A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

O cineasta londrino Tom Hooper não é uma unanimidade. Para alguns um gênio, para outros superestimado, é fato, entretanto, que Hooper demonstra total domínio de sua obra no gênero que, definitivamente, é a sua praia: o cinema de época. Não à toa, O Discurso do Rei, de 2010, recebeu 12 indicações ao Oscar, vencendo em quatro delas (incluindo melhor filme e diretor); Os Miseráveis, adaptação do romance francês escrito por Victor Hugo, foi lançado dois anos depois e concorreu em oito categorias, faturando três prêmios. Em suma, Hooper sabe fazer bem aquilo que se propõe a fazer. A Garota Dinamarquesa, seu novo longa-metragem, provavelmente não será muito diferente de seus anteriores: um filme caprichado com ótimas chances de despontar nas premiações da temporada.

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Inspirado no livro de David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa se passa na década de 20, na cidade de Copenhagen. O filme é a cinebiografia de Lili Elbe, nascido Einar Mogens Wegener, um artista plástico dinamarquês que teria sido a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. A trama foca o relacionamento do artista com sua esposa Gerda e sua descoberta como mulher.

Fazendo jus aos demais títulos de sua filmografia, Hooper confere bastante sensibilidade à história e, principalmente, um esmero técnico inigualável. Brilhantemente fotografado por Danny Cohen, A Garota Dinamarquesa  é uma aula de cinema – desde a direção de arte impecável (que recria com maestria o período e nos faz mergulhar na narrativa) à trilha poética de Alexandre Desplat. Para além disso, os trabalhos de maquiagem e o figurino de Paco Delgado (parceiro de Hooper em Os Miseráveis) agregam muito à produção.

No entanto, A Garota Dinamarquesa pertence inteiramente à sua dupla de protagonistas. Eddie Redmayne se entrega com propriedade à construção (mais uma vez) de um personagem difícil, que passa por inúmeras oscilações no decorrer da fita. De uma sutileza ímpar, sua atuação é tão genial quanto em A Teoria de Tudo (filme que lhe deu, precocemente talvez, o Oscar de melhor ator em 2015). Em determinado momento, não enxergamos mais Einar, apenas Lili. No entanto, é Alicia Vikander quem mais surpreende: é sua personagem quem enxerga pela primeira vez a feminilidade do esposo e é nela que Einar busca a força para sua transformação. E isso, é claro, não deixa de ser doloroso a Gerda: encorar o marido a ser quem realmente é, enquanto convive com a solidão de perder o homem que ama.

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Humano, A Garota Dinamarquesa é um filme que talvez não consiga emocionar por completo, uma vez que a condição de Lili para com o mundo à sua volta é explorada de forma um tanto superficial. Todavia, em tempos em que a comunidade LGBTQIAP+ luta com intensidade contra o preconceito, é relevante a produção de obras como esta, que trazem à tona questões que devem ser discutidas – e o cinema está aí para fazer este papel social. A Garota Dinamarquesa é cinematograficamente arrebatador e socialmente interessante – perde apenas na ausência de ousadia, que provavelmente geraria um debate maior e mais profundo sobre o tema. Até mesmo porque, infelizmente, os tempos mudam mas muitos pensamentos retrógrados ainda permanecem, né?

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Uma diligência surge na paisagem invernal de Wyoming e nela vemos John Hurt (Kurt Russell) levando sua fugitiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada em Red Rock. No caminho, eles se deparam com dois sujeitos: o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um caçador de recompensas, e Chris Mannix (Walton Goggins), um piadista que alega ser o novo xerife da cidade. Surpreendido por uma nevasca, o grupo é forçado a se abrigar em um pequeno armazém no meio da estrada – local este ocupado por outros quatro homens: o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen), o general Sanford Smithers (Bruce Dern) e Bob (Demian Bichir), um mexicano que cuida do estabelecimento na ausência dos donos.

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Ambientado alguns anos após o fim da Guerra Civil norte-americana, Os Oito Odiados é, curiosamente, o oitavo filme de Quentin Tarantino (sim, porque Kill Bill é uma única obra) – seu antepenúltimo trabalho, já que Tarantino afirma que sua carreira como cineasta será composta apenas por dez filmes. Assim como seu antecessor, Django Livre, pode também ser encarado como um western – apesar das semelhanças com ele pararem por aí. Na verdade, da filmografia do diretor, o único “comparável” a Os Oito Odiados pode ser Cães de Aluguel – afinal, a premissa é basicamente a mesma: um bando de sujeitos pouco confiáveis que são confinados em um mesmo recinto.

O que, talvez, prejudique Os Oito Odiados quando comparado a Cães de Aluguel é sua duração: enquanto o primeiro trabalho de Tarantino tinha pouco mais de uma hora e meia de projeção, Os Oito Odiados sofre com quase três horas de fita. Conhecido por seus longos e memoráveis diálogos, a verdade é que Tarantino exagerou um bocado em Os 8 Odiados, especialmente na primeira parte da película – e o que era para ser apenas mais uma de suas marcas registradas acabou se tornando pura verborragia. Até entendo que isso foi importante para desenvolver bem cada um dos personagens ali retratados, mas reduzisse certas conversas paralelas à trama principal ou algumas tomadas mais extensas, certamente o resultado seria melhor.

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Se o espectador disperso pode dormir na primeira hora, a segunda parte do filme é bem mais interessante: é onde os conflitos surgem e a narrativa passa a se desenrolar, apesar dos exageros usados por Quentin. É como se o diretor estivesse se esforçando para chocar o público, mas a pergunta que fica no ar é “pra quê?”. Em Os Oito Odiados, não basta ter violência: é preciso aproximar a câmera para vermos nitidamente uma cabeça sendo explodida. Não basta, assim como em Django Livre, abordar uma história de “vingança racial” – o negro é transformado em um tipo quase sádico tamanho ódio pelos brancos. Em suma: os excessos que em seus filmes anteriores criavam um sarcasmo “sadio” acabam parecendo uma falta de equilíbrio do cineasta aqui – algo desnecessário, para alguns.

No mais, restam as boas atuações por parte de todo elenco (sem grandes destaques, com exceção de Tim Roth e Jennifer Jason Leigh), a direção de arte caprichada e a trilha original de Ennio Morricone (que já recebeu 5 indicações ao Oscar nesta categoria), que acrescentam muito ao filme. Ah, claro: imprescindível assisti-lo no cinema. Vá por mim: Os Oito Odiados, em tela grande, é uma experiência imperdível para quem ama cinema, já que Tarantino rodou seu longa em Ultra Panavision 70 – um formato que revolucionou o cinema da década de 50 e, infelizmente, foi abandonado nos anos 60. Só isso valeria todo o ingresso, acredite. É uma pena que, como um todo, Os Oito Odiados não seja tão grandioso quanto esperávamos. Talvez uma edição mais “enxuta” contribuiria para tornar o ritmo mais “equilibrado” e menos “cansativo”. Tarantino perdeu a mão? Creio que não: Os Oito Odiados, ainda com suas deficiências, atesta o talento de Tarantino e responde o porquê de ele ser um dos artistas mais celebrado dos últimos tempos. Este apenas não é, digamos, um de seus momentos mais célebres…

Carol (Carol)

Baseado no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith (publicado originalmente em 1952), Carol se passa nos Estados Unidos da década de 50 e acompanha a trajetória de Carol Aird, uma mulher da alta sociedade nova-iorquina que vive um casamento de aparências com Harge Aird, um rico e influente banqueiro local. A situação entra em colapso quando Carol decide consumar o divórcio, embarcando em um relacionamento com Therese Belivet, uma jovem aspirante a fotógrafa com quem viverá uma intensa história de amor.

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O cineasta Todd Haynes (de Não Estou Lá e da série Mildred Pierce) acerta no estilo sofisticado, o que torna Carol um deleite visual tamanho requinte da produção. Com uma direção de arte primorosa e belas locações, a ambientação de época é impecável – e fica bem acentuada com a os ótimos figurinos (de Sandy Powell, ganhadora de 3 estatuetas do Oscar nesta categoria das 10 indicações que recebeu) e maquiagem. Para além disso, o roteirista estreante Phyllis Nagy faz um excelente trabalho de construção das personagens, cuidadosamente retratados de forma com que o público realmente se solidarize com elas. Obviamente, as atuações das protagonistas Cate Blanchett e Rooney Mara contribuem muito para isso. Apesar das atenções estarem voltadas todas para a primeira, é difícil dizer qual delas está melhor, uma vez que ambas se entregam completamente às suas personagens – Rooney chega, inclusive, a roubar a cena em várias ocasiões tamanha a sutileza com que faz sua Therese. Juntas, então, Blanchett e Mara são fulminantes: a cumplicidade que transmitem através dos olhares furtivos e dos gestos contidos dão ainda maior acalanto ao relacionamento das duas.

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Aplaudido em Cannes, Carol está longe de ser apenas um “romance lésbico com Cate Blanchett” – como muitos o têm reduzido (e, particularmente, acho que este tipo de “associação” vem prejudicando bastante os filmes lançados neste período ‘pré-Oscar’, pois limitam consideravelmente a perspectiva do espectador). Carol é muito maior: é uma elegante produção que escancara os obstáculos vividos pelas mulheres daquela época. E mais do que isso: a trama nos oferece um pequeno panorama da hipocrisia humana, fruto do preconceito de uma época onde o amor entre duas pessoas do mesmo sexo era considerado “ilícito”, “imoral”. Infelizmente, pouca coisa mudou desde então – portanto, Carol vai muito além de uma obra de cinema para trazer à tona uma discussão socialmente necessária.

O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur)

A primeira pergunta que passou pela minha cabeça após assistir a O Bom Dinossauro foi “Esse filme é realmente necessário?” – e esta questão me perturbou durante um tempo. Sim, porque sejamos honestos: após entregar uma de suas melhores animações em todos os tempos (Divertida Mente), a Pixar não precisava – nem nunca precisou, na verdade – provar nada a ninguém. Mais do que isso: é sempre com muita expectativa que aguardamos qualquer projeto do estúdio, afinal sempre somos surpreendidos, certo? Bem…

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O Bom Dinossauro não é ruim, entenda – mas deixou a desejar. E muito. A trama parte de um conceito clássico do cinema: um herói que precisa buscar coragem para conquistar algo. Assim, conhecemos Arlo, o caçula dos três filhos de uma família de dinossauros. Diferente dos irmãos, Arlo é um desastre nos afazeres cotidianos por conta do medo que possui de tudo e de todos, apesar da ajuda e incentivo dos pais. Após uma série de fracassos, Arlo tem a chance de matar a criatura que está roubando a comida que sua família armazenara para o inverno – mas descobre que o ladrão é um menino humano primitivo e, por pena, deixa-o escapar. Mais tarde, tentando consertar a situação, Arlo se afasta de seu lar e reencontra o garotinho, de quem acaba se aproximando.

Embora comece de forma promissora (questionando o espectador sobre como seria a relação entre humanos e dinossauros caso o asteroide que teria dizimado os grandes répteis não tivesse atingido a Terra), O Bom Dinossauro é um filme que não empolga e, principalmente, não surpreende. Pior: a narrativa é uma cópia de várias outras fitas infantis. Para começar, a abordagem sobre amizade nos remete imediatamente a Toy Story, com dois personagens que não se dão muito bem mas, devido às circunstancias, precisam se “suportar” para sobreviver. É possível também nos lembrarmos de Procurando Nemo na jornada que o protagonista faz em busca de seu objetivo – com quebras narrativas para apresentar outros personagens (com a diferença aqui que nenhum deles é engraçado). Ainda conseguimos enxergar certa referência a Mogli na forma como Spot, o pequeno humano, é retratado. Mas nenhuma associação é tão descarada quanto ao clássico Disney O Rei Leão – inclusive com sequências que são praticamente idênticas ao filme de 1994. O grande problema é que em O Bom Dinossauro não se trata de uma homenagem – aqui, estamos falando de um punhado de ideias já vistas que soam batidas, previsíveis e, mais do que tudo, manipuladoras.

Assim, O Bom Dinossauro se torna deveras cansativo ao longo de sua uma hora e meia de projeção – quase uma eternidade – , o que faz com que o público mais adulto não consiga se enternecer. Para as crianças, faltam personagens mais cativantes (além de uma dose de humor que chame a atenção dos pequenos). O Bom Dinossauro é até bem feito tecnicamente (os frames são bem executados, mostrando a excelência tecnológica Pixar, capaz de produzir cenários exuberantes), mas carece de uma história, digamos, mais original. Não é o caso de dizer que estamos diante do pior filme da Pixar, até porque temos Carros 2 e Valente aí para competir. Mas é fato que O Bom Dinossauro não chega a ser um marco no estúdio. Definitivamente, O Bom Dinossauro é legal, porém desnecessário.

O Regresso (The Revenant)

Não faz um ano que vimos o mexicano Alejandro González Iñárritu subir ao palco para receber das mãos de Ben Affleck o Oscar de melhor diretor – e, minutos depois, voltar lá e faturar o prêmio mais disputado da noite (desbancando o favorito da ocasião, Boyhood – Da Infância à Juventude). Ali, Iñarritu atestava seu talento incontestável como cineasta – e, por essas razões, as expectativas quanto ao seu novo filme, O Regresso, são altas. Dos inúmeros boatos envolvendo as extravagâncias de Alejandro às declarações de DiCaprio de que este seria “o trabalho mais difícil de sua carreira”, O Regresso chega como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar do próximo ano.

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Baseado na obra homônima de Michael Punke e roteirizado pelo próprio Iñarritu em parceria com Mark L. Smith, O Regresso nos traz a história real do famoso explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que após escapar de um ataque de índios durante uma expedição no inóspito interior norte-americano, é atacado por um urso e abandonado como morto pelos membros de sua equipe. Guiado pelo amor de sua família e um instinto de vingança contra John Fitzgerald (Tom Hardy), que assassinara seu único filho a sangue frio, Glass vai enfrentar a natureza selvagem e um inverno brutal em busca da sobrevivência – e também de sua própria redenção.

O Regresso é absolutamente impressionante visualmente – e o maior êxito do longa é a primorosa fotografia de Emmanuel Lubezki (de A Árvore da Vida, Gravidade e Birdman). Se muitos já ficaram de boca aberta por seus trabalhos anteriores (especialmente em A Árvore da Vida – para mim, um dos filmes mais belos de todos os tempos), certamente é em O Regresso que o diretor assina sua obra-prima. É claro que as ótimas locações (do Canadá à Patagônia argentina) ajudaram muito, mas sua técnica aqui é soberba: praticamente cada frame é um vislumbre visual – isso sem falar nos estonteantes planos sequências, principalmente nas cenas de perseguição e no ataque indígena no início da fita. Vale ainda ressaltar que o filme foi rodado exclusivamente com luz natural, o que favoreceu muito a performance de Lubezki – bem como a montagem de Stephen Mirrione, primordial para o ritmo da narrativa (para uma película com mais de duas horas e meia de duração), a tornando menos cansativa do que se pode esperar.

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Quanto a DiCaprio, pouco há a se dizer exceto “magnífico”. Sempre fui um tanto avesso ao ator – na realidade, nunca o achei um intérprete acima da média; apenas um bom profissional na escolha de suas personagens. Mas devo reconhecer que já há alguns anos o não mais Jack vem se tornando um excelente artista. Não fosse por Eddie Redmayne (em A Garota Dinamarquesa), Leonardo seria meu favorito. Ele se entrega de corpo e alma (literalmente, afinal O Regresso flerta em alguns instantes com algumas questões espiritualistas – em uma vaga e singela lembrança à Dead Man, de Jim Jarmusch). Para além disso, o desenvolvimento de sua personagem se dá de forma gradual – prendendo a atenção do público até o grande clímax. Não menos inspirado, Tom Hardy também se mostra sóbrio na construção do vilão da trama: um homem egoísta, cuja ambição parece estar acima de tudo. Hardy é outro que merece ser olhado com mais carinho nos próximos anos.

Não menos importante, outros pontos se destacam em O Regresso, desde a caprichosa direção de arte à discreta (mas não medíocre) trilha sonora, que se mostra presente de forma bastante pontual – aliás, todo o trabalho de som da projeção é admirável, capaz de dar ao espectador a possibilidade de imergir na narrativa como poucas vezes no cinema. Com isso, O Regresso é quase uma experiência sensorial. Seu grande “porém” é, talvez, seu próprio protagonista: na ânsia por premiar Leonardo DiCaprio, o público reduz o filme apenas a ele – o que é um erro terrível, visto a qualidade inegável de todo o projeto. Uma pena: O Regresso é único em sua totalidade e, ganhando prêmios ou não, já é um marco para quem sabe apreciar cinema.

Dois Amigos (Les Deux Amis)

Um dos intérprete francês mais badalados na atualidade, Louis Garrel esteve por esses dias no Brasil para a pré-estreia de seu primeiro longa-metragem como diretor, Dois Amigos, baseado na peça Les Caprices de Marianne, de Alfred de Musset. Selecionado para a semana da crítica no Festival de Cannes desse ano e aplaudido no Lisbon & Estoril Film Festival 2015, quando foi apresentado, Dois Amigos revela o potencial de Garrel por trás das câmeras, partindo de uma premissa já manjada no cinema: a história de dois homens que se apaixonam pela mesma mulher.

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Mas isso não é, necessariamente, um problema. Hitchcock, inspiradíssimo, uma vez afirmou que, no cinema, não faz mal partir do clichê – o ruim é ficar nele, como o próprio Garrel teria citado. Garrel parece ter seguido a receita à risca: parte de um tema recorrente, mas cria uma narrativa, no mínimo, instigante. A trama gira em torno de um complicado triângulo amoroso formado por Mona (Golshifteh Farahani), uma presidiária que trabalha durante o dia em uma cafeteria para reduzir sua pena, e os melhores amigos Clément (Vincent Macaigne) e Abel (o próprio Louis). Quando o primeiro é “dispensado” por Mona, ele recorre ao companheiro para reconquistar a amada.

Conhecido por atuar em filmes de caráter cult (e também por suas aparições como veio ao mundo na maior parte de seus trabalhos), Garrel não faz aqui uma obra tão sofisticada, cinematograficamente falando. Na verdade, sob o ponto de vista cinematográfico, Dois Amigos é um longa relativamente “simples”, sem grandes surpresas e até mesmo previsível em alguns momentos. O roteiro de Garrel em parceria com seu amigo Christophe Honoré (com quem Louis já trabalhou em diversas ocasiões) é uma espécie de “bromance à francesa”, arrancando risadas do público com algumas situações inusitadas de seus protagonistas, apesar de não ser necessariamente uma “comédia” convencional com muito escracho. É na leveza da condução de sua mise-en-scène que Dois Amigos tem méritos, sobretudo nas escolhas estéticas de Garrel, como na excelente trilha sonora e na fotografia modesta mas enquadrada na proposta, bem como o figurino urbano que aposta na casualidade e agrega certo charme ao todo.

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É talvez na construção de suas personagens, entretanto, que Garrel ganha maiores créditos como cineasta. Logo de cara é possível identificar bem cada um dos tipos, pois Louis acerta no tempo certo que concede a cada um deles. Clément é o típico “último romântico”: acredita no amor e, consequentemente, sempre se frustra diante de um acontecimento que o impeça de alcançá-lo – além de sua insegurança natural que o faz admirar ainda mais Abel, o amigo bon vivant que arranca suspiros das mulheres (e alguns homens). Juntos, no entanto, eles não passam de dois indivíduos imaturos que não fazem a menor questão de se tornarem maduros. Frágeis, esses dois personagens precisam um do outro a todo instante, mesmo que não se deem conta disso – e são reflexos de uma geração que se recusa a assumir responsabilidades. Mona, por sua vez, é sempre retratada com certo ar de mistério: nunca descobrimos qual o motivo de sua prisão ou qual ato reprovável ela possa ter feito – e a beleza exótica de sua intérprete aguça nossa curiosidade. É ela a responsável por protagonista um número de dança que, em minha opinião, é uma das melhores cenas do cinema francês nesta temporada.

Dois Amigos, em determinadas ocasiões, até nos remete a Truffaut (Jules e Jim) ou Godard (Uma Mulher é Uma Mulher) – especialmente este último, no tom leve da narrativa. Não, não há intenção aqui de comparar Louis Garrel a qualquer um desses grandes cineastas. No entanto, Dois Amigos é um excelente debut para um artista que, injustamente, ficou marcado sobretudo por sua beleza irradiante ou por ser filho de quem é – e não pelo talento (e muito) que possui. Dois Amigos é o princípio da libertação de Garrel – e a julgar por seu desempenho aqui e em outros curtas, tudo nos leva a crer que Garrel ainda vai dar muito que falar…

Garota Sombria Caminha Pela Noite (A Girl Walks Home Alone at Night)

Estamos em Bad City, uma cidade iraniana vazia em suas locações e sentimentos e reduto das figuras mais ordinárias: um traficante que abusa do poder, uma prostituta arruinada, um viciado sórdido, um menino que pede esmolas, entre outros tipos repulsivos. Bad City é o retrato de uma sociedade sem esperança, perdida dentro de sua própria decadência, um cenário perfeito para o aparecimento de uma estranha garota que passa a seguir de perto as almas mais repugnantes daquele local. No entanto, o encontro dessa misteriosa personagem com um rapaz solitário fará florescer uma inusitada história de amor.

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Com roteiro e direção de Ana Lily Amirpou, Garota Sombria Caminha Pela Noite é uma trama vampiresca incomum, saudada inclusive como uma das melhores produções do gênero nos últimos anos. Para o espectador mais atento, o longa é repleto de alegorias – como a própria Bad City, praticamente uma cidade “fantasma”. Seus poucos moradores vivem em uma incrível sensação de isolamento. Arash, o jovem que sofre com o pai viciado e endividado, é o mais puro exemplo disso: ele aparenta estar isolado a todo instante, como se não se encaixasse naquele ambiente, como se pertencesse a outro lugar – o que pode justificar sua inexplicável aproximação com a intrigante vampira (que parece estar ali com o único pretexto de alimentar-se daquelas pessoas problemáticas).

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A narrativa lenta (que flerta com o suspense, mas sem muito causar a tensão deste gênero) perde sua força no decorrer da fita, funcionando apenas na primeira parte da produção. A partir disso, o público acompanha o desenrolar da história apenas pela curiosidade, afinal Garota Sombria Caminha Pela Noite não deixa de ser uma obra, no mínimo, instigante – e isso se deve muito ao seu excelente apelo estético-sonoro. Enquanto a fotografia em preto-e-branco já chama a atenção logo nos minutos iniciais (que nos remete em alguns momentos aos quadros expressionistas de outrora), a seleção musical incomum enriquece bastante o filme, mesclando variados estilos que se encaixam perfeitamente à trama. E são esses pontos que tornam Garota Sombria Caminha Pela Noite uma experiência cinematográfica interessante, mesmo que o argumento em si não tenha muito vigor.

O Presente (The Gift)

Simon retorna à sua antiga cidade junto com a esposa Robyn após receber uma irrecusável oportunidade na empresa em que trabalha. Após a chegada do casal na nova casa, Simon reencontra Gordo, um amigo da época de escola que logo se aproxima dos pombinhos. Em pouco tempo, este misterioso homem se infiltra na vida da família, se tornando uma indesejada presença.

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Tudo bem, a premissa de O Presente não é necessariamente inovadora: uma pessoa inconveniente que passa a “perseguir” outra – receita batida em filmes de suspense. O que talvez diferencie um pouco a trama de estreia de Joel Edgerton é que, aos poucos, um segredo comum do passado de Gordo e Simon vem à tona – e aí descobrimos que Simon pode não ser tão “bacana” quanto se mostra, nem Gordo o “monstro” que o primeiro o faz parecer. Assim, a narrativa se desenrola a partir das incertezas de Robyn com relação ao seu marido. Afinal, é possível voltar a confiar em alguém após uma série de mentiras mal explicadas e não resolvidas? E mais: quem são, na realidade, estes dois homens e o que aconteceu entre eles? Mas estes questionamentos não impedem que O Presente seja apenas um filme “morno”, que não desperta muita empatia ou interesse do público.

Talvez isso se dê pelo trio de protagonistas não tão competentes. O próprio Joel Edgerton, como Gordo, não convence – dando a impressão de que tem uma batata quente na boca em todas as cenas; Jason Bateman mantém um semblante de paisagem durante toda a fita, enquanto Rebecca Hall é bastante prejudicada por seu tipo mal desenvolvido. Logo, O Presente não passa de uma produção sem tanto glamour que dificilmente gerará muito burburinho por aqui, apesar de sua proposta interessante. Mal executada e recorrendo a recursos fáceis (como a câmera que dá ao espectador a visão de quem observa os personagens, os sustos previsíveis ou a música quase automática), a história ainda peca por um desfecho, no mínimo, incompatível com a proposta do filme. O Presente até tinha potencial, mas é fato que a direção inexperiente de Edgerton contribuiu muito para torná-lo apenas um passatempo dispensável.

Como Sobreviver a um Ataque Zumbi (Scouts Guide to the Zombie Apocalypse)

Costumo dizer que, para mim, uma das melhores coisas após um longo período assistindo filmes “sérios” é embarcar em alguma produção sem nenhum compromisso e que não me exija muito – justamente para não ter que me doar por completo com e para até, quem sabe, ser surpreendido. Chega até a ser prazeroso – não à toa, o termo guilty pleasure é comumente associado a esse tipo de filme “ruim” mas que, por algum motivo, acaba nos agradando. Como Sobreviver a um Ataque Zumbi se encaixa perfeitamente nessa categoria.

A trama gira em torno de três amigos adolescentes, escoteiros desde crianças, que estão passando pela difícil fase do “amadurecimento” – e aqui, já encontramos os estereótipos mais comuns nessas comédias: o garoto que só pensa em mulher e sexo; o gordinho desajeitado que parece não amadurecer jamais; e um jovem tímido apaixonado pela irmã do outro companheiro. Enquanto dois deles já se cansaram do escotismo e pensam em abandonar a atividade, o outro se sente traído – e, é claro: a amizade do trio fica abalada. No entanto, as diferenças entre eles são postas de lado quando a cidade em que vivem é infestada por uma epidemia zumbi.

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Sim, Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é um típico besteirol norte-americano, mas está longe de ser assim tão péssimo quanto pode parecer à primeira vista. Para começar, um ponto que favorece muito o longa de Christopher Landon é o fato de a projeção não ser extensa: apenas uma hora e meia é o bastante para o desenrolar da história. Está certo que o roteiro recorre a um punhado de clichês narrativos; entretanto, há alguns momentos que valem o ingresso e é possível até esboçar algumas boas risadas (por exemplo, você conseguiria imaginar um morto-vivo cantando Britney Spears? Pois é, isso acontece aqui!).

Também temos que entender que a trama não exige atuações espetaculares. Na verdade, ela até sobrevive de performances bizarras que dão todo o tom de “insanidade” que é a proposta da fita. Nesse ponto, vale a pena observar o carisma e a boa química do elenco formado por Tye Sheridan, Logan Miller e Joey Morgan. De resto, tirando o uso abusivo de piadas de caráter sexual ou escatológico (às vezes desnecessárias), Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é o tipo de filme que centraliza sua força justamente ao abordar o grotesco, o bizarro, o escroto. Então, se você for ao cinema com alguma pretensão, esqueça: não é indicado para você. Do contrário, não tem jeito: embarque no absurdo e tenha alguns instantes de risadas garantidas com um filme que é ruim – e por isso mesmo, a gente gosta…

Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens)

Frankfurt, 1958. Johann Radmann é um jovem promotor de justiça que está iniciando sua carreira, cuidando de processos pouco expressivos e sem grandes perspectivas. A situação muda quando Johann descobre que um ex-oficial da SS está trabalhando como professor em uma escola infantil. Ao analisar a situação, Johann descobre também outros nazistas que, assim como o docente, levam uma vida normal, sem terem sido punidos pelos crimes que cometeram no passado. Com a ajuda de um repórter, Johann consegue carta branca em seu departamento para investigar os casos e reunir provas que possam incriminar os culpados – uma busca que se torna quase uma obsessão para ele.

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É interessante notar que vira e mexe surge um filme que traz alguma história relacionada aos fatídicos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Desta vez, é a Alemanha que tenta ressuscitar seus próprios fantasmas recriando o processo jurídico que ficou conhecido como “O Julgamento de Auschwitz” que, com o depoimento de mais de 200 vítimas, condenou 17 nazistas por crimes contra a humanidade. Este drama alemão pós-guerra, no entanto, trata sobre um período em que o próprio país se recusava a admitir sua “responsabilidade” pelos seus atos. Duas décadas após o fim da guerra, boa parte dos alemães sequer tinha noção daquele bárbaro evento – quando não, encobria criminosos que saíram impunes. Era uma espécie de negação de seu próprio passado, como se nada houvesse ocorrido.

Representante oficial da Alemanha na categoria de melhor filme estrangeiro na próxima edição do Oscar, Labirinto de Mentiras levanta um questionamento inquietante: quem são os verdadeiros culpados por aqueles crimes? Afinal, enquanto soldados, estariam aqueles homens apenas cumprindo ordens? Ou há uma ponta de sadismo que faz com que ajam por vontade própria? Com atuação competente do protagonista Alexander Fehling, o ponto alto de Labirinto de Mentiras fica por conta de sua bela fotografia (com bastante luz e contraste de cores), uma direção de arte responsável por uma ambientação impecável e uma trilha sonora executada com maestria. Apesar disso, o roteiro não apresenta nenhum grande clímax e se mantém estável durante as duas horas de fita, o que pode ser cansativo para o espectador e fazer parecer que Labirinto de Mentiras foi feito exclusivamente para narrar fatos, quando claramente tinha muito mais potencial que isso.