Amar (Amar)

Dizem que a adolescência é um dos períodos mais difíceis da vida. Os nervos ficam à flor da pele e todo sentimento parece ser elevado à enésima potência, fazendo com que situações simples possam tomar proporções gigantescas. Com o amor não é diferente e esta parece ser a premissa de Amar, longa-metragem de estreia do espanhol Esteban Crespo, que narra toda a intensidade do primeiro amor.

Amar  vai na contramão dos títulos tradicionais do gênero, já que não acompanha seus protagonistas no processo habitual de início um relacionamento (conhecer o outro, se aproximar, se apaixonar, etc.). Pelo contrário, o filme já nos apresenta os jovens Laura e Carlos no ápice da paixão: as trocas contínuas de mensagens, as escapadas do colégio, o sexo e suas descobertas – enfim, todas as peças de uma típica paixão adolescente é visto aqui.

Entretanto, se tudo nesta fase da vida é maximizado, os desentendimentos também o são – e, aos poucos, eles começam a surgir e afetar a relação do casal. E aqui encontramos talvez o grande problema de Amar: as ações são inverossímeis e seus personagens ganham contornos que fazem com que não tenhamos tanto apreço por eles. O homem, por exemplo, se torna um bobo sentimental e inconveniente, do tipo que espera na porta da ex-namorada para tirar satisfação. A mulher, por sua vez, vive em constante confusão e não sabe ao certo o que realmente espera de seu relacionamento – e no meio disso tudo, cada um sofre e reage à sua forma.

Apesar da química existente entre os protagonistas (Maria Pedraza e Pol Monen estão ótimos em cena) e de algumas sequências interessantes, Amar sofre com essas escolhas questionáveis do roteiro. Talvez Amar seja um retrato cru de uma juventude que trata tudo hoje com praticidade e sem perda de tempo (se não está dando certo, é hora de partir para outra). O mais engraçado, no entanto, é pensar como as pessoas são tão descartáveis e se desapegam uma das outras com a mesma facilidade com que dizem “eu te amo” de maneira vazia. Ao menos isso, Amar consegue expor sem muita dificuldade.

O Jovem Karl Marx (Le Jeune Karl Marx)

Dirigido pelo haitiano Raoul Peck, um cineasta já bastante conhecido por sua obra “militante” (ele é o nome por trás de filmes como Lumumba, Abril Sangrento e o recente Eu Não Sou Seu Negro – este último que concorreu ao Oscar de melhor documentário em 2017), O Jovem Karl Marx concentra sua narrativa ao final da primeira metade do século XIX, seguindo os passos do personagem título no curto (e intenso) período que antecedeu a publicação de O Manifesto Comunista, em 1848. Após o fim da Gazeta Renana (jornal alemão para o qual colaborou durante um tempo), Karl (August Diehl) muda-se para Paris acompanhado de sua mulher, Jenny Von Westphalen (Vicky Krieps), e acaba conhecendo Friedrich Engels (Stefan Konarske), filho de um industrial da época e habitual colaborador de Marx nos anos seguintes.

O filme esboça a amizade entre Marx e Engels; no entanto, foi ao lado de Jenny que os dois filósofos desenvolveram o Manifesto. Aliás, Jenny foi uma figura importantíssima para a formação de Marx como pensador: ela incentivou sua luta, sendo uma grande aliada à causa. Engels, por sua vez, foi o amigo responsável por lhe apresentar inúmeros autores que moldariam seu pensamento (além de costumeiramente ajuda-lo financeiramente). O longa acerta ao não tratar Marx como o “mito” que ele se tornaria no futuro: visto como um homem comum (gente como a gente), Marx talvez jamais seria quem foi se seu caminho não cruzasse com essas pessoas.

A direção de Peck, entretanto, é deveras “tradicional”, “clássica”: buscando fugir de qualquer viés propagandístico, o idealizador nos entrega um filme com apelo estético irretocável, especialmente por sua ambientação (a Europa do período de industrialização é recriada aqui com excelência – da pobreza e miséria das ruas inglesas ao luxo da França de então). As ideias de seu protagonista, por sua vez, são abordadas superficialmente. Talvez justamente para não cansar o espectador com infinitas teorias, o roteiro é direto e prático ao falar sobre a obra de Marx – o que até pode ajudar aqueles que não tem tanta familiaridade com o assunto, mas também impede que O Jovem Karl Marx seja um registro histórico mais interessante.

Ai Weiwei: Sem Perdão (Ai Weiwei: Never Sorry)

Ai Weiwei é um dos nomes mais famosos e importantes da China contemporânea, atuando em diversas plataformas como designer arquitetônico, pintor, artista plástico, entre outros. Mas é como ativista social que Ai Weiwei ganhou notoriedade nos últimos anos, tornando-se objeto de estudo do documentário Ai Weiwei: Sem Perdão.

Dirigido por Alison Klayman, Sem Perdão nos apresenta um eficiente panorama sobre a multifacetada obra de Ai Weiwei, bem como suas ideias e posicionamentos políticos – estes últimos que o transformaram em uma verdadeira celebridade em sua terra natal. Em uma nação onde a população é controlada e o país é governado por um regime autoritário, sua arte transcendeu seu “lugar comum”. Sem medo de falar, Ai Weiwei é um símbolo da luta pela liberdade de expressão: vigiado, preso, com bens confiscados e um estúdio recém-construído devastado pelas autoridades locais, o artista chinês critica fortemente os valores da China atual utilizando sua arte como voz de protesto contra as artimanhas do sistema.

O documentário ressalta ainda a importância da internet na atualidade como mecanismo de expressão e organização de ideias, sobretudo através das redes sociais, dado o alcance dessas mídias. Mas principalmente Ai Weiwei: Sem Perdão levanta um debate necessário sobre o que, de fato, é arte e qual a sua função. Em uma época de repressão intensa, parecemos regredir a cada dia em vários aspectos e a arte sofre com isso. Vemos exposições canceladas, artistas reprimidos, museus fechados – enfim, manifestações artísticas são interrompidas em nome de um falso moralismo que vem contaminando as sociedades (e, curiosamente, também é bastante fomentado dentro da própria internet). A arte, no entanto é muito mais do que simples entretenimento: ela é um poderoso instrumento capaz de promover a transformação do homem em um ser superior e, consequentemente, abrir caminho para um futuro melhor.

O Outro Lado da Esperança (Toivon Tuolla Puolen)

Wikhström é um senhor de meia idade que decide mudar de ramo profissional e gerenciar um restaurante, após deixar para trás um casamento fracassado. Seu caminho, no entanto, se cruza com o de Khaled, um jovem refugiado sírio que acabara de ter seu visto negado ao chegar (meio que por engano) à capital finlandesa. Mas será que existe um mesmo sentimento capaz de unir pessoas de mundos tão distintos?

O tema central de O Outro Lado da Esperança, novo filme de AKi Kaurismäki, é a situação dos refugiados sírios em uma Europa contaminada pelo preconceito. Através de um humor pontualíssimo e repleto de ironia, esta tragicomédia levanta questionamentos importantes e atuais, apresentando uma proposta bastante eficiente em sua simplicidade, peculiaridade e intimismo. E isso se dá tanto em seu viés artístico quanto politico: se por um lado a cinematografia de O Outro Lado da Esperança é competente (por exemplo, na fotografia com planos médios e cores vivas – como se pertencentes a um Wes Anderson finlandês – ou na charmosa trilha sonora), por outro lado sua temática politica é soberba ao utilizar o cinema como uma poderosa ferramenta de denúncia. Os problemas existem e estão diante dos nossos olhos – apenas evitamos encara-los. Mas a partir do momento em que tentamos olhar além do nosso quadrado (buscando ter uma empatia mínima pelo próximo) é possível enxergar o melhor do outro lado, como o próprio título parece nos sugerir.

O Outro Lado da Esperança é, acima de tudo, um filme que expõe a capacidade de o homem ser “humano”. Em tempos de discursos inflamados de ódio, em que as pessoas parecem pensar cada vez mais apenas em si mesmas e a sociedade parece trilhar um caminho de perdição sem volta, O Outro Lado da Esperança celebra a humanidade, a fé no homem e a solidariedade – sentimentos estes capazes, sim, de nos fazer viver em um mundo melhor.

O Homem Mosca (Safety Last!)

Citar Charles Chaplin ou Buster Keaton quando falamos de cinema mudo é obrigatório, mas é injusto que pouco se lembrem de Harold Lloyd – justamente quando este último é, sem sombra de dúvidas, tão genial quanto os dois primeiros. De fato, o tipo de Chaplin é lendário, enquanto a contribuição de Keaton à arte cinematográfica é inegável; Lloyd, no entanto, pode ser considerado o terceiro elemento de uma tríade que popularizou o gênero cômico na sétima arte, sendo responsável por inúmeros títulos impagáveis – entre eles, uma das melhores comédias da história do cinema: O Homem Mosca.

“The Boy” (como é chamado até certa altura da fita) é um jovem comum que abandona sua família no interior com o objetivo de trabalhar em Nova York e ganhar dinheiro suficiente para buscar sua noiva e casar-se com ela. As coisas, todavia, não saem como o planejado: ele é um mero atendente em uma loja de tecidos, mal ganhando para sobreviver e pagar o próprio aluguel. Não demora muito para que sua futura esposa parta também para a cidade grande ao encontro do amado, que terá que se desdobrar para fazer seu par acreditar que ele está bem de vida, ao mesmo tempo em que fará de tudo para não ser demitido.

Obviamente, o clímax de O Homem Mosca é a icônica cena de seu personagem principal escalando um arranha-céu (para faturar uma bolada e concretizar seu matrimônio), sendo surpreendido por inúmeros obstáculos até acabar pendurado no ponteiro do gigantesco relógio do prédio. Até aí, o segundo longa-metragem de Lloyd não foge da cartilha das comédias mudas de então: temos um protagonista atrapalhado que se safa dos maiores problemas, mas tem dificuldades para resolver questões simples. Apesar de não ser direta e necessariamente uma criação do próprio Harold, esta dinâmica influenciou centenas de outros comediantes (o herói Chapolin, de Roberto Bolaños, por exemplo, seguiu muito esta linha nos episódios da série). No final, felizmente, tudo dá certo.

Apesar da trama aparentemente simples, O Homem Mosca se sustenta exclusivamente nas várias trapalhadas de seu protagonista, muito favorecido pela atuação de altíssimo nível de Lloyd. Sem um figurino extravagante, um andar desajeitado ou um bigodinho marcante (que já o associem a um tipo cômico), o intérprete mantem uma incrível docilidade e uma certa dose de equilíbrio na construção de Harold. Talvez exatamente por isso, o efeito de comicidade pode parecer maior (afinal, um homem de terno e gravata fazendo piruetas é infinitamente mais chamativo do que um palhaço de nariz pintado nas mesmas condições).

O Homem Mosca tornou-se uma das comédias mais interessantes do cinema em todos os tempos e a obra-prima de Harold Lloyd – um gênio do cinema mudo, infelizmente subestimado nos dias atuais pelo brilho de outros artistas da época (ainda que a popularidade de Lloyd durante a década de 20 tenha sido até maior de que a de seus “concorrentes”). Único, O Homem Mosca é entretenimento de máxima qualidade, atemporal e a certeza de que grandes talentos não morrem jamais.

O Sequestro (Kidnap)

Até onde uma mãe é capaz de ir para salvar o próprio filho? Para o diretor Luis Pietro, não há limites e é isso o que ele prova em seu eletrizante filme O Sequestro. Na trama escrita por Knate Gwaltney, Karla (Halle Berry) é uma mãe divorciada que trabalha como garçonete para sustentar o filho Frankie. Após um dia de expediente, seu pior pesadelo se torna realidade: a criança é sequestrada. Chamar a polícia? Isto é para os fracos: Karla pega seu carro e parte em uma perseguição alucinante aos sequestradores.

O Sequestro é um filme “pré-moldado”, ou seja, segue uma fórmula “x” para contar uma história, sem muita ambição e sem nenhuma inovação. Genérico e muito bem definido, é nítida a impressão de ser um “pipocão”, daqueles que você assiste sem compromisso. Entretanto, o longa (que foi adiado diversas vezes por sua produtora) ganha muitos pontos com sua agilidade: apesar de o foco narrativo permanecer sempre o mesmo, muitas situações acontecem e desafiam a protagonista. Felizmente (ou talvez justamente para dar ritmo à película), Karla não pensa muito; todas as suas ações são impulsivas, algumas absurdas, mas não importa: a vida de seu filho está em risco.

Halle Berry é ótima em cena. Logo eu, que particularmente nunca fui um grande fã, devo admitir que ela carrega o filme inteiro nas costas. Sua personagem é de uma força incrível, mas também possui suas fragilidades, principalmente diante da iminente perda do filho, seja pelas mãos dos sequestradores ou mesmo pelo ex-marido que ameaça a guarda da criança. Seja como for, todas as nuances de Karla são bem externadas por uma atriz em excelente performance, tanto em cenas mais dramáticas quanto nas sequências de perseguição incessantes.

Está bem, O Sequestro não é isento de imperfeições. Na verdade, é claro que o orçamento modesto deixa o filme com certo ar de “produção de TV”. Em alguns instantes, há alguns problemas de edição e furos de roteiro. Há também uma escolha não muito sábia do argumento em revelar precocemente os antagonistas – e isso só não atrapalha a fita pelo fato de estes personagens serem interpretados por rostos desconhecidos. Mas apesar dos pequenos deslizes, sobra adrenalina nesta mistura frenética de ação e suspense, capaz de deixar o espectador sem fôlego.

Na Mira do Atirador (The Wall)

Filmes rodados em um único ambiente e repletos de diálogos costumam restringir sua audiência, já que este tipo de narrativa não agrada a todo público. Na Mira do Atirador, novo trabalho de Doug Liman (de A Identidade Bourne, Sr. & Sra. Smith e No Limite do Amanhã), segue esta proposta e sustenta-se na velha competição entre “gato e rato” para expor o drama de um soldado norte-americano (Aaron Taylor-Johnson) sob a mira letal de um atirador de elite iraquiano, já ao fim da Guerra do Iraque, em 2007. Sozinho e ferido em meio à paisagem árida do deserto árabe, sua única proteção é um muro de concreto em ruínas.

A cinematografia de Na Mira do Atirador é modesta, mas eficiente em sua proposta, uma vez que não há grandes ambições. A câmera se alterna entre planos abertos, que registram o marrom do território desértico, e outros mais fechados, mantendo-se quase totalmente na figura de Isaac, o sniper americano, captando suas expressões enquanto luta contra outros inimigos, como a desidratação, a dor física (já que fora alvejado e sua mobilidade está reduzida) e, principalmente, seus conflitos psicológicos: ao tentar se comunicar com sua base utilizando seu rádio avariado, a frequência local é interceptada pelo iraquiano, que inicia uma série de provocações com Isaac. Essa dinâmica psicológica (já vista em filmes como Toque de Mestre ou Por um Fio, por exemplo) reforça o suspense pelo fato de não conhecermos o inimigo, nem mesmo sabermos onde ele se encontra. Ele pode estar perto ou longe, de um lado ou de outro – e essa desorientação (acentuada até mesmo pelos tiros lançados sem origem e direção certas) aprofunda muito o nervosismo de nosso personagem principal.

A ação tão pertinente à filmografia de seu cineasta está presente em alguns poucos instantes, já que Na Mira do Atirador concentra seu foco praticamente em um único personagem. Talvez mesmo por isso, o longa possa parecer tão estendido (ainda que conte com menos de uma hora e meia de duração). Há um excesso de didatismo na condução do protagonista (suas conclusões são sempre expressas por ele, algo desnecessário quando suas reações por si já falam), além da verborragia na construção do suposto “vilão”. Entretanto, ao fugir do “lugar comum” dos filmes de guerra, Na Mira do Atirador se destaca por sua capacidade de sufocar e entreter o espectador sem recorrer a extensas sequências de combate, valorizando a atuação de um Aaron Taylor-Johnson cada vez mais seguro em cena e uma direção de quem sabe exatamente o que quer. Com orçamento baixo e um desfecho aberto e até mesmo cômico, Na Mira do Atirador é tensão pura do início ao fim e prova que entretenimento não se faz apenas com tiro, porrada e bomba.

Loucos e Perigosos (Once Upon a Time in Venice)

É triste para qualquer artista se ver naquela fase da vida em que, inevitavelmente, a idade chega – e Hollywood costuma ser cruel quando isto acontece. E isso vai muito além da questão estética (afinal, cá entre nós, um ator vive de sua imagem, não? Okay, Bruce Willis chegou há pouco na casa dos sessenta e sua filmografia não é das piores. Na verdade, Willis tem uma carreira equilibrada: títulos aclamados pela crítica (Pulp FictionO Sexto SentidoMoonrise Kingdom), sucessos comerciais (O Quinto ElementoArmageddonDuro de Matar) e, claro, fiascos – dos quais seu mais recente longa, Loucos e Perigosos, faz parte.

Dirigido pela dupla Mark e Robb Cullen, Loucos e Perigosos é um filme de estilo indefinido que acompanha um detetive de Los Angeles em uma perseguição a uma gangue que roubou seu cãozinho de estimação. E quando digo “indefinido” é porque Loucos e Perigosos não sabe ao certo a que veio, já que falha em todas as vertentes que propõe. Nada funciona: nem a ação, nem a comédia, nem o suspense. Pouco mais de uma hora e meia de duração é um martírio para o público, mesmo que haja um elenco com nomes relativamente “bons” (temos um John Goodman mal aproveitado e um Jason Momoa que se esforça mas não consegue abandonar a pieguice) e um ritmo razoavelmente ágil. Loucos e Perigosos, em sua totalidade, parece muito mais uma sátira ao gênero – e, principalmente, aos seus próprios personagens. É nítido que cada um deles ali é uma releitura grotesca dos estereótipos dos longas de ação dos anos 80 e 90 (inclusive Willis, visivelmente ridicularizando a si mesmo). O grande problema aqui é o argumento sem pé nem cabeça que não mantém a coerência, como se tudo não passasse apenas de uma série de fragmentos isolados, juntos uma única vez com o intuito de manipular uma história que, em si, é inexistente. O resultado disso é um filme que, definitivamente, não se deve levar a sério.

A Noite é Delas (Rough Night)

Em Se Beber, Não Case, um grupo de amigos vai a Las Vegas para uma despedida de solteiro. Eles brindam no terraço de um luxuoso hotel quando, em uma sacada genial de roteiro, a narrativa pula para a manhã seguinte, quando o caos da noite anterior já está instaurado. A Noite é Delas é uma versão feminina da primorosa comédia de Todd Phillips: cinco amigas se reúnem durante um final de semana em uma casa de praia em Miami para a despedida de solteira de uma delas. As coisas saem do controle, contudo, quando elas matam acidentalmente um suposto stripper.

O filme escrito (em parceria com Paul W. Downs) e dirigido pela diretora Lucia Aniello, entretanto, não consegue o mesmo êxito que o seu par temático masculino. Está, infelizmente, muito longe dele. Não porque a proposta, em si, já é batida (a antiga tese de que não há nada tão ruim que não possa ser piorado), mas porque simplesmente A Noite é Delas se perde em uma tentativa vã de se estabelecer como uma comédia “adulta” com visível apelo feminista quando, na verdade, seu argumento não vai além de um besteirol moderno. A história começa bem, mas aos poucos a comicidade se esvaece e o roteiro recorre a soluções tão fáceis e triviais que são incapazes de convencer o espectador por completo.

É inegável que a figura feminina passa por uma transformação no cinema: cada vez mais, a mulher ganha espaço e destaque, sua voz é ouvida com mais atenção, inclusive fora das telas (sempre aparece alguma atriz clamando – justamente – por cachês semelhantes aos de atores nas mesmas condições). Mas colocar meia dúzia de mulheres como protagonistas e mais um punhado de personagens masculinos babacas não é a garantia de que um filme é, de fato, feminista. É preciso desenvolver minimamente sua ideia de maneira contundente ou pelo menos tê-la definida. Massacrado pela crítica e fracasso de bilheteria nos EUA, A Noite é Delas é o segundo deslize de Scarlett Johansson no ano. Ok, não vamos pegar pesado: A Noite é Delas não pretende em nenhum momento promover algum debate sobre o papel da mulher em nossa sociedade contemporânea e blá blá blá – mas já que se propõe a nos fazer rir, bem que poderia ser melhorzinho…

Dunkirk (Dunkirk)

Ainda que eu não mantenha grande admiração pelo trabalho de Christopher Nolan, é impossível para mim ficar indiferente a qualquer obra do cineasta. Questão exclusiva de afinidade, seu estilo e suas escolhas não me agradam – e, para ser honesto, apenas a trilogia The Dark Knight me chamou realmente a atenção até aqui, ao ponto de me fazer levantar da poltrona do cinema e aplaudir seu último capítulo sem me importar com a opinião alheia. Talvez o que realmente me incomode no artista são seus fãs: Nolan não é um deus, tampouco sua filmografia irretocável. Há quem o acuse de um didatismo exacerbado; eu, particularmente, torço o nariz para suas teorias incríveis que, definitivamente, não me descem. Dito isso, partamos para Dunkirk.

A trama de Dunkirk é relativamente simples e narra os feitos da (nem tão conhecida) Operação Dínamo, que envolvia a retirada da Força Expedicionária Britânica e outros aliados do porto de Dunkirk, na França, cercado pelas tropas nazistas no início da Segunda Guerra Mundial. A história é desenvolvida em três núcleos distintos que, aos poucos, se fundem: em uma praia, onde um jovem soldado e seu amigo lutam pela sobrevivência; no ar, onde um piloto trava uma acirrada batalha contra os aviões inimigos; e no mar, onde um civil parte em seu barco para ajudar no resgate do exército de seu país.

Dunkirk, como tudo aquilo que Nolan se propõe a fazer nos últimos tempos, é ambicioso, sobretudo no que se refere à técnica. Nolan nos entrega um filme, no mínimo, muito bem projetado: da espetacular fotografia (carregada de um cinza denso, pálido e angustiante) aos efeitos visuais e sonoros precisos, Dunkirk é uma aula de cinema. Lembram-se quando, no ano passado, Mad Max: Estrada da Fúria dominou o Oscar, faturando todos os prêmios técnicos da noite? Não me surpreenderia se, em 2018, o mesmo acontecesse com Dunkirk. Neste quesito, o único ponto que pode dividir a opinião é a trilha sonora assinada pelo veterano Hans Zimmer. Apesar de bem executada, sua onipresença incomoda em alguns momentos, principalmente naqueles em que o silêncio claramente faria mais sentido ou causaria maior impacto. Por outro lado, a composição gera um clima de tensão a todo instante e é feliz ao fazer do “tempo” um antagonista na história. Se o tempo já é praticamente um personagem nos roteiros do cineasta (afinal, ele o manipula das mais variadas formas, quase criando um novo tipo de estrutura narrativa), ele assume em Dunkirk um papel especial, que é construído minuciosamente com os acordes aterrorizantes de Zimmer, como o tique-taque de um relógio. A sensação óbvia é a de que os segundos, minutos, horas estão passando cada vez mais rápido – e é preciso fazer algo o quanto antes para sobreviver.

Entretanto, se Nolan é constantemente criticado por seus enredos mirabolantes, aqui ele opta por algo muito mais trivial. Não há desenvolvimento de personagem algum (na verdade, não há protagonistas), os diálogos são escassos e o argumento se concentra basicamente na tensão dos indivíduos em meio ao caos da guerra. Naquele ambiente hostil, eles são pessoas comuns diante do medo, da insegurança, da incerteza e aguardam por uma absolvição que não sabem, ao certo, se virá ou não. Ainda assim, não ocorre uma aproximação com o público: é como se a experiência sensorial funcionasse muito mais ao espectador de forma individual, mas não por uma questão de empatia. Isso limita Dunkink a um filme que, apesar de todas as suas qualidades, está longe de ser marcante. Alguns defensores mais fervorosos do diretor dizem que este é o longa de guerra definitivo, um divisor de águas no gênero. Infelizmente, não é isto o que acontece. Dunkirk é um uma ótima produção, daquela capaz de te fazer pular da cadeira do cinema e roer as unhas de agonia, mas que depois que acaba você percebe que nada mudou. E a vida continua.