Saint Laurent (Saint Laurent)

Saint Laurent, de Bertrand Bonello, é a segunda produção francesa – no curto espaço de um ano – a tratar a biografia de um dos maiores artistas da moda de todos os tempos. Nesta fita, contudo, a difícil tarefa de encarnar o icônico estilista fica por conta do também francês Gaspard Ulliel, que com notável semelhança física a Laurent, consegue entregar um dos trabalhos mais significativos de sua filmografia.

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Saint Laurent concentra sua narrativa, de forma não linear, entre os anos de 1967 e 1976 – não à toa, o período mais importante da carreira de Yves. O filme retrata o lado profissional do artista e sua equipe, embora o fio condutor da trama seja a relação de Yves com Pierre Berger, parceiro e sócio responsável por grande parte do sucesso comercial da marca YSL. Aborda-se ainda a tórrida relação do estilista com Jacques de Bascher (que o levou a conhecer de perto o submundo parisiense, regado a álcool, drogas e sexo). Consequentemente, é aqui que encontramos os melhores e mais atraentes trechos do longa. Fugindo das cinebiografias convencionais (contadas, em sua maioria, linearmente), Bonello opta por mostrar esses diferentes momentos da vida de Yves, consequentemente quebrando a relação entre os fatos (causa/efeito). Já ao final, no entanto, o diretor escolhe filmar Yves em seus últimos dias (vivido aqui pelo talentoso Helmut Berger), já recluso como celebridade que era e envolto a todo império que criou.

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Gaspard Ulliel, incrivelmente parecido com o original (e aqui se destaca a ótima maquiagem), é excelente em sua atuação. Seus gestos e olhares são precisos, transmitindo melancolia, discrição e a sofisticação tão comum a Yves. Mesmo nos momentos mais “darks”, Ulliel tem um comportamento elegante em cena, nunca perdendo sua pose aristocrática. Jeremie Renier também é sóbrio e conciso na construção de Pierre Barger – estranhamente, o filme não mostra os dois como um “casal”, muito menos aborda o rompimento entre eles, no auge do sucesso, em 1976. Léa Seydoux e Aymeline Valade abrilhantam o elenco feminino, vivendo duas das belas musas inspiradoras do artista – respectivamente, Loulou de La Falaise e Betty Catroux. Enquanto a primeira traz luz à cada aparição devido ao encantador charme de sua intérprete, Valade consegue ser excessivamente sensual em cena – protagonizando  uma das sequências de dança mais interessantes que já pude assistir. Quem surpreende, no entanto, é Louis Garrel – o ator fetiche francês que, após uma série de personagens enfadonhos e com a mesma “cara”, empresta um charme (caricato por vezes, mas irresistível) a Jaccques de Bascher.

Saint Laurent foi escolhido como representante francês – e forte candidato – a uma vaga entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar. Saint Laurent peca, talvez, por sua duração que acaba cansando e por ser totalmente fechado na figura do estilista, deixando de lados alguns momentos e personalidades que poderiam trazer mais profundidade à história. Saint Laurent é realista, o que se percebe claramente no vestuário, na reconstituição de cenários, na fotografia, na música que ajudam a evocar todo espírito da época. Curiosamente, a obra de Bonello tira o primeiro nome do artista e se inicia com “Saint”, que em francês pode ser traduzido por “santo” – justamente o oposto da personalidade implacável de Yves.

Exposição Homenageia Leonardo da Vinci em São Paulo

E os paulistanos terão um programa imperdível para os próximos meses. Trata-se da exposição Leonardo da Vinci: a Natureza da Invenção, que estreou no último dia 11 e fica até 10 de maio de 2015 no Centro Cultural Fiesp.

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Com curadoria de Eric Lapie, a mostra faz parte de um projeto que irá celebrar o quinto centenário de nascimento do mestre renascentista e, certamente, um dos maiores gênios da história. Da Vinci (1452-1519), ao contrário do que a grande massa acredita, não foi apenas o autor do célebre e mundialmente aclamado quadro Mona Lisa (também conhecido como La Gioconda) – um dos mais notáveis e respeitados trabalhos de pintura a óleo de todos os tempos. Leonardo também foi um importante estudioso que, através de sua constante observação da realidade que o cercava, analisou os fenômenos naturais e criou ideias que até hoje são referências para muitas das invenções que foram imprescindíveis para o progresso da humanidade.

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Leonardo da Vinci: a Natureza da Invenção (pela primeira vez na América Latina) reúne mais de 40 objetos produzidos por engenheiros e pesquisadores no ano de 1952. O público poderá ver de perto projetos, maquetes e desenhos que foram reinterpretados dos manuscritos originais de Da Vinci e apresentados pela primeira vez no ano seguinte – e ainda podem ser vistas no Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci, em Milão, na Itália. A exposição conta também com recursos audiovisuais que explicam as mais diversas obras do artista, alem de alguns protótipos onde o público pode interagir e visualizar os temas propostos.

Muito mais do que a simples exibição sobre um artista, Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção proporciona um olhar reflexivo sobre um gênio que contribuiu significativamente em vários campos do conhecimento humano, como a engenharia, a matemática, a física, as artes, entre tantos outros. A mostra nos permite entender como a obra de Da Vinci foi revolucionária para sua época e como influenciou milhares de estudos seguintes, sendo de vital importância para muitas tecnologias que temos na atualidade. Dessa forma, Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção é um passeio obrigatório.

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LEONARDO DA VINCI: A NATUREZA DA INVENÇÃO
Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (Galeria de Arte do Sesi-SP) – Avenida Paulista, 1313 – São Paulo-SP

Data: de 11/11/2014 a 10/05/2015
Horário: Segunda a domingo, das 10h às 20h (entrada permitida até 19h40)
Classificação: Livre
Entrada Gratuita
Informações: http://www.sesisp.org.br/cultura/

Foo Fighters Comemora 20 Anos com “Sonic Highways”

Lá se vão 20 anos de carreira de uma das bandas de rock mais influentes dos últimos tempos: Foo Fighters. Duas décadas de sucesso e reconhecimento por parte do público e crítica tornaram o grupo um referencial para novos artistas – e, certamente por isso, vimos Sonic Highways, último registro de estúdio dos caras, despontar como um dos álbuns de rock mais aguardados do ano.

01Sonic Highways precede Wasting Light, de 2011 – trabalho que faturou o Grammy de Melhor Álbum de Rock e que foi o primeiro do Foo Fighters a alcançar o número um nos EUA, recebendo muitos elogios da crítica. Sonic Highways, apesar de não ganhar um título numérico, é totalmente trabalhado em torno do número “8” – é o oitavo disco da banda e traz apenas oito faixas (no total, o álbum tem pouco mais de quarenta minutos). Alem das obviedades, o “8” também serve como uma espécie de metáfora ao “infinito” – que é explícito na capa e na arte oficial do registro.

A faixa de abertura é Something From Nothing – um dos singles deste trabalho que possui uma das melhores melodias da banda em anos (apesar da letra parecer meio descuidada, mas ainda assim é uma ótima experiência), recheada com guitarras distorcidas. The Feast and the Famine chega em seguida, com muita rapidez que, de cara, já nos mostra que o grupo liderado por Grohl sabe fazer rock – aliás, esta é a canção que mais nos remete à linha sonora do disco anterior e onde Dave mais gasta seus dotes vocais (unânimes, diga-se de passagem). Congregation é outra boa pedida, mas que peca por sua duração (são cinco minutos de pouca inspiração musical ou nada muito novo ou grandioso) e por sua sonoridade bem próxima ao pop rock, com versos melódicos e riffs bem executados.

What Did I Go? / God As My Witness, como a própria formação do título sugere, poderia se dividir em duas partes: começa lentamente e depois explode em uma melodia mais carregada, com um guitarra e bateria em sintonia profunda – e terminando com um fade out que a deixa com um misto de nostalgia. Outside é a faixa pop, digamos – ao menos, percebe-se um maior apelo “popular” e moderno na composição, mas que é incapaz de fazer você pular (talvez pelo excesso de instrumental, que acaba cansando um pouco). In The Clear é música obrigatória, com ótimos arranjos mas que também sofre com uma letra pouco inspirada. Subterranean é uma balada que tem um ar meio obscuro que nos lembra alguma coisa feita por Ozzy Osbourne. Fechando o disco, Grohl nos delicia com I Am a River, belíssima e, de longe, a mais bem trabalhada canção, mesmo com seus sete minutos (a guitarra inicial e o desfecho são épicos).

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Sonic Highways não é um álbum totalmente excepcional e desprovido de defeitos – e o principal é a duração de algumas canções e seu toque experimental, que fizeram com que a banda perdesse um bocado de sua personalidade. No entanto, há de se admitir que é um registro conciso, redondo em sua proposta e bem equilibrado, com músicas boas mas não tudo aquilo que esperávamos de um grupo como Foo Fighters. Talvez o maior atrativo desta fase seja a série Foo Fighters: Sonic Highways, exibida pela HBO e dirigida pelo próprio Dave Grohl. São documentários que acompanham as gravações do disco ao longo das oito diferentes cidades onde as faixas foram produzidas (respectivamente, Chicago, Washington D.C., Nashville, Austin, Los Angeles, New Orleans, Seattle e Nova York) – e vem sendo bem recebida pela crítica. Talvez Sonic Highways possa não parecer neste momento uma obra grandiosa, talvez ela sobreviva ao tempo, quem sabe Dave e companhia façam coisas melhores nos próximos anos. Mas uma coisa é certa: Sonic Highways não é infinito em sua concepção.

Elephant Song (Elephant Song)

Sala de cinema razoavelmente cheia para uma noite de quarta. Reparei certo alvoroço entre os espectadores. Pesquei alguns comentários ao acaso e todos apontavam para um único nome: Xavier Dolan – diretor canadense considerado o garoto prodígio do cinema na atualidade, que decidiu ficar à frente das câmeras no novo filme do cineasta Charles Binamé.

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Elephant Song é uma mistura de drama e suspense, cuja história passada na década de 70 gira em torno do desaparecimento repentino de um psiquiatra em um hospital às vésperas do Natal. O diretor da instituição decide interrogar um dos pacientes, Michael, que fora a última pessoa vista com o médico, na tentativa de descobrir alguma pista que leve ao paradeiro de seu colega. No entanto, o interno se mostra um jovem intelectual e manipulador, que faz um jogo psicológico que dificulta o interrogatório e põe em dúvida sua sanidade.

A narrativa é concentrada apenas nas conversas entre médico e paciente, apesar de recorrer em inúmeros momentos a flashbacks. O roteiro flui com clareza, apesar de ser previsível em alguns pontos – a certa altura do filme, o próprio médico sugere ao interno que suas brincadeiras seriam melhores se fossem mais surpreendentes (o que não deixa de revelar também a sensação do público diante dos artifícios aos quais o diretor recorre para atenuar o clima de suspense do longa). A fotografia de Elephant Song cumpre bem sua proposta, com tons frios que preenchem a tela durante quase todo o filme e um bom uso da iluminação.

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A química entre os dois nomes principais parece funcionar. Bruce Greenwood mantém uma atuação firme no papel do diretor do hospital, enquanto Dolan segurar os trejeitos e, ironicamente, empresta muito menos loucura a seu personagem do que em suas outras atuações (eu, particularmente, nunca tive bons olhos para Dolan como ator – apesar de apreciar suas obras como cineasta). No entanto, seu Michael tem muito menos “força” ou “personalidade” do que o filme sugere (dois funcionários do local perguntam “Você conhece o Michael?”, como se fosse um indivíduo acima da média – algo que Xavier, apesar de tentar, não consegue passar com seu desempenho).

O título faz referência à canção que Michael ouvia de sua mãe quando criança – e é símbolo também de todos os problemas pelos quais Michael passou ao longo de sua juventude. Baseado na peça de Nicolas Billon, Elephant Song é uma boa produção, porém abaixo do que realmente tenta ser. Apesar da premissa interessante, o diretor Charles Binamé pouco arrisca, limitando seu trabalho a um título esquecível. Definitivamente, Elephant Song tem como único “grande” atrativo o nome de Xavier Dolan nos créditos – e nada muito além disso.

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)

01Boyhood – Da Infância à Juventude, último trabalho do cineasta Richard Linklater (da trilogia Before), já chamava a atenção do público antes mesmo de seu lançamento – e isso é resultado da proposta atípica pela qual o diretor optou produzir sua história. O filme narra as transformações de vida de Mason, um garoto norte-americano comum entre tantos outros, especialmente entre seus 6 e 18 anos – mostrando suas visões de mundo, seus medos, dúvidas, ansiedades. Para tal feito, Richard passou os últimos doze anos acompanhando de perto o cotidiano de Ellar Coltrane, de seus dias na escola até seu ingresso na faculdade. E não apenas Ellar: todo o elenco acompanhou o artista durante esse período, se reunindo com a equipe anualmente para adicionar novas cenas à fita, apenas durante três ou quatro dias de gravações anuais.

Com um elenco em ótima sintonia (entre os nomes, temos Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater – esta última, filha do diretor), o pequeno Coltrane é excelente na construção de sua personagem – ou seria o reflexo de seu próprio crescimento? Coltrane oscila bem as nuances de Mason e carrega no olhar todas as experiências pelas quais o nosso protagonista passa. Mas se engana quem pensa que Boyhood traz apenas a história de um garoto. Na verdade, o filme conta muito menos sobre Mason e muito mais sobre a vida e as mudanças que passamos ao longo do tempo. Apesar de a narrativa se estender sobre uma perspectiva americana, é certo que Boyhood é puramente universal, alcançando qualquer espectador, ainda que de forma diferente. Muito longe dos melodramas convencionais, Boyhood nos leva de volta às nossas memórias, pessoas, lugares e, principalmente, momentos, sejam eles bons ou ruins, mas que em sua totalidade ajudam a formar nossa identidade. De forma simples, mas nunca ordinária, o cineasta insere temas que são comuns em todas as sociedades, como infância, casamento, separações, superações.

O espectador literalmente vê Mason crescer diante de seus olhos, vivenciando todos os dramas rotineiros da adolescência até chegar à fase adulta da vida – quando deve assumir uma postura mais “séria”, assim como responsabilidades. Exatamente por isso, a narrativa é de um realismo incomparável, até mesmo pela habilidade natural de Linklater em conduzir a trama. O roteiro e a edição contribuem muito para a ação da película, até mesmo se levarmos em consideração o fato de que não há uma “história” propriamente dita, com começo, meio e fim – pois aqui, a história é adaptada com o passar dos anos na vida real. A própria trilha sonora (excelente, por sinal) faz uma marcação concisa de tempo cronológico, iniciando-se com a inconfundível Yellow, do Coldplay, e passeando por Arcade Fire, Daft Punk, entre outros artistas – além também das inúmeras referências à cultura pop, com menções a Lady Gaga, Harry Potter e outros elementos da última década (incluindo impressões sobre o ataque às Torres Gêmeas e a candidatura de Barack Obama). Em suma, Boyhood é um filme também sobre a passagem do tempo.

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Com quase três horas de duração (mas, ironicamente, você nem sente o tempo passar), Boyhood é grandioso em sua simplicidade. Apesar de ficcional, Boyhood é uma obra que traz para a discussão a vida de todos nós: os desafios, os altos e baixos, a instabilidade do mundo, as primeiras experiências. Boyhood está longe de ser um filme sobre Mason: é também um retrato da existência de Davi, de Maria, Alberto, Regina – enfim, de todos. Não à toa, o longa de Richard Linklater (que custou pouco mais de 2 milhões de dólares – quase nada em comparação a outras produções norte-americanas – e demorou menos de quarenta dias de gravação) vem sido amplamente elogiado pela crítica e pelo público. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, Boyhood tem cerca de 99% de aprovação da crítica e 89% do público. Boyhood é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de seu diretor e, provavelmente, um dos mais intensos filmes do ano.

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit)

Sandra é uma mãe de família que está prestes a retornar ao trabalho após um período afastada tratando uma depressão. Seu emprego, porém, está ameaçado uma vez que, como medida de contensão de gastos, seu chefe ofereceu aos demais membros da equipe um bônus em dinheiro, desde que Sandra fosse dispensada. A maioria dos funcionários aceita a oferta, mesmo que isso implique na demissão da colega. No entanto, uma das funcionárias consegue convencer o patrão a fazer uma nova votação – e Sandra tem um curto espaço de tempo para bater de porta em porta atrás de votos a seu favor e tentar salvar seu posto.

Dois Dias, Uma Noite é o representante belga pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Com direção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (de O Garoto da Bicicleta), o longa é quase uma espécie de road-movie, onde a protagonista faz uma verdadeira peregrinação buscando salvar seu emprego. Durante a empreitada, com a ajuda do esposo Manu, Sandra se depara com as mais distintas reações, das mais solidárias às mais violentas. Nesse ponto, o filme coloca em pauta duas questões fundamentais em nossa sociedade atual: a solidariedade e o egoísmo. Afinal, até onde eu posso pedir que uma pessoa abra mão de seu direito por um direito meu? Todos os empregados precisam do bônus – cada um por um motivo especifico, mas além desta necessidade existe aqui também a questão do direito: ninguém pediu o bônus; ele foi ofertado em troca da demissão de Sandra.

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O roteiro, também escrito pelos irmãos, é equilibrado, sem altos e baixos, porém bem desenvolvido, proporcionando alguns momentos comoventes (talvez pelo excesso de “vitimização” concedido a Sandra). A montagem quase sugere uma espécie de “documentário”, o que de certa maneira aproxima o público do drama de nossa protagonista. Marion Cotillard, por sua vez, está despida aqui de qualquer glamour, requinte ou sofisticação. Já há muito tempo, Marion vem mostrando sua versatilidade diante das câmeras, se consagrando como uma das mais talentosas atrizes francesas de sua geração. Não à toa, ela empresta muita suavidade a Sandra e, embora carregue demais no tom dramático de sua personagem em certos instantes, arriscaria dizer que esta é sua melhor atuação desde Piaf – Um Hino ao Amor. Fabrizio Rigone (o esposo da protagonista) e os demais nomes do elenco (que interpretam os colegas de Sandra – logo, fazem pequenas mas intensas participações) são competentes o suficiente para preencher o quadro concisamente – apesar do filme ser exclusivamente de Cotillard.

Dois Dias, Uma Noite é um filme honesto, direto e silencioso – mas nem por isso perde sua riqueza e profundidade ao longo de sua uma hora e meia. Apesar de não apresentar um gênero muito bem definido, Dois Dias, Uma Noite proporciona uma reflexão sobre o mundo corporativo, que obriga até mesmo o mais moral dos seres humanos a perder sua dignidade diante da busca pelos seus interesses. Como é de se esperar, não há um happy ending. Não à toa, a trama se passa na Bélgica – um dos países mais “perfeitos” do mundo ocidental, mas ainda assim com seus problemas e deficiências sociais.

Atirem no Pianista (Tirez sur le Pianiste)

Na primeira sequencia de Atirem no Pianista, François Truffaut nos mostra um sujeito sendo perseguido por dois homens. Não sabemos nada a respeito da perseguição ou mesmo quem são os envolvidos (a fotografia escura deste trecho da fita dificulta bastante a identificação). Na correria, o homem esbarra em um poste e cai meio desacordado no chão. Um transeunte passa e, após certificar-se de que o outro está bem, ajuda-o a se levantar e ambos saem caminhando pelas ruas, desenfreando uma conversa natural, como se fossem velhos amigos.

Esta, claro, é apenas a ótima introdução de Atirem no Pianista, segundo filme do cineasta francês conhecido por ser um dos fundadores da “nouvelle vague”. Escrito pelo próprio Truffaut, em parceria com Marcel Moussy (que se tornaria um colaborador constante do diretor), o roteiro segue Charlie Kohler, um outrora pianista famoso que hoje trabalha tocando em um bar de segunda classe qualquer da cidade, longe dos holofotes e escondendo sua verdadeira identidade: Edouard Saroyan. Enquanto foge de sua família e do seu passado (incluindo o suicídio de sua esposa), Charlie reencontra um de seus irmãos, que está envolvido com a máfia.

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Atirem no Pianista tem uma incômoda posição na filmografia de Truffaut: foi produzido entre os amplamente elogiados Os Incompreendidos e Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois, de 1959 e 1963, respectivamente. Talvez por isso, este não seja um filme unânime na carreira do cineasta, que se tornaria um dos nomes mais citados da história do cinema. A crítica só reconheceu a fita anos após seu lançamento, enquanto o público esnobou a ideia nas bilheterias. De fato, Atirem no Pianista escorrega em sua narrativa desfragmentada e irregular: flerta-se com o romance, o humor, o mistério, a tragédia e, apesar de isso até ser “charmoso” em determinados momentos, faz com que não haja uma espécie de “fio lógico” muito consistente – afinal, faltava a Truffaut naquela época a maturidade suficiente para trabalhar com essa alternância de forma elegante. Talvez isso seja resultado da forma como Truffaut e Moussy optaram por desenvolver o roteiro, que era escrito conforme as filmagens avançavam – algo que pode ter atrapalhado o resultado final.

Mas se o pecado de Atirem no Pianista está em sua narrativa desnorteada, o mesmo não pode se dizer do protagonista vivido por Charles Aznavour – que compensa cada minuto em cena com seu tipo franzino, calado e tímido. Um dos maiores intérpretes da música francesa de todos os tempos, Aznavour é impecável em sua construção de personagem, um homem com evidentes (mas modestos) desvios de personalidades e que trava ótimos diálogos imaginários consigo mesmo, explicitados em uma narração voice over. Sem outros grandes destaques, o elenco ainda é formado por artistas como a belíssima Marie Dubois, Albert Rémy, Serge Davri e Nicole Berger.

Atirem no Pianista talvez funcionasse melhor se fosse um filme noir, alguns dizem. Com a ótima fotografia em preto e branco de Raoul Cotard (que se tornaria um dos nomes mais importantes na fotografia da nouvelle vague), o longa abusa de sombras e planos escuros, recorrendo a inúmeros elementos típicos do cinema norte-americano. Com uma trilha incidental firme e um argumento baseado em um romance policial, Truffaut se perde um pouco na direção, nos entregando uma obra que não apresenta nenhuma intriga ou suspense próprios do cinema hollywoodiano (aos moldes de Hitchcock, por exemplo, um ídolo do cineasta), mas também não tem o realismo psicológico de uma produção francesa clássica. Resumindo: não sabe muito bem para onde vai e nem de onde veio – mas cumpre bem seu papel de mostrar tudo aquilo que Truffaut ainda seria capaz de fazer ao longo de sua curta existência.

O Duplo (The Double)

Simon é um rapaz tímido e recatado, sem muitas aspirações e cuja existência se resume apenas a… existir. Trabalha há anos na mesma empresa, mas apesar de ser um bom funcionário, sequer é notado. Não leva muito jeito com as mulheres e mal sabe agir quando está diante da garota de seus sonhos, a inconstante Hannah. Mora sozinho, já que a mãe está internada em uma espécie de sanatório e quase não o reconhece. Sua rotina é perturbada com a chegada de um novo colega de trabalho, James, fisicamente idêntico a Simon, mas com uma personalidade completamente diferente: dinâmico, confiante, carismático, sedutor – enfim, tudo aquilo que Simon não é e (aparentemente) pouco faz questão de ser. Aos poucos, James se aproxima de Simon e passa a invadir sua vida, assumindo o papel do nosso protagonista.

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O Duplo, que chega aos cinemas brasileiros daqui a algumas semanas, parte de uma premissa que já foi abordada em outras ocasiões – recentemente, por exemplo, uma sinopse bastante similar pode ser conferida em O Homem Duplicado, filme estrelado por Jake Gyllenhaal baseado na obra de José Saramago. O Duplo, por sua vez, busca inspiração no texto de Dostoievski, publicado originalmente em 1846, que trata sobre a dualidade do indivíduo: afinal, o ser humano é único e especial ou existe realmente seu duplo?

Particularmente, devo confessar que gostei mais de O Duplo do que O Homem Duplicado e a razão é simples: a fita de Denis Villeneuve se debruça sobre várias teorias e referências, despejando uma enxurrada de informações que muitas vezes são desnecessárias e abrindo espaço para inúmeras interpretações, claramente querendo parecer um longa “difícil”. O Duplo também tem lá suas teorias, porem ele flerta diretamente com o suspense, construindo uma narrativa muito mais ágil (o que alguns críticos dizem que prejudicou o produto final, mas a meu ver contribui muito para não deixar a trama cansativa, já que o tema não é tão fácil). O roteiro, ainda que meio perdido em alguns momentos, apresenta lampejos de humor ácido, que muitas vezes aliviam a tensão dos fatos e rendem boas e singelas risadas.

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No entanto, é tecnicamente que o longa de Richard Ayoade mais pode nos impressionar. A paleta de cores e o trabalho de iluminação (com seu uso constante de sombras, abusando do contraste claro-escuro) compõem uma ótima fotografia, ajudando muito na recriação de ambientes sombrios e claustrofóbicos. A trilha sonora de Andrew Hewitt é assustadoramente desconcertante, capaz de deixar o espectador inquieto durante as sequências mais explosivas. O diretor recorre também a canções japonesas que, em conjunto com a música incidental, provocam uma interessante experiência. Quanto às atuações, o destaque curiosamente fica por conta da cada vez mais à vontade Mia Wasikowska, que empresta toda sua esquisitice a Hannah (e que com seus cabelos claros e roupas com cores vivas, destoa completamente do restante dos objetos de cena). Já o protagonista vivido por Jesse Eisenberg é até passível de certa compaixão – apesar de Jesse aparentar ter uma metralhadora no lugar da língua, o que deve ser um problema para qualquer dublador. Jesse parece sempre interpretar a si próprio em todos os filmes em que atua – e aqui não é diferente. No entanto, é até mesmo estranho argumentar que sua versão tímida e opressiva é mais carismática do que seu duplo, o que justamente deveria ser o contrário. Ou seja, reforça-se a tese de que Jesse é ator de um único tipo.

Muito mais pelo suspense e pelos alívios cômicos do que por todas as discussões que possa criar, O Duplo é um filme que surpreende e é agradável de acompanhar. O diretor visivelmente não procura se aprofundar em inúmeras teorias ou inovar na técnica, mas contenta-se em montar sua história dentro de um universo sufocante capaz de prender o espectador. Não é uma obra que pode te fazer pensar por muito tempo, até mesmo pela rapidez da narrativa que não te deixa concluir muitos pensamentos ou levantar quaisquer questões, mas funciona como um bom entretenimento, apesar das deficiências de seu roteiro. Resumindo, é um filme que poderia ser mais do que é, mas contenta-se em ficar como sua personagem central: em um status quo, que o impede de ser uma grande obra.

Música e Cinema São Homenageados em SP

Talvez o único defeito da exposição Música & Cinema: O Casamento do Século? seja o seu próprio título, que sugere um questionamento e não uma afirmação – afinal, música e cinema é uma combinação inigualável. A relação entre essas duas artes encanta pessoas em todo o mundo e se tornou uma das mais bem sucedidas parcerias em todo o tempo. Tente assistir a clássica cena do chuveiro de Psicose no mudo ou Dirty Dancing sem o número arrebatador de sua sequência final – ou mais amplamente: experimente assistir a um filme de suspense com o som desligado ou o beijo apaixonado de um casal de filme romântico sem uma trilha sonora melosa como fundo. Talvez aí você se dê conta da importância da música para o cinema e como essas duas artes se completam.

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Visual e auditivo se unem aqui para produzir sensações únicas – e é exatamente isso que o público pode vivenciar nesta mostra que está em cartaz na cidade de São Paulo desde o dia 19 de setembro. Trazida diretamente da Cité de la Musique, de Paris, a exposição chegou a ser vista por mais de 90 mil pessoas só na França e passeia pelos mais diversos gêneros: comédia, musicais, romance, suspense, entre outros. Aqui no Brasil, o projeto foi adaptado também para abranger as produções nacionais, dos clássicos regionais até as pornochanchadas.

Os ambientes da mostra procuram proporcionar ao espectador a oportunidade de vivenciar o mundo mágico da música e cinema. Para isso, recorremos à história da arte cinematográfica desde às primeiras produções mudas (onde a trilha sonora desempenhava um papel primordial para as narrativas) até aos clássicos mais atuais. A viagem por este universo é feita através da apresentação de documentos originais de outrora (como partituras, manuscritos, fotografias, cartazes), instrumentos da época e vídeos com entrevistas, documentários e testemunhos de diversos artistas.

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Entre algumas atrações, destaca-se o mural com algumas das parcerias mais famosas entre cineastas e compositores (algo do tipo Spielberg/John Williams, Burton/Danny Elfman, Hitchcock/Bernard Herrmann e outros). Há também uma projeção com pouco menos de 1 hora onde o público pode acompanhar alguns dos mais conhecidos créditos de aberturas de filmes conceituados, como Bonequinha de LuxoO Bebê de RosemaryEdward Mãos de Tesoura ou Drive. Em um dos espaços mais interativos, há um estúdio de mixagem onde o visitante pode manusear os níveis sonoros de diversas fitas, sentindo diretamente o impacto da banda sonora na cena.

Com curadoria de N. T. Binh, Música & Cinema: O Casamento do Século possui uma programação paralela, que envolve shows, oficinas e também a exibição de alguns filmes memoráveis. A exposição vai até dia 11 de janeiro de 2015.

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MÚSICA & CINEMA: O CASAMENTO DO SÉCULO
Sesc Pinheiros (Espaço Expositivo – 2º andar) – Rua Paes Leme, 129 – São Paulo-SP

Data: de 19/09/2014 a 11/01/2015
Horário: Terça a sexta, das 10h30 às 21h30; sábados, das 10h às 21h; e domingos, das 10h30 às 18h30.
Classificação: Livre
Entrada Gratuita
Informações: http://www.sescsp.org.br/programacao

A Lenda de Oz (Legends of Oz: Dorothy’s Return)

O título original Legends of Oz: Dorothy’s Return entrega exatamente o que podemos esperar de A Lenda de Oz, que chega aos cinemas brasileiros nesta semana – e deixa claro também que se trata da continuação do clássico O Mágico de Oz. Nesta releitura do livro homônimo de Roger Stanton Baum, a garota Dorothy é levada de volta a Oz, que está em um estado de decadência por conta de um novo perigo: o Bobo da Corte, que deseja tomar conta deste mundo mágico transformando todos os principais representantes do local em marionetes. Com a ajuda de seus antigos companheiros (Espantalho, Homem de Lata e o Leão Covarde), Dorothy tem a missão de salvar Oz das garras deste novo vilão.

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Para começar, falemos de A Lenda de Oz enquanto animação – e aqui já te digo: fuja. A animação (de responsabilidade da Prana Animation Studios) não é apenas “simples”, mas “medíocre”, nos remetendo logo de cara à qualquer série televisiva (sabe aqueles filmes que passam nas manhãs globais de sábado? Então…). As expressões dos principais personagens são visivelmente limitadas – assim como os recursos usados que realçam todo o estilo “amador” do projeto. O roteiro, por sua vez, é uma confusão só, desenvolvendo os personagens principais de maneira superficial, apesar do grande potencial de alguns deles (como o soldado Marshal Mallow ou a boneca de porcelana). Para boa parte dos pequenos (que em nossos dias atuais desconhece a trama original), a história pode até gerar estranhamento porque não há qualquer identificação com os personagens.

Outro ponto negativo são as músicas inseridas em momentos não muito oportunos, chegando quase a “atrapalhar” o andamento da narrativa – além da duvidosa qualidade das canções. Nesse quesito, salva-se apenas a performance dos dubladores, que não chega a ser primorosa mas é suficiente diante de todo o resto. Aliás, o time de dublagem é formado por nomes como Lea Michele (da série Glee, na voz de Dorothy), Dan Aykroyd, James Belushi e Patrick Stewart – um elenco, sob certo aspecto, “de peso”, mas que não foi capaz de salvar a produção.

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Não espere muito de A Lenda de Oz. Sequer compare-o com o filme de 1939 porque aí é que a coisa fica pior. Com a proximidade do Dia das Crianças, talvez o longa de Daniel St. Pierre possa ser um programa divertido para se fazer com o filho, o sobrinho, o primo, o afilhado…, até porque estamos diante de uma animação excessivamente “infantil”. A Lenda de Oz não é totalmente péssimo, mas está anos-luz daquilo que podemos esperar de uma boa animação. Vai funcionar como uma alternativa “barata” de entretenimento e para aqueles eventuais dias em que você está muito ocupado e quer manter seu pequeno quietinho enquanto faz suas atividades. Isso, é claro, se sua criança conseguir assistir isso por muito tempo…