Homem Irracional (Irrational Man)

Em Homem Irracional, novo filme de Woody Allen, o protagonista é Abe Lucas, um intelectual que acaba de se mudar para uma cidade universitária no interior dos EUA para lecionar filosofia em um campus local. Muito prestigiado, sua chegada gera mil comentários e especulações, tanto entre os alunos quanto entre seus colegas de profissão – até mesmo por conta de sua fama com as mulheres. No entanto, a realidade de Abe é um pouco mais cruel: o docente é um retrato do que podemos chamar de “frustração”. Desiludido com a vida, Abe perdeu o interesse por tudo e por todos e está à beira da depressão total. Fisicamente, então, nem se fala: com uns quilos a mais, o outrora galã sedutor não passa de um quarentão que sofre de impotência. Ainda assim, ele desperta a atenção da jovem estudante Jill, que fica fascinada pelo professor.

Inicialmente, Abe recusa as investidas de Jill, alegando querer apenas a amizade entre os dois. Um dia enquanto estão em um restaurante, os dois escutam ao acaso uma conversa aleatória: em processo de divórcio, uma mulher desesperada pode perder a guarda de seu filho, uma vez que o juiz responsável pelo caso é amigo de seu ex-marido. Neste momento, Abe redescobre a vontade de viver e ganha um propósito de vida: acreditando firmemente que as ações são melhores do que o medíocre ato de “pensar”, o professor decide assassinar o magistrado, convicto de que assim fará um bem à comunidade e, consequentemente, tornará o mundo um lugar melhor.

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Homem Irracional é um filme ligeiramente menos cômico – segundo o próprio artista, Homem Irracional é “sério do começo ao fim”. Allen abandona sua comédia tradicional e embarca numa narrativa até mesmo “mórbida”, acompanhando a preparação de Abe para a execução do crime perfeito. Utilizando-se intensamente da narração dos personagens principais (Abe e Jill), o diretor reproduz os sentimentos, dúvidas e angústias desse casal enquanto as ações de Abe se desdobram. Com isso, Allen se apresenta aqui mais sombrio (e menos engraçado também, claro), abandonando seu velho humor e quase adentrando no suspense (há até quem enxergue traços hitchcockianos no argumento).

Joaquin Phoenix, embora não tenha o perfil mais adequado para um tipo “alleniano”, surpreende de forma positiva. Ele é a decadência em pessoa, tanto na aparência largada (com direito à barriguinha saliente) quanto emocionalmente (sua construção de Abe é bastante convincente). Emma Stone, por sua vez, faz jus ao título de “nova musa de Woody Allen” (posto já ocupado por Diane Keaton e Scarlett Johansson) e, apesar da ingenuidade de sua personagem, transmite paixão no olhar. Phoenix e Stone mantém ótima química e isso é importante para o drama que se desenrola.

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O que talvez possa atrapalhar a experiência de Homem Irracional é seu ritmo lento, que, por vezes gera certo enfado – a primeira parte do filme, por exemplo, é pura verborragia. Outra situação incômoda é a presença de alguns personagens pouco ou mal explorados, como o namorado pateta de Jill ou a professora alcoólatra que não larga do pé de Abe. O desfecho também é um tanto quanto “nonsense”, além de algumas situações inverossímeis que não podem ser sustentadas. Homem Irracional é um filme bom, não excepcional – mas que vale a pena ser conferido justamente por ser uma produção atípica de um diretor como Allen. Algumas de suas marcas estão ali, como as inúmeras discussões filosóficas (referências e citações pipocam na tela) e existencialistas. Homem Irracional recorre a um suspense relativamente simples para questionar a ética e moralidade do ser humano – e embora possua um tom “ameno” não deixa de ter seu devido valor na filmografia do cineasta.

Ted 2 (Ted 2)

Cá entre nós: Ted, de 2012, nunca foi lá um grande filme. Ok, tinha umas piadas bem sacadas, um elenco razoavelmente em sintonia e até um bom argumento – mas seu sucesso se deve muito mais à novidade do projeto (e do personagem principal, obviamente) do que pelo longa em si. Por isso, admito que me surpreendi quando anunciaram uma continuação para a história. E assim, estréia essa semana Ted 2 – mais um título que figura na lista de sequências desnecessárias.

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Ted (o ursinho de pelúcia politicamente incorreto e viciado em maconha, para citar algumas de suas “qualidades”) está casado com Tami-Lynn, porém o casamento vai de mal a pior. Para salvar a relação, os dois decidem adotar uma criança (já que, como brinquedo que é, Ted não pode engravidar sua esposa – e mesmo se o pudesse fazer, Tami é estéril). A ideia esbarra em um problema: aos olhos da lei, Ted é apenas um “objeto”, daí ser considerado uma propriedade. Diante disso, o boneco crava uma acirrada disputa judicial para provar que não é um simples brinquedo e conquistar seus direitos civis.

A verdade é que Ted 2 tem potencial, utilizando-se de todos os mesmos recursos de seu antecessor. Já de cara, há inúmeras referências à cultura pop, especialmente sobre séries e filmes (Star Wars versus Star Trek – boa!), todas revestidas de um humor ácido que já imperava na fita anterior. Visualmente, é ainda admirável o fato de que esta é uma das produções onde realidade e animação são os mais próximos possíveis: Ted parece real – e, por incrível que pareça, Mark Wahlberg tem uma química bacana em cena com o urso. Os dois, definitivamente, são melhores amigos e isso contribui para que o Ted se torne um personagem cada vez mais “humano”.

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No entanto, tudo o que o filme podia ser não foi – e ao longo de quase duas extensas horas, o espectador se cansa do roteiro arrastado e sem rumo definido. Outras escolhas acabam não sendo muito interessantes também, como o uso do mesmo vilão e a personagem de Amanda Seyfried – chatíssima e muito longe de ter a presença feminina da estonteante Mila Kunis. Mas talvez o maior erro do filme de Seth MacFarlane seja ter sido produzido. O impacto não se repetiu aqui e a originalidade, é claro, já não existe. A comédia falha: as piadas ficam escassas, fracas e pouco atrativas – e por mais que o longa seja “bonitinho”, ele já não tem aquele poder de chocar o público. É como se Ted 2 ficasse mais “sério” – o que faz com que ele perca ligeiramente o encanto inicial.

O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett)

O Julgamento de Viviane Amsalem é um filme relativamente simples. Indicado ao Globo de Ouro 2015 na categoria de melhor produção estrangeira, a trama acompanha Viviane, uma mulher israelense que luta desesperadamente na justiça para conquistar o divórcio. O problema é que para que um casamento possa ser desfeito naquele país, ambos os lados precisam concordar com o fato – e como o marido se nega veementemente a conceder a liberdade a Viviane, o caso vai parar em um tribunal de rabinos (composto exclusivamente por homens), que tem o poder de validar ou não o divórcio.

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O maior trunfo de O Julgamento de Viviane Amsalem está na competência de um roteiro que prende o espectador do início ao fim – apesar das quase duas horas de projeção e da história se passar quase que inteiramente em um único ambiente: toda a narrativa se desenvolve dentro da pequena sala do tribunal, entre as idas e vindas de um julgamento que durou mais de cinco anos. Não há tomadas externas, não há planos sequência ou nenhuma extravagância: de forma direta, o filme aposta em bons diálogos (que até criam momentos ligeiramente cômicos) e as interpretações de um elenco comprometido – com destaque inevitável para a protagonista vivida por Ronit Elkabetz (que também divide a direção do longa com Shlomi Elkabetz). É interessante notar o quanto a atriz consegue transmitir todo o sofrimento, cansaço e opressão de sua personagem conforme o tempo passa e sua situação não chega a nenhum desfecho. Simon Abkarian, por sua vez, é o cônjuge irredutível, capaz até mesmo de nos irritar com tamanha obsessão por Viviane.

Outro ponto que deve ser mencionado ainda é que o argumento não se preocupa em trazer muitas razões de nenhum dos personagens. Quando Elisha se recusa a dar o divórcio, não sabemos suas reais motivações – ele apenas diz que ama a esposa e pronto. Quando Viviane diz que não deseja mais viver junto aquele homem, não há circunstâncias claras – ela somente admite que os gênios são incompatíveis e ele não a faz feliz (o que já seria suficiente para o casamento ser anulado, cá entre nós). Estamos em pleno século XXI e é inadmissível que a mulher tenha que brigar por algo que é seu por direito: a liberdade. Mas veja bem: O Julgamento de Viviane Amsalem estende o significado da palavra “liberdade”: ainda hoje, as mulheres recebem salários inferiores aos dos homens; possuem menos cargos políticos; são vistas como o sexo “frágil” ou constantemente ridicularizadas e estereotipadas em humorísticos televisivos. É difícil admitir, mas existem milhares de “Vivianes” pelo mundo afora, precisando ser ouvidas e devidamente respeitadas. O Julgamento de Viviane Amsalem escancara uma triste realidade da nossa contemporaneidade, proporcionando ao público um instante de reflexão e tornando-o muito além de um mero produto cinematográfico.

Na Próxima, Acerto no Coração (La Prochaine Fois je Viserai le Coeur)

02Ninguém dava bola para Guillaume Canet, quando lá no início dos anos 2000, o rapaz atuou ao lado de Leonardo DiCaprio em A Praia, de Danny Boyle. Em começo de carreira, Guillaume não era lá um grande intérprete – mas o tempo passou e foi generoso: com muita dedicação, o bonitão se tornou um dos mais promissores atores franceses de sua geração (além de diretor e roteirista). Agora, o quarentão é o nome principal de Na Próxima, Acerto no Coração, thriller dirigido por Cédric Anger inspirado em acontecimentos reais que chocaram uma pequena comunidade na França no final da década de 70. A trama acompanha um policial extremamente rígido em suas funções, designado junto com sua equipe a investigar uma série de crimes brutais cometidos contra jovens mulheres. Na verdade, o serial killer em questão é o próprio militar.

O argumento de Na Próxima, Acerto no Coração foge do convencional estilo “investigativo”: já de cara, a identidade do assassino é revelada. Isso não diminui o filme; pelo contrário: a narrativa se concentra praticamente na construção de seu protagonista da forma mais abrangente possível. O roteiro não se lança sobre a investigação, mas sim sobre Franck: sua rotina, seus sentimentos, trejeitos e comportamento diante dos fatos. O personagem tem consciência do que é moralmente certo ou errado; ele pratica autoflagelação, apesar de não ser um fanático religioso; vem de uma família aparentemente amorosa, mas trata suas vítimas com total frieza; tem nojo de sujeira e se incomoda com o sangue das mulheres que mata, mas passa horas caminhando por florestas inóspitas. Enfim, cada detalhe é importante para que a personalidade de Franck seja bem definida.

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Canet é competente em sua atuação. Seu tipo misógino (apesar do filme não escancarar uma possível homossexualidade de Franck) é acompanhado por uma constante expressão de insatisfação. Com uma fotografia que preza as cores frias e uma trilha sonora inquietante, Na Próxima, Acerto no Coração é um longa que não oferece pistas muito fáceis ao espectador –  até mesmo porque a história não se debruça sobre os fatos, mas sim sobre seu protagonista. Sabemos que Franck será capturado em algum momento, mas queremos seguir seus passos, aguardando seu próximo crime. Na Próxima, Acerto no Coração pode não ser memorável, é verdade, mas acerta em cheio ao abandonar os clichês do gênero e explorar com propriedade a mente de um assassino.

O Pequeno Príncipe (The Little Prince)

Quando soube da adaptação de Mark Osborne (Kung Fu Panda) para O Pequeno Príncipe, confesso que tive um misto de sensações. Por um lado, fiquei deveras assustado – afinal, adaptar uma obra literária para os cinemas será sempre uma tarefa difícil, especialmente quando se trata de uma leitura unânime como o clássico de Saint-Exupéry. Por outro lado, no entanto, a empolgação tomou conta de mim – afinal, assim como a milhares de pessoas, O Pequeno Príncipe marcou realmente minha vida. Mais do que isso: O Pequeno Príncipe não é apenas um livro infantil: é praticamente um retorno à nossa infância.

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O Pequeno Príncipe não tenta apenas recriar na tela a história original como a conhecemos. Na verdade, o cineasta escreve  uma nova trama a partir, aparentemente, de sua própria experiência com o livro (experiência que é compartilhada por muitos, a bem da verdade). Nessa versão, acompanhamos uma menina (sem nome e que teria sido inspirada na filha do diretor) que desde cedo é preparada pela mãe para ser uma adulta de sucesso. Para tanto, seu dia é cuidadosamente dividido, cronometrado e ajustado para ajudá-la a ser aceita em um colégio renomado. É óbvio que, apesar das ótimas intenções, a mãe não consegue enxergar que, com tudo isso, a garota há tempos deixou de ser uma criança comum. Rejeitado pelos moradores do bairro por ser um verdadeiro sonhador, surge neste instante a figura do aviador, que narra à pequena vizinha seu encontro com um garoto especial, o nosso Pequeno Príncipe.

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Essas duas narrativas são contadas paralelamente e utilizando técnicas diferentes de animação: enquanto no plano “real” a história é recriada em CGI, o universo do principezinho é todo pontuado em stop motion (e, em ambos os casos, tudo é feito com bastante esmero e sofisticação). Para além das duas tramas, entretanto, este O Pequeno Príncipe é ousado em dar um passo além daquilo que já conhecemos, nos apresentando uma variação do conto. Essa forma inteligente de condução do argumento é importante para fazer com que o filme funcione tanto para os que já tiveram algum contato com o livro como para aqueles que o desconhecem. O cineasta ainda é competente ao dosar os momentos de humor e drama, não sendo caricato demais nem pesado demais. Ainda com bons planos que valorizam as cores e nuances de cada personagem, O Pequeno Príncipe também acerta na trilha sonora comandada pelo experiente Hans Zimmer, que contribui muito na construção do produto final.

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Se há um “porém” nisso tudo, devo deixá-lo claro: o nosso Príncipe é um mero coadjuvante. Isto é um problema? Bem, depende de cada um. Qualquer espectador que assistir a O Pequeno Príncipe com certa atenção vai perceber que a intenção de Mark não foi reproduzir o livro como ele é, mas sim captar sua essência – e é um fato que ele conseguiu cumprir sua missão. O Pequeno Príncipe transborda sensibilidade e é interessante a crítica que o longa faz à perda da inocência em um mundo cada vez mais veloz, que clama por um crescimento “padrão” e um comportamento pré-estabelecido (“isto é certo, aquilo é errado”). Isto quer dizer que se você espera um filme fiel à trama de Exupéry, nem vá ao cinema. O Pequeno Príncipe é capaz de emocionar e ser marcante tanto para crianças quanto para adultos, sim – mas consegue isso ao resgatar aquilo que constitui a natureza de seu universo e não recontando sua literatura.

A Dama Dourada (Woman in Gold)

A sequência inicial de A Dama Dourada acompanha uma mulher posando para uma pintura – mais tarde, descobrimos que trata-se do retrato de Adele Bloch-Bauer, feito pelo artista simbolista Gustav Klimt. Em seguida, somos levados para o ano de 1998 e acompanhamos os esforços de Maria Altmann (Helen Mirren), uma judia sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, para recuperar o referido quadro, que teria sido roubado de sua família pelos nazistas durante o período de ocupação alemã na Áustria. Para tanto, Altmann enfrenta uma batalha acirrada contra o governo austríaco para reaver a obra de arte  que, na ocasião, estaria exposta em um museu na cidade de Viena.

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Dirigido por Simon Curtis (de Sete Dias Com Marilyn, de 2011), A Dama Dourada é uma boa cinebiografia (até mesmo melhor do que a de Norma Jeane, do mesmo cineasta, vamos admitir), aos moldes das produções britânicas mais tradicionais, que se desenvolve sobre dois eixos distintos: o primeiro, atual, que refaz a busca pessoal da protagonista para reaver o que é seu por direito; e o segundo que transporta a narrativa aos cruéis anos do Holocausto, recorrendo a flashbacks para recriar os acontecimentos do passado.

No entanto, A Dama Dourada não se aprofunda em nenhum destes eixos: não chega a emergir no drama dos personagens diante dos horrores da guerra, mas tampouco cria muita expectativa com as cenas de tribunal. Compensa praticamente toda essa deficiência na ótima atuação de Helen Mirren – que, apesar de não ser austríaca, claro, consegue compor um tipo curioso com seu sotaque arrastado e seu grau de cultura e refinamento. Ryan Reynolds, por sua vez, faz um personagem pouco carismático, aquele meio atrapalhado e que devido ao seu péssimo desenvolvimento, não consegue convencer como bom moço.

É fato que A Dama Dourada tinha um grande potencial, mas perdeu muito de sua força por não ter um propósito maior exceto apenas contar os fatos. Em determinado instante no final da trama, um dos personagens suplica à filha “Lembre-se de nós”, em uma curta porém bela cena – como se o diretor também fizesse esse apelo ao público com relação ao filme. Mas será que A Dama Dourada é capaz de despertar isso?

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage)

Há filmes que não são feitos para ser entendidos. Eles são produzidos não para contar uma história, informar ou mesmo trazer algum tipo de questionamento; eles apenas existem para ser contemplados, pelo prazer exclusivo da arte. Se o espectador buscar alguma compreensão, as chances de sair do cinema frustrado serão grandes, pois a película está ali na tela para se admirar. É exatamente assim que vejo Adeus à Linguagem, novo filme do mestre da nouvelle vague Jean-Luc Godard.

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Ao longo de pouco mais de uma hora de duração, Adeus à Linguagem apresenta a trama de um homem e uma mulher, um casal cujo maior desconforto na relação é a falta de comunicação. Eles não se compreendem – e o cachorro é o símbolo deste relacionamento. É interessante, no entanto, analisar a forma como Godard conduz este argumento. A comunicação do filme é totalmente visual – e é justamente isso que dificulta um entendimento maior da fita. Em determinado momento, Godard diz que “as duas maiores invenções são o zero e o infinito” – frase que traduz bem a proposta do artista de nos fazer entender algo que, na realidade, não está ao nosso alcance.

Conforme o próprio título sugere, Godard quebra a narrativa convencional e constrói uma nova linguagem, cuja força reside na mistura competente de som e imagem. O admirável aqui é o domínio de Godard como cineasta: sua destreza é impecável. Como uma criança com um brinquedo na mão, assim é Godard como diretor, buscando os mais diferentes recursos e manejando-os com total desenvoltura e simplicidade (para se ter noção, até mesmo uma câmera de celular é material de trabalho para Godard). Para tornar a experiência ainda mais agradável, o uso do 3D é excepcional – e, para um profissional que nunca utilizou tal técnica, Godard proporciona algo bastante satisfatória.

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Infelizmente, no entanto, Adeus à Linguagem é ainda um filme de Jean-Luc Godard. E o que isso quer dizer? Bom, se o cineasta sempre foi sinônimo de um cinema “difícil”, é fato que Adeus à Linguagem não é um de seus trabalhos mais fáceis. De longe, Adeus à Linguagem é um de seus filmes mais experimentais, ousados e emotivos, apesar de conter vários elementos comuns à sua filmografia (como a trilha descontinuada, os personagens que conversam fora de enquadramento ou os diálogos cheios de reflexões). Não à toa, Adeus à Linguagem foi considerado a melhor produção de 2014 pelos críticos norte-americanos, além de ser ovacionado em Cannes. Mas a verdade é que o público “comum” tende, com toda razão, a desprezar uma obra como esta. Para os cinéfilos, entretanto, Adeus à Linguagem comprova a maestria de um Godard que merece ser apreciado.

Tiago Iorc Esbanja Alegria em “Troco Likes”

Quando surgiu com Let Yourself In, em 2008, Tiago Iorc era um jovem artista que buscava (ou não) apenas um lugar ao sol. Elogiado, o álbum de estréia rendeu-lhe ótimos singles (muitos viraram trilhas de novela, quase um “carma” para o brasiliense). A voz doce, a sonoridade pop leve e sem forçar a barra e as composições em inglês caíram no gosto do público, não apenas no Brasil, mas também no exterior – o que seria suficiente para Tiago impulsionar uma sólida carreira internacional. Mas isso, de fato, não aconteceu: Tiago fez turnês mundo afora (especialmente na Ásia), ganhou certa visibilidade mas fez no Brasil sua fanbase mais fiel, principalmente no ambiente virtual, onde Tiago é bastante querido.

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Esse pequeno panorama é interessante para que possamos entender o que Troco Likes representa na discografia de Tiago. Quarto álbum do cantor, Troco Likes é um Tiago Iorc revigorado, refletindo claramente as mudanças que o tempo lhe trouxe e que foram surgindo gradualmente no decorrer de sua curta carreira. Troco Likes, mais do que qualquer trabalho anterior (como Umbilical e Zeski, respectivamente de 2011 e 2013), é Tiago Iorc sendo Tiago Iorc, mostrando sua verdadeira faceta como artista e como ser humano. Dessa forma, Troco Likes apresenta um Tiago muito mais maduro e à vontade consigo mesmo, não apenas cantando, mas sobretudo interpretando, sentindo o que está dizendo a cada letra.

Tiago abandona quase por completo o inglês como idioma e abraça o português – o que pode sugerir que Troco Likes é uma invariável continuação de Zeski, mas não vamos pensar nisso. Todas as faixas são em sua língua nativa (exceto a bônus Till I’m Old and Gray, uma das mais gratas surpresas, apenas com voz e violão) e escancaram uma nova fase de Tiago: a felicidade. O cantor deixa de lado o tom soturno do último CD, as letras mais introspectivas e densas e aposta em uma pegada bem mais alegre. Não que as faixas mais tristonhas sejam inexistentes, como é o caso de Eu Errei, Cataflor e Liberdade ou Solidão – essas duas últimas com ótimos arranjos de cordas, acentuando bastante o clima melancólico. Apenas o disco é muito mais ensolarado, radiante, claro.

E é aí que conhecemos Tiago como ele é e para o que realmente veio. As canções aí se dividem quase em dois grupos: as mais românticas, como Amei Te Ver (de longe, a que mais nos remete ao estilo de Let Yourself In), a deliciosa De Todas as Coisas e Coisa Linda (primeira música de trabalho, uma ode ao amor e uma das melhores composições de Tiago); e as que possuem críticas sociais, como Bossa (onde Tiago já grita “Atenção: as pessoas não precisam ser iguais as outras!”) ou Sol Que Faltava, onde o intérprete cria um novo verbo (“instagramear”) para cutucar a “geração Whatsupp” e o universo das redes sociais – daí talvez se explique o curioso título Troco Likes, cuja capa nos traz um desenho de Tiago forçando um sorriso amarelo. Por sua vez, vocalmente o rapaz continua imbatível e arrisca a voz em faixas como Alexandria (que possui um refrão pegajoso, mas eficiente) e a simplesmente espetacular Mil Razões – a música mais ousada do disco, com corajosos arranjos de metais.

01Troco Likes é um dos melhores álbuns nacionais do ano até aqui. Apesar de se distanciar do estilo que o consagrou, Tiago ainda tem como ponto forte sua voz suave e os arranjos serenos e bem executados. Talvez Troco Likes esbanje tanta alegria e luz por refletir a boa fase amorosa do artista: Tiago namora há algum tempo a atriz Isabelle Drummond e frequentemente o casal é clicado por aí – e o público percebe que os dois estão super bem, obrigada. Ouvir Coisa Linda, por exemplo, é praticamente enxergar o cantor sussurrando a letra no ouvido da namorada apaixonada, pare para analisar. Pudera: afinal, Troco Likes é apaixonante.

Corrente do Mal (It Follows)

Apontado como uma das gratas surpresas do Festival de Sundance 2015, Corrente do Mal está sendo saudado pela crítica como um dos melhores filmes de terror dos últimos anos – e, considerando o gênero, não é algo que a gente encontre por aí todo dia. De fato, esta produção sobre fantasmas tem seus devidos méritos e pode agradar aos fãs do estilo, apesar de não ser um projeto memorável. A trama, passada no subúrbio de uma Detroit decadente (cinza e solitária, como uma verdadeira cidade fantasma), acompanha Jay, uma adolescente comum como tantas outras de sua idade. Após uma noite de sexo casual com Hugh, o rapaz com quem está saindo, Jay descobre algo improvável: Hugh transmitiu a ela uma maldição, que fará com que Jay seja perseguida por uma entidade que assume diversos corpos. Para se livrar desta criatura e salvar sua vida, Jay tem que passar esse mal adiante da mesma forma como o contraiu: transando com outra pessoa.

01 A princípio, alguns podem pensar que trata-se de uma analogia ao sexo sem proteção e a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a verdade é que a metáfora pode estar muito mais ligada à perda da virgindade ainda na adolescência – e a “maldição” como uma punição que acompanhará o jovem (ou melhor, a jovem) durante toda sua vida. É como se fosse um peso que se tem a carregar, o que traz um caráter ligeiramente mais social à história. No entanto, são apenas teorias – que podem até mesmo ser jogadas por terra com o fato de que o “mal” em questão perde seu impacto quando passado adiante. A câmera do diretor David Robert Mitchell nos dá a interessante sensação de que estamos próximos da protagonista, uma vez que é como se os personagens estivessem sendo observados a todo instante. Além disso, as lentes percorrem todos os cantos, reproduzindo cenários que incluem uma casa minimamente decorada, uma praia deserta ou mesmo os bairros de um subúrbio deprimente, que agregam um ar de mistério à narrativa. No entanto, é a trilha sonora quem mais contribui para o clima macabro da fita: com uma pegada psicodélica e abstrata, o uso de sintetizadores nos leva de volta aos filmes de terror dos anos 80 e, de longe, é o ponto forte de Corrente do Mal.

Infelizmente, as atuações deixam a desejar: apesar de uma protagonista regular, o elenco de apoio é fraco – mas não tanto quanto o argumento. Na tentativa de aumentar o suspense, os personagens não são suficientemente desenvolvidos, muito menos a entidade. Nenhuma informação sobre qualquer coisa em Corrente do Mal é fornecida, como se o cineasta quisesse apenas retratar os fatos como são, dando ao espectador a oportunidade de tirar suas próprias conclusões. Infelizmente, o filme perde o fôlego em vários momentos, onde os poucos sustos são postos de lado e dramas não tão atraentes vem à tona, além da falta de terror gráfico. Corrente do Mal até consegue assustar aqui e ali e criar uma aura de tensão, mas se sai muito melhor em seu visual vintage, que reforça o mistério e gera uma identidade única para o filme. Pena que nem sempre beleza fala mais alto – às vezes, é importante ter um pouco de conteúdo…

O Que as Mulheres Querem (Sous Les Jupes Des Filles)

“O que as mulheres querem?” – está aí uma pergunta que você já deve ter ouvido centenas de vezes. A verdade é que esta é uma dúvida que nos aflige desde os primórdios da humanidade e já foi abordada em diversos momentos na ficção, tornando-se um tema quase trivial. Pois é exatamente isto que a cineasta Audrey Dana tenta responder em seu filme de estreia – e, levando em consideração que se trata de uma obra dirigida por uma mulher, poderíamos pensar que a forma como a questão foi explorada seria um pouco diferente. Engano o nosso…

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O Que as Mulheres Querem segue 11 mulheres parisienses buscando aquilo que desejam: amar e serem amadas. Os problemas, entretanto, se apresentam logo no início: uma repetição dos mesmos tipos já estereotipados em outras produções do gênero. Mas com um agravante: as mulheres de Audrey Dana não se bastam, necessitando sempre da figura masculina (nem que refletida em uma lésbica, para você ter noção do absurdo) para serem felizes e se realizarem por completo. Essa banalização do feminino se debruça sobre personagens superficialmente desenvolvidos, que por sua vez transitam um roteiro excessivamente caricatural que além de recorrer aos já citados estereótipos (a esposa infeliz que se apaixona por uma babá, a executiva que não tem vida social, a traída que inferniza o esposo e etc.) utiliza inúmeros clichês e fórmulas batidas com o intuito de produzir humor onde não há. Para piorar, este excesso de personagens acaba prejudicando também as narrativas individuais, com tramas que deixam pontas e desfechos indefinidos.

A diretora (que também atua) infelizmente entrega uma das piores produções francesas nos últimos anos, apostando em elementos utilizados à exaustão no cinema, sem se preocupar com mudar minimamente a receita (temos os mesmos tipos e a velha abordagem que vulgariza a mulher). Com isso, nem o bom elenco (que conta com a participação da premiada Isabelle Adjani e a ex de Johnny Depp, Vanessa Paradis) e a trilha sonora empolgante são capazes de fazer com que O Que as Mulheres Querem realmente valha a pena. Com pouca graça e um final pra lá de nonsense, O Que as Mulheres Querem é uma triste prova de que as mulheres no cinema ainda ficam um pouco perdidas quando o assunto são elas mesmas.