Negócio das Arábias (A Hologram for the King)

Inspirado no livro homônimo de Dave Eggers, Negócio das Arábias conta a história de Alan Clay (Tom Hanks), um norte-americano de meia idade e mais uma das vítimas da recessão que assombrou o país em 2008. À beira da falência, Alan se sente culpado pelo fim do casamento e deprimido por não poder bancar os estudos da filha – isto sem mencionar sua saúde um tanto debilitada. Sem muitas opções, o cinquentão viaja para a Arábia Saudita disposto a ofertar um inovador sistema de teleconferência ao rei árabe, que pretende construir uma surpreendente metrópole no meio do deserto.

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Negócio das Arábias é mais um dos inúmeros filmes sobre crise existencial na meia idade – apostando, inclusive, naquela velha fórmula de mandar o protagonista para algum lugar exótico e ali, em meio ao choque cultural e auto avaliação, fazer com ele encontre redenção. O problema de Negócio das Arábias é sua ausência de argumento. Mais do que isso: falta ritmo à narrativa. Às vezes, o roteiro flerta com um lado mais cômico, depois mais dramático, tem até umas pitadas de romance, mas nada realmente interessante ou relevante acontece – pois faltam boas piadas, dramas consistentes e um casal mais apático. Pior: não há um clímax e a única coisa que resta ao espectador é acompanhar a odisseia de Clay em busca de algo que talvez nem ele mesma saiba o que é.

O filme até que dá uma melhorada a partir de sua segunda parte – quando Sarita Choudhury entra em cena, personificando como ninguém o papel da mulher naquela cultura (uma pena que a química entre ela e Hanks seja muito fraca, apesar do desempenho satisfatório deste último). Entretanto, entre flashbacks e tiradas cômicas (batidas e até mesmo xenofóbicas, em alguns instantes) e um personagem principal sem profundidade, Negócio das Arábias é um filme que não sabe ao certo para que veio. E quer honestidade? Não cabe ao público descobrir isso…

Francofonia – Louvre Sob Ocupação (Francofonia – Le Louvre Under German Occupation)

Assistir à uma obra do russo Aleksandr Sokurov não é tarefa para qualquer um. O estilo do cineasta não é fácil – e isso fica perceptível com o ritmo de câmera e a narrativa arrastados que podem facilmente dispersar a atenção dos menos pacientes. Seu Fausto, de 2011, por exemplo, foi ovacionado pela crítica, apesar de ter dividido a opinião do público – houve aqueles que consideraram sua versão do poema trágico de Goethe um clássico instantâneo, mas também houve quem desdenhasse de suas habilidades quanto diretor. Seu mais recente trabalho é Francofonia – Louvre Sob Ocupação que, acolhido com fervor em Veneza no ano passado, ganhou o prêmio de melhor filme europeu no festival.

01Sem uma estrutura de roteiro muito bem definida e narrado de forma quase experimental, Francofonia é ambientado na década de 1940 na França ocupada pela Alemanha Nazi e relata o encontro de Jacques Jaujard, ex-diretor do Museu do Louvre, e o conde Franz von Wolff-Metternich, um oficial alemão. A aliança entre os dois foi primordial para a preservação do patrimônio do museu durante a Segunda Guerra Mundial. A partir deste fio condutor, Sokurov divide a trama em partes distintas, que se alternam entre si para dissecar um período da história daquele que é considerado o maior museu francês.

Francofonia é visivelmente um projeto pessoal de seu idealizador, um admirador apaixonado por museus – não à toa, esta é sua segunda incursão neste tipo de proposta (seu A Arca Russa, de 2002, é simplesmente genial). Utilizando-se de um argumento que mistura documentário e ficção, Sokurov disserta sobre a força da arte como instrumento de depósito das memórias de uma nação – daí a importância de sua conservação, mesmo em uma época onde os museus são cada vez menos frequentados, diga-se de passagem. No entanto, a prepotência do longa em ser muito mais do que aquilo que realmente é tornam o filme enfadonho em diversos momentos. Além disso, a fotografia com imenso potencial é prejudicada por artifícios extravagantes (como o uso de filtros exagerados), além da edição um tanto atabalhoada. Não há também muita “interação”: Francofonia é, assim, um mero relato que muito diz, mas pouco seduz justamente por sua arrogância. É um filme de arte que faz questão de ser tratado como tal – e, com isso, não é todo mundo que o suporte. Questão de ego, não é, minha gente?

Life: Um Retrato de James Dean (Life)

Década de 1950. Durante a festa de um dos figurões da indústria hollywoodiana da época, o fotógrafo Dennis Stock conhece o então pouco badalado mas promissor ator James Dean. Às vésperas do lançamento de seu novo filme, a vida de Jimmy (como era conhecido entre os mais próximos) não era fácil: além do relacionamento conturbado com a atriz Pier Angeli, Dean não parecia muito à vontade com a fama, apesar dos esforços dos estúdios para transforma-lo em um astro. Prevendo a inevitável ascensão do artista, Stock decide apostar suas fichas em um ensaio fotográfico com Jimmy, mesmo que para isso ele tenha que colocar em risco sua própria carreira.

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Dirigido por Anton Corbijn (de O Homem Mais Procurado e o espetacular Controle: A História de Ian Curtis), Life: Um Retrato de James Dean não é necessariamente uma cinebiografia sobre Dean (aliás, falta uma obra definitiva que consiga transpor minimamente para a tela tudo o que James Dean foi). A produção concentra sua narrativa na amizade entre Dennis e James. Enquanto o primeiro mostrava era corajoso ao apostar no potencial da futura celebridade, o tímido e rebelde Jimmy vivia em seu mundo particular, como se não soubesse lidar com tudo o que ocorria ao seu redor. São dois contrapontos bem trabalhados no filme, mas que não ganham muitos contornos uma vez que o argumento não se aprofunda tanto no submundo da indústria do entretenimento. Para além desse grave ponto no roteiro, falta uma identificação do público com seu protagonista. Apesar da semelhança razoável com o intérprete de Juventude Transviada, Dane DeHaan não convence. Seu tipo chega a cansar, seja pelo sotaque preguiçoso ou mesmo pelo olhar forçadamente perdido. Com isso, quem mais se destaca na fita é Robert Pattinson: a cada dia melhor em cena, ironicamente é ele quem surpreende (não à toa, seu nome aparece antes de DeHaan nos créditos, reforçando a tese de que Dean aqui é apenas um mero antagonista).

02Life:Um Retrato de James Dean, no entanto, tem seus méritos, especialmente na fotografia competente e no ótimo design de produção, que contribuem muito para a ambientação do projeto. A trilha sonora soa estranha à primeira audição, mas aos poucos se mostra bastante interessante, embora pouco memorável. A verdade é que, talvez como aconteça com outros grandes ícones, é impossível fazer uma história que beire à perfeição do que foi James Dean. Nenhum ator jamais estará à sua altura, dificilmente encontraremos uma beleza tão peculiar como a dele. Logo, para nós fãs, não resta nada além de sonhar com algo que nos faça sentir tanta paixão quanto o apaixonável Jimmy.

Na Ventania (Risttuules)

Década de 40. Erna é uma estudante de filosofia que vive com o marido Heldur e a filha em uma propriedade no campo na Estônia, até o país ser invadido por Stalin. Heldur é mandado para a prisão, enquanto Erna e a criança são enviadas para uma fazenda de trabalhos forçados, onde a muito custo tentam sobreviver com o pouco que lhes é oferecido.

Filmes sobre este odioso período da humanidade são inesgotáveis e isso não é muito difícil de entender: os horrores cometidos durante a Segunda Guerra Mundial foram inúmeros, infelizmente. Na Ventania é um poderoso relato sobre a deportação em massa para a Sibéria, contada a partir das memórias de Erna, através de uma suposta troca de cartas que o casal efetuava. No entanto, estas correspondências estão longe de estabelecer um colóquio direto entre seus interlocutores, uma vez que as cartas entres eles jamais chegam ao seu destinatário. O que o roteiro de Na Ventania nos apresenta são fragmentos de histórias e lembranças desses dois protagonistas, descrevendo suas emoções, sentimentos e experiências vividas na ocasião.

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Com uma exuberante fotografia em preto e branco, o diretor estreante Martti Helde descontrói a tradicional narrativa cinematográfica em movimento, optando por planos estáticos – os chamados tableaux vivants. O momento observado é congelado na tela e a câmera percorre suas lentes vagarosamente entre as personagens paralisadas – como se os atores fossem estátuas. Os planos fechados aos poucos se abrem, englobando detalhes sutis de cada cena, em planos sequências executados com total destreza. Salvo o vento que movimenta algumas peças ou o piscar de olhos de alguns poucos intérpretes, tudo nos leva a acreditar que estamos diante de uma representação fotográfica comum. Fora do nosso campo de visão, é o som ambiente e algumas vozes que dão maior fluidez à trama – nos proporcionando uma experiência sensorial única.

Esteticamente impecável, Na Ventania não é, por sua vez, um filme fácil. Seu argumento, bem como a forma como é narrado, foge do comum e isso pode causar estranheza ao espectador “comum”, digamos assim. Com uma linguagem de puro lirismo, poética e melancolia e uma trilha sonora arrebatadora, Na Ventania traz à tona um drama histórico que nos permite enxergar com maior sensibilidade o holocausto, se traduzindo assim em uma obra inigualável.

O Novato (Le Nouveau)

Benoit tem 14 anos e acaba de se mudar para Paris. A primeira semana no novo colégio, no entanto, não é das mais fáceis: ele passa a sofrer bullying pelo grupo de Charles, o garoto mais popular de sua sala e os únicos a lhe darem atenção e recebe-lo bem são os tipos mais rejeitados da classe. Seguindo os conselhos de seu tio, Benoit organiza uma festa e convida todos os alunos, porém só aquele bando de “cafonas” e excluídos aparecem – mas será que esses “losers” não podem forma a melhor turma de todas?

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O Novato é uma daquelas gratas e singelas surpresas com as quais nos deparamos no cinema. O filme de Rudi Rosenberg, a princípio, pode não parecer uma grande obra – e, tecnicamente, é bem simples, inclusive em sua premissa: um personagem que se sente isolado e tenta se encaixar em um determinado grupo. No entanto, a maneira leve com a qual o diretor conduz a história faz com que O Novato cresça aos poucos, de forma gradativa, como se acompanhando a odisseia de nosso protagonista em busca de reconhecimento. O público realmente torce por Benoit, um personagem facilmente identificável e que, de cara, nos desperta empatia. E são duas coisas que contribuem para isso: primeiro, o argumento muito bem desenvolvido, que se utiliza de situações comuns e também piadas rápidas, atuais e sutis, inseridas nos momentos oportunos, sem apelação; depois, a química existente entre os adolescentes do elenco, que tornam as atuações muito mais naturais. O jovem estreante Réphaël Ghrenassia, por exemplo, está em ótima performance, demonstrando um timing cômico muito bom.

Talvez o que impeça O Novato de ser impecável seja o fato de o filme buscar uma abordagem mais leve e despretensiosa para tratar um tema contemporâneo sério: o bullying. Ele existe – e é incrível imaginar como as crianças, muitas vezes sem se dar conta, podem ser cruéis uma com as outras. A opção dos roteiristas foi claramente apresentar o assunto com maior comicidade e isso impede O Novato de ser uma referência, mas também não é nenhum problema. Pelo contrário: O Novato é uma comédia deliciosa de se assistir, naquele estilo que só o cinema francês consegue fazer.

Abril e o Mundo Extraordinário (Avril et le Monde Truqué)

1941 – e a Terra está totalmente aquém daquilo descrito nos livros de História. O mundo vive um período “pré-industrial”: o carvão é o principal combustível utilizado e a humanidade está mergulhada em uma era sem grandes inovações – o rádio, a aviação e sequer a eletricidade foram descobertos. A França, ainda presa ao século XIX, é governada por Napoleão V e, assim como em outros países, cientistas desaparecem misteriosamente há mais de 70 anos. Nesse cenário catastrófico, a jovem Abril tenta dar continuidade ao trabalho de seus pais desaparecidos: um soro miraculoso que tornaria o ser humano imortal. Perseguida pela polícia, Abril parte em busca de seus pais na companhia de Darwin, seu gato falante, e Julius, um vigarista por quem a garota irá se apaixonar.

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Apesar dos ótimos traços de Jacques Tardi (responsável direto por toda concepção gráfica, de cenário a personagens) e seu diálogo direto com as HQs, o longa dirigido pela dupla estreante Christian Desmares e Franck Ekinck embarca em uma narrativa tão fantástica que chega a ser quase monótona. Embora a premissa seja interessante, a obra não consegue agradar nem crianças (dada sua suposta profundidade) nem adultos (tamanha confusão do argumento). Há uma importante reflexão sobre a importância da ciência para o desenvolvimento humano – afinal, é impossível sobreviver sem o conhecimento. Entretanto, a trama não se mostra tão interessante para suportar seu tema principal e o tal mundo extraordinário passa desapercebido.

É verdade que o cinema francês, nos últimos anos, alcançou um nível de sofisticação muito especial na produção de animações. A escola neste gênero, apesar de bem diferente das norte-americana e japonesa, desenvolveu seu estilo próprio – assim como seus filmes tradicionais, queridíssimos do público – e vem despertando o olhar da crítica. Poderíamos citar aqui títulos como Os 12 Trabalhos de Asterix, As Bicicletas de Belleville, As Aventuras de Azur e Asmar, A Pequena Loja de Suicídios, Ernest e Célestine e mesmo a recente adaptação de O Pequeno Príncipe. Com cartoons próprios e com uma atmosfera mais séria, é um nicho que vem ganhando grande espaço na atual safra de produções francesas. Infelizmente, Abril e o Mundo Extraordinário deixa a desejar, não obtendo tanta relevância neste gênero.

Os Cowboys (Les Cowboys)

O título “Os Cowboys” é, no mínimo, curioso para uma produção francesa. Mas não se deixe enganar: o filme do estreante Thomas Bidegain é bem mais do que isso e provoca um questionamento interessante: até onde um ser humano é capaz de ir por alguém que ama?

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Alain é um pai de família que vive com a mulher e seus dois filhos no leste da França. De classe média, eles são apaixonados pela cultura country – o número musical do início da fita, inclusive, é agradabilíssimo. Tudo corre bem até o dia em que sua filha Kelly desaparece misteriosamente sem deixar rastros, o que leva Alain a partir em uma busca desenfreada por informações da adolescente. Anos mais tarde, Kid, o filho mais novo, continua ao lado do pai tentando reencontrar sua irmã, ainda que tudo o leve a acreditar que isso será impossível.

Desde o início da projeção, o espectador já é pego de jeito com o clima tenso do filme. Seja pela fotografia bem produzida ou pela excepcional e atordoante trilha sonora de Moritz Reich, a tensão e angústia predominam na fita – e isso faz com que o público embarque na aventura do pai e filho e acompanhe a gradativa destruição desta família. Aos poucos, os laços vão se enfraquecendo à medida em que eles se veem mais longe de encontrar a garota. A situação ainda piora quando se descobre que Kelly não fora sequestrada – e aí, o cenário do longa é mudado, o que é um dos grandes acertos da história. Outro trunfo de Os Cowboys é a troca de protagonistas: Alain cede lugar a Kid e isso proporciona também uma nova visão dos fatos, até chegar a um desfecho glorioso.

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Os Cowboys conta ainda com atuações poderosas por grande parte de seu elenco. François Damiens, irreconhecível, consegue transmitir todo o desespero de seu personagem em busca da filha desaparecida, em uma interpretação até superior àquela registrada em A Delicadeza do Amor (que já era primorosa). Já o jovem Finnegan Oldfield é um caso à parte: ele é genial desde sua primeira aparição na tela. Por alguma razão que eu ainda não consigo bem explicar qual, vê-lo em cena me fez lembrar Hailee Steinfeld em Bravura Indômita – e seria justíssimo qualquer prêmio que o ator ganhasse por sua performance, pois sua entrega à personagem é arrepiante. Drama fortíssimo e muito bem dirigido, Os Cowboys nos faz questionar até onde vale a pena ser consumido por uma causa e acreditar nela mesmo que, em muitos casos, ela já esteja perdida.

Lolo – O Filho da Minha Namorada (Lolo)

Você certamente já viu essa história no cinema: um personagem se sente ameaçado com a aproximação entre duas pessoas e faz de tudo para destruir o relacionamento. Vamos mais além: um filho que não suporta o namorado da mãe e quer a todo custo afugentar o pretendente. No caso de Lolo – O Filho da Minha Namorada, novo filme de Julie Delpy, é o tal Lolo do título quem fica incomodado com o namoro da mãe Violette, uma moderna parisiense produtora de eventos de moda, e Jean René, um pacato programador de sistemas que acaba de se mudar para a capital francesa.

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Um filho (com evidente Complexo de Édipo) tentando sabotar a relação da mãe, como já dito, não é algo original. O que falta em Lolo, no entanto, é profundidade para tratar este tema – que tem grande potencial a ser explorado, diga-se de passagem. Lolo é uma comédia que foge dos padrões franceses, se assemelhando muito ao gênero cômico norte-americano, porém com um toque de extravagância que acaba tornando o filme um tanto quanto “estranho”, mas ao mesmo tempo, interessante. Lolo é uma produção com forte apelo para o público que espera uma comédia despretensiosa – por vezes vazia, sim, mas com capacidade para divertir o espectador que se propõe a assisti-la (ainda que algumas piadas sejam vulgares, fáceis ou recheada de clichês e sem o menor requinte).

Delpy é quase neurótica na pele de Violette, mesmo que sua personagem seja inconstante: uma profissional confiante e firme, mas uma mãe ingênua e imatura diante do filho mimado. Dany Boon é o tipo mais equilibrado da fita, praticamente o único ser “normal” em uma trama repleta de loucos. Já Vincent Lacoste é quem rouba a cena a cada aparição. Ele faz de Lolo um sociopata incrível, um aspirante a artista com o ego lá no alto para quem o mundo deve girar ao seu redor – e isso inclui a exclusividade quando se trata da mãe. Lacoste é, definitivamente, o alívio de um filme que não tenta inovar em nada e veste a camisa de ser uma comédia que busca o riso fácil e rápido. Há quem possa se incomodar ou sentir culpa? Sim, de fato. Lolo não tem impacto emocional algum, mas não deixa de ser agradável devido à sua despretensão – e isso é o que muitos procuram no cinema.

A Viagem de Meu Pai (Floride)

É inevitável: a menos que haja alguma interrupção do destino, chega uma fase na vida em que os papéis se invertem e os filhos se tornam os pais de seus próprios pais. Este é o fio que conduz a trama de A Viagem de Meu Pai, o novo filme de Philippe Le Guay.

A Viagem de Meu Pai acompanha Claude Lherminier (Jean Rochefort, em performance irretocável), um octogenário que começa a sentir, ainda que a contragosto, os sinais da demência senil. Antigo proprietário de uma grande fábrica de papel, Claude está aos poucos perdendo a noção entre realidade e fantasia e é sua filha mais velha, Carole (Sandrine Kiberlain), que o substituiu na gestão da empresa, a responsável pelo pai. A situação complica quando Claude decide viajar a Flórida para rever Alice, a outra filha que não vê há quase dez anos.

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A direção discreta de Le Guay contribui muito para que o cineasta consiga narrar uma história triste de maneira leve: o diretor encontra o equilíbrio exato entre humor e drama, concedendo total sensibilidade para uma temática difícil e que, nas mãos de outros artistas, seria tratada com apelação ou sentimentalismo barato. Para além disso, Le Guay está muito bem amparado pelas atuações excepcionais de sua dupla principal. O veterano Jean Rochefort (em seu último trabalho, já que anunciou sua aposentadoria há alguns meses, infelizmente) é um ator incrível e faz de Claude um personagem que certamente já vimos em algum momento – e por isso a compaixão do público com ele é inevitável. Claude é um típico senhor de terceira idade: para além dos ataques de confusão ou esquecimento, ele insiste em morar sozinho, afugenta a todos que querem o ajudar (inclusive as enfermeiras) e é cheio de manias e obsessões. Seus sorrisos e olhares dão um toque todo especial à sua atuação. Já Sandrine (que retoma a parceria com Le Guay) confere segurança a uma personagem dividida: ela se sente “agraciada” por ter o pai ainda vivo, mas reconhece o peso dos cuidados que ele exige. De um lado, Carole tem a consciência de que o pai precisa dela, mas sabe que terá de abrir mão de sua própria vida pessoal em algumas ocasiões.

Ninguém deveria se desentender com vinho ou com as pessoas. É perda de tempo…

Com uma rica fotografia e uma estética caprichada, A Viagem de Meu Pai é, sem dúvidas, o melhor filme de seu realizador até aqui. O longa nos leva a enxergar a vida de maneira mais solidária, humana: as pessoas estão aí, o tempo passa e não volta jamais – então por que perder tempo com desentendimentos, discussões tolas ou brigas? Isso não é piegas, mas realidade: só percebemos o quanto alguém é importante para nós quando o perdemos – então por que não amar as pessoas como elas realmente são e aproveitarmos o tempo ao lado delas enquanto elas ainda estão vivas? Nos presenteando com um belíssimo desfecho, A Viagem de Meu Pai é um título que consegue a proeza de tratar temas pesados com muita delicadeza e isso já faz dele uma obra magnífica e necessária.

Um Doce Refúgio (Comme un Avion)

Escrito, dirigido e protagonizado pelo francês Bruno Podalydès, Um Doce Refúgio narra a história de Michel, um artista gráfico bem-sucedido que trabalha com seu irmão e leva uma rotina pacata ao lado de sua esposa Rachelle (Sandrine Kiberlain). Mas, ao que tudo indica, Michel não está muito contente com os rumos que sua vida urbana está tomando – e mais do que isso: ele está cansado de sua própria existência. Michael nutre uma paixão: o mundo aeronáutico e a ideia de pilotar um avião (apesar de nunca ter tido tempo para se dedicar à empreitada). Ao descobrir ao acaso que a engenharia de um caiaque é muito semelhante à de uma aeronave, o cinquentão resolve comprar este “enorme” objeto (sem que ninguém saiba) e embarcar em uma viagem solitária, porém repleta de autodescobertas.

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Contando com a fotografia cheia de vida da talentosa Claire Mathon (de Um Estranho No Lago e Meu Rei), Um Doce Refúgio é um filme que revela seu protagonista aos poucos. Michel é um tipo que vai se mostrando ao longo da narrativa: ele busca a felicidade que abandonou anos atrás no exato instante em que deixou de lados os seus sonhos. Apesar do tom cômico, no entanto, Um Doce Refúgio tem uma ponta de melancolia: é como se o cineasta nos fizesse entender que perdemos nossa essência a partir do momento em que deixamos de sonhar. Procurando fugir da crise existencial que está quase o alcançando, Michel parte em seu caiaque em uma aventura repleta de encontros inesperados, que tornam Um Doce Refúgio uma obra cheia de encantos, ainda que não seja memorável.

Apesar de tecnicamente bem estruturado, Um Doce Refúgio é irregular em seu argumento, com algumas sequências visivelmente arrastadas e que pouco agregam ao todo, fazendo com que o espectador às vezes se disperse. Ainda que o elenco seja competente, a direção de Podalydès não consegue manter a agilidade da fita e com isso algumas pontas surgem. Não que estas deficiências atrapalhem totalmente esta experiência: Um Doce Refúgio nos ensina que o que vale é ser feliz, não importa como. Nunca é tarde para corrermos atrás dos sonhos – o que é inadmissível é deixarmos a vida passar diante dos nossos olhos e simplesmente sermos coadjuvantes de nossa própria história. Esta é a maior mensagem de Um Doce Refúgio – uma pena o filme não ser assim tão grande…