os belíssimos trabalhos de maquiagem, design de produção e figurino – este último ajuda a caracterizar de forma precisa o progresso de nossa personagem.

Em tempos turbulentos, Vingança mostra a misoginia em seu pior ângulo. Mulheres ainda são tratadas como mero objeto do desejo masculino. Ela sofre com a negligência dos homens à sua volta e diálogos como “você é tão bonita que ele não resistiu” ou “ainda ontem você estava dançando agarrada a mim” reforçam a maneira como a mulher ainda é subjugada por uma cultura excessivamente machista. Talvez Vingança  queira levantar este debate – ou talvez só queira mesmo trazer uma história (batida, sim, porém bem executada) sobre vingança. Seja lá qual for o objetivo da cineasta, Vingança é um filme ousado que merece ser conferido – afinal, sempre é bacana ver macho escroto sendo humilhado, não?

Han Solo: Uma História Star Wars (Solo: A Star Wars Story)

Eternizado pelo absoluto Harrison Ford, Han Solo não é o grande herói da primeira trilogia Star Wars (tarefa que ficou sob responsabilidade de Luke Skywalker) – mas sempre foi um dos personagens mais amados da franquia. Na verdade, Han é um anti-herói com características que o tornaram queridinho por meninos e meninas (principalmente o estilo charmoso e malandro do bonitão). Não foi surpresa, portanto, quando a Disney anunciou a produção de Han Solo: Uma História Star Wars, um spin-off  que trata as origens deste personagem antes dos acontecimentos de Uma Nova Esperança, de 1977.

Com uma narrativa que é praticamente um western espacial (tem assalto a trem, foras da lei, duelos e reviravoltas, perseguições, etc.), o filme dirigido por Ron Howard (Uma Mente Brilhante, O Código Da Vinci) é inicialmente situado em Corellia, onde o jovem Han e sua namorada de longa data, Qi’ra, são separados. Para conseguir dinheiro e resgatar sua amada, Han aceita trabalhar para uma perigosa gangue estelar comandada por Dryden Vos – e, entre os encontros e desencontros típicos da série, o mercenário se vê envolvido em um esquema muito maior que pode colocar em risco toda a galáxia.

Filme mais caro de Star Wars até aqui (superando O Despertar da Força), Han Solo não parece ter sofrido tanto com a troca de diretores e as diversas refilmagens às vésperas de seu lançamento – afinal, não é um episódio ruim. Mas quando nos damos conta que o longa pertence à família Star Wars… aí é que mora o perigo. Chegando aos cinemas meio desacreditado (e com toda a razão), Han Solo é independente dos demais capítulos (você não precisa ter assistido à franquia para entender o que está acontecendo na tela), funcionando quase como um mero encontro entre os personagens clássicos e a apresentação de novos. Narra a origem do piloto, bem como o fortuito encontro com Chewbacca (que seria seu companheiro durante toda a vida) e até mesmo a aquisição de sua nave, a Millennium Falcon. A trama, em si, não traz nada de relevante (a princípio) e é muito menos elaborada que as demais: em suma, é apenas um filme para se conhecer/expandir a série, buscando trazer respostas desnecessárias e deixar uma ou outra referência com o intuito de conectar as histórias.

Mas não se deixe levar pelas críticas não tão positivas: Han Solo: Uma Aventura Star Wars é um bom filme, sim, família, com muita ação, aventura, boas atuações (Alden Ehrenreich está ótimo como protagonista), uma bela fotografia (muito menos poluída do que outros títulos da saga), trilha sonora caprichada… Enfim, é puro entretenimento, porém desnecessário dentro de um universo tão rico quanto Star Wars – tornando-se, assim, um simples momento escapista da obra de George Lucas.

Os Fantasmas de Ismael (Les Fantomes d’Ismaël)

Estava pesquisando sobre Arnaud Desplechin e não fiquei surpreendido ao ler que o cineasta é considerado o Woody Allen francês – seja nos diálogos do cotidiano ou mesmo nas reviravoltas de suas narrativas. Claro: Desplechin não tem a mesma popularidade (muito menos a vasta filmografia) de Allen, mas tem lá seu talento – que, infelizmente, passa longe em seu novo filme, Os Fantasmas de Ismael.

Os Fantasmas de Ismael tinha tudo para dar certo: um realizador competente, uma sinopse intrigante e curiosa (um diretor prestes a finalizar seu novo longa é surpreendido com o retorno de sua esposa dada como morta, após 20 anos de desaparecimento),  um elenco estelar  e um plus: o filme abriu a última edição de Cannes, em 2017. Mas não foi desta vez: Desplechin entrega um título enfadonho, praticamente um exercício próprio, que trafega vários gêneros e linhas temporais sem um fio narrativo consistente.

Em seu acabamento, Os Fantasmas de Ismael se mostra uma grande confusão: inicia-se como um thriller, vai para uma espécie de policial, tem umas pitadas de comédia, aposta no drama familiar… é tanto tiro sem nexo que tudo soa um tumulto só. O espectador sai do cinema com a sensação de que assistiu pelo menos uns três filmes diferentes – todos eles regulares, desperdiçando um time incrível e uma história com grande potencial. De fato, há um “filme dentro do filme”, que até mesmo se confunde à trama principal (mas seja como for, dentro ou fora, nada funciona).

A resposta para esta quimera pode ser a pretensão de Desplechin em criar, como ele mesmo  adverte, “um ensaio fílmico sob o olhar atento à natureza do pintor Jackson Pollock” (ele, Pollock, uma referência no expressionismo abstrato – um movimento que, por si, já é difícil de definir). Assim é Os Fantasmas de Ismael: impossível de se definir. Até mesmo porque é tanta confusão que a gente nem sabe por onde começar…

Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here)

Há intérpretes que são excepcionais para os tipos insanos, perturbados ou alucinados. Joaquin Phoenix é um deles: quanto mais “tresloucado” seu personagem, parece que mais intensa é sua atuação, fazendo com que o ator porto-riquenho se dispa de qualquer vaidade e vício e embarque profundo em sua loucura. Logo, Phoenix foi a escolha perfeita para dar vida a Joe, um sofrido veterano de guerra que vive com a mãe debilitada e trabalha quase que anonimamente libertando garotas traficadas para o comércio sexual. Em uma de suas melhores atuações (e esnobado em muitas premiações), Phoenix é, definitivamente, a força motora de Você Nunca Esteve Realmente Aqui, novo filme de Lynne Ramsay.

Verdadeiro estudo sobre a mente de Joe, Você Nunca Esteve Realmente Aqui é um filme perturbador em seu minimalismo, assim como Precisamos Falar Sobre o Kevin (obra mais conhecida da cineasta). A violência aqui não é totalmente explícita, mas ela consegue alcançar o espectador de forma muito contundente, causando um desconforto que nos desequilibra. Muito desta sensação é mérito de sua impecável trilha sonora (provavelmente com alguma inspiração tarantinesca) e da primorosa fotografia, que tornam a atmosfera do longa bastante “pesada”, fazendo-nos sentir exatamente a angústia e melancolia de Joe. Aliado a um roteiro muito bem escrito, esses elementos são essenciais para que, em apenas uma hora e meia, tenhamos uma aula completa sobre desenvolvimento de um personagem. Existem até algumas comparações com Taxi Driver, de Scorsese – e, de fato, essa relação não é de tudo vã.

Entretanto, justamente por ser tão rico na construção de seu protagonista, Você Nunca Esteve Realmente Aqui é um bocado cansativo, já que é minucioso em seus detalhes. Alguns trechos também soam confusos, especialmente quando recorrem às lembranças de Joe (que são jogadas sem muito critério e, em um primeiro momento, parecem não ter conexão alguma). O filme ganha bastante quando nosso (anti)herói descobre estar envolvido em uma conspiração política capaz de colocar em risco sua própria vida – e aqui temos as melhores sequências da obra. Você Nunca Esteve Realmente Aqui vai além de um thriller psicológico: é uma observação da mente de uma personagem atormentada, à beira do caos. Favorecido por uma atuação acima da média e uma direção segura e competente, Você Nunca Esteve Realmente Aqui não é para qualquer um, é verdade; mas para os que se propuserem, vale muito a pena.

De Encontro Com a Vida (Mein Blind Date mit dem Leben)

Se você é daqueles que pensam que o cinema europeu só é feito de obras cultas, filosóficas e cheias de reflexões existencialistas, você precisa assistir a De Encontro Com a Vida. Apesar do modesto desempenho lá fora, esta dramédia alemã é um daqueles filmes despretensiosos que fazem você sorrir e sair do cinema cheio de esperança. A trama acompanha Saliya Kahawatte, um jovem ambicioso que leva a vida como qualquer pessoa comum de sua idade. Prestes a concluir seus estudos, porém, Saliya descobre ser portador de uma grave doença ocular, que faz com que ele perca quase toda sua visão. Ainda assim, ele decide se candidatar à vaga de estágio em um luxuoso hotel em Munique e realizar seu maior sonho: virar empregado do local. No entanto, as coisas não são tão simples: para não perder a oportunidade de mostrar seu talento, ele terá de se adaptar à sua nova condição enquanto tenta omitir sua “deficiência”.

De Encontro Com a Vida não é um filme inovador e sua fórmula é pra lá de previsível: um personagem que precisa esconder um segredo e viver uma vida “dupla”. Mas isso não desqualifica o longa de Marc Rothemund: pelo contrário, é o tom leve e divertido de sua narrativa que o tornam um título intensamente agradável, cuja única intenção aparente é a de divertir o espectador. O elenco esbanja química, em especial a dupla Kostja Ullmann e Jacob Matschenz (este último, responsável pelas melhores sequências cômicas) e a trilha sonora é deliciosa. O entretenimento, no entanto, é puramente escapista – e aqui encontramos uma lacuna na obra. De Encontro Com a Vida teria potencial para explorar melhor as condições, as oportunidades e os preconceitos que as pessoas com deficiência visual sofrem, mesmo em países supostamente mais desenvolvidos. Prefere, entretanto, focar-se na trama de superação de seu protagonista, nos dando a falsa ideia de que basta você se esforçar que o sucesso virá – e sabemos que, na realidade, não é bem assim que funciona. Ainda assim, De Encontro Com a Vida surpreende positivamente, provando que os europeus também sabem se divertir…

Baseado em Fatos Reais (D’Après une Histoire Vraie)

Roman Polanski não é um cineasta qualquer. Deixemos de lado sua polêmica vida pessoal e nos concentremos em sua primorosa obra: há títulos relevantes, como Chinatown (considerado um dos melhores roteiros da história do cinema), O Pianista (filme que lhe rendeu o merecido Oscar de direção) e os pertencentes à famosa Trilogia do Apartamento (nesta ordem, Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary  e O Inquilino). Há também momentos menos inspirados, é verdade (um esquecível Que?, o fiasco Piratas e um subestimado O Último Portal  – ainda que este último seja estrelado pelo astro hollywoodiano Johnny Depp, no auge dos anos 90), mas todos, sem exceção, carregam uma dose da mise-en-scène de Polanski, assim como seu mais recente projeto, Baseado em Fatos Reais.

Após uma sequência de bons filmes (O Escritor Fantasma, Deus da Carnificina e o magnífico A Pele de Vênus), Polanski entrega algo inferior à boa parte de sua filmografia com Baseado em Fatos Reais. Com raízes fincadas no best-seller homônimo de Delphine de Vigan, a trama gira em torno de uma escritora (Emmanuelle Seigner) com bloqueio criativo após o sucesso de seu último livro. Deixada de lado pelos filhos e pelo namorado, Delphine é presa fácil para Elle (Eva Green), uma sedutora e misteriosa admiradora que ganha a vida como ghost-writer de celebridades. A partir daí, Elle passa a se tornar cada vez mais presente na vida da artista – e, claro, exercer certo domínio sobre ela.

Acolhido sem muito entusiasmo em Cannes no ano passado, Baseado em Fatos Reais chegou na época em meio às inúmeras reportagens e protestos envolvendo as acusações de assédio de menores cometido por Polanski – o que, fatalmente, reduziu a expectativa do público com relação ao longa. Mas não é isso que torna Baseado em Fatos Reais um título esquecível no inestimável catálogo do cineasta franco-polaco. Há alguns erros primordiais que enfraquecem sua película, a destacar primeiramente o roteiro tão pouco estimulante, que recicla vários elementos já manjados de um thriller convencional. Já disse e repito: não vejo problemas com clichês de gênero, desde que sejam bem utilizados – mas aqui, Polanski extrapola nas soluções fáceis para o desenrolar do argumento (por exemplo, o esgotamento de Delphine após uma sessão de autógrafos, a tela em branco do computador para simbolizar a falta de criatividade da autora, o vermelho do batom, unhas e echarpe de Elle, etc.). Tudo parece muito artificial, como que se forçando a barra para fazer crível o relacionamento conturbado entre as protagonistas (duas atrizes que se esforçam ao máximo em suas performances, mas são incapazes de entregar algo além do mediano).

Os acertos existem, é claro. E quem acompanha a filmografia do diretor pode confirmar: dos seus últimos filmes, este é, provavelmente, o que mais tem cara de Polanski (principalmente aquele do início de carreira) – seja na tensão que tenta evocar, no desenvolvimento lento e minucioso das personagens, no erotismo que surge em alguns instantes para dar aquela desequilibrada na narrativa e deixar o espectador com cara de “ué?”. Se fosse lançado lá nos anos 70 (e até 80), certamente Baseado em Fatos Reais seria melhor recebido. Hoje, infelizmente é apenas o exercício de estilo de um cineasta que já não funciona tanto, sugerindo que ele precisa se reinventar. Enfim, Baseado em Fatos Reais é um verdadeiro Polanski, sim – só que sem o brilho de outrora.

A Grande Jogada (Molly’s Game)

Após um grave acidente que a impediu de participar dos Jogos Olímpicos, Molly Bloom (Jessica Chastain) decidiu mudar-se para Los Angeles e recomeçar a vida. Ex-promessa do esqui norte-americano, não demora muito até que a jovem conheça o mundo da jogatina, tornando-se a responsável pelo gerenciamento de um clube de pôquer milionário, que envolvia celebridades mundiais e a máfia russa.

A Grande Jogada é o filme de estreia de Aaron Sorkin, respeitado roteirista hollywoodiano, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado por A Rede Social, de 2010. E Sorkin traz sua marca registrada para A Grande Jogada: seu argumento, inspirado no livro da própria “princesa do pôquer” (como Bloom ficou conhecida), é repleto de diálogos e bastante ágil, o que confere um ritmo interessante à trama que, mesmo longa, dá espaço suficiente para que a história seja desenvolvida sem muitas pontas. Com um roteiro competente em mãos, Sorkin não tem dificuldade na direção da fita, entregando um trabalho que, se não é excepcional, ao menos cumpre aquilo que promete: um drama criminal envolvente.

Com mais uma atuação acima da média, Jessica Chastain desponta como uma das maiores atrizes de sua geração. Mesmo com uma carreira relativamente curta, Chastain coleciona personagens fortes e “empoderados”. Aqui não é diferente: sua Molly é uma protagonista única, daquelas que sabem o que quer e o que exatamente precisa fazer para alcançar este objetivo. Jessica faz um tipo cheio de personalidade, que sabe como usar o que tem à sua disposição para chegar ao topo. A Grande Jogada é absolutamente seu e é interessante perceber o turbilhão de emoções de Molly, transformando-a em uma personagem “humana”, palpável: ela pode ser durona, sim, mas sofre calada com a arrogância do pai exigente; ela pode ser sedutora, sim, sabendo como manter os homens por perto, mas sempre à certa distância.

Algumas escolhas da fita, entretanto, acabam prejudicando-a um bocado. Inicialmente, sua duração – uns 20 minutos a menos seriam ideais. A relação entre Molly e o pai, em especial já nos instantes finais, parece um tanto falsa justamente pela carga dramática que até então fora inexplorada. A forma como Molly também se posiciona em um submundo razoavelmente masculino também é questionável: toda vez em que ela está “quase lá”, aparece um homem para cortar suas asinhas – uma estranha “independência” difícil de ser creditada a uma mulher aparentemente tão segura. Ainda com estes pequenos deslizes, A Grande Jogada é um baita filme, com um dinamismo incrível e uma história eletrizante, daquelas que merecem ser conferidas. De quebra, traz uma esplêndida performance de uma atriz que dispensa comentários e uma estreia digna para um cineasta que, a julgar por este título, tem ainda muito a oferecer ao cinema.

Artista do Desastre (The Disaster Artist)

Confesso que desconheço as circunstâncias e condições sob as quais foi produzido Artista do Desastre, novo longa dirigido e estrelado por James Franco – mas tudo leva a crer que este tinha tudo para ser mais uma daquelas bombas em que o workaholic James vira e mexe aposta. Felizmente, Artista do Desastre está no rol dos melhores filmes de Franco, tanto atrás das câmeras quanto à frente delas, já que somos surpreendidos com sua melhor performance desde 127 Horas.

Baseado no livro The Disaster Artist: My Life Inside The Room, de Greg Sestero e Tom Bissell, Artista do Desastre mostra o processo de produção de The Room, filme de 2003 considerado um dos piores longas do cinema em todos os tempos. Na trama, acompanhamos Sestero (Dave Franco), um jovem ator com o profundo desejo de se tornar um astro. Ao conhecer o misterioso e excêntrico Tommy Wiseau (James Franco), os dois partem para Los Angeles e decidem fazer o próprio filme (após inúmeras tentativas fracassadas de embarcar em grandes projetos). O que a dupla mal imaginava era que a obra se tornaria um sucesso cult no futuro.

Assim como o Ed Wood de Tim Burton (o roteiro segue a mesmíssima premissa), Artista do Desastre é uma daquelas comédias de absurdo, em alguns momentos quase surreal, que causa estranheza logo de início. Entretanto, é interessante o quanto o argumento consegue desenvolver a história sem caracterizar de forma pejorativa sua personagem principal. A atuação de Franco agrega muito à narrativa: ele constrói seu Wiseau de forma cuidadosa, nada caricata, ora engraçado, ora triste, um gênio ou um embuste, frustrado por não ser compreendido mas impossível de se fazer compreender; enfim, o ator consegue dar vida a um protagonista cheio de nuances por quem é difícil ficar indiferente, mesmo com todas suas bizarrices. James, com louvor, foge de qualquer imitação fácil e acha o ponto certo, nem mais, nem menos – tanto pela própria interpretação quanto pela maquiagem que o deixam quase irreconhecível. Dave Franco, em sua primeira parceria com o irmão, tem menos tempo de cena mas não deixa a desejar, cumprindo satisfatoriamente a função de antagonista. Definitivamente, a relação problemática entre Sestero e Wiseau é muito bem delineada pelos irmãos Franco.

Apesar de algumas tramas paralelas no início da fita que acabam dispersando um bocado, Artista do Desastre retoma as rédeas a partir do segundo ato para não parar mais. Porém, mais do que uma fita a revelar os bastidores de um filme “ruim” (e que praticamente coloca o público dentro do set de filmagem), Artista do Desastre é também uma história sobre sonhos e sobre não desistir deles, mesmo quando tudo ao seu redor não for favorável. Ok, isso é meio clichê, não é? Por sorte, Franco consegue, com muita competência, criar uma obra deliciosa, que diverte, emociona e também traz lá suas reflexões. Oxalá ele esteja tão inspirado nas próximas vezes para nos dar trabalhos que não sejam tão desastrosos como algumas de suas escolhas ao longo da carreira.

Eu, Tonya (I, Tonya)

A patinação no gelo é um esporte que ostenta charme, elegância, sofisticação – justamente o oposto da personalidade efusiva de Tonya Harding. Da infância pobre marcada pela relação conturbada com a mãe à ascensão no meio esportivo, Tonya tornou-se famosa não apenas por sua capacidade técnica mas também pelo escândalo que destruiu sua carreira: às vésperas dos Jogos Olímpicos de 1994 (naquela que seria sua segunda participação), Tonya foi acusada de planejar, ao lado do marido Jeff Gillooly, o ataque que tentou incapacitar uma de suas principais concorrentes, Nancy Kerrigan.

A grande dificuldade em se produzir cinebiografias é fugir do formato tradicional deste tipo de narrativa: a estrutura, em geral, já vem “pronta” e muitas vezes fica limitada aos eventos que buscam relatar. Eu, Tonya, por sua vez, é uma grata surpresa nesta temporada e suas maiores virtudes são a quebra da “quarta parede” e a atmosfera de falso documentário que permeia a trama. Não, esses elementos não são totalmente originais, sabemos disso; mas o roteiro de Steven Rogers (de Lado a LadoP.S. Eu te amo) consegue manipula-los de maneira inteligente, o que valoriza esta história que, sobretudo, discute o feminismo com uma abordagem irreverente, fora do comum.

Com uma performance deslumbrante, Margot Robbie é a estrela da fita. Esta é, provavelmente, sua melhor atuação até aqui (aos 27 anos, a loura coleciona bons títulos em sua filmografia) e fatalmente lhe renderá uma indicação ao premio de melhor atriz no Oscar. A intérprete faz de Tonya uma protagonista com incrível carisma e empatia, ainda que suas ações nem sempre sejam vistas com bons olhos. O público torce por Tonya, mas sabe que a garota precisa tomar um rumo na vida – seja posicionando-se frente à mãe exigente (a excepcional Allison Janney), como também dando um “chega pra lá” no marido agressor (um Sebastian Stan muito eficiente, outro grande desempenho no elenco).

Embalado por uma trilha que evoca as sonoridades das décadas de 80/90, Eu, Tonya chega de mansinho, mas se mostra uma das cinebiografias mais interessantes desta temporada. Ao “quebrar” a estrutura usual do gênero, o filme de Craig Gillespie apresenta uma fórmula não convencional para narrar uma história atípica, inusitada e polêmica, cujos personagens não são lá exemplos a serem seguidos, é verdade; pelo contrário, são tipos problemáticos que estão sujeitos a todo e qualquer tipo de sentimento. O que os diferencia são as atitudes que tomam diante dos acontecimentos de suas vidas. Eu, Tonya é uma obra sobre escolha e como elas nos afetarão em algum momento.

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird)

Talvez a característica marcante de Lady Bird: A Hora de Voar, recebido pela crítica como um dos grandes títulos desta temporada, é o fato de o filme dirigido e roteirizado por Greta Gerwig (um dos símbolos do cinema independente norte-americano) não reinventar a roda. Pelo contrário, Lady Bird evidencia uma tendência contemporânea: a produção de filmes com “cara” de cinema alternativo, algo meio “indie” (ainda que não o seja por completo), a tratar sobre temas comuns à juventude.

No caso de Lady Bird, nossa protagonista é Christine McPherson. A adolescente mora com os pais na cidade de Sacramento, na Califórnia, no início dos anos 2000. O relacionamento com a mãe controladora é conturbado: com personalidades muito fortes, as duas definitivamente não se combinam – logo, é pelo pai (um desempregado, em plena crise que afetou a economia do país na época) que Christine mantém uma profunda admiração. Todos os planos de Lady Bird (como Christine prefere ser chamada) são frustrados pelas situações naturais da vida: cursar uma universidade na costa leste é impossível devido às suas notas; sua “carreira” de atriz é abandonada no colégio, já que ela nunca consegue bons papéis; seu namoro não vai lá muito bem, uma vez que seu namorado possui sérios problemas de identidade. Para completar, ela não é bem a garota mais popular em seu meio; na realidade, Lady Bird é apenas mais uma na multidão.

Lady Bird é um filme, sobretudo, de memórias, daqueles capazes de fazer o espectador reviver cenas de seu passado. Percebe-se que alguns trechos da narrativa são puramente biográficos, o que contribui muito para uma identificação imediata com Christine, principalmente na primeira parte da fita. Entretanto, apesar do início promissor, o segundo ato deixa a desejar. Em suma, Lady Bird começa melhor do que termina. A trama parte para algumas soluções fáceis (a aproximação com a menina popular, a paixão pelo garoto descolado, o sentimento de vergonha dos pais, etc.). Alguns personagens convertem-se em estereótipos e até mesmo a própria Lady Bird parece ser uma versão teen da protagonista de Frances Ha (obra que lançou Greta Gerwig ao mundo e cujo argumento foi curiosamente desenvolvido pela artista), tornando Lady Bird uma espécie de prequel do longa de Noah Baumbach.

O que faz Lady Bird parecer grandioso, afinal, é a atuação impecável de Saoirse Ronan. Lady Bird é todo seu. A intérprete percorrer a tênue linha entre o humor e o drama com muita sutileza e talento. Já Lucas Hedges poderia render muito mais caso sua personagem fosse melhor aproveitada, enquanto Timothée Chalamet (que eu já elogiei em outras ocasiões) está visivelmente ligado no automático – ou talvez seja apatia de seu tipo mesmo, que o faz parecer desinteressante em todas as aparições. Seja como for, Lady Bird – A Hora de Voar é um longa bonito e bem produzido, é verdade – mas a melhor definição para ele é “fofinho”. Sim, Lady Bird é muito mais “fofinho” do que necessariamente “excepcional”, como muitos o tem considerado. E isso nos leva à uma conclusão: temos urgentemente que parar de achar que só porque um filme é alternativo, “indie” ou “fofinho” ele está acima da média.