Love (Love)

Em uma cena de Love, o estudante de cinema Murphy disserta sobre suas ambições na carreira: fã de Stanley Kubrick (ao ponto de ficar abismado ao descobrir que sua paquera nunca assistiu 2001 – Uma Odisséia no Espaço), ele argumenta que o cinema “tradicional” é estranhamente dividido em dois gêneros. De um lado, os “romances” convencionais, filmes de amor sem sexo; do outro, o pornô, filmes de sexo sem amor. Sua maior aspiração como cineasta é, portanto, criar um filme de “amor e sexo” – uma clara mensagem do que é o novo trabalho de Gaspar Noé.

01

Sim, porque Love é justamente isso: uma obra que se vendeu com a “promessa” das sequências de sexo explícito em 3D, mas que, em seu contexto geral, não é simplesmente isso. E o título não engana: amor. O amor que Murphy só reconhece quando recebe uma ligação da mãe de sua ex-namorada, Electra, dizendo que está sem notícias da filha há meses. Desconfiado que a garota possa ter cometido suicídio, Murphy resgata seu passado com Electra – e entre as lembranças carregadas de remorsos, devaneios e frustrações, vamos conhecendo de forma não-linear a vida (sobretudo sexual) do casal.

Apesar de o sexo poder ser encarado na história quase como um novo personagem – ora traduz a idealização do amor ou sua concretização, ora visto de forma animalesca, apenas pelo prazer do ato – , ele não é a “causa” de tudo o que se acompanha na tela. O relacionamento dos protagonistas vai ladeira abaixo por conta dos ciúmes da mulher e das atitudes descontroladas do homem. Em suma, Love é muito mais um filme sobre “discutir a relação” do que “sexo por sexo”, revelando um tom ligeiramente conservador, moralista.

02

Há ainda um problema: a extensa duração da fita. Narrado quase completamente em flashbacks, Gaspar Noé parece querer tornar sua obra maior do que é. Resultado: é difícil segurar o espectador na poltrona ao longo de mais de duas horas de projeção – ainda mais quando o elenco, cá entre nós, não colabora. O que vale a pena, então? A boa experiência em 3D que, sob certo aspecto, denota bem o isolamento de Murphy ou a eficiente trilha sonora, especialmente nas sequências de sexo.  No geral, faltou um pouco da ousadia prometida – afinal, se o sexo em si ainda é um tabu, não vamos tratá-lo como tal, certo? Love é até razoável – mas é o tipo de filme cuja propaganda é mais interessante do que o produto em si.

Walter (Walter)

Aos dez anos, Walter Gary Benjamin perdeu o pai em decorrência de um câncer – mas o garoto não conseguiu lidar muito bem com essa perda. Desde então, ele é criado pela mãe super protetora em uma pacata cidadezinha norte-americana, onde ele executa uma missão que acredita ter recebido de Deus: determinar o destino das pessoas após a morte, enviando-as para o céu ou o inferno. Para facilitar as coisas, ele é o bilheteiro de um cinema local, onde centenas de indivíduos passam diariamente – e onde ele se apaixona por uma colega de trabalho.

01

Walter é um daqueles filmes que pertencem à safra de produções “fofas”, cult – que a galera indie adora. De fato, o debut da cineasta Anna Mastro é leve e agradável de se assistir – em parte, isto é causado pela ótima fotografia da obra, repleta de luz e cores, favorecendo sua ambientação. O argumento, por sua vez, é devidamente desenvolvido ao longo da fita, delineando bem suas personagens – o que permite ao elenco nos entregar boas atuações. Andrew J. West (da série The Walking Dead) mostra competência como protagonista, concedendo bastante doçura e sensibilidade a Walter – aliás, Andrew é um rosto a ser observado mais de perto a partir de agora. O veterano William H. Macy também apresenta uma boa performance como o psiquiatra de Walter (aquele tipo que é mais estranho do que o próprio paciente), enquanto Virginia Madsen segura as pontas na pele da mãe do personagem título.

02

Se há os que encarem Walter apenas como um filme “bonitinho”, é fato que o longa vai um pouco mais além: ele trata com delicadeza o drama daqueles que não conseguem superar o luto. Viver o luto é um mal necessário, mas não deixa de ser um grande desafio para algumas pessoas. Os conflitos da trama surgem no momento em que Walter passa a ser perseguido por Greg, um espírito que ainda perambula pela Terra por não ter sido enviado ao seu destino final – e isso fará com que Walter questione sua vida e seu futuro. Ligeiramente cômico e com alguns momentos de pura emoção, Walter não é memorável – e, a bem da verdade, está longe de ter a magnitude de outras produções do gênero. Mas isso não o diminui: para o trabalho de uma estreante, Walter tem seus méritos, tanto técnicos quanto como entretenimento – e isto o torna um filme que você deve conferir.

O Rei da Comédia (The King of Comedy)

Menosprezado pela crítica e esquecido pelo público, O Rei da Comédia abriu o Festival de Cannes em 1983, mas logo foi ofuscado pelos demais clássicos de Martin Scorsese. De fato, lançado logo após Touro Indomável (pelo qual Robert De Niro faturou o segundo Oscar de sua carreira), esta tragicomédia hoje pode ser encarada como um curioso e cruel retrato do mundo das celebridades e a corrida pela fama – o que leva o espectador a se questionar a razão do filme não ser tão celebrado quanto outras obras de seu idealizador.

02

De forma enérgica e inspirada, De Niro encarna o papel de Rupert Pupkin, um aspirante a comediante que deseja ingressar no show business, mesmo não possuindo o talento que acredita. Entre seus devaneios e os gritos da mãe no porão de casa, seu maior sonho é ser o novo “rei da comédia”. Determinado a isso, ele tenta se aproximar de Jerry Langford (Jerry Lewis), um famoso artista do horário nobre, para conseguir lhe apresentar seu número. Aos poucos, Rupert se torna mais obsessivo, ao ponto de sequestrar seu ídolo, exigindo uma aparição em seu programa.

Talvez dois fatos tenham contribuído para que O Rei da Comédia não tenha sido um sucesso instantâneo. O primeiro é que o longa foi rodado logo após o presidente norte-americano Ronald Reagan levar um tiro de um jovem que teria assumido ser fã de Taxi Driver, realizado pouco tempo antes. Em segundo lugar, é verdade que o título engana: O Rei da Comédia não é filme totalmente cômico. Ou sejamos honestos: nas mãos de outros cineastas, talvez até fosse uma produção que buscasse o riso fácil, mas não é o que acontece aqui. Apesar de ter um humor ácido, sim, e gerar algumas risadas no decorrer da fita, O Rei da Comédia não é engraçado. Scorsese se utiliza da comicidade para gerar uma reflexão sobre a rejeição – e isso dá a O Rei da Comédia um tom melancólico, perturbador, sinistro.

01

Com uma belíssima fotografia (que recria de maneira competente a Nova York da época, com seus talk-shows e luzes que atraem qualquer indivíduo) e uma trilha sonora pra lá de eficiente, Scorsese dá outros rumos ao roteiro bem escrito de Paul D. Zimmerman, tornando O Rei da Comédia um filme repleto de detalhes que o engrandecem à medida que você presta mais atenção na narrativa. Apesar de não ter a comédia que o título sugere e também não possuir a violência das produções anteriores do diretor (que sequer recorre a técnicas extravagantes aqui), O Rei da Comédia é uma implacável sátira ao culto às celebridades e a busca pelo sucesso, que tornam o ser humano refém de suas próprias bizarrices.

Longe Deste Insensato Mundo (Far From The Madding Crowd)

Qualquer garota gostaria de ser desejada por três belos rapazes – principalmente quando os pretendentes são Matthias Schoenaerts (Ferrugem e Osso, Um Pouco de Caos), Michael Sheen (Alice no País das Maravilhas, saga Crepúsculo) e Tom Sturridge (Na Estrada). A sortuda da vez é Carey Mulligan, cuja personagem no drama Longe Deste Insensato Mundo é disputada por um pastor de ovelhas, um próspero fazendeiro e um capitão do exército. Adaptação do romance Far From The Madding Crowd, escrito em 1874 por Thomas Hardy, a trama de Longe Deste Insensato Mundo acompanha a heroína Bathsheba Everdene, uma jovem camponesa de espírito independente e livre que sonha em ascender na vida. Após receber uma herança, Bathsheba passa a se dedicar ainda mais à agricultura, causando muita influência em sua região e despertando a paixão de três homens com personalidades bastante distintas – o que fará com que Everdene questione suas emoções e sentimentos.

01

Dirigido por Thomas Vinterberg (do ótimo A Caça), Longe Deste Insensato Mundo é um longa tecnicamente impecável. Dentre estes aspectos, ganha destaque especial a excelente fotografia, que valoriza os exuberantes cenários externos. A natureza é capturada com bastante sensibilidade – e o tom épico é ainda mais acentuado pela boa trilha romântica, orquestrada de forma competente por Craig Armstrong. É interessante analisar que tanto a fotografia quanto a música são essenciais para reforçar a atmosfera bucólica da fita, a simplicidade da vida no campo e o passar do tempo.

Infelizmente, Longe Deste Insensato Mundo padece de algo que pode atrapalhar sua experiência: seu apelo novelesco, estendido pela duração exagerada do filme. Com quase duas horas, Longe Deste Insensato Mundo é cheio de reviravoltas, idas e vindas, altos e baixos – mas, no fim das contas, os personagens não chegam a lugar nenhum. Apesar de algumas surpresas na narrativa, o espectador não consegue comprar muito bem a história nem mesmo sua protagonista – uma mulher que não sabe exatamente o que quer e, por esta razão, causa certa repulsa no público, ainda que Mulligan tenha um bom desempenho. Longe Deste Insensato Mundo é um épico muito bem feito, mas cuja condução talvez deixe a desejar em alguns instantes – nada que o torne indigesto, mas tampouco excepcional.

Que Horas Ela Volta? (Que Horas Ela Volta?)

Que Horas Ela Volta?, filme nacional dirigido por Anna Muylaert, foi ovacionado nos festivais internacionais em que participou. Apontado como o grande favorito brasileiro para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro no próximo ano, o longa tupiniquim se utiliza da relação empregado-patrão para construir uma crônica sobre os abismos existentes entre as classes sociais do país.

01

Regina Casé constrói uma protagonista próxima à realidade de muitas famílias brasileiras. Ela é Val, uma nordestina que abandona sua cidade natal e parte rumo a São Paulo, deixando para trás a filha pequena e indo trabalhar como empregada em  uma mansão de classe média alta. Mais do que isso: ela se torna quase um novo membro da família, especialmente por conta do relacionamento que desenvolve com Fabinho, o filho único do casal, por quem Val tem um carinho imensurável (e é recíproco). A doméstica é praticamente a segunda mãe do rapaz – aconselhando-o, ouvindo suas queixas ou simplesmente lhe fazendo um cafuné. Ainda assim, Val sabe exatamente qual é o seu lugar na casa: há uma hierarquia e para garantir o bom convívio cada um respeita seu espaço.

Os conflitos surgem com a chegada de Jéssica, a filha que Val não vê há mais de uma década. De início, tudo vai às mil maravilhas (apesar das caras e bocas da patroa), mas aos poucos a situação criada no ambiente se torna insustentável: a garota, que veio à capital paulista para prestar vestibular, não consegue entender a submissão da mãe e o porquê ela deve seguir os mesmos passos (uma vez que ela não trabalha no local); a mãe, por sua vez, não admite ver Jéssica invadindo a intimidade dos patrões, como se fosse uma hóspede qualquer. Assim, quanto mais a harmonia se esvaeça mais o desconforto é causado.

03

Embora o roteiro seja deveras interessante (mesmo que trivial), é na dinâmica entre Casé e a novata Camila Márdila (como Jéssica) que a fita ganha seus devidos méritos. Enquanto Márdila mostra potencial atuando como uma adolescente que não se conforma com sua condição, a veterana esbanja naturalidade em sua interpretação. Apesar de todos os pesares (a distância dos parentes, a condição financeira inferior, a saudade de sua terra), Val transmite esperança em seu olhar, o que contrasta com todo o restante da casa. Ressaltada por uma fotografia sem cores muito fortes, aquele lar é frio, impessoal, pouco convidativo – uma metáfora para como seus habitantes interagem. Ainda que estejam sob o mesmo teto, eles são distantes e vivem em completo isolamento. Em determinada cena, todos estão sentados à mesa com seus respectivos smartphones, conectados ao mundo mas incapazes de esboçar qualquer comunicação entre si.

Que Horas Ela Volta? apresenta uma crítica social bastante contundente, que nos leva a questionar não apenas as desigualdades entre classes, mas também nossos valores e papéis como “família”. Além disso, como excelente produto cinematográfico que é, Que Horas Ela Volta? tem a capacidade de fomentar um profundo momento de mudança do nosso cinema. Com uma dramaturgia envolvente e aspectos técnicos competentes, o longa é um alívio para o cenário cinematográfico nacional, provando que o país pode fazer obras de muita qualidade. Oscar? Se vier, será bem vindo. Se não, Que Horas Ela Volta? por si já é um feito memorável – e nos faz até mesmo perdoar a Regina por todos os domingos de Esquenta!

Você Acredita? (Do You Believe?)

Há pouco mais de um ano, eu escrevia uma das críticas mais acessadas do site para o filme Deus Não Está Morto – uma produção de caráter religioso que, como sugeri, não passava de uma proposta tendenciosa de propagação da fé cristã. Muitos na época me questionaram se, afinal de contas, eu acreditava ou não em Deus – e, sim, acredito. Mas quando estou escrevendo, procuro deixar minhas convicções pessoais de lado e ser o mais imparcial possível. Por isso, confesso que fiquei surpreso quando vi que Você Acredita? estava sendo exibido em salas de cinema mais “comerciais” no país.

01

A trama desta nova produção segue um pastor que, após se comover com a pregação de um morador de rua a respeito da cruz, decide colocar sua fé em ação para ajudar as demais pessoas. Figura central na história, a partir dele outras personagens se encontram no decorrer da narrativa – e elas são convidadas a ter um contato mais intimo com o poder divino. Em outras palavras, estamos diante de uma sinopse que nos lembra vagamente uma novela da Record ou algum programa da madrugada da emissora do bispo Macedo.

Há duas coisas que realmente me incomodam neste gênero. A primeira delas são os estereótipos que somos obrigados a engolir. Repare: há uma constante vitimização dos tipos mais “religiosos”, enquanto aqueles que não propagam a mesma fé são comumente “vilanizados”. O segundo ponto que me irrita é o excesso de dramalhão a qual estes roteiros costumam recorrer. Em Você Acredita?, essas duas características são potencializadas pelo tom catequético da obra – onde todas as ações são determinadas pela fé cristã. Se você é um “escolhido”, você terá direito à vida. Do contrário, você está condenado – e isso é certo e indiscutível. Não há espaço para um debate saudável ou uma discussão inteligente, o que reduz o filme simplesmente a um discurso religioso inflamado de julgamentos.

02Voltado abertamente ao público cristão, Você Acredita? não conseguiu ser salvo nem mesmo pelas atuações competentes do elenco (tem até Mira Sorvino!) ,que se reveza em uma infinidade de núcleos paralelos – o que prejudica bastante o andamento do filme e o trabalho de montagem (atropelado, como se o editor estivesse correndo contra o tempo). Com uma trilha sonora que acentua a carga melodramática, Você Acredita? poderia até render um bom resultado e é até evidentemente melhor do que Deus Não Está Morto (o que já é um ótimo sinal para o gênero), mas limita seu potencial apenas a um método de evangelismo que, no cinema, nem sempre é bem vindo. Você Acredita? pode até fazer você se render ao poder da cruz, mas como produto cinematográfico deixa lá as suas dúvidas…

Shaun: O Carneiro – O Filme (Shaun the Sheep)

Shaun: O Carneiro – O Filme é um longa de animação britânico em stop-motion, baseado na série homônima produzida pela Aardman Animations (de A Fuga das Galinhas e Wallace e Gromit) e criada por Nick Park. Com um tom de comédia pastelão, o filme narra as aventuras do personagem título, um carneiro que vive em uma fazenda com seu dono (simplesmente o Fazendeiro) e Bitzer, um cachorro que participa das tarefas cotidianas. Cansado da rotina do local, tudo o que Shaun mais deseja é um dia de descanso. Com a ajuda de seus companheiros, Shaun distrai Bitzer e adormece o Fazendeiro, mas algo não sai como o planejado: devido a um acidente, o Fazendeiro vai parar na cidade grande e, para complicar, acaba perdendo a memória. Sem muitas opções, Shaun, Bitzer e os outros animais juntam forças para enfrentar o caos urbano e salvar seu dono.

01

O que chama a atenção em Shaun: O Carneiro é sua objetividade. O filme é direto, sem enrolação ou aquele senso de repetição comum em produções voltadas para o público infantil (a fita dura menos de uma hora e meia). A animação também é muito eficiente – e eu fico me perguntando a todo instante porque o stop-motion é uma técnica quase em desuso na atualidade, já que o resultado final costuma ser satisfatório. O roteiro, por sua vez, é redondo, com suas doses de humor infantil, ação e drama, o que traz um equilíbrio bastante agradável. Por não apresentar falas “concretas”, é incrível como sua linguagem funciona de forma genial: os personagens só se comunicam através de ruídos ininteligíveis ou murmurinhos – o que acentua a ótima trilha sonora e mostra aquilo em que o filme mais se destaca: suas referências cinematográficas.

Shaun: O Carneiro é sutil em sua homenagem à arte do cinema, desde as “bobagens” cômicas da década de 1920 até o cinema mudo de Buster Keaton ou Charles Chaplin. Até mesmo O Silêncio dos Inocentes é referenciado em uma das sequências em que os animais estão na prisão – e é hilária! Exatamente por isso e por ser tão bem executado em sua proposta, Shaun: O Carneiro é um filme que não decepciona – e apesar de utilizar muito da estrutura original da série, pode ser visto como um versão estendida dela ou um simples produto avulso (e isso não o diminui em nenhum sentido). Delicioso de se acompanhar, Shaun: O Carneiro vai agradar tanto as crianças mais novas como os pais – principalmente aqueles apaixonados por cinema. A diversão está garantida!

Sobre Amigos, Amor e Vinho (Barbecue)

01Filmes sobre amizades parecem ter caído no gosto dos idealizadores do cinema francês. Esta espécie de “subgênero” permite várias abordagens, das simples comédias ou homenagens às pessoas queridas até sátiras sociais e reflexões sobre o caráter humano – afinal de contas, cá entre nós: todo mundo tem aquele grupo de amigos com o qual se reúne uma ou outra vez para dar risada, tomar um café ou apenas trocar ideia. Sobre Amigos, Amor e Vinho é o mais novo título desta safra, um sucesso na França que chegou recentemente às salas nacionais.

No centro da narrativa de Sobre Amigos, Amor e Vinho está Antoine. Sua vida não podia ser melhor: situação financeira estável, uma rotina saudável, um casamento bem estruturado, emprego bem conceituado, muitos e fiéis amigos que o acompanham desde a época da faculdade – enfim, tudo vai bem para o bonitão. Apesar disso, Antoine não está feliz – ou como ele mesmo narra, “está de saco cheio”. Tudo o aborrece. Até que o destino lhe dá uma surpresa: às vésperas de seu aniversário de 50 anos, Antoine sofre um ataque cardíaco enquanto está participando de uma corrida com seus companheiros. Esta visita antecipada e inesperada ao hospital (justamente quando acreditava estar em seu melhor shape) faz com que Antoine reveja sua própria existência e decida mudar suas atitudes – inclusive com relação aos colegas.

A premissa não é necessariamente “original” – essa história do tipo que passa por alguma situação que o faz repensar a vida já é batida. Entretanto, Sobre Amigos, Amor e Vinho se sobressai graças à sua trama bem escrita, que desenvolve suas personagens de maneira tão carismática que, ao final do longa, já nos sentimos íntimos deles, como se fossem nossos próprios conhecidos. Além disso, ainda que algumas figuras sejam caricatas (e certamente já tenham sido vistas em outras produções do gênero), é impossível ao espectador não se identificar com seus dramas. O grupo é variado: Baptiste é o desempregado que quer reatar com a ex-esposa; Laurent passa por problemas financeiros, mas não abandona a pose e nem se abre com ninguém; Yves é o “almofadinha” que se acha o dono da razão; Jean-Michel é o gordinho menosprezado – que só está ali porque conheceu os demais enquanto trabalhava no refeitório da universidade. E claro, o próprio Antoine, o líder da turma que mantém um casamento aparentemente perfeito – mas que é pura fachada.

02

Os conflitos são causados no momento em que o grupo decide passar as férias em uma isolada casa de verão. É comum ouvirmos que intimidade não é uma coisa muito legal, certo? Aos poucos, a convivência entre eles se torna mais difícil – algo natural, pois com a idade, costumamos ficar mais francos e sinceros e pequenos defeitos alheios que antes aceitávamos com maior facilidade começam a incomodar. Mas também é quando conhecemos quem realmente são nossos amigos, aqueles que podem até se irritar de vez em quando, mas nos aceitarão como somos. É o que acontece naquele círculo: apesar de suas diferenças, eles se amam – e o público sente isso graças ao ótimo desempenho do elenco – especialmente o de Lambert Wilson, nosso protagonista, em um papel mais verossímil do que aquilo estamos habituados a vê-lo e, talvez por isso, seja a grande atração do filme.

Com uma direção segura de Éric Lavaine, Sobre Amigos, Amor e Vinho ainda nos delicia com sua arte impecável, que valoriza a suavidade das cores e uma fotografia que funciona muito bem em sua simplicidade. Apesar do roteiro previsível até certo ponto, ele não se utiliza da piadas escrachadas ou verborragia barata; pelo contrário: com um humor sutil e inserido oportunamente ao longo da projeção, a forma leve como o longa é conduzido faz com que Sobre Amigos, Amor e Vinho seja um filme agradável de se assistir. Portanto, chame os amigos e abra seu coração – só não se esqueça de uma boa garrafa de vinho para acompanhar…

Hitman: Agente 47″ (Hitman)

A trama de Hitman: Agente 47, adaptada de uma franquia de games, acompanha o personagem título, chamado assim por ser um humano geneticamente modificado, fruto de um experimento cujo principal objetivo é criar máquinas para matar. Como não seria muito diferente em filmes deste gênero, a experiência sai do controle e apenas seu idealizador, dr. Delriego, sabe como resolver a situação, porém seu paradeiro é desconhecido. Determinado a conseguir tal informação, o agente recorre à filha do cientista, que está à procura do pai e também de sua própria identidade.

01

Hitman: Agente 47 sofre de erros básicos que comprometem praticamente toda a obra. Não que o filme seja ruim por isso ou aquilo: em seu conjunto, tudo favorece para que Hitman esteja longe de ser algo memorável para o público. Logo de início, deve-se destacar a escolha de casting: Rupert Friend, o protagonista, não tem necessariamente aquele porte físico que esperávamos. Com um cacoete irritante, Rupert mantém um rosto de paisagem durante toda sua trajetória. Zachary Quinto é outro que também é prejudicado e pouco convence como o suposto vilão da fita. A mocinha vivida por Hannah Ware, então, nem se fala: não tem atrativo nem motivações. Concordo que muito do péssimo desempenho do elenco pode ser resultado do inadequado desenvolvimento de suas personagens e, principalmente, da direção insegura do estreante Aleksander Bach; mas não dá fechar os olhos e simplesmente ignorar o fato de que os atores não entregam suas melhores performances.

02Outro erro perceptível é o roteiro. Com muito tiro e pancadaria, quase todo o longa é baseado no ritmo frenético de fugas e perseguições e isto fica ainda mais acentuado por conta da edição atropelada de Nicolas De Toth. Assim, Hitman: Agente 47 é repleto de reviravoltas sem muita lógica, que impedem que o espectador efetivamente abrace a ideia. O motivo: no cinema não ocorre a mesma interatividade que nos jogos eletrônicos. Você fica ali diante da tela sem poder fazer nada, quase se sentindo um “pamonha” – pois é exatamente assim que o argumento de Hitman faz com que você se sinta. Apesar de uma fotografia que até emule (e bem) o gráfico de um game, Hitman: Agente 47 peca em pontos essenciais – e isso, sendo adaptação ou não, é algo que não dá pra gente engolir.

Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

Baseada em uma HQ francesa (Le Transperceneige), a trama de Expresso do Amanhã se passa em um cenário apocalíptico dominado por uma nova era glacial (gerada após um experimento fracassado que visava interromper o aquecimento global), onde os poucos e últimos humanos sobreviventes se refugiam a bordo de um trem que vive em constante movimento ao redor da Terra. Comandada pelo milionário Wilford (Ed Harris), esta locomotiva é totalmente autossustentável e possui uma divisão de classes: nos últimos vagões, se amontoam os menos favorecidos, que vivem há anos em condições precárias; enquanto mais à frente outros desfilam seus luxos e privilégios. Insatisfeita com a situação e liderada por Curtis (Chris Evans), a galera do fundão arquiteta uma rebelião para tomar o vagão dianteiro e, assim, assumir o controle da grande máquina.

02

Dirigido de forma competente por Joon-ho Bong (que também assina o inteligente roteiro em parceria com Kelly Masterson), Expresso do Amanhã é um filme que funciona em duas pontas. Na primeira, o longa acerta como blockbuster – e aí se destacam elementos técnicos, como figurino, maquiagem, direção de arte e efeitos especiais (que apesar de não serem tão refinados, cumprem bem sua função dentro da proposta). Se sobressai, no entanto, a ótima fotografia: ela é imprescindível para fazer com que o espectador abrace a história – desde os cenários mais decadentes e sombrios dos últimos compartimentos até à exuberância das cabines a frente, repletas de cores e luzes. É importante ainda elogiar o bom trabalho do elenco estelar: Chris Evans mostra um carisma irradiante na tela (mostrando que é muito mais do que o corpo bonito do Capitão América) e segura a missão de ser o protagonista. Dentre os coadjuvantes, menção especial a Octavia Spencer, Jamie Bell, John Hurt e a sempre eficiente Tilda Swinton – em uma composição grotesca e quase irreconhecível.

Mas não se engane: Expresso da Amanhã está longe de ser apenas um blockbuster tradicional – e é nessa segunda ponta onde o filme ganha seu devido valor. Com um argumento muito bem desenvolvido e um roteiro com reviravoltas interessantes, Expresso do Amanhã é uma produção excessivamente crítica, enquanto utiliza sua narrativa para falar sobre os abismos existentes entre as classes sociais. O cineasta consegue explorar os conflitos humanos decorrentes dessas diferenças – e os vagões aqui são meras alegorias que, infelizmente, escancaram uma triste realidade em nosso mundo contemporâneo. Oscilando cenas mais reflexivas e outras com violência gráfica mais expressiva (mas nunca desnecessárias ou gratuitas), Expresso do Amanhã é instigante do início ao fim, recebendo seu devido destaque na filmografia de seu cineasta.