Capital Humano (Il Capitale Umano)

01Na sequência inicial de Capital Humano, já se estabelece o conflito que será desenvolvido no decorrer de toda a narrativa: um trabalhador comum é atropelado à beira da estrada ao voltar para casa à noite e é abandonado pelo motorista responsável pelo acidente. A partir daí, vamos revisitar a história sob a perspectiva de três personagens distintos: Dino, um agente imobiliário que busca ascensão social, hipotecando sua casa para conseguir dinheiro e aplicá-lo em um fundo de investimento de alto risco; Carla, a esposa que vive às custas do marido milionário e que não dá a mínima para a mulher; e Serena, uma adolescente que, apesar de estar apaixonada por um garoto sem muitas perspectivas, vive um namoro de fachada com Massi, filho rico e mimado de Carla que sofre com o desprezo e pressão do pai.

Com um roteiro surpreendente e que não deixa o público desgrudar os olhos da tela com suas ótimas reviravoltas, Capital Humano conta uma mesma história, mas sob olhares distintos. Dividido em capítulos, cada um deles apresenta suas versões do fato, mas todos se complementam, formando um inteligente quebra-cabeça. A trama, que se inicia com certo apelo tragicômico, vai aos poucos criando um clima de suspense interessante à medida que as situações vão sendo dissecadas. Além disso, as atuações são muito acima da média e o cineasta Paolo Virzì sabe como explorar seu elenco da melhor maneira possível. Fabrizio Bentivoglio é grandioso na pele do “malandro, mas não tanto assim” Dino, que fica desolado após descobrir que perdeu todo o dinheiro investido. A bela Valeria Bruni Tedeschi desperta bastante compaixão como Carla, uma personagem desajustada e perdida que não sabe muito bem qual é o seu lugar no mundo, estando sempre à sombra do esposo Giovanni Bernaschi, vivido por Fabrizio Gifuni – de longe, uma das melhores performances da película. Frio, preconceituoso e arrogante, seu tipo é a perfeita definição do “modo capitalista de ser”.

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Há quem diga que Capital Humano critica a decadência da Itália contemporânea – uma nação com ares de arrogância, pretensão, sarcasmo. Acredito que Capital Humano vá um pouco mais além. Em menor ou maior escala, o filme se estende à figura humana como um todo e disserta sobre o desajuste social e a decadência das relações humanas, que hoje são movidas por interesse e ambições, apenas isso. Todos querem pensar apenas no melhor para si, nem que para isso muitos valores morais simples sejam desprezados – e aí, chantagens, favores pessoais, jogos de poder acabam sendo utilizados como uma espécie de moeda de troca. Algo do tipo “não me importo em estar ao seu lado, contanto que isso seja vantajoso para mim”. A pergunta que fica é qual o valor da vida humana nesta sociedade. Tecnicamente impecável (seja na fotografia que preza os contrastes de cores ou na requintada trilha sonora), Capital Humano é um soco bem no meio do estômago do espectador – mas é uma dor que vale a pena encarar para que possamos refletir mais tarde.

Aliança do Crime (Black Mass)

Década de 1970, sul de Boston. A região é controlada por James ‘Whitey’ Bulger, um criminoso comum de origem irlandesa, irmão de um recém eleito senador estadual. A zona norte da cidade, por sua vez, é dominada por ítalo-americanos chefiados por Gennaro Angiulo. Para combater este último grupo, o agente do FBI John Connolly, também criado na parte sul da região, faz um acordo com Bulger, seu amigo de infância (e por quem nutre uma profunda gratidão), transformando-o em um informante protegido da polícia norte-americana. Entretanto, essa aliança entre o bandido e o FBI permite que Bulger não apenas elimine a concorrência, mas também se torne um dos maiores chefões do crime da história dos EUA.

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Dirigido por Scott Cooper (de Coração Louco e Tudo Por Justiça), Aliança do Crime pode parecer mais uma típica produção americana sobre a máfia – um gênero que hora ou outra aparece por aí (talvez devido à relação de extremo amor e ódio do americano com seus criminosos, vai saber…). O longa de Cooper, na verdade, é até “genérico”: pouco inova no tema, ousa ainda menos e nem é tão grandioso tecnicamente. Enfim, Aliança do Crime seria apenas “suficiente”, não fosse Johnny Depp, que realmente carrega quase que completamente o filme nas costas. Há tempos nos devendo uma atuação à altura de seu talento, parece que Depp voltou à sua boa forma, nos entregando uma performance contida, sinistra e ameaçadora – sendo aclamado no último Festival de Veneza.

E devo admitir, não apenas como um fã inveterado do ator, que Depp fez sim um excelente trabalho, até mesmo se levarmos em consideração o quão confuso é o roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth. Afinal, quem é Bulger? O que ele fez para ser tão “fantástico” assim como mafioso? Ele trafica drogas? Faz falcatrua em jogos clandestinos? Lava dinheiro? Isso nunca fica claro e assim o público não consegue digerir muito bem a ideia de que ele é o “todo poderoso” do crime – só vemos seus comparsas falando isso a todo instante, mas não sabemos o que ele efetivamente executa para merecer tal alcunha; só ouvimos dizer que ele se tornou pior após a morte do filho ou da mãe, mas ele não demonstra nenhuma grande oscilação de comportamento ao longo da película.

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Sua relação com a família também é estranha: se por um lado ele demonstra um amor incondicional pelo filho e pela mãe, o mesmo não se pode dizer do sentimento de Bulger pela esposa e pelo irmão. Enquanto a primeira sai de cena de uma hora para outra sem nenhuma explicação, o relacionamento com irmão é ainda mais complicado e deveria ter sido melhor explorado – aproveitando mais Benedict Cumberbatch, inteiramente ignorado. Talvez o único ponto positivo a ser tirado de tudo isso é que, dessa forma, o personagem não cria empatia, mas sim medo. Sua presença causa certa tensão no ar. Diferente de outros bandidos, ele não é carismático, mas um psicopata intimidante – o que faz com que o público se sinta desconfortável com sua presença.

Apesar de ter um ritmo bacana (por conta, sobretudo, da excepcional trilha sonora de Tom Holkenborg, que deixa um clima de apreensão a todo minuto), Aliança do Crime procura delinear sua trama de forma mais intimista, pisando em “terreno firme”, sem reinventar a roda. Mas o que mais fica evidente é a falta de emoção da trama – talvez proposital, talvez não, mas é um fato que Aliança do Crime não é capaz de despertar muitos sentimentos no espectador, tornando-se assim um título mediano e incapaz de marcar a filmografia de seu astro principal.

Beira-Mar (Beira-Mar)

Beira-Mar é o primeiro longa dos diretores Felipe Matzembacher e Marcio Reolon, que chega hoje aos cinemas brasileiros após ser ovacionado em algumas exibições internacionais, como na 65ª edição do Festival de Berlim. A trama segue o adolescente Martin, em uma viagem ao litoral do Rio Grande do Sul para resolver uma situação familiar, acompanhado de seu melhor amigo, Tomaz. Imersos em um universo particular, o confinamento será essencial para reaproximar os dois e permitir que eles descubram um pouco mais de si mesmos.

Na verdade, Beira-Mar é um singelo porém eficiente retrato de nossa juventude contemporânea: suas dúvidas, prazeres, descobertas, escolhas. Ou seja, não há nada ali que já não tenha sido explorado em outras produções do gênero, inclusive nacionais – aliás, à primeira vista, pode parecer que Beira-Mar é um típico filme a tratar um romance adolescente gay (até porque a sinopse pode enganar um pouco). O que faz com que Beira-Mar se sobressaia é sua narrativa intimista, equilibrada (por vezes um tanto lenta), praticamente sem nenhum grande clímax. Isso distancia Beira-Mar de um mero filme adolescente, tornando-o uma experiência cinematográfica interessante e necessária – apesar também de afastar o público mais jovem que, fatalmente, pode se cansar com o tom introspectivo da obra (especialmente aqueles que esperam apenas uma sucessão de episódios homoeróticos ou sexuais sem fundamento – o que, felizmente, não acontece aqui).

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Os planos, em geral, são mais abertos, valorizando a fotografia predominantemente em cores frias e proporcionando um estado contemplativo à obra; por sua vez, os planos mais fechados são essenciais para ressaltar o intimismo daqueles personagens. O ritmo que segue também contribui para este estado de “contemplação”, uma vez que os diálogos são abertos – quando não, é o silêncio que comunica com bastante sutileza (e é responsável pelas melhores sequências da fita). Esse ritmo (ou a falta dele) é importante para transmitir toda a inquietação dos dois amigos, como se algo estivesse pra acontecer a qualquer momento entre eles, em uma visível tensão homoerótica que é logo estendida ao público. A escolha dos atores não poderia ter sido melhor: Mateus Almada e Maurício José Barcellos estão ótimos em seus papéis, passando segurança e intimidade em suas performances. Enquanto o primeiro carrega pungemente no olhar as incertezas em relação a tudo que está à volta de seu personagem, o segundo é de uma delicadeza ímpar, sem cair no estereótipo. Talvez é justamente ele quem passe por maiores nuanças ao longo da projeção e o crescimento de seu tipo é visível e muito bem vindo.

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No entanto, Beira-Mar não é isento de falhas e encontramos a maior delas no roteiro. Para além do didatismo de algumas cenas (por exemplo, ao explicitar que os garotos estão isolados em uma casa à beira-mar – pra quê?), o roteiro peca em alguns momentos que pouco acrescentam à história ou mesmo na trama paralela que envolve Martin e sua família, onde tudo soa um tanto confuso e sem explicação. Mas o que realmente diminuiu Beira-Mar, a meu ver, é seu desfecho. Eu diria que o filme possui três sequências finais bem definidas – a última, inclusive, que mostra Martin se banhando no mar, é riquíssima e puramente metafórica, assim como quando ocorre o pequeno grande clímax da película: o beijo entre os amigos. Mas entre essas duas, há um trecho que, sinceramente, é desnecessário e enriqueceria muito mais o filme se fosse extinto, pois permitiria que o público criasse hipóteses devido ao grau de subjetivismo que proporcionaria (apesar de a cena ser visualmente impecável e bem executada). A dupla de jovens cineastas optou por encerrar a narrativa com uma solução, no mínimo, fácil – e, não, isso não é moralismo de minha parte, mas uma opinião baseada nas emoções que o filme me despertou. Assim, Beira-Mar perde muito da magnitude que poderia alcançar, tornando-se uma obra de valor inestimável, porém incapaz de ser memorável.

Ruth & Alex (5 Flights Up)

Todo artista reclama que, com a idade, as chances de conquistar bons papéis na TV, teatro ou cinema são cada vez mais escassas. No entanto, parece que os romances estrelados pelo pessoal da terceira idade vem ganhando maior espaço nos últimos anos – e Ruth & Alex é mais um destes exemplares que estreia nas salas nacionais esta semana.

Ruth & Alex acompanha o casal homônimo interpretado por Diane Keaton e Morgan Freeman. Os dois estão juntos há mais de quarenta anos e planejam vender o apartamento no Brooklin onde moraram durante toda sua vida. Com o auxílio de uma corretora imobiliária (e sobrinha de Ruth), eles organizam um dia de visitação para os possíveis compradores – e durante esse período, eles terão de conviver com a doença de seu animal de estimação, os lances e disputas dos interessados pelo imóvel e um possível ataque terrorista àquela região.

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Com uma trama leve e sem muitas aspirações, Ruth & Alex ganha pontos com a química entre os veteranos Freeman e Keaton. Não que os seus personagens ajudem muito – a bem da verdade, eles chegam até a ser mais do mesmo: enquanto Diane está fazendo o mesmo tipo que a acompanha durante boa parte de sua carreira, Morgan é um daqueles artistas desiludidos, que custa a acreditar que alguém possa se interessar por sua arte. O que acontece aqui é que a história não cativa. Apesar de algumas tramas paralelas, a narrativa não foge muito daquele núcleo “casal quer vender casa” e tudo gira em torno disso, em um excesso de situações que não provocam humor e nem emocionam o suficiente. Me incomodou profundamente os altos e baixos que acompanham a venda do imóvel do casal – e é justamente nisso que o filme se baseia e só. Apesar de até recorrer a alguns flashbacks para mostrar os acontecimentos da vida do casal (o primeiro encontro, o preconceito da família da noiva, a descoberta de que ela não poderia engravidar, etc.), eles são carregados ainda por uma narração off excessivamente didática do personagem masculino, que prejudica a forma como o longa é desenvolvido.

Ruth & Alex fala sim dos desafios do amor e da vida na terceira idade, mas não consegue aproveitar todo o potencial de seu elenco, que apesar de carismático não é capaz de sustentar roteiro desestimulante. Faltou sair um pouco do ambiente do apartamento, criando algum clímax que justificasse o filme em si. Equilibrado, Ruth & Alex não deixa de ter uma proposta interessante e até merece ser conferido, mas não se pode esperar muito dele. É como quando chegamos a uma determinada idade e, ao invés de encararmos novos desafios e vivermos, passamos apenas a aceitar os fatos passivamente. Ruth & Alex é um pouco assim: limitou sua proposta à rotina pacata de seus protagonistas e por isso faltou mais o que contar…

Espírito de Lobo (Wolf Totem)

A trama de Espírito de Lobo nos transporta para a Mongólia do final da década de 60, em plena revolução cultural maoísta, quando um jovem estudante é enviado para ensinar mandarim aos pastores mongóis residentes nas montanhas mais afastadas do país. Lá, ele irá presenciar o confronto entre os moradores e os lobos – que dizimam todo o rebanho de animais daquela população. Fascinado pelos seres selvagens, o professor decide criar um filhote de lobo na esperança de domesticá-lo.

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Espírito de Lobo possui uma fotografia competente, que abusa de planos abertos para capturar as belas paisagens locais. A edição também contribui bastante para as cenas de ação, nos causando até mesmo certa aflição em algumas sequências. A trilha sonora é pontual e essencial para a ambientação da trama, ainda que não possua nenhum momento grandioso. O roteiro, no entanto, se arrasta em alguns instantes ao longo de suas duas horas e peca, talvez, ao não desenvolver totalmente a relação entre lobos e humanos – a bem da verdade, o que parece é que a narrativa se concentra na vida selvagem das alcateias, tornando o homem quase um antagonista. Curiosamente, os melhores momentos de Espírito de Lobo são justamente suas cenas de ataque quase coreografadas.

Sucesso em seu país, Espírito de Lobo foi o pré-indicado da China à categoria de melhor filme em língua estrangeira na próxima edição do Oscar, mas foi substituído recentemente por outra produção. O motivo? Espírito de Lobo não tinha um número de “chineses” suficiente, a começar pelo diretor – o francês Jean-Jacques Annaud, cuja filmografia inclui títulos como Sete Anos no Tibet e Círculo de Fogo. Baseado em um best-seller homônimo e autobiográfico, Espírito de Lobo é visualmente impecável e tecnicamente bem executado – pena que faltou algo mais para torna-lo épico.

Xenia (Xenia)

Quando crianças, Danny e Odysseas foram abandonados pelo pai e criados pela mãe viciada. Assim, os dois cresceram com inúmeros traumas, inclusive o de ser estrangeiros em sua própria terra natal – já que a mãe era albanesa e o preconceito contra estes na Grécia é avassalador. Depois de anos separados, os irmãos se reencontram após a morte da mãe e embarcam em uma jornada para a realização de seus sonhos individuais: enquanto o mais novo (um garoto de 15 anos abertamente homossexual e problemático) quer reencontrar o pai e rapidamente resolver suas dificuldades financeiras e de cidadania, o mais velho quer tentar a sorte em um programa de TV e se tornar uma grande estrela da música.

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Xenia é um melodrama grego, com personagens que carregam nas costas inúmeras tragédias e, por isso, pode soar como um punhado de clichês em alguns momentos, com situações claramente inverossímeis quando não fáceis (um hotel abandonado que serve de moradia, um barco à espera dos viajantes, etc. – isso sem contar um coelho gigante, cuja intenção é criar alguma simbologia, mas que não consegue cumprir sua proposta). Danny, o irmão homossexual, é carregado de trejeitos e irritante como protagonista – e isso não é devido à sua condição sexual. Mimado e intrometido, é o tipo que não desperta muita empatia. Ody, por sua vez, é o típico heterossexual “não muito heterossexual”, sonho de consumo gay. No entanto, ambos os personagens perdem muito com as atuações de seus intérpretes: enquanto Nikos Gelia (Ody) mantém uma expressão uniforme em todo o filme, Kostas Nikouli (Danny) exagera nas caras e bocas, quase compensando o que faltou no primeiro.

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Representante da Grécia ao Oscar de melhor produção em língua estrangeira no próximo ano, Xenia é quase uma música da Katy Perry: praticamente um teenage dream, mas em versão gay. Não, isso não é o problema. O erro é o exagero de melodrama que, inevitavelmente, afasta o espectador. O roteiro também não colabora, nos dando a falsa ideia de que irá por um caminho quando acaba indo pelo outro (às vezes, parece um drama; depois um road movie; outra hora, uma aventura). Para completar a “tragédia” grega, a direção é amadora, enquanto a edição e fotografia são banais. Talvez o filme pudesse até ganhar certo atrativo se aprofundasse sua narrativa nas questões atuais de uma sociedade grega marcada pelo preconceito. Apesar de até esboçar uma tentativa nesse aspecto, Xenia não se estende – e, com isso, fica a sensação de que o filme é apenas um passatempo otimista em relação à vida.

1944 (1944)

Na última edição do Oscar, a Estônia esteve muito bem representada pelo irretocável Tangerinas – não à toa, a obra esteve entre as 5 indicadas finais da categoria de melhor filme em língua estrangeira (perdendo para o superestimado longa polonês Ida). Um ano depois, a Estônia tem seu novo representante na categoria: 1944, drama bélico considerado a maior produção já realizada no país (uma nação com um currículo cinematográfico modesto, é verdade, mas que desperta certa atenção ao ser observado de perto).

1944 concentra sua trama na batalha de Narva, ocorrida na Estônia da década de 1940, às vésperas do fim da Segunda Guerra Mundial. O país está dividido: de um lado, a maior parte da população, contrária ao regime de Stálin, apoia o führer alemão; do outro lado, muitos no país decidem lutar pela então União Soviética.

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Dirigido por Elmo Nüganen (que inclusive atuou em Tangerinas), 1944 apresenta um roteiro com histórias intercaladas e sem um protagonista direto – exceto o próprio conflito, o que faz com que muitos eventos isolados possam parecer confusos em alguns momentos. Individualmente, inúmeras cenas são elogiáveis, porém temos a impressão de que elas nem sempre se conversam dentro do conjunto da obra. Um dos méritos, no entanto, é o fato de que a narrativa não perde tempo com aqueles arrastados jogos psicológicos (que se tornaram febre em filmes de guerra norte-americanos); em suma, 1944 é um punhado de cenas de guerra com, aparentemente, um único propósito: mostrar o caos.

Vale destacar, no entanto, a boa edição e fotografia do longa. As cenas de conflito armado são muito reais – arriscaria dizer que, tecnicamente e dentro de suas limitações, 1944 é até superior a muitas grandes produções hollywoodianas (com seus efeitos mirabolantes). Ainda assim, o filme estoniano está longe de ser memorável: infelizmente, 1944 é uma produção bem feita, porém apática.

American Ultra: Armados e Alucinados (American Ultra)

Mike Howell leva uma rotina normal na pacata cidade em que vive. O jovem trabalha como caixa em uma loja de conveniências (apesar de gastar boa parte de seu tempo desenhando atrás do balcão), utiliza drogas e tem um relacionamento com Phoebe – aliás, o sonho do rapaz é pedir a namorada em casamento no Havaí, mas os constantes ataques de pânico toda vez que ameaça deixar sua terra natal o impedem até mesmo de entrar em um avião. Tudo corre razoavelmente bem até o dia em que uma mulher misteriosa aparece em sua vida e Mike passa a ser perseguido sem nenhum motivo aparente.

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Confesso que não entendi até agora o porquê de American Ultra: Armados e Alucionados ser veiculado como uma “comédia” – porque engraçado o filme não é. Dirigido por Nima Nourizadeh (cujo currículo inclui apenas o título Projeto X – Uma Festa Fora de Controle), American Ultra se sairia melhor se vendido como um filme de ação porque, afinal, não há humor na fita. Não que não haja algumas tentativas cômicas aqui e ali. São poucas, na verdade – mas ainda quando estão presentes, elas simplesmente não funcionam. American Ultra se destaca mais em suas sequências de ação: correria, luta, tiro, sangue (algumas cenas até com certa violência gráfica), mas nada muito excepcional porque este “chove-não-molha” não ajuda o roteiro a se definir dentro de um gênero específico.

Então, talvez visto como “ação”, American Ultra possa ser até digerível, mas não muito. As coisas começam a degringolar quando o protagonista descobre que é um agente da CIA altamente treinado. Enquanto suas lembranças vêm à tona, ele se vê inserido cada vez mais em uma operação do governo, que praticamente pôs sua cabeça a prêmio. O problema é que o argumento não convence muito, a narrativa soa confusa, com muitas informações e personagens pouco interessantes – e aí, American Ultra vira uma bagunça (no sentido negativo da palavra). Nem o elenco consegue amenizar: Jesse Eisenberg é um bom ator, mas precisa urgentemente se reciclar. Suas caras e bocas já são manjadas – e isso para um artista em início de carreira não é muito legal, apesar de seu carisma. Já Kristen Stewart, que eu mesmo já elogiei em outras ocasiões, retornou aqui ao seu estado Bella Swan, concedendo uma dramaticidade à sua personagem que me pareceu desnecessária.

No geral, American Ultra está muito longe de ser um filme recomendado. Não diverte, não emociona, não te deixa perdendo o fôlego na poltrona – então, por que assisti-lo? Bem, pode-se até mencionar a boa edição, que consegue criar certa tensão no decorrer da fita ou mesmo a trilha sonora que contribui para a ação. Mas não se deve esperar muito: American Ultra não faz você comprar a proposta do longa porque não sabe qual é. Faltou muita coisa – e principalmente respeito por parte do diretor, que chegou a acreditar que o público se contentaria só com dois rostos bonitos em tela.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

Há muito que se falar sobre a extensa filmografia de Martin Scorsese, mas o que mais chama a atenção é sua versatilidade. O cineasta já trafegou por vários gêneros, mas faltava-lhe ainda um filme que pudesse ser assistido por seus filhos – como o próprio argumentou. Este foi o ponto de partida para a concepção de A Invenção de Hugo Cabret – uma requintada produção que atende aos anseios do diretor tanto como pai quanto, principalmente, como cinéfilo que é.

Paris, 1930. Após a morte de seu pai relojoeiro, o jovem e inocente Hugo vai viver na Gare Du Nord, a famosa e exuberante estação de trem da capital francesa – e lá, o órfão passa seus dias acertando os relógios do local e sobrevivendo de pequenos furtos. Além do talento com as engrenagens, Hugo também herdou do pai um misterioso autômato, que ele tenta remontar com as peças roubadas da loja de brinquedos da estação. Um dia, pego em flagrante, Hugo é obrigado a trabalhar no local e lá acaba se tornando amigo da enteada de seu chefe. O que as duas crianças não imaginam é que o dono do comércio é o velho cineasta George Méliès – e entre muitas aventuras, os dois vão se aprofundando cada vez mais no passado daquele homem.

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Uma característica que me encanta em Scorsese é seu pleno domínio da linguagem cinematográfica. Isto, é claro, só pode ser fruto das incontáveis horas que o diretor passou estudando cinema – Scorsese é sinônimo de erudição cinematográfica, todos sabem disso (não à toa, ele é fundador da The Film Foundation, organização responsável pela restauração de filmes antigos e raros). Perito na área, Martin consegue explorar com propriedade várias vertentes – e em A Invenção de Hugo Cabret não é muito diferente: ele tem pleno poder sobre o que está em suas mãos, mesmo que esta linguagem para ele seja “nova” (afinal, é a primeira incursão de Martin em um filme infantil e rodado em 3D). Contrariando os que duvidavam de sua capacidade de estar à frente de um projeto juvenil, bastam alguns poucos minutos de sua película para entendermos o quão genial é Scorsese.

“O cinema era nosso lugar especial…”

Visualmente arrebatador, A Invenção de Hugo Cabret faturou os principais prêmios técnicos do Oscar. E não é conversa: o longa é realmente majestoso. Com uma fotografia primorosa, dourada e cheia de luz (recriando bem a Paris da época), alguns movimentos de câmera improváveis surgem a todo instante, revelando cenários de tirar o fôlego, que são valorizados com a ótima montagem. Repare, por exemplo, na profundidade da câmera ao capturar a plataforma da estação parisiense. O 3D aqui é fundamental. É interessante analisar que Scorsese o utiliza de forma coerente, não apenas depara ornamentar sua fita, mas principalmente como instrumento indispensável para sua história, o que a enriquece muito mais.

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Mas, apesar de ser um filme com crianças, A Invenção de Hugo Cabret não é exclusivamente para elas – e é aqui que entendemos sua dimensão. Apaixonado por cinema, Martin Scorsese faz uma bela homenagem aos primórdios desta arte através da figura de Méliès. Quem não o conhece, terá a oportunidade de ser introduzido ao universo deste fantástico artista. Enquanto os irmãos Lumière (os criadores do cinematógrafo, que Méliès tentaria inutilmente adquirir) filmavam banalidades rotineiras, Méliès era um velho conhecido do teatro de variedades – e isto foi essencial para que ele levasse às telas o ilusionismo. Por esta razão, até hoje George Mélièr é considerado o pai dos efeitos especiais. Infelizmente, sua produção de mais de 500 obras se perdeu com o tempo e pouca coisa foi recuperada – mas sua memória ainda vive. Scorsese junta todo este material e cria um filme que engrandece o cinema como arte. Embora existam algumas oscilações no roteiro (que ora foca o garoto, ora foca Méliès – e isso acaba o deixando um tanto desconexo), A Invenção de Hugo Cabret é, de longe, um dos momentos mais inspirados de Martin, repleto de significados e que se revela uma verdadeira ode à sétima arte.

Paz Para Nós em Nossos Sonhos (Peace to us in Our Dreams)

A primeira cena de Paz Para Nós em Nossos Sonhos nos transporta à uma típica igreja lituana, onde um concerto musical acontece sob os olhares atentos de uma elegante platéia. Aos poucos, entretanto, a harmonia do número musical se esvaece enquanto a violinista tem uma crise nervosa, tocando fora do compasso e rindo compulsivamente até chegar às lágrimas.

Silencioso, Paz Para Nós em Nossos Sonhos não é muito esclarecedor. O público desconhece os personagens (sequer seus nomes são revelados) e seus respectivos dramas. No entanto, é interessante notar o quanto a narrativa instiga a curiosidade do espectador (Quem são essas pessoas? Qual a ligação entre elas? O que aconteceu para chegarem a este estado?). Quanto menos sabemos, mais emergimos na história – e por essa razão, o filme de Sharunas Bartas se torna cada vez mais subjetivo, proporcionando inúmeras suposições que nunca são totalmente elucidadas.

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O que contribui muito para tornar o filme ainda mais agradável é o primor técnico com o qual foi concebido. Logo de início, fiquei fascinado com a exuberante fotografia do longa e a forma como o diretor se utiliza dela. Enquanto os planos detalhes capturam com certa agonia os rostos e silhuetas dos personagens, os planos abertos esboçam com propriedade a estonteante paisagem local, com um eficiente trabalho de som que consegue completar todo o vazio da narrativa – que, aliás, merece um destaque devido ao seu minimalismo. Paz Para Nós em Nossos Sonhos pode até ser dividido em duas partes. Na primeira dela, mais lenta, o silêncio predomina e o som e edição da fita são imprescindíveis para a história. Você praticamente ouve o vento batendo nas folhas das árvores ou sente a chuva cair sobre o seu rosto. Já na segunda metade, os diálogos são ligeiramente mais extensos, especialmente na construção de um dos tipos masculinos, que parece ser uma espécie de “oráculo” das figuras femininas à sua volta – a musicista, uma adolescente, uma visita inesperada. Ele ouve com certo pesar todas as lamúrias dessas mulheres e embora a conversa não provoque um resultado prático, parece que só isso é necessário – como se apenas o fato de nos “abrirmos” com alguém pudesse nos acalmar.

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Então, Paz Para Nós em Nossos Sonhos cresce ainda mais. O ser humano não consegue encarar muito bem algumas verdades inevitáveis. Nossa vida é construída pelo que já passamos e o que ainda vamos passar – e é preciso enfrentar isso com certa lucidez, dar nossas caras à tapa, assumir nosso passado. Pautado pela sutileza, se Paz Para Nós em Nossos Sonhos é minimalista em sua essência, o filme é grandioso nas reflexões que concede ao espectador. Esteticamente belo, Paz Para Nós em Nossos Dias é uma das experiências mais incríveis que o cinema produziu nos últimos anos, se revelando assim uma verdadeira obra-prima.